27/06/2011

Relato de um majestoso tabu em casal




Começamos a ficar juntos em 2003, pouco depois do Corinthians ter faturado o Paulistão contra o São Paulo. Como bom corinthiano, comemorei muito as duas vitórias por 3 a 2 contra o tricolor. Também tirei minhas casquinhas nos amigos são-paulinos. Como bom cavalheiro, porém, preservei-a de maiores zombarias futebolísticas.

A relação foi se prolongando, ficando séria. Passamos todo o ano juntos. Muito além, confesso, do que pensava que duraria. Naquele ano, após a final do paulista, o time dela batera o meu em junho e goleara em dezembro. Como boa companheira, ela restringiu as gozações a sorrisos marotos e leves manifestações de uma suposta superioridade.

As coisas ficaram sérias. Tanto no aspecto afetivo como no ludopédico. Dois anos já tinham ido, podíamos nos dizer, sei lá, noivos. Ela praticamente passou a morar na minha casa ou, a rigor, na casa de meus pais. Sua presença me alegrava, apesar das brigas que têm todos os casais. O que me intrigava era aquela espécie de maldição futebolística, já traduzida pelos comentaristas esportivos como um pequeno tabu.

Ao final de 2005, meu Corinthians sagrou-se campeão brasileiro, em um polêmico certame em que 11 partidas tiveram que ser jogadas novamente, após descoberta de que um juiz ladrão participava de um esquema de manipulação de resultados. Só que, mesmo campeão nacional, contando com Nilmar, Masquerano, Tevez e companhia, o Timão já amargava oito partidas sem vencer o São Paulo. Em uma delas, inclusive, tomou uma sova histórica (5 a 1!), no Pacaembu, com direito ao primeiro gol de Rogério Ceni, de pênalti, no Timão, em que fiquei com a clara impressão de que a surra só não foi maior porque os jogadores são-paulinos ficaram com dó.

Pior que isso (dava para ser pior?), também em 2005, o Tricolor faturou a terceira Libertadores – justo a Libertadores, nossa obsessão! – e, em seguida, o Mundial de Clubes da FIFA – o mesmo torneio cujo primeiro e até então único campeão era o Corinthians! Apesar de tudo, como prova de amor, herculeamente, esforcei-me para torcer pelo arquirrival no fatídico jogo contra o Liverpool. E deu certo (certo?). Apesar de só o time inglês ter jogado, o São Paulo venceu por 1 a 0. Nesse dia, convenci-me de que o tal Rogério Ceni não é só bom batedor de faltas; é bom goleiro também. A melhor parte foi ver a alegria estampada no semblante dela quando o juiz apitou o final da partida. Aquele olhar me fez entender que o sacrifício valera a pena.

Em 2006, nossa vida sofreu uma reviravolta definitiva. Aprovado em um concurso público, mudei-me para a capital. Que maravilha! Poderia curtir a vida cultural da metrópole: cinemas, teatros, shows e, lógico, os jogos do Timão no Pacaembu. Aluguei um apartamento e, em seguida, ela veio morar comigo. Impus-lhe a condição de não parar a faculdade e arranjar um trabalho. Em um mês, se tanto, as condições estavam satisfeitas e eu não tinha mais como escapar: estávamos casados... ainda que em união estável. Apesar do tempo juntos, o receio era natural. Será que daria certo? Será que não era ela a responsável pela maldição do Majestoso – como é chamado o clássico entre Corinthians e São Paulo –, a culpada por aquele tabu? Afinal, desde que estávamos juntos, jamais meu time havia vencido o dela. Neste mesmo ano, a sina persistiu. Além disso, o São Paulo venceu o Brasileirão. Ela, apesar de carinhosa, apesar de sutil nas observações, já me tratava como freguês.

O duro era aguentar as piadinhas. A mais engraçada – para quem não era corinthiano, claro – era a do cachorro. Mais ou menos, assim: o sujeito comenta com um amigo que suspeitava que seu cachorro era corinthiano, pois toda vez que o Corinthians perdia para o São Paulo, o bicho se escondia na casinha e ficava chorando; quando o Corinthians empatava, ia para a cozinha e não sai mais, todo sem graça. “E quando o Corinthians ganha”, questiona o amigo, ao que o sujeito responde: “Ainda não sei, só tenho o cachorro há três anos!”. Como esta, haviam milhares de anedotas e chistes sobre a freguesia mosqueteira no Majestoso.

