31/03/2011

Imagens inusitadas. Também por isso, maravilhosas

Há quem viva se queixando de que nada muda no Brasil ou no mundo. Apesar da persistência de muitas mazelas e da recorrência de problemas que há muito gostaríamos que estivessem solucionados, não dá para negar que, em vários aspectos, já avançamos.

Basta observar algumas das fotos recentes mais veiculadas pela imprensa. Imagine que você estivesse no final dos anos 1970, por exemplo, e uma criatura vinda do futuro lhe apresentada a foto abaixo, com a seguinte legenda: “Chefes de Estado dos EUA e do Brasil se encontram. Ano: 2011”. Confesso que, a princípio, tenderia a pensar que o homem negro é o presidente do Brasil e a mulher, presidenta dos Estados Unidos. De qualquer forma, fosse quem fosse, não deixaria de considerar um avanço a escolha de uma mulher e de um negro para tais cargos. Porém, para o contentamento ser completo, deveria a legenda trazer a seguinte informação, muito apropriada para que vive nos anos 70: "Em 2011, o Brasil é uma democracia e seu presidente foi escolhido pelo voto popular".


Agora, depois de cientes de que a mulher é a chefe de Estado do Brasil, aumentaria minha alegria ao ser apresentado à foto abaixo, com os dizeres: “Dilma, presidente do Brasil, e suas ministras”. Não, as coisas não são iguais em 2011!


Para completar, a foto abaixo. Em fins da década de 70, o sujeito ficaria estupefato ao constatar que os senhores da foto são o presidente Jimmy Carter e o presidente Fidel Castro. Pela legenda, saberia que, em 2011, são ex-presidentes dos EUA e de Cuba, em encontro na cidade de Havana.


Sim, nem tudo são flores no Brasil e no mundo de hoje. Nem tudo mudou tanto assim. No entanto, dizer que o mundo continua igualzinho, que nada melhora, me desculpe, mas parece a expressão da absoluta incapacidade de ver o mundo com otimismo, ainda que por olhos bem realistas. Conheço pessoas com essa incapacidade. Aliás, por ironia, algumas delas nasceram no final da década de 70.

30/03/2011

Tradição, família e promiscuidade

Poucos dias após o deputado Júlio Campos (DEM-MT) ter sido “mal interpretado” ao se referir ao Ministro do STF Joaquim Barbosa como “moreno escuro”, também o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) parece ter erroneamente passado por racista. Afinal, alegou o parlamentar, “minha esposa é afro-descendente e meu sogro é negão”. Ah, bom!

Em participação no programa CQC, o polêmico (no caso, eufemismo para truculento) deputado “progressista” respondeu a perguntas de populares. Perguntado sobre suas referências políticas, respondeu: Médici, Geisel, Figueiredo. Arguido sobre o que faria se pegasse o filho fumando maconha, tascou: “daria uma porrada”. Indagado sobre sua reação diante de uma hipotética homossexualidade do filho, disse que não corre esse risco, pois o filho teve boa educação, com pai presente. Também afirmou que desfiles gays são “promoção de maus costumes”. E o gran finale: questionado por Preta Gil sobre o que faria se seu filho se apaixonasse por uma garota negra, Bolsonaro respondeu: “Ô Preta, não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco. Meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambiente como, lamentavelmente, é o teu”.

Sinceramente, acredito nas desculpas de Sua Excelência. Em uma sequência de perguntas sobre gays, pode muito bem ter sido traído por uma pergunta sobre relações raciais. Enfim, ajustando as contas, Bolsonaro não teria se revelado racista, mas, sim, homofóbico. Ah, bom!

Não é novidade que Jair Bolsonaro conquistou a condição de mais bem acabada expressão do reacionarismo nacional. É o nosso Jean-Marie Le Pen e o nosso Tea Party. No entanto, além das conclusões mais óbvias, a fala de Bolsonaro, especialmente por responder a Preta Gil, fez com que me ocorresse a seguinte dúvida: qual o verdadeiro propósito que mobilizou o golpe de 1964 e qual a natureza das forças que sustentaram o regime militar?

Tenho uma hipótese: o que mais afrontava o conservadorismo radicalizado da época – com participação expressiva nas Forças Armadas e na Igreja Católica, muito embora as duas instituições também tivessem, ainda que em número menor, expoentes à esquerda – não era só o perigo do comunismo, mas o perigo da revolução cultural e comportamental que aflorara com tudo nos anos 1960. A emergência do sexo livre, o combate das mulheres às amarras machistas ou os gays mostrando-se orgulhosamente à revelia da repressão moralista, tudo isso embutido no furacão de sexo, drogas e rock’n roll, causava verdadeiro pânico nos tradicionalistas.

