São desoladoras, apesar de recorrentes, as imagens de pessoas perdendo o patrimônio, a família, os amigos e a própria vida com as fortes chuvas que caem sobre o sudeste. No estado de São Paulo, além da capital, Atibaia e Franco da Rocha são as cidades que mais sofrem com a destruição. No Rio, é a região serrana, especialmente as cidades de Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo. Com as chuvas, volta, pela enésima vez, a pergunta: até quando?
Até quando a união de fenômeno natural – em muito previsível! –, ocupação desordenada e inação do poder público produzirão resultados trágicos? De catástrofe em catástrofe, dos deslizamentos registrados pelas TVs na década de 1980, passando pelo Morro do Bumba e pelo Jardim Pantanal em 2010, até chegar aos mais de 300 mortos registrados nesta semana – por enquanto! –, as chuvas de início de ano no sudeste continuam a produzir resultados trágicos, mas, infelizmente, banalizados. Detalhe: trata-se da região e dos estados mais ricos do Brasil!
No caso do Rio de Janeiro, interessante foi a indagação feita pelo senhor Moacyr Duarte, especialista em gerenciamento de riscos, feita em um programa de televisão: A vitória inesperada sobre o tráfico no Morro do Alemão se choca com mais uma derrota anunciada para as chuvas. Será que os fluminenses conseguirão partir para a virada também nesse front?
Alguns sentimentos surgem desses fatos. Desolação e tristeza por tanto sofrimento. Impotência diante da força da natureza e da inação dos homens e governos. Descrença ante à recorrência das tragédias e a falta de atitudes fortes, definitivas.
A cena da senhora sendo resgatada na cidade de São José do Vale do Rio Preto (RJ) é chocante, além de paradigmática (ver vídeo em
http://g1.globo.com/videos/bom-dia-brasil/v/imagens-mostram-resgate-dramatico-em-sao-jose-do-vale-do-rio-preto-rj/1409724/). Ela resiste sobre os escombros da sua casa, rodeada por cachorros, em meio à rua tornada rio pelo impressionante volume de água acumulada. Na undécima hora, agarrou-se com uma mão na corda que lhe fora jogada de um edifício em frente e, com a outra mão, tentou carregar um dos cães. A pressão da correnteza foi tão grande que a mulher se viu obrigada a sacrificar o animal para que segurasse a corda com as duas mãos. Aos poucos, com muito sacrifício, foi içada até a sacada do edifício e definitivamente salva.
A cena é extraordinária por revelar muito da pequenez e da grandeza da nossa condição humana. A pequenez diante da natureza e a grandeza da coragem em lutar pela vida. A pequenez dos governantes que se eximem de tomarem medidas rígidas e necessárias e a grandeza dos que se arriscam para resgatar um semelhante. A pequenez da indiferença em relação à exigências que a natureza faz para que seja explorada e a grandeza de pensamento dos que rezaram, gritaram e torceram pelo sucesso do salvamento.
Como a senhora do resgate, outros brasileiros resistem, buscam desesperadamente pela própria sobrevivência. Com a ajuda de outros, da sorte, de Deus, quem sabe, às vezes conseguem. Lamentam as perdas, agradecem o socorro e buscam reconstruir a vida. Só que no próximo ano, em uma cena muito parecida, podem se juntar à contabilidade de vítimas fatais caso não consigam, uma vez mais, segurar firme na corda.