27/06/2011

Relato de um majestoso tabu em casal




Começamos a ficar juntos em 2003, pouco depois do Corinthians ter faturado o Paulistão contra o São Paulo. Como bom corinthiano, comemorei muito as duas vitórias por 3 a 2 contra o tricolor. Também tirei minhas casquinhas nos amigos são-paulinos. Como bom cavalheiro, porém, preservei-a de maiores zombarias futebolísticas.

A relação foi se prolongando, ficando séria. Passamos todo o ano juntos. Muito além, confesso, do que pensava que duraria. Naquele ano, após a final do paulista, o time dela batera o meu em junho e goleara em dezembro. Como boa companheira, ela restringiu as gozações a sorrisos marotos e leves manifestações de uma suposta superioridade.

As coisas ficaram sérias. Tanto no aspecto afetivo como no ludopédico. Dois anos já tinham ido, podíamos nos dizer, sei lá, noivos. Ela praticamente passou a morar na minha casa ou, a rigor, na casa de meus pais. Sua presença me alegrava, apesar das brigas que têm todos os casais. O que me intrigava era aquela espécie de maldição futebolística, já traduzida pelos comentaristas esportivos como um pequeno tabu.

Ao final de 2005, meu Corinthians sagrou-se campeão brasileiro, em um polêmico certame em que 11 partidas tiveram que ser jogadas novamente, após descoberta de que um juiz ladrão participava de um esquema de manipulação de resultados. Só que, mesmo campeão nacional, contando com Nilmar, Masquerano, Tevez e companhia, o Timão já amargava oito partidas sem vencer o São Paulo. Em uma delas, inclusive, tomou uma sova histórica (5 a 1!), no Pacaembu, com direito ao primeiro gol de Rogério Ceni, de pênalti, no Timão, em que fiquei com a clara impressão de que a surra só não foi maior porque os jogadores são-paulinos ficaram com dó.

Pior que isso (dava para ser pior?), também em 2005, o Tricolor faturou a terceira Libertadores – justo a Libertadores, nossa obsessão! – e, em seguida, o Mundial de Clubes da FIFA – o mesmo torneio cujo primeiro e até então único campeão era o Corinthians! Apesar de tudo, como prova de amor, herculeamente, esforcei-me para torcer pelo arquirrival no fatídico jogo contra o Liverpool. E deu certo (certo?). Apesar de só o time inglês ter jogado, o São Paulo venceu por 1 a 0. Nesse dia, convenci-me de que o tal Rogério Ceni não é só bom batedor de faltas; é bom goleiro também. A melhor parte foi ver a alegria estampada no semblante dela quando o juiz apitou o final da partida. Aquele olhar me fez entender que o sacrifício valera a pena.

Em 2006, nossa vida sofreu uma reviravolta definitiva. Aprovado em um concurso público, mudei-me para a capital. Que maravilha! Poderia curtir a vida cultural da metrópole: cinemas, teatros, shows e, lógico, os jogos do Timão no Pacaembu. Aluguei um apartamento e, em seguida, ela veio morar comigo. Impus-lhe a condição de não parar a faculdade e arranjar um trabalho. Em um mês, se tanto, as condições estavam satisfeitas e eu não tinha mais como escapar: estávamos casados... ainda que em união estável. Apesar do tempo juntos, o receio era natural. Será que daria certo? Será que não era ela a responsável pela maldição do Majestoso – como é chamado o clássico entre Corinthians e São Paulo –, a culpada por aquele tabu? Afinal, desde que estávamos juntos, jamais meu time havia vencido o dela. Neste mesmo ano, a sina persistiu. Além disso, o São Paulo venceu o Brasileirão. Ela, apesar de carinhosa, apesar de sutil nas observações, já me tratava como freguês.

O duro era aguentar as piadinhas. A mais engraçada – para quem não era corinthiano, claro – era a do cachorro. Mais ou menos, assim: o sujeito comenta com um amigo que suspeitava que seu cachorro era corinthiano, pois toda vez que o Corinthians perdia para o São Paulo, o bicho se escondia na casinha e ficava chorando; quando o Corinthians empatava, ia para a cozinha e não sai mais, todo sem graça. “E quando o Corinthians ganha”, questiona o amigo, ao que o sujeito responde: “Ainda não sei, só tenho o cachorro há três anos!”. Como esta, haviam milhares de anedotas e chistes sobre a freguesia mosqueteira no Majestoso.

Chegamos a 2007, um ano emblemático. Logo no réveillon, fiz lá meus desejos, dentre os quais acabar com o tabu. Em fevereiro, no primeiro Majestoso do ano, procurei reunir todas as forças místicas para dar cabo do problema. Liguei para um amigo, que conhecia um bar no qual jamais assistira uma peleja em que Timão tivesse saído sem os três pontos. Já pra lá!, pensei. Mas eis que a sina parecia resistente: o bar estava fechado. Isso é hora de se reformar um estabelecimento desses? Bem, resolvi assistir à partida em casa, recorrendo a mandingas caseiras: usar a camisa da sorte, bater no braço do sofá três vezes, não tomar cerveja enquanto o adversário atacava, coisas do tipo. Sabe-se lá por que, estava convicto de que o jejum acabaria naquele dia. Na verdade, não conseguia me conformar que durasse tanto. Resultado final: 3 a 1... para o São Paulo. Com direito a outro gol do Rogério Ceni – cara chato! –, o segundo dele contra o meu Corinthians.

Fiquei acabado. Reclamei, esbravejei, roguei pragas contra tudo e contra todos. E ela, percebendo que a coisa ficara séria, veio me acolher. Sequer fez menção em tirar sarro, reforçar a lembrança da freguesia, nada disso. Não por medo de brigas, mas por companheirismo mesmo. Notei que ela própria passava a querer que aquele tabu findasse. Para o meu bem e para bem do nosso casamento. Acompanhou-me até a padaria da esquina, onde eu terminei de afogar as mágoas. E dizem que corinthiano gosta de sofrer! Tudo tem limites nessa vida, ora bolas! O bom disso foi notar a verdade do dito popular: azar no jogo, sorte no amor.

Em julho, um empatezinho de 1 a 1 deu o sinal de que alguma coisa mudaria em breve. Foi então que, no momento de maior angústia, quando meu Corinthians brigava para não ficar na zona de rebaixamento e o São Paulo dela rumava para o bicampeonato brasileiro, quando se esperava uma goleada histórica, deu-se o, digamos, milagre. Em um jogo truncado, em que o limitadíssimo escrete alvinegro foi mais raçudo do que nunca, em um ataque aparentemente despretensioso, a bola sobrou para o zagueiro Betão mandar a bola para o fundo das redes de Ceni – tooooma!!! Eu não me aguentava no sofá. Gritava como um doido, pulava, xingava. Quando o juiz apitou, então, esguelei com jamais na vida: acabooooooouuuu!!!! Xoooô, tabu!!! Olhei para ela, que, cabisbaixa, deu um sorriso amarelo e me cumprimentou. “Até que enfim”. Chamei-a para ir novamente à padaria da esquina, mas, desta vez, com outro espírito.

Como desgraça pouca é bobagem, a quebra do tabu de mais de quatro anos foi apenas o consolo para o maior vexame da história do Timão: o rebaixamento. Na fatídica partida contra o Grêmio, que assisti sentado no chão e com a TV sem som, ela preferiu manter-se fechada no quarto. Estava estudando para uma prova da faculdade, embora eu ache que a razão principal era mesmo me deixar só com meu sofrimento. Quando o jogo acabou – tá, confesso, chorei –, ela se esforçou para me consolar. “Não fique assim. Esses caras ganham uma fortuna e não estão nem aí. Não vale a pena ficar desse jeito”. Novamente, ocorreu-me o dito: azar no jogo – mas quanto azar, meu Deus! –, sorte no amor. No final do ano, até tentei retribuir, cumprimentando-a pelo bicampeonato tricolor. Por que tanto para uns e tão pouco para outros?

