29/03/2010

A Justiça dos Homens na Tela da TV

Há dois anos a população ficou estarrecida. Soubera pela TV do assassinato da menina, atirada pela janela do sexto andar. Deu em todos os canais: todos os repórteres noticiaram, todos os âncoras pronunciaram as manchetes com cara de repulsa e comoção, todas as apresentadoras entrevistaram os familiares e envolvidos, em meio às juras de inocência de uns, à descrença de outros, à revolta de todos.

Ao compasso das matérias sensacionalistas e das palavras de ordem – “isso é uma vergonha!”, “onde vamos parar?”, “por que não há pena de morte neste país?”, “quero ver neguinho dos direitos humanos proteger esses safados!” –, a TV também contemplou seu público com o melhor didatismo. Lá estavam os peritos a arrazoarem por que os fatos ocorreram assim ou assado e os insignes criminalistas a explicarem como funciona o Tribunal do Júri, como se dá a dosimetria (palavra esquisita!) da pena, como são escolhidos os jurados, como atuam promotor e advogado de defesa, quem pode assistir à sessão, etc. e tal. A cada dia de julgamento, dezenas de análises, comentários e meros pitacos de especialistas e leigos. Quando surgia o repórter no chamado link, a primeira pergunta era: “Fala pra gente, Fulano, qual foi a reação das pessoas naquele momento?”. A resposta mais frequente: “Muita emoção...”.

Ibope bombando. Todo o país de olho na TV. E muitas, muitas pessoas aglomeradas em frente ao Fórum. Uns vieram do outro lado da cidade, outros, de cidades vizinhas, outros, ainda, do Piauí e além. Protestavam aos brados, clamando pela condenação dos acusados, rezando pela menina morta e, quiçá, para que aparecessem eles próprios, nem que fosse por um mísero segundo, no telejornal das oito. “Já pensou, ser visto em rede nacional?!”. O sujeito careca não perdeu tempo. Ficou à espreita do famoso repórter, calculou o horário da transmissão e pimba: como esperto papagaio de pirata, surgiu ao fundo, dançando, desenvolvendo sua performance com máxima rapidez, antes que os seguranças lhe negassem os minutos de fama a que todos têm direito, segundo Warhol. Missão cumprida: foi visto na Globo, eternizou-se no You Tube.

Os principais suspeitos eram o pai e a madrasta da menina. Haviam dado entrevista no Fantástico, assim como a mãe, todos com suas versões e emoções. O pai era um sujeito que já tivera suas demonstrações de violência, ameaçando a ex-mulher e sua família. Suspeitíssimo, já não bastassem todos os indícios e provas contra ele. Também a madrasta tivera arroubos de ciúmes. Em suma: culpados, sem sombra de dúvida. A imagem de ambos se deteriorava da mesma forma que a frágil alegação, repetida exaustiva e inutilmente, de que uma terceira pessoa estava no apartamento e que todas as provas periciais eram forjadas ou, no mínimo, infundadas.

Presos quase desde o ocorrido, pai e madrasta, então réus, postavam-se à frente do Conselho do Júri, composto por cidadãos comuns: quatro mulheres, três homens. Dentro do prédio, encenou-se o teatro de acusação e defesa. Fora, o circo da manifestação popular: cartazes pedindo justiça, prisão perpétua, pena de morte e a canonização da pobre menina. Já havia quem a considerasse santa. Dentro, o público seleto assistia à leitura dos autos, aos depoimentos de réus, testemunhas, peritos. Comovidos, choraram ao ver as fotos da criança morta. A autora de novelas, que sentira na pele o mesmo sofrimento da filha assassinada, prestou sua solidariedade à mãe. Fora, o promotor era aplaudido como um herói, enquanto o advogado era ameaçado e agredido. Um pastor precisou ser escoltado pela polícia, protegido da fúria dos populares pela heresia de clamar pelo perdão dos supostos assassinos. A voz do povo o condenara: arderá no fogo do inferno, se Deus quiser!