A principal manifestação de apoio aos militares, logo após o golpe, chamou-se Marcha da Família com Deus pela Liberdade, realizada em 02/04/64, no Rio de Janeiro. Não apenas os regimes político e econômico estavam em jogo, mas a família e Deus. Ou seja, a estrutura familiar e social, tal qual concebida tradicionalmente, sob a benção da Santa Madre Igreja, devia ser preservada. Pode-se imaginar o medo desse pessoal de ver o Brasil invadido por gays, mulheres desonradas e toda a sorte de “promiscuidade”. Tanto quanto ou maior que o medo de ver o país sob o comando de comunistas. A propósito, seriam farinha do mesmo saco: o “promíscuo” seria o equivalente comportamental do inimigo político, o “subversivo”.

Em seu livro “Verdade Tropical”, Caetano Veloso relembra o exílio imposto a ele e a Gilberto Gil, o pai de Preta. Em determinado momento, mostra-se surpreso pelo fato deles, artistas do movimento tropicalista, terem sido vítimas do regime. Logo os tropicalistas, sobre os quais pairavam críticas, vindas da própria esquerda, de concessões à cultura de massas, de serem alienados, despolitizados etc. Caetano interpreta que, de certa forma, esses “transviados” da Tropicália seriam mais perigosos ao status quo do que artistas ditos engajados.

Ao acusar Preta Gil e o ambiente familiar em que foi educada, Bolsonaro demonstra, tardiamente – anacronicamente, talvez seja o termo mais apropriado –, quem são os inimigos das viúvas da ditadura e demais reacionários. Na falta de comunistas, nesta época pós-muro de Berlin, o impulso raivoso volta-se a quem quer que desafie o mundinho ordeiro, santificado, estruturado sobre os alicerces da moral e dos bons costumes. Bolsonaro age como um defensor desse mundo e de seus valores. Assim como, para ele, devem fazer os verdadeiros patriotas, estejam eles nos quartéis, nos claustros ou quaisquer outros lugares imunes às investidas da “promiscuidade”.

Por mais respeito que se deva à opinião e à sua livre expressão em uma sociedade democrática, a própria defesa da democracia e do Estado de Direito impõe certas cautelas. A primeiríssima delas é o respeito irrestrito aos ditames da nossa Constituição, a mesma que Bolsonaro um dia jurou. Ditames como a defesa dos direitos humanos (art. 1º, III; art. 4º, II; art. 5º, III), o que não se coaduna com a apologia da tortura. Ou da construção de uma sociedade sem preconceitos (art. 3º, IV), o que não se concilia com o racismo, a homofobia ou qualquer forma de discriminação.

A se considerar o Brasil de hoje como um Estado democrático de Direito, a defesa do que prescreve nossa Constituição é o mínimo que se espera de todos os cidadãos brasileiros, especialmente daqueles democraticamente eleitos para exercer um cargo político. Inclusive Jair Bolsonaro, um viúvo apaixonado da ditadura, ironicamente eleito pelo voto popular.

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Em tempo: tão ou mais ofensivo que as palavras de Jair Bolsonaro no programa CQC é o desenho colocado na porta do seu gabinete. Em uma alusão aos desaparecidos do Araguaia, a figura sugere que são cachorros os que procuram por ossadas naquela região do país. Imagino o quanto essa “brincadeira” não fere as pessoas que há anos buscam os corpos de familiares, provavelmente assassinados por “patriotas” como o nobre deputado.

29/03/2011

Morre José Alencar


Há pouco foi dada a notícia da morte do ex-presidente da República José Alencar. O ex-vice presidente enfrentou um câncer por 13 anos.

Alencar começou a trabalhar cedo, aos 14 anos, como vendedor de tecidos. Fundou a Coteminas, empresa que veio a se tornar um dos maiores conglomerados têxteis do país. Fez-se empresário bem sucedido, angariando grande fortuna.

Demonstrando vocação para a política, foi presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais por 15 anos, além de comandar a Associação Comercial de Minas e a Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte.

Candidatou-se ao governo de Minas em 1994, ficando em terceiro lugar. Em 98, elegeu-se senador. O grande salto na política veio em 2002, quando compôs a chapa presidencial com Lula. A presença de José Alencar como vice tinha a missão de amenizar o receio do empresariado nacional em relação a Lula. Era a junção do grande líder operário com o grande empresário. O capital e o trabalho, enfim, unidos pelo desenvolvimento do Brasil.

A mensagem foi bem recebida. Eleito, Alencar portou-se digna e mineiramente no cargo de vice-presidente. Soube assumir seu papel de coadjuvante, mas sem deixar de dar seus recados e de mostrar seu peso. Tornou-se um contumaz crítico da política de juros do próprio governo. Em 2004, assumiu o cargo de Ministro da Defesa, ajudando a enfrentar a crise do setor aéreo. Foi um alicerce, jamais um estorvo a Lula, merecendo parte dos créditos pelas conquistas do governo.