Em 2008, enquanto o Timão disputava e ganhava o título da segundona, retornando à Série A, de onde jamais deveria ter saído, o Tricolor faturava o tricampeonato da primeirona. No Majestoso, o Corinthians mostrou que a sina de derrotas estava realmente terminada. Ou melhor, não mais perdia para o rival São Paulo. Isso ficou mais claro em 2009, quando o alvinegro trouxe nada mais, nada menos que Ronaldo Fenômeno, o maior artilheiro de todas as Copas. Muito embora fossem grandes as dúvidas sobre a condição física do “encorpado” Ronaldo, o fato é que o Fenômeno encaixou-se perfeitamente naquele escrete que havia evoluído muito durante a campanha da Série B. Mano Menezes, o técnico do mesmo Grêmio que havia jogado a pá de cal sobre o time de Parque São Jorge em 2007, agora no clube, montara uma bela equipe: Chicão, Willian, André Santos, Elias, Cristian, Jorge Henrique e Douglas eram reforços que haviam vingado. O Timão engrenou e papou, invicto, o Paulistão, além da Copa do Brasil daquele ano. E fez do São Paulo seu freguês preferido: dos cinco jogos de 2009, três vitórias e dois empates – destaque para as vitórias nas duas partidas das semifinais do Paulistão. Nestes jogos, enquanto ela comemorava os raros gols do São Paulo na sala, em frente à TV, eu saia para gritar no quarto os muitos gols e as vitórias do meu Corinthians no quarto. Questão de diplomacia doméstica... Tooooooooma!!!!

Em 2010, ano do centenário corinthiano, tanto o alvinegro como o tricolor participaram da Libertadores. Mas não se enfrentaram. O Corinthians caiu diante do Flamengo e o São Paulo, do Internacional. No confronto direto, três partidas: três vitórias do Corinthians.

Assim, entramos em 2011. Corinthianos repletos de si, bancando de imbatíveis diante dos rivais são-paulinos. Até a piadinha do cachorro agora era contada invertendo-se os times. O tabu invertido, no entanto, serviu de motivação aos são-paulinos para findar a sina derrotista. Por falar em sina, em destino, sabe-se lá por que, naquele histórico dia 27/03/11, tanto eu quanto ela sentimos que a escrita do tabu seria encerrada. Tudo parecia confluir a favor do São Paulo. Ronaldo havia encerrado a carreira dias antes, após a desclassificação relâmpago do Corinthians na pré-Libertadores, contra o fraco Tolima, da Colômbia. Roberto Carlos também anunciara sua ida para o futebol russo, aumentando o abismo corinthiano. Mas a superioridade moral do São Paulo advinha, especialmente, do fato de Rogério Ceni estar a apenas um golzinho da histórica marca dos 100, algo incrível para um goleiro. Destaque-se: seria o centésimo gol da carreira, mas não o centésimo em jogos oficiais, reconhecidos pela FIFA. A instituição maior do futebol não admitia em suas estatísticas dois dos gols computados a Ceni. De qualquer forma, a iminência da fantástica marca dava força extra ao Tricolor. Ah, além de que o mando era do time do Morumbi que, jogando em Barueri, pelo campeonato paulista, teria praticamente todo o estádio a seu favor.

Dito e feito. São Paulo 2x1 Corinthians. Fim do tabu, com direito ao centésimo gol de Rogério Ceni. Enquanto eu assistia, e sofria, àquilo pela TV, ela estava no shopping. Na verdade, o intuito não era fazer compras, mas, tenho certeza, me deixar em paz com meu sofrimento... mais uma vez. Nada que impedisse o sorriso sádico na chegada, e as palavras de convencimento: “Não disse que o tabu ia acabar”, “Não disse que o Rogério ia marcar o centésimo”, "Não disse, não disse..."

Enfim, essa é a história dos tabus na nossa vida de casal. Tabus que, por fim, caíram. Mas continuamos amando nossos times e, principalmente, continuamos a nos amar. Pela primeira vez, estamos juntos sem que paire um tabu entre Corinthians e São Paulo. Talvez seja melhor assim. Quem vence ou quem perde, importa pouco. Os dois são grandes e sempre serão. O principal é que o clássico, assim como o casal, continue eternamente majestoso.



***

Em tempo: Coloquei este relato no blog um dia após o Corinthians ter vencido o São Paulo por 5 a 0, com direito a frango de Rogério Ceni. É o primeiro jogo pós-tabus. Só por isso este texto foi postado agora. Só por isso...

Curiosidade: Rogério Ceni e Liedson estiveram presentes na primeira e na última partida aqui mencionadas, respectivamente em 2003 e 2011.

26/06/2011

Dois meninos



O ano: 1950. O menino brincava enquanto o pai ouvia o rádio com máxima atenção. O pai, jogador de futebol profissional, dissera ao garoto que aquela era a mais importante partida da história do país. Uma final de Copa do Mundo disputada no Brasil, em que a seleção nacional, com seu glorioso uniforme branco, disputaria, favorita, a taça contra a celeste uruguaia. O menino, vendo a seriedade no semblante do pai, compreendia, na sua forma de criança, o quão relevante era aquele jogo de bola para os adultos; para seu pai, em especial. Apesar de continuar brincando, não deixava de atentar para as reações e humores do velho por um segundo sequer. Assim, sorriu quando o pai comemorou o gol da seleção, ficou apreensivo quando ocorreu o empate e arrasado quando um tal de Ghiggia marcou o tento da virada. Só não chorou como o pai, que foi às lágrimas quando o jogo acabou e o Brasil, apesar do favoritismo, de ter Zizinho e de jogar em casa, perdeu um Mundial que todos davam como ganho. Com um sorriso envergonhado, o menino se aproximou do pai e disse, amoroso:

- Não liga não, pai. Quando eu crescer, ganho um desse pro senhor.

Quando o Uruguai bateu o Brasil naquela final de Copa, o tal menino tinha apenas nove anos de idade. Oito anos depois, aos dezessete, participou da campanha brasileira na Suécia, quando nossa seleção, jogando ora de amarelo, ora de azul, conquistou seu primeiro título mundial. A partir de então, o Brasil tornou-se o maior vencedor de mundiais e o status de país do futebol; o tal menino tornou-se o rei desse esporte. E o Santos, o time que o revelou, até hoje é conhecido como o mais completo e vencedor clube enquanto Pelé desfilou seu imenso talento pelos gramados do país e do mundo:

O ano: 2003. O mesmo Santos, pela primeira vez após a despedida do seu maior astro, disputava uma final de Libertadores. Com o rei, conquistara dois títulos; o primeiro contra o Boca Juniors, da Argentina, e o segundo, contra o Peñarol, do Uruguai. Mas isso ocorrera há quase quarenta anos. Desta vez, o adversário era novamente o Boca, o mesmo da primeira conquista. Outros meninos brilhantes haviam surgido na Vila famosa, a confiança era total. Não obstante, os argentinos tinham vencido o primeiro jogo, lá, por dois a zero. Nada que não pudesse ser revertido na finalíssima, em casa. Entre tantos torcedores, um homem assistia à partida pela televisão, enquanto o filho de onze anos brincava ao lado. Sim, brincava, mas não deixava de observar a peleja, nem de reparar nas reações e humores do pai. Quando a partida acabou, percebeu que a derrota por três a um para os argentinos, com Robinho e tudo, arrancara, além de alguns xingamentos, uma lágrima do pai. E, docemente, tentou consolá-lo:

- Não liga não, pai. Quando eu crescer, ganho um desse pro senhor.

O pai sorriu, apesar da dor da derrota. Notara a semelhança com a história do outro menino. Só não podia imaginar que o consolo do filho não era mera coincidência, mas o destino novamente escrito pela boca e pelo talento de outro menino, o seu Junior. Oito anos depois, o Santos disputa novamente uma final de Libertadores, contra o Peñarol – sim, o mesmo do segundo título da América –, e ergue a taça pela terceira vez. Melhor: pela primeira, após a despedida do seu menino-rei dos gramados. Agora, o Junior é o novo menino-rei.

Eis as histórias de dois meninos que reverteram a história. Que, de certa forma, nos redimiram. De uma final melancólica, de derrota, reescreveram outra, vitoriosa, campeã. A história do menino Pelé ocorreu de verdade. Já a do menino Neymar... bem, nada há que prove a existência dos fatos relatados, pelo menos até a vitória contra os uruguaios, absolutamente verdadeira. E é isso o que importa: é verdade que esses meninos cresceram, viraram reis e trouxeram – e continuam trazendo –, com seu talento inigualável de tratar a bola, tantas alegrias e taças. E também é verdade que esses meninos nasceram e nascerão de tempos em tempos neste país. Meninos de favelas, de campinhos de várzea, de escolinhas. Meninos da Vila. Meninos do Brasil.

JFQ

10/06/2011

A despedida do Fenômeno


Segunda-feira, no final da tarde, tive um estalo: se não for ao Pacaembu, jamais verei Ronaldo novamente em campo. O estalo me removeu os obstáculos que o mau tempo e o bolso impunham. Cento e quarenta reais, no Tobogã, com boas chances de assistir à partida sob chuva eram fatores que pesavam muito contra a decisão de ir ao estádio. Mas, enfim, não poderia faltar à despedida deste fenomenal artilheiro que me trouxe tantas alegrias como brasileiro e corinthiano. De mais a mais, duas ou três vezes que eu deixasse de ir a um boteco seriam suficientes para compensar o gasto. E, como diria nosso eterno Vicente Mateus, quem sai na chuva é para se queimar... (?)

