18/01/2010

Zilda Arns



Tragédia incomensurável foi gerada pelo terremoto que atingiu o Haiti. Milhares de mortos em um país que sequer precisa de catástrofes naturais para ser um dos mais sofridos do mundo. Dentre os mortos, uma gigante brasileira: Zilda Arns.

Dona Zilda era portadora de um inarredável sorriso, pelo qual expressava, ao mesmo tempo, doçura, seriedade, força, serenidade e obstinação pela causa dos desamparados.

Era médica, pediatra e sanitarista, que optou por uma atuação distinta daquelas mais diletas à maioria de seus colegas. Fora dos hospitais e das clínicas, buscava propagar a saúde àqueles cujas condições de vida proporcionam, com recorrência, diarréia, desnutrição, verminoses e toda a sorte de moléstias sociais.

Era católica e cristã, no que há de mais essencial no termo: conduta voltada à caridade, fundada no amor ao próximo. A Pastoral da Criança, da qual é uma das fundadoras, tinha como referência a passagem evangélica em que Cristo realiza o milagre da multiplicação dos pães e peixes. Zilda Arns e sua Pastoral, todavia, não buscava distribuir diretamente o alimento – atitude também nobre, promovida por outros gigantes da solidariedade como Herbert de Souza – , mas em promover o milagre da multiplicação de informações, alimento necessário para que cada qual dos desvalidos atendidos construíssem, por si sós e em harmonia, a superação de suas situações de miséria.

Dona Zilda era mãe de cinco filhos consanguíneos. Além desses, adotou milhares de outros, ajudando a salvar-lhes as vidas, sem figura de linguagem, em sua empreitada pastoral. Os números são reveladores. No semiárido mineiro, por exemplo, a atuação da Pastoral da Criança produziu redução de 24,32% da mortalidade infantil e de 62,91% da mortalidade materna, em 2008.

Era, ainda, professora. Ensinava as coisas mais simples, porém fundamentais para salvar vidas de crianças: o uso do soro caseiro, a necessidade da pesagem semanal e do aleitamento materno, como fazer a multimistura – um composto nutritivo feito com alimentos encontrados nas próprias comunidades –, como conduzir ações educativas de base. Para não falar das magnânimas aulas de humanismo e de cidadania advindas de seu próprio exemplo de vida.

Zilda Arns era missionária que se tornou mártir ao morrer em missão, guerreira em uma guerra de solidariedade, que não mata, mas, sim, faz renascer à mais digna condição humana aqueles imersos nas situações mais desumanas.

Era cidadã, digamos, praticante. Cidadã na acepção mais justa dada por Augusto Boal: “cidadão não é aquele que vive em sociedade, mas aquele que a transforma”. Líder carismática, conduzia eficazes ações políticas, posto que públicas e voltadas ao público. Articulava-se com o poder constituído, independentemente de seus governantes de ocasião, potencializando as conquistas da Pastoral, ou melhor, das crianças às quais a Pastoral está voltada. Articulou também uma enorme rede de voluntários; por que não dizer, uma das formas mais pungentes de manifestação cidadã. E semeava a cidadania igualmente ao lutar pelo “empoderamento” – palavra feia, mas que traz consigo um significado importante – das pessoas e das comunidades mais simples. Ou seja, na concepção de dona Zilda, as pessoas mais simples e suas comunidades deveriam ser autônomas e responsáveis por seus atos e seus destinos, não se deixando tutelar pelo Estado, pelas burocracias, pelos poderosos.

Era brasileira, razão de enorme orgulho a todos nós, seus compatriotas.

Nesta hora de dor, a melhor homenagem que se pode prestar a essa grande mulher, ou melhor, a todas essas grandes mulheres reunidas na pessoa extraordinária chamada Zilda Arns, é o esforço para que seu trabalho persista, não obstante sua ausência física, pela Pastoral da Criança, pela Pastoral do Idoso e pelas diversas ações voltada aos desamparados sob sua inspiração.

Como expressou com propriedade Dom Paulo Evaristo Arns, outro gigante, irmão de dona Zilda, apesar da dor da perda: “Não é hora de perder a esperança.”

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