Chegamos a 2007, um ano emblemático. Logo no réveillon, fiz lá meus desejos, dentre os quais acabar com o tabu. Em fevereiro, no primeiro Majestoso do ano, procurei reunir todas as forças místicas para dar cabo do problema. Liguei para um amigo, que conhecia um bar no qual jamais assistira uma peleja em que Timão tivesse saído sem os três pontos. Já pra lá!, pensei. Mas eis que a sina parecia resistente: o bar estava fechado. Isso é hora de se reformar um estabelecimento desses? Bem, resolvi assistir à partida em casa, recorrendo a mandingas caseiras: usar a camisa da sorte, bater no braço do sofá três vezes, não tomar cerveja enquanto o adversário atacava, coisas do tipo. Sabe-se lá por que, estava convicto de que o jejum acabaria naquele dia. Na verdade, não conseguia me conformar que durasse tanto. Resultado final: 3 a 1... para o São Paulo. Com direito a outro gol do Rogério Ceni – cara chato! –, o segundo dele contra o meu Corinthians.

Fiquei acabado. Reclamei, esbravejei, roguei pragas contra tudo e contra todos. E ela, percebendo que a coisa ficara séria, veio me acolher. Sequer fez menção em tirar sarro, reforçar a lembrança da freguesia, nada disso. Não por medo de brigas, mas por companheirismo mesmo. Notei que ela própria passava a querer que aquele tabu findasse. Para o meu bem e para bem do nosso casamento. Acompanhou-me até a padaria da esquina, onde eu terminei de afogar as mágoas. E dizem que corinthiano gosta de sofrer! Tudo tem limites nessa vida, ora bolas! O bom disso foi notar a verdade do dito popular: azar no jogo, sorte no amor.

Em julho, um empatezinho de 1 a 1 deu o sinal de que alguma coisa mudaria em breve. Foi então que, no momento de maior angústia, quando meu Corinthians brigava para não ficar na zona de rebaixamento e o São Paulo dela rumava para o bicampeonato brasileiro, quando se esperava uma goleada histórica, deu-se o, digamos, milagre. Em um jogo truncado, em que o limitadíssimo escrete alvinegro foi mais raçudo do que nunca, em um ataque aparentemente despretensioso, a bola sobrou para o zagueiro Betão mandar a bola para o fundo das redes de Ceni – tooooma!!! Eu não me aguentava no sofá. Gritava como um doido, pulava, xingava. Quando o juiz apitou, então, esguelei com jamais na vida: acabooooooouuuu!!!! Xoooô, tabu!!! Olhei para ela, que, cabisbaixa, deu um sorriso amarelo e me cumprimentou. “Até que enfim”. Chamei-a para ir novamente à padaria da esquina, mas, desta vez, com outro espírito.

Como desgraça pouca é bobagem, a quebra do tabu de mais de quatro anos foi apenas o consolo para o maior vexame da história do Timão: o rebaixamento. Na fatídica partida contra o Grêmio, que assisti sentado no chão e com a TV sem som, ela preferiu manter-se fechada no quarto. Estava estudando para uma prova da faculdade, embora eu ache que a razão principal era mesmo me deixar só com meu sofrimento. Quando o jogo acabou – tá, confesso, chorei –, ela se esforçou para me consolar. “Não fique assim. Esses caras ganham uma fortuna e não estão nem aí. Não vale a pena ficar desse jeito”. Novamente, ocorreu-me o dito: azar no jogo – mas quanto azar, meu Deus! –, sorte no amor. No final do ano, até tentei retribuir, cumprimentando-a pelo bicampeonato tricolor. Por que tanto para uns e tão pouco para outros?

Em 2008, enquanto o Timão disputava e ganhava o título da segundona, retornando à Série A, de onde jamais deveria ter saído, o Tricolor faturava o tricampeonato da primeirona. No Majestoso, o Corinthians mostrou que a sina de derrotas estava realmente terminada. Ou melhor, não mais perdia para o rival São Paulo. Isso ficou mais claro em 2009, quando o alvinegro trouxe nada mais, nada menos que Ronaldo Fenômeno, o maior artilheiro de todas as Copas. Muito embora fossem grandes as dúvidas sobre a condição física do “encorpado” Ronaldo, o fato é que o Fenômeno encaixou-se perfeitamente naquele escrete que havia evoluído muito durante a campanha da Série B. Mano Menezes, o técnico do mesmo Grêmio que havia jogado a pá de cal sobre o time de Parque São Jorge em 2007, agora no clube, montara uma bela equipe: Chicão, Willian, André Santos, Elias, Cristian, Jorge Henrique e Douglas eram reforços que haviam vingado. O Timão engrenou e papou, invicto, o Paulistão, além da Copa do Brasil daquele ano. E fez do São Paulo seu freguês preferido: dos cinco jogos de 2009, três vitórias e dois empates – destaque para as vitórias nas duas partidas das semifinais do Paulistão. Nestes jogos, enquanto ela comemorava os raros gols do São Paulo na sala, em frente à TV, eu saia para gritar no quarto os muitos gols e as vitórias do meu Corinthians no quarto. Questão de diplomacia doméstica... Tooooooooma!!!!

