09/12/2011

Onde fica Birigüi?



“Onde fica Birigüi?”. Eis a pergunta que um birigüiense habitante de São Paulo é obrigado a responder milhões de vezes. Respostas clássicas: “A 10 quilômetros de Araçatuba”, “uns 530 quilômetros da capital”, “no noroeste do estado”, “não muito distante da fronteira com o Mato Grosso do Sul”. Muitas vezes o interlocutor, posando de entendido, chuta (e erra): “Pelos lados de Ribeirão Preto, né”, “Fica em Minas, certo?”. O mais gostoso para um birigüiense, porém, é quando o sujeito diz: “Araçatuba? Também não conheço...”. Ao lado do desconsolo por saber-se ignorado do mapa, aflora um doce sabor de vingança ao notar que as cidades rivais são irmãs gêmeas na condição de desconhecidas de muitos paulistanos.

Mas, claro, há quem saiba das coisas. “Sim, Birigüi fica ao lado de Araçatuba, no noroeste do estado”, “Birigüi, a Cidade Pérola”, “capital nacional do calçado infantil”, “conheço: terra do Bandeirante, do biribol, do Paulinho McLaren, do Reynaldo Gianecchini”, “Êta, lugarzinho quente!”. E há também o sujeito que tem certeza do comentário e se assusta quando é corrigido: “Como assim, Marco Bianchi, Paulo Bonfá e Peterson Foca nunca viveram em Birigui?!”.

A pergunta subseqüente, via de regra, é: “O que significa Birigüi?”. Resposta didática: “Quando os fundadores chegaram, a terra era infestada por um mosquito chamado birigüizinho”. Segue-se uma risadinha marota do perguntador, correspondida por um sorrisinho envergonhado do nativo: “Pois é, minha cidade tem nome de mosquito”.

Tenho a impressão de que Birigüi resume bem o Brasil: os povos que vieram para cá (japoneses, espanhóis, italianos, libaneses, alemães); a passagem da agricultura para a indústria, cada vez mais moderna e pujante; a desigualdade social; a política impregnada pelo clientelismo, reveladora da lógica do coronelismo, enxada e voto, tão bem demonstrada por Vitor Nunes Leal; a tentativa de tantos conterrâneos de fazer a vida fora do país (Estados Unidos, Portugal, Japão, Itália, Inglaterra) e o movimento de retorno. Até Nicolau da Silva Nunes, o fundador, me vem à cabeça como um Pedro Álvares Cabral a chegar de trem e se deparar com índios, no caso, caingangues. Sua gente é uma expressão perfeita do caipira, um dos povos que compõem o grande povo brasileiro, conforme Darcy Ribeiro.

Ontem foi comemorado o centenário da minha querida terra natal. Para escrever sobre ela, ocorreu-me de pronto a frase de Tolstoi – “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia” – e tentei vislumbrar o que há de universal na “minha” cidade. Reli um texto que escrevi por ocasião do 456º aniversário de São Paulo (http://blogdojfq.blogspot.com/2010/01/non-ducor-duco.html) e me chamou a atenção o seguinte trecho: “São Paulo me ajudou a amadurecer. (...) Amadurecimento significa virar dono do próprio nariz e do próprio destino, desenraizar-se sem renegar ou amaldiçoar as raízes”. No texto, lembrei da oscilação entre amor e ódio que senti pela capital paulista. Agora, lembro do mesmo sentimento em relação à “terrinha”. Quando não agüentava mais viver em Sampa, concebia Birigüi como a Pasárgada de Manuel Bandeira e me sentia o próprio Gonçalves Dias declamando “Canção do Exílio”. “Saudades da Minha Terra”, música caipira de Goiá e Belmont, ganhou status de hino pessoal. De volta a Birigui, no entanto, as coisas não foram exatamente como eu idealizava. Aos poucos, tudo passou a me incomodar – o pensamento conservador predominante, a visão de paraíso fundada num certo hedonismo machista e xucro (muié e cerveja, muié e cerveja, eis o mantra do único prazer existente), a cultura de ostentação de riqueza, a religiosidade exacerbada, e, até mesmo, a quase onipresença da música sertaneja. Só que muito do que os olhos veem não se deve à paisagem, mas sim aos próprios olhos. Por algum mecanismo psicológico que Freud deve explicar, eu, que valorizava tudo em Birigüi na mesma intensidade e proporção que demonizava em São Paulo, inverti os pratos da balança. Passei a ter saudade da saudade que sentia. O regresso à metrópole virou uma obsessão e a vida na “terrinha”, um tormento. É certo que o contato com a família e com os amigos era prazeroso, só que vinha com um gostinho de fracasso, pela dependência dos recursos dos pais.

De volta a São Paulo, acho que, enfim, desvendei a chave da minha eterna insatisfação. Concebendo a terra natal e a de adoção como antagônicas, passei a aceitar como natural a contradição de, ao mesmo tempo, desejar o que tanto uma como a outra me ofertam de bom, assim como a de negar o que em ambas me desagrada. O mais engraçado – e aprazível – é que, quando quero me ver livre do caos metropolitano, é a simplicidade interiorana que se apresenta como alternativa; e, quando me vejo entediado da mesmice birigüiense, corro para a agitação paulistana. Criei duas raízes.