Decisão tomada, vamos à execução. Um dia todo gasto em deslocamento para buscar o ingresso, ir ao trabalho, tomar o metrô (meia hora para passar a catraca da estação Sé!) e voltar ao Pacaembu, onde, dali a somente três horas, a seleção brasileira entraria em campo para enfrentar a Romênia. Ah, e o Fenômeno jogaria apenas 15 minutos. E daí?


 
A presença de Ronaldo nos campos foi fundamental para que torcedores como eu, que não vimos a geração de Pelé e há muitos anos deixamos de ver a geração de Zico e Sócrates, reavivássemos o amor pelo futebol e pela camisa da seleção brasileira.

Valeu, Fenômeno!

08/04/2011

"O Fator Deus", por José Saramago

No ano em que os atentados de 11 de setembro completam 10 anos, achei oportuno, para reflexão, colocar no blog texto de José Saramago, escrito na época.

Infelizmente, talvez esse texto se revele bastante atual, no momento em que o nome de Deus é pronunciado em matanças no mundo árabe, em que, sob a Sua benção, pastor da Flórida incita a queima do Corão e funcionários da ONU são assassinados no Afeganistão, em que deputado exalta a própria homofobia, taxando gays como avessos à família e a Ele, em que psicótico, à moda norte-americana, mata crianças em uma escola no Rio, pactuando previamente o Seu perdão...

O mundo - as religiões, em particular - precisa rever seriamente o que compreende por Deus e como influencia os seus fiéis, procurando evitar as barbaridades cometidas em nome Dele.

***

O fator Deus

JOSÉ SARAMAGO


Algures na Índia. Uma fila de peças de artilharia em posição. Atado à boca de cada uma delas há um homem. No primeiro plano da fotografia um oficial britânico ergue a espada e vai dar ordem de fogo. Não dispomos de imagens do efeito dos disparos, mas até a mais obtusa das imaginações poderá "ver" cabeças e troncos dispersos pelo campo de tiro, restos sanguinolentos, vísceras, membros amputados. Os homens eram rebeldes.

Algures em Angola. Dois soldados portugueses levantam pelos braços um

negro que talvez não esteja morto, outro soldado empunha um machete e prepara-se para lhe separar a cabeça do corpo. Esta é a primeira fotografia. Na segunda, desta vez há uma segunda fotografia, a cabeça já foi cortada, está espetada num pau, e os soldados riem. O negro era um guerrilheiro. Algures em Israel. Enquanto alguns soldados israelitas imobilizam um palestino, outro militar parte-lhe à martelada os ossos da mão direita. O palestino tinha atirado pedras. Estados Unidos da América do Norte, cidade de Nova York. Dois aviões comerciais norte-americanos, sequestrados por terroristas relacionados com o integrismo islâmico, lançam-se contra as torres do World Trade Center e deitam-nas abaixo.

Pelo mesmo processo um terceiro avião causa danos enormes no edifício do Pentágono, sede do poder bélico dos States. Os mortos, soterrados nos escombros, reduzidos a migalhas, volatilizados, contam-se por milhares.

As fotografias da Índia, de Angola e de Israel atiram-nos com o horror à cara, as vítimas são-nos mostradas no próprio instante da tortura, da agônica expectativa, da morte ignóbil. Em Nova York tudo pareceu irreal ao princípio, episódio repetido e sem novidade de mais uma catástrofe cinematográfica, realmente empolgante pelo grau de ilusão conseguido pelo engenheiro de efeitos especiais, mas limpo de estertores, de jorros de sangue, de carnes esmagadas, de ossos triturados, de merda. O horror, agachado como um animal imundo, esperou que saíssemos da estupefação para nos saltar à garganta. O horror disse pela primeira vez "aqui estou" quando aquelas pessoas saltaram para o vazio como se tivessem acabado de escolher uma morte que fosse sua. Agora o horror aparecerá a cada instante ao remover-se uma pedra, um pedaço de parede, uma chapa de alumínio retorcida, e será uma cabeça irreconhecível, um braço, uma perna, um abdômen desfeito, um tórax espalmado. Mas até mesmo isto é repetitivo e monótono, de certo modo já conhecido pelas imagens que nos chegaram daquele Ruanda-de-um-milhão-de-mortos, daquele Vietnã cozido a napalme, daquelas execuções em estádios cheios de gente, daqueles linchamentos e espancamentos daqueles soldados iraquianos sepultados vivos debaixo de toneladas de areia, daquelas bombas atômicas que arrasaram e calcinaram Hiroshima e Nagasaki, daqueles crematórios nazistas a vomitar cinzas, daqueles caminhões a despejar cadáveres como se de lixo se tratasse. De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta aos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em nome de Deus. Já foi dito que as religiões, todas elas, sem exceção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, que, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana. Ao menos em sinal de respeito pela vida, deveríamos ter a coragem de proclamar em todas as circunstâncias esta verdade evidente e demonstrável, mas a maioria dos crentes de qualquer religião não só fingem ignorá-lo, como se levantam iracundos e intolerantes contra aqueles para quem Deus não é mais que um nome, nada mais que um nome, o nome que, por medo de morrer, lhe pusemos um dia e que viria a travar-nos o passo para uma humanização real. Em troca prometeram-nos paraísos e ameaçaram-nos com infernos, tão falsos uns como outros, insultos descarados a uma inteligência e a um sentido comum que tanto trabalho nos deram a criar. Disse Nietzsche que tudo seria permitido se Deus não existisse, e eu respondo que precisamente por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o pior, principalmente o mais horrendo e cruel. Durante séculos a Inquisição foi, ela também, como hoje os talebanes, uma organização terrorista que se dedicou a interpretar perversamente textos sagrados que deveriam merecer o respeito de quem neles dizia crer, um monstruoso conúbio pactuado entre a religião e o Estado contra a liberdade de consciência e contra o mais humano dos direitos: o direito a dizer não, o direito à heresia, o direito a escolher outra coisa, que isso só a palavra heresia significa.

E, contudo, Deus está inocente. Inocente como algo que não existe, que não existiu nem existirá nunca, inocente de haver criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações do seu poder e da sua glória, enquanto os mortos se vão acumulando, estes das torres gêmeas de Nova York, e todos os outros que, em nome de um Deus tornado assassino pela vontade e pela ação dos homens, cobriram e teimam em cobrir de terror e sangue as páginas da história. Os deuses, acho eu, só existem no cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou, mas o "fator Deus", esse, está presente na vida como se efetivamente fosse o dono e o senhor dela. Não é um deus, mas o "fator Deus" o que se exibe nas notas de dólar e se mostra nos cartazes que pedem para a América (a dos Estados Unidos, não a outra...) a bênção divina. E foi o "fator Deus" em que o deus islâmico se transformou, que atirou contra as torres do World Trade Center os aviões da revolta contra os desprezos e da vingança contra as humilhações. Dir-se-á que um deus andou a semear ventos e que outro deus responde agora com tempestades. É possível, é mesmo certo. Mas não foram eles, pobres deuses sem culpa, foi o "fator Deus", esse que é terrivelmente igual em todos os seres humanos onde quer que estejam e seja qual for a religião que professem, esse que tem intoxicado o pensamento e aberto as portas às intolerâncias mais sórdidas, esse que não respeita senão aquilo em que manda crer, esse que depois de presumir ter feito da besta um homem acabou por fazer do homem uma besta.

Ao leitor crente (de qualquer crença...) que tenha conseguido suportar a repugnância que estas palavras provavelmente lhe inspiraram, não peço que se passe ao ateísmo de quem as escreveu. Simplesmente lhe rogo que compreenda, pelo sentimento de não poder ser pela razão, que, se há Deus, há só um Deus, e que, na sua relação com ele, o que menos importa é o nome que lhe ensinaram a dar. E que desconfie do "fator Deus". Não faltam ao espírito humano inimigos, mas esse é um dos mais pertinazes e corrosivos. Como ficou demonstrado e desgraçadamente continuará a demonstrar-se.

* Publicado na Folha de S.Paulo, em 19/09/2001.

06/04/2011

Racismo, não! Homofobia, pode?

Há poucos dias, o lateral Roberto Carlos, em partida do seu time, o Anzhi Makhachkala, contra o Zenit, ambos da Rússia, foi alvo de manifestação racista ao entrar em campo. Um torcedor aproximou-se para lhe entregar uma banana. Na partida entre Brasil e Escócia, uma banana foi jogada no gramado, causando enorme mal-estar por, num primeiro momento, suspeitar-se tratar de ato racista contra Neymar.