Por fim, o longo enredo chegou ao seu epílogo. Eis o veredicto: condenação! 31 anos para ele, 26 para ela. “Pouco!”, consideraram uns. “O suficiente”, entenderam outros. “O que importa é que foram condenados, justiça foi feita!”, comemoram quase todos. Ouviram-se os gritos e o espocar dos rojões. Explosão de contentamento, catarse coletiva. O promotor foi ovacionado. A família do réu saiu pelos fundos. “Lincha, lincha”, gritou a multidão, só contida à base de spray de pimenta. O caminhão com os condenados saiu em disparada rumo ao presídio. Centenas de homens, mulheres, velhos e crianças correram atrás, como cachorros impulsionados pelo instinto e pela tradição canina de perseguir veículos. Dentre eles, destacou-se uma voraz e gorda senhora que esmurrava o caminhão com sede de vingança.

Todos estavam aliviados. Justiça fora feita, os assassinos ficarão anos a fio trancafiados num presídio, oxalá, fétido, lotado, à mercê do sadismo de outros bandidos como eles. Só restava, então, voltarem para casa. Ainda precisavam fazer justiça com as próprias mãos, pelo telefone ou pela internet. Muitos brigariam para eliminar, de uma vez por todas, aquele redivivo brother homofóbico. A maioria, porém, jogaria fora da casa aquela maldita aberração humana sob a figura tosca de drag queen. Afinal, tamanha imoralidade também não poderia passar impune.

20/03/2010

O Centenário

“Esqueci de morrer”, ele diz, com o mesmo vezo irônico de sempre, mantido como uma marca registrada por toda sua longa vida. Todos que o conhecem sabem que por trás de cada frase dita, conquanto possa existir um fundo de seriedade, há também um habitual tom de escárnio. Tratar a própria esposa de “geringonça velha” ou se despedir das visitas dizendo “que limpeza!” não são atitudes compreendidas pelos interlocutores como ofensivas. Muito pelo contrário, causam risos em quem supostamente deveria reagir com cólera. “Esse é gozador!”, sentenciam.

Aquela frase – “esqueci de morrer” – traz consigo duas vertentes, sendo ambas, de uma forma ou de outra, sarcásticas. A primeira, óbvia, pela idade avantajada. E segunda, pela descrença que ele nutre a respeito da morte. Aliás, eis uma outra de suas marcas registradas: a fé inquebrantável na imortalidade do espírito. O corpo morre, mas a vida continua: ideia que lhe é extremamente cara, repassando aos outros como poderoso ensinamento. Tal crença o ajuda a manter a solidez ante a passagem dos entes queridos, um a um, numa sucessão pesarosa de despedidas, mas não de mortes, já que esta não existe. Foram-se os pais, os irmãos, os amigos, a esposa. Esta última, a saudade mais intensa, a dor que volta e meia irrompe voraz, que lhe custa dominar, mesmo convicto na vida eterna do espírito. “Sabe como é – explica docemente, tentando desvencilhar-se da lágrima que teima em cair dos olhos e do nó na garganta –, foram muitos anos juntos”. Eis o lado ruim de se completar 100 anos: a ausência física de tantos companheiros de jornada.

Meu avô nasceu em 20 de março de 1910. Completa hoje, portanto, um século de vida, expressando toda a fragilidade de seu corpo centenário e toda a fortaleza necessária, física e espiritualmente, para atingir um marco tão difícil. Registre-se: há um bom tempo ele vem afirmando que chegaria aos 100, como se fosse uma missão a ser cumprida.

Exercito a imaginação tentando visualizar como foi o meu avô criança, depois adolescente. Duas guerras mundiais, várias transformações culturais, mudanças de hábitos, de valores. Não obstante, sua personalidade é marcada mais pela perenidade das convicções e das atitudes do que pelas concessões às tantas modas embutidas na longa trajetória do tempo. Não se entenda, porém, que meu avô seja um desses conservadores rabujentos, avessos ao progresso, a maldizer o presente pela derrocada do passado. Não. Ele preza as transformações do mundo, as quais qualifica de evolução. Evolução: mais uma cara ideia espírita a trazer consigo como um valor.