O psicólogo Contardo Calligaris, analisando a modernidade, escreveu que “a família originária, da qual pertencemos, com certeza é o grupo contra o qual afirmamos nossa independência” e que essa afirmação confronta a “aventura arriscada da liberdade” com o “conforto opressivo das tradições”. Na verdade, queremos os dois: a liberdade e o conforto. Eis o conflito familiar primordial: ter presente o amor dos pais e a distância necessária para andarmos sozinhos. Quem sabe, a família não seja, por excelência, o habitat da relação de amor e ódio. Assim, pacificando esse conflito, creio ter construído dois lares: um, cosmopolita; o outro, provinciano. E me tornei, como diz Tom Zé, bilíngüe: falo a língua da metrópole e a língua do interior.

Retomando Tolstoi, talvez o escritor russo quisesse dizer que pintar a própria aldeia significa pintar as raízes, os mais íntimos elementos constitutivos de cada um de nós. Algo que todos os seres humanos têm, universal e independentemente de onde tenham nascido e de onde vivam. Disso concluo: quando me perguntarem onde fica Birigüi, darei alguma daquelas respostas clássicas. No entanto, intimamente, pensarei: em certo sentido, fica dentro de mim.

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Ontem, dia 8 de dezembro de 2011, não foi apenas a centenária Birigui que aniversariou. Também a Avenida Paulista (junto com o Parque do Ibirapuera, o lugar que mais gosto em Sampa) fez 120 anos. Ainda, minha sogra completou anos ontem. Neste caso, deixo de revelar a idade.

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Em homenagem a Birigüi, peço licença à reforma ortográfica para preservar o trema em todo o texto. Além da diferença do som (prefiro ser birigüiense a biriguiense), gosto de imaginar os pontos sobre o U e o I como se fossem três mosquitinhos. Três birigüizinhos.

05/12/2011

Meu ídolo


Quando vejo um garoto de sete anos com brilho nos olhos ao se deparar com o craque Neymar, sou capaz de entendê-lo perfeitamente. Com sete anos eu também tinha um ídolo que entortava os adversários, muito embora não fosse tão rápido.

Os meninos de sete anos da época de Leônidas deviam se orgulhar da jogada que ele criara e operava como ninguém: a bicicleta. Não me lembro de nenhuma bicicleta dada por meu ídolo. Assim como não me lembro de ninguém usar o calcanhar com tamanha habilidade e visão de jogo como ele.

Compreendo os guris de Minas que aos sete anos idolatravam o atleticano Reinaldo e o cruzeirense Tostão. Como aquele, meu ídolo marcava gols e comemorava com o braço esticado para cima e o punho cerrado. Como este, também era doutor e vestia a oito.

Vi crianças de sete anos idolatrando Ronaldo e venerando Romário. Logo surgiram as comparações. Quem era melhor? Quando eu tinha sete anos, meu ídolo era comparado a Zico. Acho até que este era melhor, mas o bom é que estavam juntos na seleção de Telê, a melhor de todas para mim. E, como meu ídolo, Zico também sabia alegrar o povão, brilhando em um clube de massas. Multidões que se entristeceram quando o Galinho saiu do Flamengo, assim como eu e outros tantos milhões lamentamos a despedida do nosso ídolo rumo a campos italianos. Logo a Itália, quanta injustiça!

A propósito, consigo até enxergar os pequenos holandeses de 74 e os garotos húngaros de 54, inconformados por não verem Cruyff e Puskas campeões do mundo. Desde criança, não admito que meu ídolo, capitão do mágico escrete de 82, tenha deixado de levantar o caneco.

Nos anos 90, seu irmão Raí foi idolatrado por pequenos são-paulinos. Também começara em Ribeirão, também jogava de modo elegante. Tinha um físico bem mais atlético, é verdade. E – coisa de família? – também se revelou um cidadão genuíno, participativo, politizado a ponto de apresentar suas demandas, de expor suas opiniões, de buscar um Brasil melhor. Muito embora tivesse o perfil de bom-moço, e não o de intelectual boêmio, como o do meu ídolo. Ainda que não tivesse ajudado a construir uma inusitada democracia em tempos de ditadura.

Meu ídolo tinha nome de filósofo e fama de inteligente, ao contrário do ingênuo e folclórico Garrincha. Mas, como Mané, era PhD da bola. Penso que os meninos com sete anos em 62 jamais aceitariam que a bebida, e não os zagueiros, seria capaz de derrubar seu ídolo. Eu, pelo menos, não consigo aceitar.

Dizem que Pelé não torcia para o Santos aos sete anos. Meu ídolo, sim. Justamente por causa de Pelé. Mas também virou a casaca ao se ver representante eterno de uma torcida, a do Corinthians, o meu time... o nosso time! Imagino meu ídolo aos sete anos, absorto com a maestria do melhor de todos os jogadores, sua competência em ditar o ritmo e a lógica da partida. Volto aos meus sete anos, quando ficava embasbacado ao notar que meu ídolo, a seu modo, também era capaz de majestosas proezas, ainda que não se lhe outorgassem a coroa de um rei.

Ontem foi um dia, ao mesmo tempo, feliz e triste. Ontem, nosso time foi campeão e meu ídolo morreu. Lembrei-me da primeira vez que comemorei um título do nosso time. Meu ídolo jogou, foi o principal responsável pela conquista. E eu tinha sete anos.


Bandeira que ganhei do meu tio Nino quando o Corinthians foi campeão paulista de 1979