Os dois episódios, pela associação com o racismo, causaram asco na maioria das pessoas. “Como pode acontecer algo assim em pleno século XXI?”, indagam jornalistas, jogadores, torcedores e cidadãos em geral.

No entanto, a mesma repulsa não ocorre em relação à homofobia. Como se esta forma de preconceito não tivesse alcançado, digamos, o status de atitude moralmente reprovável ou mesmo criminosa que já alcançaram o machismo e o racismo, por exemplo.

Prova disso foi a manifestação da torcida do Cruzeiro, em partida pelas semifinais da Superliga de vôlei masculino, contra o jogador Michael dos Santos, do Vôlei Futuro, de Araçatuba (ver matéria: http://globoesporte.globo.com/volei/noticia/2011/04/volei-futuro-reclama-de-homofobia-e-tumulto-em-minas-cruzeiro-rebate.html ).

É bom que se diga: a repulsa causada pelo racismo e a quase normalidade com que se dá a homofobia não é um estranho contraste na cabeça de poucos, mas cultivado pela maioria das pessoas na nossa sociedade. Por um lado, há que se comemorar o fato de negros, apesar dos pesares, terem avançado nas suas conquistas. Reforço: apesar dos pesares, ou seja, apesar de estarmos muito longe de considerar superado o problema do racismo no Brasil. Por outro lado, é premente que sejam tomadas atitudes enérgicas para que atos de hostilidade contra homossexuais deixem de ser entendidos como fruto de um “preconceito aceitável” ou, pior, como reação legítima de resguardo da família, dos bons costumes ou qualquer valor tradicional concebido de modo bitolado, fechado, cujos defensores mais radicais se veem como guardiães da palavra de Deus, da Moral ou o do que os valha.

Por falar nisso, o deputado Jair Bolsonaro, ontem, no programa CQC, da Band, confirmou que fora mal interpretado na entrevista de semana passada. Tentando externar toda sua raiva contra os homossexuais, foi, coitado, tomado por racista. Quanta injustiça! A propósito, parabéns a Marcelo Tas, que, expondo a si próprio e à filha, que é gay, deu verdadeira prova de coragem ao tornar público seu orgulho por ela. Quem sabe, um dia esse orgulho possa superar o ódio e incapacidade de convivência ainda vistos em campos, quadras, parlamentos e alhures. Chegou a hora de dar uma banana a todas as formas de preconceito, inclusive a homofobia.

04/04/2011

É preciso aproveitar o “momento Bolsonaro”

Para muitos, Jair Bolsonaro é polêmico. Para outros, como o petista Cândido Vacarezza, Bolsonaro é estúpido. Para alguns, o parlamentar carioca é preconceituoso, mas há também – e são muitos – os que o consideram “apenas” sincero em suas convicções.

Seja lá o perfil que se atribua a Bolsonaro, há uma série de temas relevantes que vieram à tona com sua nova “performance”, na famosa entrevista ao CQC. Assim como uma série de medidas que podem ser tomadas, incentivadas por este “momento Bolsonaro”. São elas:


Um “preconceito aceitável”?

Admitamos como verdadeira que a resposta dada a Preta Gil, como alega o deputado, não se referia aos negros, mas aos gays. Logo, concluiremos: o deputado pensa que preconceito contra negros não é aceitável, mas contra gays, sim.

Talvez esteja, de fato, arraigada na sociedade brasileira atual essa impressão: a homofobia é um “preconceito aceitável”. Ou, quem sabe, sequer seja admitida como um preconceito. Mas, sim, proteção da família, da moral e dos bons costumes. Podem, inclusive, argumentar que homossexualismo é doença ou coisa do demo.

Historicamente, às mulheres não cabiam os mesmos direitos atribuídos aos homens. O direito ao voto, por exemplo, ou o termo “mulher honesta”, constante do Código Penal até há pouco tempo, evidenciam que o machismo, além de culturalmente sedimentado, estava institucionalizado no próprio ordenamento legal. Após brava luta feminista, hoje, pelo menos à vista de todos, não é admissível determinadas atitudes contra as mulheres, muito embora, claro, elas tenham muito ainda por conquistar. Bem, o próprio fato de termos hoje uma presidenta, democraticamente eleita, é sinal de que algo mudou.

Com os negros ocorre algo parecido. Em uma sociedade historicamente marcada pela escravidão, apesar de não termos tido algo como o apartheid sul-africano ou as leis discriminatórias norte-americanas – nos tempos em que não se imaginaria Mandela ou Obama eleitos presidentes –, tivemos (e ainda temos, em boa medida) formas de perpetuação dos negros em posições subalternas, alijados de conquistas e direitos. De qualquer forma, para usar um exemplo relativamente recente, se um jogador de futebol xingar outro de macaco, é bem possível que saia do estádio direto para uma delegacia, além de responder a processo judicial.

Em suma, mulheres e negros avançaram na conquista efetiva de direitos. Avançaram na luta contra a discriminação. Além disso, destaco: institucionalizaram algumas de suas conquistas. A Constituição de 1988 afirma que homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações (art. 5º, I), assim como o racismo é crime inafiançável e imprescritível (art. 5º, XLII). Em âmbito infraconstitucional, mulheres e negros também encontram guarida legal, como, por exemplo, na Lei 7716/89 (crimes de preconceito de raça ou de cor) ou na Lei 11340/06 (Maria da Penha).

No entanto, em que pese o art. 3º, IV, da Constituição, que determina como objetivo do Brasil promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade ou qualquer outra forma de discriminação, desconheço proteção legal específica aos homossexuais.

Eis a primeira medida que pode ser feita a partir do “momento Bolsonaro”: a promulgação de lei que criminalize a homofobia.

Há, sim, projetos tramitando no Congresso. O que talvez não há – pelo menos até agora – é a oportunidade para fazer com que tal projeto seja transformado em lei. Vale dizer, o que não ocorre, em medida considerável, por força de bancadas e parlamentares religiosos. Porém, da mesma forma, a submissão da mulher ao homem e a escravidão já foram tolerados e respaldados em discursos com citações bíblicas, em sermões de quem, em tese, fala em nome de Deus. É possível que se questione vigorosamente a naturalidade, ainda muito presente, com que os homossexuais são atacados sob o pretexto abjeto de se tratar de um preconceito em nome do Todo-Poderoso. Como se sua existência, e não a violência discriminatória ou mesmo física que sofrem, fosse um acinte às pessoas de bem e às famílias. Pelo menos, é o que pregam os que se acham donos da família e de Deus.

Questão de opinião?

Para surpresa de muitos, pululam aos milhares na internet manifestações favoráveis a Jair Bolsonaro. Afora quem comungue do pensamento retrógrado do deputado, há um argumento que chama a atenção: a democracia requer que se respeite todas as opiniões. Assim, o comentário racista ou homofóbico de Bolsonaro é interpretado como “mera” opinião, tão garantida pela Constituição como os direitos dos negros e dos gays. Simples assim. Será?

Os defensores de Bolsonaro apontam sua fidelidade às convicções. Cumulado a isso, o fato de a democracia exigir que se respeite a opinião alheia, por mais avessa que seja às nossas próprias opiniões ou valores. No entanto, também em nome da democracia, há limites à manifestação das opiniões. Por exemplo: em nome desse regime político, posso exaltar o nazismo ou o holocausto? Posso externar minha simpatia a crimes como a tortura? Posso fazer apologia da discriminação racial ou sexual? Não. Há, inclusive, limites impostos pela própria Constituição e por leis infraconstitucionais, como já dito.

Além disso, o parlamentar é enaltecido pela “coragem de falar o que pensa” e – o elogia da moda – por ser ficha limpa. O ficha limpa virou um bordão do senso comum, uma panaceia para todos os males da política e do Brasil. Como se todos os prós e contras nacionais fossem separáveis – qual o joio do trigo – entre fichas sujas e fichas limpas. Pior: como se apologia à tortura, assassinatos, racismo ou homofobia não fossem tão ou mais repugnantes que a clássica corrupção. Do “rouba, mas faz”, Bolsonaro inaugura o slogan “tortura e discrimina, mas é ficha limpa”.

Essa defesa do deputado reside em indisfarçável incapacidade em lidar com a democracia. Como também se trata de déficit democrático, em sentido contrário, sua condenação sumária. No caso dos defensores, prospera a falácia de que “no tempo dos militares” não havia corrupção. Mentira que deve ser contraditada, tanto pelo fato de na ditadura a imprensa ser tenazmente censurada – o que impedia a produção livre e a credibilidade das notícias ou denúncias de quaisquer espécie –, como pelo fato de os militares terem encontrado sustentação política em figuras para lá de suspeitas – para dizer o mínimo do mínimo –, como Paulo Maluf (eleito prefeito e governador e candidato à Presidência sob as bênçãos dos quartéis) ou José Sarney (presidente do PDS, partido da ditadura).

