18/01/2010

Jornalistas, garis e preconceitos

Boris Casoy envolveu-se numa saia justa – alguns dizem que cometeu uma gafe. Após felicitações de ano novo dadas por dois garis no Jornal da Band, telejornal do qual é âncora, sem saber que o microfone estava aberto, Casoy fez o seguinte comentário em tom de escárnio: “que merda: dois lixeiros desejando felicidades, do alto de suas vassouras...”. Prato cheio para uma saraivada de críticas: de razoáveis argumentos sobre a óbvia, mesmo que inconsciente, manifestação de preconceito social até condenações sumárias oriundas das mais hipócritas bocas politicamente corretas. Quanto a estas, a jornalista Barbara Gancia fez uma comparação interessante: muita dessa gente ilibada, pertencente, segundo Gancia, a uma “esquerda emburrada”, joga Boris Casoy no fogo do inferno, mas foi incapaz de criticar Lula quando cometeu a gafe dos “viados de Pelotas”. Certo. Mas tal comparação não afasta o preconceito que deve, sim, mesmo em mesa de bar, ser repelido. Ou só devemos aceitar felicitações dos mais elevados na “escala do trabalho” (ou da renda, muitas vezes sem qualquer trabalho), do alto de seus iates?
Casoy notabilizou-se pelos comentários indignados, feitos ao fim de reportagens relativas a falcatruas ou coisa que o valha, arrematados invariavelmente com o célebre bordão: “é uma vergonha!”. A imagem proba, com olhar reto, voz firme, e o próprio bordão, conferem a Casoy uma aura de coragem e, com ela, credibilidade junto a seu público. Credibilidade que não se limita ao público da “alta sociedade”, expandindo-se para as camadas mais baixas, aos garis e afins, ao chamado povão.
A propósito, sempre acreditei que a credibilidade da “fala grossa”, dos comentários indignados, atinge mais às camadas menos abastadas e, especialmente, com menos anos de estudo, carentes da opinião e da expressão dada pelo âncora corajoso de plantão. Aos mais escolados, entre os quais me incluo, tenho a impressão de que tal “estilo jornalístico” seduz menos, para não dizer que incomoda, uma vez que não queremos delegar a ninguém a interpretação/valoração dos fatos. Não; dê-nos somente a informação, e teremos a capacidade de formular nossas próprias opiniões, sem que um jornalista nos diga se isso ou aquilo é ou não é “uma vergonha!”. Seria preconceito de classe de minha parte? Talvez...
Mas Boris Casoy ainda está aquém de todo o potencial desse tipo de jornalista que faz justiça com as próprias mãos, ou melhor, com as próprias palavras. Talvez o grande expoente atual desse estilo seja José Luís Datena. Para este, não basta um mero comentário dito firmemente, concluído com um bordão; é preciso mais: comandar as câmeras, brigar ao vivo com autoridades, sentenciar penas capitais à bandidagem, proferir uns palavrões se necessário for. E emerge minha referida impressão: já vejo o povão – dentre os quais os garis que nos desejam feliz ano novo – balançando a cabeça afirmativamente, concordando com Casoy – “sim, isso é mesmo uma vergonha” – ou com Datena – “sim, esse sem-vergonha deveria pegar pena perpétua, sofrer bastante”. Enquanto isso, gente da classe média e da classe alta, “gente como a gente”, estaria ligada no Jornal Nacional, com seu casal de âncoras asséticos e sem comentários (limitados a uns olhares esporádicos de reprovação ou de consentimento), na TV Cultura, ou em outro desses telejornais “mais qualificados”.
Ledo engano. Pelo menos, se olharmos a pesquisa do DataFolha, realizada no final de 2009, em que Willian Bonner, âncora do JN, atrás apenas de Lula, é a pessoa mais confiável dentre 27 personalidades brasileiras listadas pelo instituto. Detalhe: Bonner supera inclusive José Luis Datena não apenas na pesquisa geral, mas, inclusive, quando se avalia apenas as pessoas que ganham até 2 salários mínimos. Achei a pesquisa interessante, e abalou um pouco esse preconceito que nutro da compreensão do povão sobre a imprensa. Pior: descobri que não sou tão “sabido” quanto pensava, apesar de ter mais anos de estudo que a maioria dos meus compatriotas. Senti-me, para ser sincero, o Homer Simpson que Willian Bonner, em suas palestras, diz ser o típico telespectador do Jornal Nacional. Também fiquei com a seguinte indagação na cabeça: Será que grande parte do público de Boris Casoy, quiçá a maioria, em vez de reprová-lo, concordou desavergonhadamente com o desdém aos garis?

Nenhum comentário:

Postar um comentário