Entretanto, não foi somente como empresário ou como político que José Alencar tornou-se figura simpática aos brasileiros, passando a ser respeitado em todo o país. Alencar ganhou a admiração nacional, sobretudo, pela luta que travou bravamente pela própria vida. Em 1997, passou por cirurgia para a retirada de tumores no rim e no estômago. De lá até o dia de hoje, disputou inúmeros embates com a doença, vencendo todos. Muitas e muitas vezes vinha a notícia, acompanhada Brasil afora, de que o vice-presidente, depois o ex-vice presidente, estava internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Em geral, a notícia vinha com o destaque de que o estado do paciente inspirava cuidados especiais ou, mesmo, que era grave. A cada vez que Alencar saia do hospital, as pessoas sentenciavam: “como é forte esse homem!”

A própria presidente Dilma, em seu discurso de posse, enalteceu a força, a vontade de viver deste bravo mineiro. A propósito, a própria Dilma, também mineira, passara pela angústia de um tratamento para combater um câncer no sistema linfático.

Hoje, enfim, acabou-se a luta de José Alencar. Mesmo morto, porém, não deixa de levar o respeito dos brasileiros e das brasileiras que aprenderam a admirar sua força e seu jeito mineiro – calmo, paciente – de enfrentar, por tanto tempo, o maior de todos os adversários: a morte.

19/03/2011

Obama está podendo?

Obama e família, ao desembarcarem no Brasil, hoje

Barack Obama foi eleito presidente dos EUA após polêmica (para não dizer malfadada) gestão de George W.Bush. O primeiro presidente negro ou, como querem alguns de seus compatriotas, o primeiro presidente afro-americano da história, assumiu sob forte expectativa positiva e aos coros de “sim, nós podemos”. De longe, um slogan mais simpático do que “é a economia, estúpido”, mote de campanha do colega democrata Bill Clinton.

A propósito, passada mais da metade do mandato, vem a pergunta: nós podemos o quê, hein? Fazer um governo menos arrogante que o de Bush filho? Sim, claro, ainda bem. Mas o slogan sugere mais ousadia. Podemos ir além, podemos o impensável, podemos o impossível. Podemos fortalecer a hegemonia (ou estancar o declínio) americano no globo sem apelar às guerras e ações militares invasivas e ilegítimas (preventivas?). Podemos promover reformas sociais à esquerda (entenda-se, esquerda para padrões americanos). Podemos resgatar a pujança da economia do Tio Sam e, a reboque, a economia mundial, competindo com a superemergente China.

De fato, Obama ousou em algumas de suas atitudes, conquistou algumas vitórias, mas também mostrou certo abuso na marquetagem (um dos males das sociedades modernas) e alguns sinais de hesitação.

O presidente cuida de sua imagem a todo instante. É hábil nisso. Não descuida da pose em frente ao púlpito, na Casa Branca, quando faz ameaças veladas ou dá indiretas, ora a Ahmadinejad, ora a Kaddafi ou a quem mais a opinião pública tome como o capeta na Terra. Ou quando profere discursos na Alemanha, no Egito ou onde mais sua equipe de marketing acredite que ajudará na construção do seu perfil de “líder mundial”.

Só que além da fina estampa, da elegância e do charme, há também conteúdo político. Obama tentou promover conquistas marcantes, algumas vezes com sucesso. Agendou a retirada das tropas do Iraque – no Afeganistão, a coisa é mais complicada. Prometeu fechar a prisão de Guantânamo, o que, pelas últimas notícias, deu para trás. Promoveu a histórica reforma do sistema de saúde e colocou na agenda a reforma do sistema financeiro. Enfrenta relativamente bem a crise econômica (em que pesem os efeitos negativos da guerra cambial para nós, emergentes). Tentou resgatar relações com países árabes, abaladas pelo antecessor. Propôs a recolocação da hegemonia americana sob o “paradigma Sputinik”, uma concorrência, especialmente com a China, baseada em inovações tecnológicas constantes – algo bem mais alvissareiro que o paradigma do choque de civilizações e a decorrente estratégia da “guerra ao terror”.

Obama até recebeu um Prêmio Nobel da Paz, muito mais pelas expectativas criadas em torno de seu governo do que propriamente por realizações efetivas. No discurso, para desagrado de muitos, chamou a atenção de que a paz muitas vezes exige a guerra. Talvez fosse uma forma de dizer: sim, sou da paz, mas não se esqueçam que sou o presidente de um país chamado Estados Unidos da América, historicamente consolidado e fortalecido com fundamento nas armas e nas guerras.