Em 2010, ano do centenário corinthiano, tanto o alvinegro como o tricolor participaram da Libertadores. Mas não se enfrentaram. O Corinthians caiu diante do Flamengo e o São Paulo, do Internacional. No confronto direto, três partidas: três vitórias do Corinthians.

Assim, entramos em 2011. Corinthianos repletos de si, bancando de imbatíveis diante dos rivais são-paulinos. Até a piadinha do cachorro agora era contada invertendo-se os times. O tabu invertido, no entanto, serviu de motivação aos são-paulinos para findar a sina derrotista. Por falar em sina, em destino, sabe-se lá por que, naquele histórico dia 27/03/11, tanto eu quanto ela sentimos que a escrita do tabu seria encerrada. Tudo parecia confluir a favor do São Paulo. Ronaldo havia encerrado a carreira dias antes, após a desclassificação relâmpago do Corinthians na pré-Libertadores, contra o fraco Tolima, da Colômbia. Roberto Carlos também anunciara sua ida para o futebol russo, aumentando o abismo corinthiano. Mas a superioridade moral do São Paulo advinha, especialmente, do fato de Rogério Ceni estar a apenas um golzinho da histórica marca dos 100, algo incrível para um goleiro. Destaque-se: seria o centésimo gol da carreira, mas não o centésimo em jogos oficiais, reconhecidos pela FIFA. A instituição maior do futebol não admitia em suas estatísticas dois dos gols computados a Ceni. De qualquer forma, a iminência da fantástica marca dava força extra ao Tricolor. Ah, além de que o mando era do time do Morumbi que, jogando em Barueri, pelo campeonato paulista, teria praticamente todo o estádio a seu favor.

Dito e feito. São Paulo 2x1 Corinthians. Fim do tabu, com direito ao centésimo gol de Rogério Ceni. Enquanto eu assistia, e sofria, àquilo pela TV, ela estava no shopping. Na verdade, o intuito não era fazer compras, mas, tenho certeza, me deixar em paz com meu sofrimento... mais uma vez. Nada que impedisse o sorriso sádico na chegada, e as palavras de convencimento: “Não disse que o tabu ia acabar”, “Não disse que o Rogério ia marcar o centésimo”, "Não disse, não disse..."

Enfim, essa é a história dos tabus na nossa vida de casal. Tabus que, por fim, caíram. Mas continuamos amando nossos times e, principalmente, continuamos a nos amar. Pela primeira vez, estamos juntos sem que paire um tabu entre Corinthians e São Paulo. Talvez seja melhor assim. Quem vence ou quem perde, importa pouco. Os dois são grandes e sempre serão. O principal é que o clássico, assim como o casal, continue eternamente majestoso.



***

Em tempo: Coloquei este relato no blog um dia após o Corinthians ter vencido o São Paulo por 5 a 0, com direito a frango de Rogério Ceni. É o primeiro jogo pós-tabus. Só por isso este texto foi postado agora. Só por isso...

Curiosidade: Rogério Ceni e Liedson estiveram presentes na primeira e na última partida aqui mencionadas, respectivamente em 2003 e 2011.

26/06/2011

Dois meninos



O ano: 1950. O menino brincava enquanto o pai ouvia o rádio com máxima atenção. O pai, jogador de futebol profissional, dissera ao garoto que aquela era a mais importante partida da história do país. Uma final de Copa do Mundo disputada no Brasil, em que a seleção nacional, com seu glorioso uniforme branco, disputaria, favorita, a taça contra a celeste uruguaia. O menino, vendo a seriedade no semblante do pai, compreendia, na sua forma de criança, o quão relevante era aquele jogo de bola para os adultos; para seu pai, em especial. Apesar de continuar brincando, não deixava de atentar para as reações e humores do velho por um segundo sequer. Assim, sorriu quando o pai comemorou o gol da seleção, ficou apreensivo quando ocorreu o empate e arrasado quando um tal de Ghiggia marcou o tento da virada. Só não chorou como o pai, que foi às lágrimas quando o jogo acabou e o Brasil, apesar do favoritismo, de ter Zizinho e de jogar em casa, perdeu um Mundial que todos davam como ganho. Com um sorriso envergonhado, o menino se aproximou do pai e disse, amoroso:

- Não liga não, pai. Quando eu crescer, ganho um desse pro senhor.

