28/04/2010

Sexo, hipertensão e manchetes

Deu em toda a imprensa. Escrita, falada, televisada e cibernética. A manchete proferida por todos os cantos, com ligeiras variações de palavras, mas não de conteúdo, é a seguinte: “Para combater hipertensão, Ministro da Saúde recomenda sexo”. Dada a ênfase, a notícia se espalhou com o seguinte viés: o Ministro recomendou apenas sexo ou o sexo foi a principal recomendação do Ministro para se combater a hipertensão.

Isso é falso. Nem tanto a tese, mas a notícia.

Os apresentadores e comentaristas falam do assunto com um sorrisinho envergonhado de menina-moça pega de surpresa pela despudorada investida de um gavião. “Hi, hi, hi. Ministro safadinho!”. Outros, compenetrados na postura formal e carrancuda, criticam-no com olhar sério. Após a tradicional chacoalhada de cabeça para demonstrar reprovação, exclamam: “Como assim, sexo, seu Ministro?”. De um lado ou de outro, a notícia, isto é, não o fato em si, mas como o fato é noticiado, fortalece a ideia de que o Ministro cometera uma gafe ou, pelo menos, uma imprecisão médica, propondo algo não comprovado cientificamente. Além de obsceno às famílias mais conservadoras.

O que me chama a atenção nesse bafafá todo, digno (digno?) de manchetes em primeiras páginas dos principais diários e na abertura dos mais assistidos telejornais, não é a tal sugestão do Ministro, mas, justamente, como esta passou a ser veiculada. Na verdade, José Gomes Temporão, um dos mais sérios e respeitados ministros do governo Lula, citou, em tom claramente de brincadeira, o sexo como uma dentre outras modalidades de atividade física, esta sim, fator de combate à hipertensão. Mais especificamente, Temporão, ao lançar a Campanha Nacional de Combate à Hipertensão Arterial, mencionou atividades físicas em geral – além do sexo, recomendou que as pessoas dancem, o que não dá o mesmo ibope que o sexo –, que controlem seus alimentos e seu peso. E, principalmente (ressalto: principalmente!), recomendou medição frequente da pressão arterial e consulta ao médico.

O vídeo com a declaração do Ministro está logo aí embaixo.

Nos jornais, porém, a ênfase é toda na frase do sexo, limitando-se a um canto de página as informações que deveriam prevalecer, tais como, fatores de risco para hipertensão: estresse, consumo excessivo de sal (mais de 6g/dia), ingestão de álcool, sobrepeso, diabetes, histórico familiar, tabagismo; sintomas da crise hipertensiva: mal-estar, falta de ar, dor de cabeça, náuseas e vômitos, turvação da visão, hemorragia nasal. A propósito, tirei as informações acima de um box da Folha de S.Paulo de ontem, dia 27/4/10, página C4, cuja manchete é “Ministro recomenda sexo contra hipertensão”.

Não entendo essa forma reduzida e enviesada de noticiar algo tão sério. Será que assim se vende mais jornal ou as pessoas ficam mais presas à TV? Será um estilo formatado intencionalmente para desqualificar o ministro, o governo, a campanha? Seja lá o que for, do modo como a imprensa noticiou o fato, não apenas desqualifica injustamente o ministro como, pior, enfraquece uma campanha cujo objetivo é importantíssimo para a saúde dos brasileiros: o combate à hipertensão.