Tais valores, inclusive, explicam sua retidão no pensar e no agir, seu hábito de fazer a caridade, de ajudar ao próximo sempre que preciso (visitar doentes, por exemplo, é quase um vício!). Além dos valores do trabalho, do estudo. Quanto a este, ressalte-se que batalhou para que os filhos fossem "doutores" – e conseguiu! – numa época em que isso não era nada fácil.

Meu avô passou quase toda a vida no sítio, próximo a um pequeno lugarejo chamado Vila Lourdes, hoje município de Lourdes. Sua presença ali sempre foi marcante, sendo até hoje tratado com máximo respeito e carinho por todos. Chegado aos 100, ainda caminha sozinho. Só que a vista é falha, a mente e as emoções são claudicantes, a consciência é permeada por constantes lapsos. Mas continua firme, rijo, como se diz no interior.

Esse é Lázaro Quirino da Silva, meu amado vô Lazinho. A baixa estatura não lhe retira o evidente gigantismo como pessoa do bem. A estatura física, a propósito, é o único dos seus legados pelo qual não tenho lá muito a agradecer... Quanto à estatura moral, todavia – a inteireza do caráter, o apreço por fazer o bem, por ser correto –, guardarei eterna gratidão por tudo o que nos transmitiu, a mim e à nossa família.

Parabéns, vô. Você bem disse que chegaria aos 100! Muito embora eu confesse: achava que era mais uma das suas gozações.




Foto: eu criança e meu vô Lazinho em frente a um monjolo.
Essa foto deve ter sido tirada em 1975 ou 76.

14/03/2010

Bandeiras em Luto



“Quando você morrer, quer que coloquem a bandeira do Corinthians sobre seu caixão?”, foi a pergunta da minha mulher. Engraçada essa, digamos, tradição brasileira. Desconheço se há algo parecido em outros países, mas, no Brasil, é bastante comum. No Brasil, aliás, o sujeito é identificado pelo nome, sobrenome, números de RG e CPF, profissão, estado civil, nacionalidade, naturalidade, residência, domicílio e o time do coração. Além disso, torcer para algum time, aqui, constitui uma peculiar estratificação social: sou da classe tal, tenho renda X, escolaridade Y e torço para o time W.

Minha mulher, vale dizer, me fez a pergunta influenciada pela triste imagem dos caixões do cartunista Glauco e de seu filho Raoni, cobertos, respectivamente, com as bandeiras do Corinthians e do São Paulo, além das bandeiras alusivas ao Santo Daime.

Glauco e Raoni foram mais duas vítimas da violência que assola nossa sociedade, diretamente relacionada ao consumo de drogas. Mutatis mutandis, a tragédia pertence ao mesmo rol de fatos violentos que tantas vezes observamos entre torcidas de futebol, não raro, produzindo vítimas fatais. Recentemente, uma briga entre as torcidas do São Paulo e do Palmeiras e outra, entre torcedores do Flamengo e do Vasco, fizeram aumentar ainda mais a lista infindável de vítimas dessa violência bestial e desenfreada.

Até quando essa barbárie vicejará no país? Até quando cobriremos caixões de pessoas assassinadas com bandeiras de seus times, em vez de as ter em mãos, vivos e sorridentes, tremulando-as por conta do resultado obtido em campo ou simplesmente para mostrar aos outros, sem romper a harmonia, o orgulho pelas cores do clube?

As bandeiras de dois times rivais sobre os caixões de pai e filho demonstram a possível convivência entre seres humanos com paixões distintas, mas compromissados com o amor mútuo, com o respeito ao outro, com uma bandeira maior que todas: a bandeira da paz.

Ao grande artista Glauco, o adeus deste que aprecia a sua arte desde a infância. Se compararmos os quadrinhos ao futebol, Glauco era, com certeza, um expoente do mais genuíno futebol-arte. Pena. Foi-se um craque.

