02/03/2010

José Mindlin

A imagem de José Mindlin estava inescapavelmente associada à dos livros. Falava-se de Mindlin, logo aparecia sua imensa biblioteca, repleta de raridades: seu universo particular. A paixão pelos livros, pela leitura, foi sua marca registrada, legando a si o “título” de bibliófilo: amante e colecionador de livros. Procurava inocular nos outros o vírus que, como costumava dizer, uma vez inoculado, a pessoa jamais conseguia, felizmente, se curar: o vírus da paixão pela leitura. Coerente com essa missão de agente transmissor do vírus da leitura, legou ao público sua invejável biblioteca, doando seus livros à Universidade de São Paulo.

A propósito, tive a oportunidade de ver Mindlin em 2008, quando da vinda ao Brasil do escritor português José Saramago – a quem devo boa parte de minha paixão pela leitura – , no Sesc Pinheiros, para o lançamento de “A Viagem do Elefante”. Saramago, carinhosamente, fez menção à presença de Mindlin no recinto, e este respondeu com um aceno tímido, contido. Ambos, senhores à beira dos cem anos, imersos na sabedoria de uma longa vida dedicada às letras e ao pensamento crítico. No caso, pensamentos em muito discordantes, mas não no apreço às letras, à cultura e à consciência cidadã.

Mindlin foi um bem-sucedido empresário, fundador da Metal Leve, do setor de autopeças. E como empresário passou pelos anos da ditadura sob pressão. Após o AI-5, com o endurecimento do regime autoritário, foi criada a OBAN, Operação Bandeirante: órgão de informação e repressão, responsável, inclusive, por torturas e mortes. Conforme registrado em depoimentos no ótimo documentário “Cidadão Boilesen”, de Chaim Litewsky, quando o Henning Boilesen, diretor da Ultragás, articulou entre o empresariado brasileiro o financiamento da OBAN, teria encontrado a resistência de apenas dois empresários: Antônio Ermírio de Morais e José Mindlin.

Convidado pelo então governador paulista Paulo Egydio Martins para assumir uma pasta a ser criada – a Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia – , Mindlin, de pronto, recusou. Era contra o regime e não poderia compor um governo nomeado pelos militares, muito embora nutrisse amizade pelo governador. Paulo Egydio insistiu, argumentando que ninguém mais teria sua capacidade para assumir a secretaria. Mindlin, por sua vez, consultou amigos, dentre os quais o crítico Antonio Cândido, que o convenceram a aceitar o convite, já que seria uma oportunidade ímpar para desenvolver áreas tão importantes e, sobretudo, que seria melhor ele assumir a outro, comprometido com o regime ditatorial. Como secretário, José Mindlin promoveu algumas conquistas: plano de carreira para pesquisadores científicos, ampliação e recuperação de museus, bibliotecas e prédios históricos. Porém, em protesto, deixou a pasta após a morte do jornalista Wladimir Herzog.

José Mindlin foi, ainda, “imortal” da Academia Brasileira de Letras. Ironicamente, dizia querer trocar tal imortalidade por mais uns dez anos de vida. Para quê? Para poder ler mais uns tantos livros.

A morte de José Mindlin representa grande perda ao Brasil. Uma pena! Como também é uma pena que o ambiente brasileiro seja ainda tão pouco propício à proliferação do tal vírus da leitura. Uma pena que os empresários brasileiros, via de regra, não tenham tamanha consciência de cidadania, de compromisso e responsabilidade social com seu país. Uma pena que a cultura não seja tão valorizada no Brasil.

Mindlin foi exemplo de empresário, de ativista da cultura, de cidadão, de agente transmissor da paixão pelos livros. Enfim, um grande brasileiro.

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