Segunda conclusão: É preciso aproveitar este momento para, sem qualquer sentimento de injustiça, levar adiante o processo de cassação do deputado Jair Bolsonaro. É preciso que se respeite a democracia e o Estado de direito que o Brasil, a duríssimas penas, e contra pessoas como o deputado Bolsonaro, conseguiu construir e, apesar dos pesares, manter e desenvolver.

Reforma política e o voto em lista

Chama a atenção o silêncio do Partido Progressista, o PP, do qual faz parte o deputado Bolsonaro. Afinal, o partido não tem qualquer responsabilidade sobre o que fazem seus parlamentares. Ou, quem sabe, não deve tomar partido (com o perdão do trocadilho) por atitudes “individuais” de seus filiados. Ou, ainda, como quem cala consente, não vê nada de mais nas “polêmicas” opiniões do nobre deputado.

Sim, claro que o partido deve ser chamado a se explicar e a assumir responsabilidades que também são suas. É legítimo que se lhe cobre a punição, até mesmo a desfiliação compulsória do mandatário de cargo político eleito sob sua legenda. Mas, diante da inércia, o que fazer?

Tramita atualmente no Congresso o projeto de reforma política. O principal tópico da reforma é a mudança do sistema eleitoral. Voto em lista, voto distrital, voto distrital misto são sistemas existentes nas democracias consolidadas e que servem como referência para as discussões da reforma brasileira. Eu, particularmente, tenho simpatia pelo voto em lista, muito embora considere pertinentes as críticas que tal sistema sofre, sobretudo, pelo possível fortalecimento excessivo do poder dos caciques de cada partido. Estes podem determinar unilateralmente os nomes da lista, tirando do eleitor a possibilidade de escolher os parlamentares que serão eleitos. Dessa forma, sou favorável ao voto em lista, mas com ressalvas. Por exemplo: a democracia interna dos partidos deve ser um pressuposto, não uma prerrogativa de cada agremiação. A escolha dos nomes da lista deve vir, obrigatoriamente, em prévias partidárias. Ou ainda – proposta minha – o voto pode ser dado em dois turnos: no primeiro, escolhe-se os partidos, determinando-se o percentual de cadeiras que cada qual terá; no segundo, em voto facultativo, também os eleitores escolhem os nomes que preencherão as cadeiras.

Votando a Bolsonaro, o voto em lista traz a vantagem de o próprio partido ser impelido a defender todos os seus candidatos. Ou melhor, todos os companheiros de lista teriam a missão de defender todos os nomes da lista, numa estratégia “um por todos e todos por um”. Por extensão, veriam-se obrigados a extirpar da lista aqueles candidatos que prejudicariam sua própria eleição. Em síntese, a presença de Bolsonaro – considerando suposta rejeição causada por seu nome – dificultaria a eleição de todos os seus colegas de PP. Diferentemente de hoje, quando todos se beneficiam dos votos trazidos por quem quer que seja, aumentando a soma do coeficiente eleitoral.

Terceira conclusão: É preciso aproveitar o “momento Bolsonaro” para levar adiante a reforma política e discutir a proposta do voto em lista, com salvaguardas para que os núcleos duros dos partidos não se tornem castas intocáveis e poderosíssimas no sistema político.

A Comissão da Verdade

Por fim, diante de mais uma manifestação de desapreço pela vida e pela dignidade humana sob a forma de apologia da tortura, é preciso que a Comissão da Verdade seja, finalmente, constituída. Assim como ocorreu na África do Sul, por determinação de Mandela e sob a coordenação de Desmond Tutu – dois prêmios Nobel da paz –, na Espanha, Portugal e em outros países.

Não se trata de revanchismo ou coisa do tipo, mas de resgate da história e devida responsabilização do Estado e seus agentes para com famílias de pessoas cujas vidas foram covardemente ceifadas. Há um abismo entre o Brasil e outros países que passaram pela vergonha da ditadura. Na Argentina, por exemplo, até mesmo ex-presidentes foram punidos. Lá, a punição dos agentes da ditadura não é vista sob a ótica do revanchismo, mas da justiça – a propósito, recomendo o ótimo filme “O Segredo dos Seus Olhos”, ganhador do Oscar (recomendo também o documentário brasileiro “Cidadão Boilesen”). Seria difícil imaginar os argentinos impassíveis com o desdém de um deputado pela busca angustiante dos restos mortais de familiares, como verificado no desenho do cachorrinho, colado na porta do gabinete de Bolsonaro.

Falando nisso, aproveito para aplaudir ação do promotor Otávio Bravo, do Ministério Público Militar do Rio, que abriu investigação sobre desaparecimentos de pessoas durante a ditadura com a participação de agentes das Forças Armadas ou que tenha ocorrido dentro de suas unidades. Aplaudo, especialmente, a inteligência da tese defendida pelo promotor, que postula que os casos de desaparecidos devem ser considerados sequestro em andamento até a localização de eventual resto mortal ou de “evidências verossímeis” de que as vítimas foram soltas ou mortas. Em suma, trata os casos sob o fundamento das leis penais vigentes, driblando o eterno pretexto de que a Lei de Anistia protege “os dois lados”.

Concluindo: é preciso aproveitar o “momento Bolsonaro” para efetivar a Comissão da Verdade.

***

Conclusão geral: à parte a repugnância gerada por seu protagonista, o “momento Bolsonaro” pode ser bastante útil para se concretizar algumas medidas politicamente difíceis. No caso, a promulgação de lei que criminalize a homofobia, a abertura do processo da cassação do próprio deputado, a reforma política e a constituição da Comissão da Verdade.

31/03/2011

Imagens inusitadas. Também por isso, maravilhosas

Há quem viva se queixando de que nada muda no Brasil ou no mundo. Apesar da persistência de muitas mazelas e da recorrência de problemas que há muito gostaríamos que estivessem solucionados, não dá para negar que, em vários aspectos, já avançamos.

Basta observar algumas das fotos recentes mais veiculadas pela imprensa. Imagine que você estivesse no final dos anos 1970, por exemplo, e uma criatura vinda do futuro lhe apresentada a foto abaixo, com a seguinte legenda: “Chefes de Estado dos EUA e do Brasil se encontram. Ano: 2011”. Confesso que, a princípio, tenderia a pensar que o homem negro é o presidente do Brasil e a mulher, presidenta dos Estados Unidos. De qualquer forma, fosse quem fosse, não deixaria de considerar um avanço a escolha de uma mulher e de um negro para tais cargos. Porém, para o contentamento ser completo, deveria a legenda trazer a seguinte informação, muito apropriada para que vive nos anos 70: "Em 2011, o Brasil é uma democracia e seu presidente foi escolhido pelo voto popular".


Agora, depois de cientes de que a mulher é a chefe de Estado do Brasil, aumentaria minha alegria ao ser apresentado à foto abaixo, com os dizeres: “Dilma, presidente do Brasil, e suas ministras”. Não, as coisas não são iguais em 2011!


Para completar, a foto abaixo. Em fins da década de 70, o sujeito ficaria estupefato ao constatar que os senhores da foto são o presidente Jimmy Carter e o presidente Fidel Castro. Pela legenda, saberia que, em 2011, são ex-presidentes dos EUA e de Cuba, em encontro na cidade de Havana.


Sim, nem tudo são flores no Brasil e no mundo de hoje. Nem tudo mudou tanto assim. No entanto, dizer que o mundo continua igualzinho, que nada melhora, me desculpe, mas parece a expressão da absoluta incapacidade de ver o mundo com otimismo, ainda que por olhos bem realistas. Conheço pessoas com essa incapacidade. Aliás, por ironia, algumas delas nasceram no final da década de 70.

30/03/2011

Tradição, família e promiscuidade

Poucos dias após o deputado Júlio Campos (DEM-MT) ter sido “mal interpretado” ao se referir ao Ministro do STF Joaquim Barbosa como “moreno escuro”, também o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) parece ter erroneamente passado por racista. Afinal, alegou o parlamentar, “minha esposa é afro-descendente e meu sogro é negão”. Ah, bom!