JFQ

Obs: também postado no blog http://www.ludopedicas.blogspot.com/

04/03/2010

Quem lê tanta notícia

A loira chegou, vinda de outras terras, ao país das maravilhas. À mão, outra espécie de loira, nada carnuda, e sim, líquida. Abaixo, aquelas criaturas morenas e festivas dançavam seminuas como se fosse o último dia de suas vidas. Uma multidão fantasiada pulava e cantava, tendo à frente o fluxo ritmado de passos, sons, carros e corpos. “Beautiful, beautiful!”, admirou a loira, sentindo-se em casa. Os cliques e os gritos não tardaram, todos em sua direção e dos outros de sua célebre estirpe. As imagens das duas loiras, a célebre e a líquida, rodaram o país. Não agradaram, porém, a todas as mulheres nativas, especialmente as pudicas, e desagradaram sobremaneira alguns doutos e togados senhores. Notaram e lhes proibiram a devassidão. Furiosos ficaram os que apostavam seus ricos vinténs no empreendimento das imagens, à cata dos sedentos glutões ávidos por comê-las, por bebê-las, por amá-las. “Fora a censura, viva a liberdade de expressão!”, bradaram, antes de arguirem: “Quem arcará com os prejuízos?”. “Moral, bons costumes”, gritaram outros. “Mulheres sim, objetos não!”, exclamaram outras. “Traz lá mais uma gelada!”, sentenciaram os demais.

Outros senhores de laia análoga – criadores de imagens – , regozijavam-se com o sucesso da casa dos reclusos. No seu interior, cada vez menos gente. Fora, cada vez mais curiosos a espiá-la. Rapazes e moças, simpatizantes e antipatizantes a promoverem fuxicos, intrigas, tramóias. Em uma palavra, execrável para muitos, essas pessoas estavam... jogando. Jogando? Na casa, a princípio, vale tudo. Inclusive dançar homem com homem e mulher com mulher. Quer dizer, não na inteligência de um dos rapazes, o retornado de outros tempos: outros tempos de casa, outros tempos da inteligência de homens e mulheres. Antro de diversidade: gente estranha, travestida, colorida, cabeluda e chata. Só não pode gordo, feio, barrigudo e sem ibope. Sobretudo, sem ibope!

Intranquilos com as coisas, sôfregos pela marola que os acalme, outros tantos intentavam enrolar ervas alternativas em protesto por não poderem fazê-lo com as ervas tradicionais. Em plena terra da garoa, decidiram esfumaçar a principal avenida com cheiro de orégano. E vieram os senhores doutos e togados, desacompanhados das pudicas, proibirem a queimada. Afinal, nessas bandas come-se pizza às pampa, mano, e orégano é gênero de primeira necessidade. Resguardemo-lo por razões morais, jurídicas, ecológicas e gastronômicas. Nesse ínterim entre os planos e a proibição, os nóias do centro sentiram que algo não cheirava bem. Os meganha, uns cem deles, vieram na toda e botaram todo mundo na parede. “Teje preso!”, e lá se foram uns trezentos em fila indiana. Já não pode ficar no centro, os bacanas de Higienópolis e adjacências também reclamam da presença dos nóias, e agora as otoridades não se entendem onde eles serão guardados: poliça prende, os doutores soltam, os homens do governador querem repressão, os doutores do prefeito dizem que é questão de saúde pública. Então, ficamos assim: enquanto otoridades não entram em acordo, os nóia retornam festivos às ruas. Mas vão para onde? Alguém lhes dê uma Luz! Só não lhes dê bagulho: não pode fumar maconha, não pode fumar orégano e cigarro só se não for em locais fechados de circulação pública! E se beber, não dirija!

Cerveja daqui, tapinha de lá, eis que tudo se mistura. O brother machão, após beber a célebre devessa e comer a líquida – ou seria o contrário? –, acende um cigarrinho de orégano e pergunta: “Foi bom pra você?”. “Well”, responde a loira, “Preferia aquela sua amiga drag e um charuto jamaicano legítimo, you know”. “E da casa, da casa você gostou, né?”. “Well, prefiro meus hotéis, honey”. Só assim o brother foi eliminado. Juntou-se aos nóias porque nóia é doido, mas não é frutinha. E assim as coisas andam pelos cantos do país das maravilhas. Na avenida do samba, na mais paulista das avenidas, nas cracolândias da vida e na casa mais famosa do Brasil.

* * *
Notícias:

Socialite Paris Hilton participa do carnaval carioca e faz propaganda da cerveja Devassa.