Nesses anos de gestão, o atual presidente americano enfrentou/enfrenta dois momentos históricos cruciais: a crise econômica de 2008/9 e a onda contra regimes autocratas no norte da África e no Oriente Médio. São históricos porque podem determinar, finalmente, como a nova ordem mundial irá se estruturar no pós-Guerra Fria e após a frustrada tentativa de Bush em impor uma lógica neoimperialista a partir do medo contra o terrorismo (para alguns, sinônimo de muçulmanos). No entanto, o titubeio de Obama não deixa claro se poderá, de fato, constituir uma opção à proposta dos neocons. Especialmente porque a alternativa, qualquer que seja, passa pela dura admissão de que os EUA, doravante, não podem mais ser o único condutor do mundo, a partir de seus exclusivos interesses. Caso o admita, Obama, sim, ainda poderá avançar muito em mudanças relevantes. Se bobear, os neocons, falcões, Tea Party e Cia. (no sentido de companhia) poderão, por sua vez, dizer: sim, podemos retomar as rédeas da América.

***

Em tempo: atualizando observação feita no post abaixo, foi anunciado que Obama não mais fará o discurso para americano ver na Cinelândia, no Rio, amanhã. O discurso será no Teatro Municipal, para uma platéia seleta. Particularmente, achei bom. Tratando-se de teatro, melhor mesmo que o discurso ocorra no Municipal.

Museu de cera Madame Tussauds, NY

17/03/2011

Vão-se os cinemas de rua, vai-se uma época




A poucos dias da visita de Obama ao Rio de Janeiro, em compasso de espera pelo discurso a ser feito na Cinelândia, a cidade de São Paulo vê mais um de seus cinemas de rua, o Belas Artes, enfim, fechar as portas. Se a Cinelândia carioca tem esse nome porque no passado, diferentemente de hoje, abrigava várias salas de exibição, a mesma sina parece se impor à região da Avenida Paulista.

Quando vim para Sampa, no longínquo ano de 1991, fiquei orgulhoso por saber que ao longo dos quase três quilômetros de sua principal avenida havia mais cinemas que em Porto Alegre inteira. Desde então, tornei-me habitué de alguns deles. O Belas Artes, o Gemini, o do Conjunto Nacional, que já teve vários nomes – Bombril, Livraria Cultura, não sei mais o quê –, assim como o da Gazeta, hoje Reserva Cultural. Além deles, claro, têm os dos shoppings: os do Pátio Paulista, na ponta do Paraíso, e o Bristol, no Center 3, na ponta da Consolação. Para ficar só na famosa avenida, sem falar dos cinemas da rua Augusta e outros.

Há pouco tempo fechou o Gemini – pela enésima vez – e hoje, o Belas Artes. Ocorre no “centro novo” o mesmo já observado no “centro velho” de São Paulo. Os locais onde antes eram exibidas as preciosidades da sétima arte, agora se destinam ao consumo de bugigangas e aos cultos religiosos. Não dá para negar certo desconforto nostálgico, uma sensação ruim, ao constatar que hábitos caros a muitos da minha geração não mais serão possíveis. Além da frustração por um processo econômico e social que, apesar dos protestos, não é simples de ser contido, muito menos revertido. Aliás, será que deve ser contido e revertido? Há culpados, inimigos a serem combatidos?

A lembrança foi longe e retornei à minha terra natal, Birigui, onde eu ia às matinês do Cine Pérola todos os domingos, rigorosamente. Lembrei-me das filas imensas, virando a esquina, quando passava filme do Mazzaropi. Lembrei-me até de quando assisti “Os Trapalhões no Planeta dos Macacos”, minha primeiríssima ida a uma sala de cinema, morrendo de medo por achar que gorilas sairiam de trás da tela para nos atacar. Mas, terrível mesmo foi ver o prédio que abrigava o Cine Pérola ir abaixo para dar lugar ao estacionamento de um banco. Também me lembrei da luta inglória de alguns cidadãos biriguienses para tombar o prédio que abrigou o primeiro cinema da cidade, o qual não conheci, e que hoje é uma loja de motos.

Pior do que testemunhar a extinção dos cinemas de rua é perceber que não mais haverá um espaço de cultura, entretenimento e sociabilidade criado em seu redor. Acaba-se a caminhada tranqüila pela Avenida Paulista, batendo papo com a namorada ou com amigos, com destino a um boteco próximo para comentários e críticas, ao sabor de cerveja e petisco, sobre o filme que se acabara de assistir. Assim acontece no Rio, em Sampa e até em Birigui.

Os shoppings centers, com seu universo consumista, sua seletividade em prol de “gente bonita” e seus Cinemarks da vida, serão nossa única opção.


Gemini, janeiro de 2010.