Quando o Uruguai bateu o Brasil naquela final de Copa, o tal menino tinha apenas nove anos de idade. Oito anos depois, aos dezessete, participou da campanha brasileira na Suécia, quando nossa seleção, jogando ora de amarelo, ora de azul, conquistou seu primeiro título mundial. A partir de então, o Brasil tornou-se o maior vencedor de mundiais e o status de país do futebol; o tal menino tornou-se o rei desse esporte. E o Santos, o time que o revelou, até hoje é conhecido como o mais completo e vencedor clube enquanto Pelé desfilou seu imenso talento pelos gramados do país e do mundo:

O ano: 2003. O mesmo Santos, pela primeira vez após a despedida do seu maior astro, disputava uma final de Libertadores. Com o rei, conquistara dois títulos; o primeiro contra o Boca Juniors, da Argentina, e o segundo, contra o Peñarol, do Uruguai. Mas isso ocorrera há quase quarenta anos. Desta vez, o adversário era novamente o Boca, o mesmo da primeira conquista. Outros meninos brilhantes haviam surgido na Vila famosa, a confiança era total. Não obstante, os argentinos tinham vencido o primeiro jogo, lá, por dois a zero. Nada que não pudesse ser revertido na finalíssima, em casa. Entre tantos torcedores, um homem assistia à partida pela televisão, enquanto o filho de onze anos brincava ao lado. Sim, brincava, mas não deixava de observar a peleja, nem de reparar nas reações e humores do pai. Quando a partida acabou, percebeu que a derrota por três a um para os argentinos, com Robinho e tudo, arrancara, além de alguns xingamentos, uma lágrima do pai. E, docemente, tentou consolá-lo:

- Não liga não, pai. Quando eu crescer, ganho um desse pro senhor.

O pai sorriu, apesar da dor da derrota. Notara a semelhança com a história do outro menino. Só não podia imaginar que o consolo do filho não era mera coincidência, mas o destino novamente escrito pela boca e pelo talento de outro menino, o seu Junior. Oito anos depois, o Santos disputa novamente uma final de Libertadores, contra o Peñarol – sim, o mesmo do segundo título da América –, e ergue a taça pela terceira vez. Melhor: pela primeira, após a despedida do seu menino-rei dos gramados. Agora, o Junior é o novo menino-rei.

Eis as histórias de dois meninos que reverteram a história. Que, de certa forma, nos redimiram. De uma final melancólica, de derrota, reescreveram outra, vitoriosa, campeã. A história do menino Pelé ocorreu de verdade. Já a do menino Neymar... bem, nada há que prove a existência dos fatos relatados, pelo menos até a vitória contra os uruguaios, absolutamente verdadeira. E é isso o que importa: é verdade que esses meninos cresceram, viraram reis e trouxeram – e continuam trazendo –, com seu talento inigualável de tratar a bola, tantas alegrias e taças. E também é verdade que esses meninos nasceram e nascerão de tempos em tempos neste país. Meninos de favelas, de campinhos de várzea, de escolinhas. Meninos da Vila. Meninos do Brasil.

JFQ

10/06/2011

A despedida do Fenômeno


Segunda-feira, no final da tarde, tive um estalo: se não for ao Pacaembu, jamais verei Ronaldo novamente em campo. O estalo me removeu os obstáculos que o mau tempo e o bolso impunham. Cento e quarenta reais, no Tobogã, com boas chances de assistir à partida sob chuva eram fatores que pesavam muito contra a decisão de ir ao estádio. Mas, enfim, não poderia faltar à despedida deste fenomenal artilheiro que me trouxe tantas alegrias como brasileiro e corinthiano. De mais a mais, duas ou três vezes que eu deixasse de ir a um boteco seriam suficientes para compensar o gasto. E, como diria nosso eterno Vicente Mateus, quem sai na chuva é para se queimar... (?)

Decisão tomada, vamos à execução. Um dia todo gasto em deslocamento para buscar o ingresso, ir ao trabalho, tomar o metrô (meia hora para passar a catraca da estação Sé!) e voltar ao Pacaembu, onde, dali a somente três horas, a seleção brasileira entraria em campo para enfrentar a Romênia. Ah, e o Fenômeno jogaria apenas 15 minutos. E daí?


 
A presença de Ronaldo nos campos foi fundamental para que torcedores como eu, que não vimos a geração de Pelé e há muitos anos deixamos de ver a geração de Zico e Sócrates, reavivássemos o amor pelo futebol e pela camisa da seleção brasileira.

Valeu, Fenômeno!