Justiça paulista proíbe a “marcha do orégano”.

Procuradoria abre processo para investigar homofobia no BBB.

Justiça tira do ar campanha da Schincariol com Paris Hilton.

Polícia prende 76 suspeitos de tráfico na cracolândia e recolhe 250 usuários.

Boy Jorge chama BBB10 de “lixo brasileiro”.

Secretário de Kassab critica aliado José Serra ao condenar ação policial na cracolândia.

02/03/2010

José Mindlin

A imagem de José Mindlin estava inescapavelmente associada à dos livros. Falava-se de Mindlin, logo aparecia sua imensa biblioteca, repleta de raridades: seu universo particular. A paixão pelos livros, pela leitura, foi sua marca registrada, legando a si o “título” de bibliófilo: amante e colecionador de livros. Procurava inocular nos outros o vírus que, como costumava dizer, uma vez inoculado, a pessoa jamais conseguia, felizmente, se curar: o vírus da paixão pela leitura. Coerente com essa missão de agente transmissor do vírus da leitura, legou ao público sua invejável biblioteca, doando seus livros à Universidade de São Paulo.

A propósito, tive a oportunidade de ver Mindlin em 2008, quando da vinda ao Brasil do escritor português José Saramago – a quem devo boa parte de minha paixão pela leitura – , no Sesc Pinheiros, para o lançamento de “A Viagem do Elefante”. Saramago, carinhosamente, fez menção à presença de Mindlin no recinto, e este respondeu com um aceno tímido, contido. Ambos, senhores à beira dos cem anos, imersos na sabedoria de uma longa vida dedicada às letras e ao pensamento crítico. No caso, pensamentos em muito discordantes, mas não no apreço às letras, à cultura e à consciência cidadã.

Mindlin foi um bem-sucedido empresário, fundador da Metal Leve, do setor de autopeças. E como empresário passou pelos anos da ditadura sob pressão. Após o AI-5, com o endurecimento do regime autoritário, foi criada a OBAN, Operação Bandeirante: órgão de informação e repressão, responsável, inclusive, por torturas e mortes. Conforme registrado em depoimentos no ótimo documentário “Cidadão Boilesen”, de Chaim Litewsky, quando o Henning Boilesen, diretor da Ultragás, articulou entre o empresariado brasileiro o financiamento da OBAN, teria encontrado a resistência de apenas dois empresários: Antônio Ermírio de Morais e José Mindlin.

Convidado pelo então governador paulista Paulo Egydio Martins para assumir uma pasta a ser criada – a Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia – , Mindlin, de pronto, recusou. Era contra o regime e não poderia compor um governo nomeado pelos militares, muito embora nutrisse amizade pelo governador. Paulo Egydio insistiu, argumentando que ninguém mais teria sua capacidade para assumir a secretaria. Mindlin, por sua vez, consultou amigos, dentre os quais o crítico Antonio Cândido, que o convenceram a aceitar o convite, já que seria uma oportunidade ímpar para desenvolver áreas tão importantes e, sobretudo, que seria melhor ele assumir a outro, comprometido com o regime ditatorial. Como secretário, José Mindlin promoveu algumas conquistas: plano de carreira para pesquisadores científicos, ampliação e recuperação de museus, bibliotecas e prédios históricos. Porém, em protesto, deixou a pasta após a morte do jornalista Wladimir Herzog.

José Mindlin foi, ainda, “imortal” da Academia Brasileira de Letras. Ironicamente, dizia querer trocar tal imortalidade por mais uns dez anos de vida. Para quê? Para poder ler mais uns tantos livros.

A morte de José Mindlin representa grande perda ao Brasil. Uma pena! Como também é uma pena que o ambiente brasileiro seja ainda tão pouco propício à proliferação do tal vírus da leitura. Uma pena que os empresários brasileiros, via de regra, não tenham tamanha consciência de cidadania, de compromisso e responsabilidade social com seu país. Uma pena que a cultura não seja tão valorizada no Brasil.

Mindlin foi exemplo de empresário, de ativista da cultura, de cidadão, de agente transmissor da paixão pelos livros. Enfim, um grande brasileiro.