Em participação no programa CQC, o polêmico (no caso, eufemismo para truculento) deputado “progressista” respondeu a perguntas de populares. Perguntado sobre suas referências políticas, respondeu: Médici, Geisel, Figueiredo. Arguido sobre o que faria se pegasse o filho fumando maconha, tascou: “daria uma porrada”. Indagado sobre sua reação diante de uma hipotética homossexualidade do filho, disse que não corre esse risco, pois o filho teve boa educação, com pai presente. Também afirmou que desfiles gays são “promoção de maus costumes”. E o gran finale: questionado por Preta Gil sobre o que faria se seu filho se apaixonasse por uma garota negra, Bolsonaro respondeu: “Ô Preta, não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco. Meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambiente como, lamentavelmente, é o teu”.

Sinceramente, acredito nas desculpas de Sua Excelência. Em uma sequência de perguntas sobre gays, pode muito bem ter sido traído por uma pergunta sobre relações raciais. Enfim, ajustando as contas, Bolsonaro não teria se revelado racista, mas, sim, homofóbico. Ah, bom!

Não é novidade que Jair Bolsonaro conquistou a condição de mais bem acabada expressão do reacionarismo nacional. É o nosso Jean-Marie Le Pen e o nosso Tea Party. No entanto, além das conclusões mais óbvias, a fala de Bolsonaro, especialmente por responder a Preta Gil, fez com que me ocorresse a seguinte dúvida: qual o verdadeiro propósito que mobilizou o golpe de 1964 e qual a natureza das forças que sustentaram o regime militar?

Tenho uma hipótese: o que mais afrontava o conservadorismo radicalizado da época – com participação expressiva nas Forças Armadas e na Igreja Católica, muito embora as duas instituições também tivessem, ainda que em número menor, expoentes à esquerda – não era só o perigo do comunismo, mas o perigo da revolução cultural e comportamental que aflorara com tudo nos anos 1960. A emergência do sexo livre, o combate das mulheres às amarras machistas ou os gays mostrando-se orgulhosamente à revelia da repressão moralista, tudo isso embutido no furacão de sexo, drogas e rock’n roll, causava verdadeiro pânico nos tradicionalistas.

A principal manifestação de apoio aos militares, logo após o golpe, chamou-se Marcha da Família com Deus pela Liberdade, realizada em 02/04/64, no Rio de Janeiro. Não apenas os regimes político e econômico estavam em jogo, mas a família e Deus. Ou seja, a estrutura familiar e social, tal qual concebida tradicionalmente, sob a benção da Santa Madre Igreja, devia ser preservada. Pode-se imaginar o medo desse pessoal de ver o Brasil invadido por gays, mulheres desonradas e toda a sorte de “promiscuidade”. Tanto quanto ou maior que o medo de ver o país sob o comando de comunistas. A propósito, seriam farinha do mesmo saco: o “promíscuo” seria o equivalente comportamental do inimigo político, o “subversivo”.

Em seu livro “Verdade Tropical”, Caetano Veloso relembra o exílio imposto a ele e a Gilberto Gil, o pai de Preta. Em determinado momento, mostra-se surpreso pelo fato deles, artistas do movimento tropicalista, terem sido vítimas do regime. Logo os tropicalistas, sobre os quais pairavam críticas, vindas da própria esquerda, de concessões à cultura de massas, de serem alienados, despolitizados etc. Caetano interpreta que, de certa forma, esses “transviados” da Tropicália seriam mais perigosos ao status quo do que artistas ditos engajados.

Ao acusar Preta Gil e o ambiente familiar em que foi educada, Bolsonaro demonstra, tardiamente – anacronicamente, talvez seja o termo mais apropriado –, quem são os inimigos das viúvas da ditadura e demais reacionários. Na falta de comunistas, nesta época pós-muro de Berlin, o impulso raivoso volta-se a quem quer que desafie o mundinho ordeiro, santificado, estruturado sobre os alicerces da moral e dos bons costumes. Bolsonaro age como um defensor desse mundo e de seus valores. Assim como, para ele, devem fazer os verdadeiros patriotas, estejam eles nos quartéis, nos claustros ou quaisquer outros lugares imunes às investidas da “promiscuidade”.

Por mais respeito que se deva à opinião e à sua livre expressão em uma sociedade democrática, a própria defesa da democracia e do Estado de Direito impõe certas cautelas. A primeiríssima delas é o respeito irrestrito aos ditames da nossa Constituição, a mesma que Bolsonaro um dia jurou. Ditames como a defesa dos direitos humanos (art. 1º, III; art. 4º, II; art. 5º, III), o que não se coaduna com a apologia da tortura. Ou da construção de uma sociedade sem preconceitos (art. 3º, IV), o que não se concilia com o racismo, a homofobia ou qualquer forma de discriminação.

A se considerar o Brasil de hoje como um Estado democrático de Direito, a defesa do que prescreve nossa Constituição é o mínimo que se espera de todos os cidadãos brasileiros, especialmente daqueles democraticamente eleitos para exercer um cargo político. Inclusive Jair Bolsonaro, um viúvo apaixonado da ditadura, ironicamente eleito pelo voto popular.

***


Em tempo: tão ou mais ofensivo que as palavras de Jair Bolsonaro no programa CQC é o desenho colocado na porta do seu gabinete. Em uma alusão aos desaparecidos do Araguaia, a figura sugere que são cachorros os que procuram por ossadas naquela região do país. Imagino o quanto essa “brincadeira” não fere as pessoas que há anos buscam os corpos de familiares, provavelmente assassinados por “patriotas” como o nobre deputado.

29/03/2011

Morre José Alencar


Há pouco foi dada a notícia da morte do ex-presidente da República José Alencar. O ex-vice presidente enfrentou um câncer por 13 anos.

Alencar começou a trabalhar cedo, aos 14 anos, como vendedor de tecidos. Fundou a Coteminas, empresa que veio a se tornar um dos maiores conglomerados têxteis do país. Fez-se empresário bem sucedido, angariando grande fortuna.

Demonstrando vocação para a política, foi presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais por 15 anos, além de comandar a Associação Comercial de Minas e a Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte.

Candidatou-se ao governo de Minas em 1994, ficando em terceiro lugar. Em 98, elegeu-se senador. O grande salto na política veio em 2002, quando compôs a chapa presidencial com Lula. A presença de José Alencar como vice tinha a missão de amenizar o receio do empresariado nacional em relação a Lula. Era a junção do grande líder operário com o grande empresário. O capital e o trabalho, enfim, unidos pelo desenvolvimento do Brasil.

A mensagem foi bem recebida. Eleito, Alencar portou-se digna e mineiramente no cargo de vice-presidente. Soube assumir seu papel de coadjuvante, mas sem deixar de dar seus recados e de mostrar seu peso. Tornou-se um contumaz crítico da política de juros do próprio governo. Em 2004, assumiu o cargo de Ministro da Defesa, ajudando a enfrentar a crise do setor aéreo. Foi um alicerce, jamais um estorvo a Lula, merecendo parte dos créditos pelas conquistas do governo.

Entretanto, não foi somente como empresário ou como político que José Alencar tornou-se figura simpática aos brasileiros, passando a ser respeitado em todo o país. Alencar ganhou a admiração nacional, sobretudo, pela luta que travou bravamente pela própria vida. Em 1997, passou por cirurgia para a retirada de tumores no rim e no estômago. De lá até o dia de hoje, disputou inúmeros embates com a doença, vencendo todos. Muitas e muitas vezes vinha a notícia, acompanhada Brasil afora, de que o vice-presidente, depois o ex-vice presidente, estava internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Em geral, a notícia vinha com o destaque de que o estado do paciente inspirava cuidados especiais ou, mesmo, que era grave. A cada vez que Alencar saia do hospital, as pessoas sentenciavam: “como é forte esse homem!”

A própria presidente Dilma, em seu discurso de posse, enalteceu a força, a vontade de viver deste bravo mineiro. A propósito, a própria Dilma, também mineira, passara pela angústia de um tratamento para combater um câncer no sistema linfático.

Hoje, enfim, acabou-se a luta de José Alencar. Mesmo morto, porém, não deixa de levar o respeito dos brasileiros e das brasileiras que aprenderam a admirar sua força e seu jeito mineiro – calmo, paciente – de enfrentar, por tanto tempo, o maior de todos os adversários: a morte.

19/03/2011

Obama está podendo?

Obama e família, ao desembarcarem no Brasil, hoje

Barack Obama foi eleito presidente dos EUA após polêmica (para não dizer malfadada) gestão de George W.Bush. O primeiro presidente negro ou, como querem alguns de seus compatriotas, o primeiro presidente afro-americano da história, assumiu sob forte expectativa positiva e aos coros de “sim, nós podemos”. De longe, um slogan mais simpático do que “é a economia, estúpido”, mote de campanha do colega democrata Bill Clinton.

A propósito, passada mais da metade do mandato, vem a pergunta: nós podemos o quê, hein? Fazer um governo menos arrogante que o de Bush filho? Sim, claro, ainda bem. Mas o slogan sugere mais ousadia. Podemos ir além, podemos o impensável, podemos o impossível. Podemos fortalecer a hegemonia (ou estancar o declínio) americano no globo sem apelar às guerras e ações militares invasivas e ilegítimas (preventivas?). Podemos promover reformas sociais à esquerda (entenda-se, esquerda para padrões americanos). Podemos resgatar a pujança da economia do Tio Sam e, a reboque, a economia mundial, competindo com a superemergente China.

De fato, Obama ousou em algumas de suas atitudes, conquistou algumas vitórias, mas também mostrou certo abuso na marquetagem (um dos males das sociedades modernas) e alguns sinais de hesitação.

O presidente cuida de sua imagem a todo instante. É hábil nisso. Não descuida da pose em frente ao púlpito, na Casa Branca, quando faz ameaças veladas ou dá indiretas, ora a Ahmadinejad, ora a Kaddafi ou a quem mais a opinião pública tome como o capeta na Terra. Ou quando profere discursos na Alemanha, no Egito ou onde mais sua equipe de marketing acredite que ajudará na construção do seu perfil de “líder mundial”.

Só que além da fina estampa, da elegância e do charme, há também conteúdo político. Obama tentou promover conquistas marcantes, algumas vezes com sucesso. Agendou a retirada das tropas do Iraque – no Afeganistão, a coisa é mais complicada. Prometeu fechar a prisão de Guantânamo, o que, pelas últimas notícias, deu para trás. Promoveu a histórica reforma do sistema de saúde e colocou na agenda a reforma do sistema financeiro. Enfrenta relativamente bem a crise econômica (em que pesem os efeitos negativos da guerra cambial para nós, emergentes). Tentou resgatar relações com países árabes, abaladas pelo antecessor. Propôs a recolocação da hegemonia americana sob o “paradigma Sputinik”, uma concorrência, especialmente com a China, baseada em inovações tecnológicas constantes – algo bem mais alvissareiro que o paradigma do choque de civilizações e a decorrente estratégia da “guerra ao terror”.

Obama até recebeu um Prêmio Nobel da Paz, muito mais pelas expectativas criadas em torno de seu governo do que propriamente por realizações efetivas. No discurso, para desagrado de muitos, chamou a atenção de que a paz muitas vezes exige a guerra. Talvez fosse uma forma de dizer: sim, sou da paz, mas não se esqueçam que sou o presidente de um país chamado Estados Unidos da América, historicamente consolidado e fortalecido com fundamento nas armas e nas guerras.

Nesses anos de gestão, o atual presidente americano enfrentou/enfrenta dois momentos históricos cruciais: a crise econômica de 2008/9 e a onda contra regimes autocratas no norte da África e no Oriente Médio. São históricos porque podem determinar, finalmente, como a nova ordem mundial irá se estruturar no pós-Guerra Fria e após a frustrada tentativa de Bush em impor uma lógica neoimperialista a partir do medo contra o terrorismo (para alguns, sinônimo de muçulmanos). No entanto, o titubeio de Obama não deixa claro se poderá, de fato, constituir uma opção à proposta dos neocons. Especialmente porque a alternativa, qualquer que seja, passa pela dura admissão de que os EUA, doravante, não podem mais ser o único condutor do mundo, a partir de seus exclusivos interesses. Caso o admita, Obama, sim, ainda poderá avançar muito em mudanças relevantes. Se bobear, os neocons, falcões, Tea Party e Cia. (no sentido de companhia) poderão, por sua vez, dizer: sim, podemos retomar as rédeas da América.

***

Em tempo: atualizando observação feita no post abaixo, foi anunciado que Obama não mais fará o discurso para americano ver na Cinelândia, no Rio, amanhã. O discurso será no Teatro Municipal, para uma platéia seleta. Particularmente, achei bom. Tratando-se de teatro, melhor mesmo que o discurso ocorra no Municipal.

Museu de cera Madame Tussauds, NY

17/03/2011

Vão-se os cinemas de rua, vai-se uma época




A poucos dias da visita de Obama ao Rio de Janeiro, em compasso de espera pelo discurso a ser feito na Cinelândia, a cidade de São Paulo vê mais um de seus cinemas de rua, o Belas Artes, enfim, fechar as portas. Se a Cinelândia carioca tem esse nome porque no passado, diferentemente de hoje, abrigava várias salas de exibição, a mesma sina parece se impor à região da Avenida Paulista.

Quando vim para Sampa, no longínquo ano de 1991, fiquei orgulhoso por saber que ao longo dos quase três quilômetros de sua principal avenida havia mais cinemas que em Porto Alegre inteira. Desde então, tornei-me habitué de alguns deles. O Belas Artes, o Gemini, o do Conjunto Nacional, que já teve vários nomes – Bombril, Livraria Cultura, não sei mais o quê –, assim como o da Gazeta, hoje Reserva Cultural. Além deles, claro, têm os dos shoppings: os do Pátio Paulista, na ponta do Paraíso, e o Bristol, no Center 3, na ponta da Consolação. Para ficar só na famosa avenida, sem falar dos cinemas da rua Augusta e outros.

Há pouco tempo fechou o Gemini – pela enésima vez – e hoje, o Belas Artes. Ocorre no “centro novo” o mesmo já observado no “centro velho” de São Paulo. Os locais onde antes eram exibidas as preciosidades da sétima arte, agora se destinam ao consumo de bugigangas e aos cultos religiosos. Não dá para negar certo desconforto nostálgico, uma sensação ruim, ao constatar que hábitos caros a muitos da minha geração não mais serão possíveis. Além da frustração por um processo econômico e social que, apesar dos protestos, não é simples de ser contido, muito menos revertido. Aliás, será que deve ser contido e revertido? Há culpados, inimigos a serem combatidos?

A lembrança foi longe e retornei à minha terra natal, Birigui, onde eu ia às matinês do Cine Pérola todos os domingos, rigorosamente. Lembrei-me das filas imensas, virando a esquina, quando passava filme do Mazzaropi. Lembrei-me até de quando assisti “Os Trapalhões no Planeta dos Macacos”, minha primeiríssima ida a uma sala de cinema, morrendo de medo por achar que gorilas sairiam de trás da tela para nos atacar. Mas, terrível mesmo foi ver o prédio que abrigava o Cine Pérola ir abaixo para dar lugar ao estacionamento de um banco. Também me lembrei da luta inglória de alguns cidadãos biriguienses para tombar o prédio que abrigou o primeiro cinema da cidade, o qual não conheci, e que hoje é uma loja de motos.

Pior do que testemunhar a extinção dos cinemas de rua é perceber que não mais haverá um espaço de cultura, entretenimento e sociabilidade criado em seu redor. Acaba-se a caminhada tranqüila pela Avenida Paulista, batendo papo com a namorada ou com amigos, com destino a um boteco próximo para comentários e críticas, ao sabor de cerveja e petisco, sobre o filme que se acabara de assistir. Assim acontece no Rio, em Sampa e até em Birigui.

Os shoppings centers, com seu universo consumista, sua seletividade em prol de “gente bonita” e seus Cinemarks da vida, serão nossa única opção.


Gemini, janeiro de 2010.

14/02/2011

Crepúsculo de jogo



Marcos, Cafu , Gamarra, Baresi e Roberto Carlos, Falcão, Zico, Zidane e Maradona, Romário e Ronaldo. Na reserva: Rogério Ceni, Leandro, Lúcio, Maldini e Junior, Matthaus, Platini, Sócrates e Ronaldinho Gaúcho, Klinsmann e Van Basten. Se coubessem, estariam também Schumacher, Gullit e Careca. Às vezes me lembro de outros, sou forçado a mudar o time. Melhor não pensar.

Eis o que considero a escalação com os melhores jogadores que vi jogar, ponderadas as posições. O princípio dessa memória data do final dos anos 1970, começo dos 80. O time titular joga num 4-4-2 meio manco, assumidamente frágil na marcação: recuso-me a escalar volantes faltosos e zagueiros brucutus. Afinal, eu sou o técnico do meu time de todos os tempos – o meu tempo –, ninguém tasca. Terão que me engolir!

Como bom aspirante a boleiro, apaixonado por futebol desde que me entendo por gente, gosto da brincar de técnico, escalando times disso e daquilo. Gosto de selecionar os melhores. Noto vieses, alguns, inconscientes, outros, nem tanto. Por exemplo: na minha seleção predominam brasileiros. Também, pudera: além de ser a minha nacionalidade, somos realmente os melhores, ora bolas. Neste caso, ninguém faz mais milagre que o santo de casa.

Acompanhei e acompanho a trajetória de cada um dos ídolos que escalo nos “meus” times. Alguns, continuo a acompanhar, já que não pararam: Marcos, Ceni, Roberto Carlos. Hoje, um deles chega ao fim da carreira. Ou, como diria Fiori Giglioti, chega ao crepúsculo de jogo, torcida brasileira.

Apesar de saber que a aposentadoria viria neste ano, apesar de perceber que o desempenho atual está longe daquele dos áureos tempos, o desolamento pela notícia é inevitável. O sentimento que surge é um misto de nostalgia e de melancolia. De saudades do futebol brilhante, da fantástica capacidade em marcar gols, da determinação em superar graves lesões e críticas. De alegria pelas boas lembranças vestindo camisas que me são tão caras: da seleção brasileira e do Corinthians. Que maravilha rever os gols em Oliver Kahn! Ou aquele golaço contra o Santos, encobrindo Fábio Costa! Para não falar daquele do alambrado, de cabeça – o ponto fraco do Fenômeno –, contra o Palmeiras, no último minuto! Que delícia!

Infelizmente, também há tristeza, vergonha e revolta pela antecipação do fim motivar-se, em parte, pela violência das “organizadas” que dizem representar a torcida da qual faço parte.


Eis Ronaldo: Três vezes escolhido o melhor jogador do mundo. Campeão de duas Copas e maior artilheiro de todas elas. O segundo maior artilheiro da seleção brasileira, atrás somente de Pelé (ou o primeiro, já que, como diria Pepe, Pelé não conta...)*. Bi-campeão da Copa América, campeão da Copa das Confederações. Flamenguista de coração, desfilou sua genialidade no São Cristóvão, no Cruzeiro, no PSV Eidhoven, nos rivais espanhóis Barcelona e Real Madrid, nos rivais italianos Internazionale e Milan, e – bendito seja – no Timão. Conquistou títulos em quase todos.

De uns tempos para cá, passou a travar uma luta ingrata contra a balança. Acostumou-se a ser chamado de gordo por todos. Do mais singelo cidadão até o presidente da República. De forma ofensiva ou carinhosamente. O fato é que o peso o incomodava, não obstante tenha levado a pecha, por vezes, em tom de brincadeira.

E como sofreu com as contusões. Os joelhos, principalmente o direito, fizeram com que se distanciasse dos gramados por muito tempo. Em 1996, inflamação nos dois joelhos e calcificação no direito: dois meses sem jogar. Em 1999, rompimento parcial do tendão patelar do joelho direito: quatro meses parado. Em 2000, rompimento total do tendão patelar do joelho direito: quinze meses de gancho e a sentença proferida por muitos boleiros afoitos de que jamais voltaria aos gramados. Não só voltou, pelas mãos de um sábio Felipão, como foi fundamental para a conquista do penta. Depois disso, ainda sofreu rompimento total do tendão patelar do joelho esquerdo – para variar –, ausentando-se dos campos por mais treze meses. Além dessas, sofreu outras contusões menores. Voltou sempre.

Foi até o limite, até não dar mais. Até se convencer de que o corpo não mais executava a jogada genial que a mente antecipava. Até o fatídico dia de hoje, quando, como diria Falcão, morre pela primeira vez. Ou, como ensina o filósofo da bola Sócrates Brasileiro, cede à realidade de que, mesmo não abandonando o futebol, o futebol o abandonou.

Salve, Ronaldo Nazário de Lima, um dos maiores atacantes da história do futebol. Surgido Ronaldo, tornou-se Ronaldinho na Copa de 94 para se diferenciar do xará zagueiro, que virou Ronaldão. Adiante, voltou a ser Ronaldo para se diferenciar do outro Ronaldinho, o Gaúcho. Seja lá o nome que se lhe dê, basta o apelido, justo: Fenômeno.

Não verei mais Ronaldo nos campos. Não torcerei mais por ele pela televisão ou nas arquibancadas do Pacaembu. Meu consolo é que, independentemente da aposentadoria, continuarei a convocá-lo para a seleção dos melhores que vi jogar.


* Dependendo da fonte, Ronaldo aparece como o segundo ou o terceiro maior artilheiro da seleção brasileira, atrás de Zico. Dependendo da fonte, é considerada apenas a seleção principal ou também as seleções de base.

16/01/2011

Ajuda às vítimas das chuvas no Rio

Quem quiser ajudar as vítimas das chuvas na região serrana do estado do Rio de Janeiro, depósitos podem ser feitos nas seguintes contas do Banco do Brasil:

Teresópolis:
Agência: 0741-2
Conta: 110000-9

Nova Friburgo:
Agência: 0335-2
Conta: 120000-3

Petrópolis:
Agência: 0080-9
Conta: 76000-5

13/01/2011

Chuvas, pequenez e grandeza

São desoladoras, apesar de recorrentes, as imagens de pessoas perdendo o patrimônio, a família, os amigos e a própria vida com as fortes chuvas que caem sobre o sudeste. No estado de São Paulo, além da capital, Atibaia e Franco da Rocha são as cidades que mais sofrem com a destruição. No Rio, é a região serrana, especialmente as cidades de Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo. Com as chuvas, volta, pela enésima vez, a pergunta: até quando?

Até quando a união de fenômeno natural – em muito previsível! –, ocupação desordenada e inação do poder público produzirão resultados trágicos? De catástrofe em catástrofe, dos deslizamentos registrados pelas TVs na década de 1980, passando pelo Morro do Bumba e pelo Jardim Pantanal em 2010, até chegar aos mais de 300 mortos registrados nesta semana – por enquanto! –, as chuvas de início de ano no sudeste continuam a produzir resultados trágicos, mas, infelizmente, banalizados. Detalhe: trata-se da região e dos estados mais ricos do Brasil!

No caso do Rio de Janeiro, interessante foi a indagação feita pelo senhor Moacyr Duarte, especialista em gerenciamento de riscos, feita em um programa de televisão: A vitória inesperada sobre o tráfico no Morro do Alemão se choca com mais uma derrota anunciada para as chuvas. Será que os fluminenses conseguirão partir para a virada também nesse front?

Alguns sentimentos surgem desses fatos. Desolação e tristeza por tanto sofrimento. Impotência diante da força da natureza e da inação dos homens e governos. Descrença ante à recorrência das tragédias e a falta de atitudes fortes, definitivas.

A cena da senhora sendo resgatada na cidade de São José do Vale do Rio Preto (RJ) é chocante, além de paradigmática (ver vídeo em http://g1.globo.com/videos/bom-dia-brasil/v/imagens-mostram-resgate-dramatico-em-sao-jose-do-vale-do-rio-preto-rj/1409724/). Ela resiste sobre os escombros da sua casa, rodeada por cachorros, em meio à rua tornada rio pelo impressionante volume de água acumulada. Na undécima hora, agarrou-se com uma mão na corda que lhe fora jogada de um edifício em frente e, com a outra mão, tentou carregar um dos cães. A pressão da correnteza foi tão grande que a mulher se viu obrigada a sacrificar o animal para que segurasse a corda com as duas mãos. Aos poucos, com muito sacrifício, foi içada até a sacada do edifício e definitivamente salva.

A cena é extraordinária por revelar muito da pequenez e da grandeza da nossa condição humana. A pequenez diante da natureza e a grandeza da coragem em lutar pela vida. A pequenez dos governantes que se eximem de tomarem medidas rígidas e necessárias e a grandeza dos que se arriscam para resgatar um semelhante. A pequenez da indiferença em relação à exigências que a natureza faz para que seja explorada e a grandeza de pensamento dos que rezaram, gritaram e torceram pelo sucesso do salvamento.

Como a senhora do resgate, outros brasileiros resistem, buscam desesperadamente pela própria sobrevivência. Com a ajuda de outros, da sorte, de Deus, quem sabe, às vezes conseguem. Lamentam as perdas, agradecem o socorro e buscam reconstruir a vida. Só que no próximo ano, em uma cena muito parecida, podem se juntar à contabilidade de vítimas fatais caso não consigam, uma vez mais, segurar firme na corda.

12/01/2011

Geraldinho


Geraldinho Nogueira, mais conhecido simplesmente como Geraldinho, foi um excepcional contador de causos. Fazia esplendidamente o tipo caipira. Foi descoberto artisticamente por Hamilton Carneiro e José Batista, no ano de 1984. Faleceu em 1993.

No vídeo abaixo, Geraldinho conta o "causo da bicicleta" no programa Som Brasil, da Rede Globo, na época apresentado por Lima Duarte. Vale a pena conferir.