04/03/2010

Quem lê tanta notícia

A loira chegou, vinda de outras terras, ao país das maravilhas. À mão, outra espécie de loira, nada carnuda, e sim, líquida. Abaixo, aquelas criaturas morenas e festivas dançavam seminuas como se fosse o último dia de suas vidas. Uma multidão fantasiada pulava e cantava, tendo à frente o fluxo ritmado de passos, sons, carros e corpos. “Beautiful, beautiful!”, admirou a loira, sentindo-se em casa. Os cliques e os gritos não tardaram, todos em sua direção e dos outros de sua célebre estirpe. As imagens das duas loiras, a célebre e a líquida, rodaram o país. Não agradaram, porém, a todas as mulheres nativas, especialmente as pudicas, e desagradaram sobremaneira alguns doutos e togados senhores. Notaram e lhes proibiram a devassidão. Furiosos ficaram os que apostavam seus ricos vinténs no empreendimento das imagens, à cata dos sedentos glutões ávidos por comê-las, por bebê-las, por amá-las. “Fora a censura, viva a liberdade de expressão!”, bradaram, antes de arguirem: “Quem arcará com os prejuízos?”. “Moral, bons costumes”, gritaram outros. “Mulheres sim, objetos não!”, exclamaram outras. “Traz lá mais uma gelada!”, sentenciaram os demais.

Outros senhores de laia análoga – criadores de imagens – , regozijavam-se com o sucesso da casa dos reclusos. No seu interior, cada vez menos gente. Fora, cada vez mais curiosos a espiá-la. Rapazes e moças, simpatizantes e antipatizantes a promoverem fuxicos, intrigas, tramóias. Em uma palavra, execrável para muitos, essas pessoas estavam... jogando. Jogando? Na casa, a princípio, vale tudo. Inclusive dançar homem com homem e mulher com mulher. Quer dizer, não na inteligência de um dos rapazes, o retornado de outros tempos: outros tempos de casa, outros tempos da inteligência de homens e mulheres. Antro de diversidade: gente estranha, travestida, colorida, cabeluda e chata. Só não pode gordo, feio, barrigudo e sem ibope. Sobretudo, sem ibope!

Intranquilos com as coisas, sôfregos pela marola que os acalme, outros tantos intentavam enrolar ervas alternativas em protesto por não poderem fazê-lo com as ervas tradicionais. Em plena terra da garoa, decidiram esfumaçar a principal avenida com cheiro de orégano. E vieram os senhores doutos e togados, desacompanhados das pudicas, proibirem a queimada. Afinal, nessas bandas come-se pizza às pampa, mano, e orégano é gênero de primeira necessidade. Resguardemo-lo por razões morais, jurídicas, ecológicas e gastronômicas. Nesse ínterim entre os planos e a proibição, os nóias do centro sentiram que algo não cheirava bem. Os meganha, uns cem deles, vieram na toda e botaram todo mundo na parede. “Teje preso!”, e lá se foram uns trezentos em fila indiana. Já não pode ficar no centro, os bacanas de Higienópolis e adjacências também reclamam da presença dos nóias, e agora as otoridades não se entendem onde eles serão guardados: poliça prende, os doutores soltam, os homens do governador querem repressão, os doutores do prefeito dizem que é questão de saúde pública. Então, ficamos assim: enquanto otoridades não entram em acordo, os nóia retornam festivos às ruas. Mas vão para onde? Alguém lhes dê uma Luz! Só não lhes dê bagulho: não pode fumar maconha, não pode fumar orégano e cigarro só se não for em locais fechados de circulação pública! E se beber, não dirija!

Cerveja daqui, tapinha de lá, eis que tudo se mistura. O brother machão, após beber a célebre devessa e comer a líquida – ou seria o contrário? –, acende um cigarrinho de orégano e pergunta: “Foi bom pra você?”. “Well”, responde a loira, “Preferia aquela sua amiga drag e um charuto jamaicano legítimo, you know”. “E da casa, da casa você gostou, né?”. “Well, prefiro meus hotéis, honey”. Só assim o brother foi eliminado. Juntou-se aos nóias porque nóia é doido, mas não é frutinha. E assim as coisas andam pelos cantos do país das maravilhas. Na avenida do samba, na mais paulista das avenidas, nas cracolândias da vida e na casa mais famosa do Brasil.

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Notícias:

Socialite Paris Hilton participa do carnaval carioca e faz propaganda da cerveja Devassa.

Justiça paulista proíbe a “marcha do orégano”.

Procuradoria abre processo para investigar homofobia no BBB.

Justiça tira do ar campanha da Schincariol com Paris Hilton.

Polícia prende 76 suspeitos de tráfico na cracolândia e recolhe 250 usuários.

Boy Jorge chama BBB10 de “lixo brasileiro”.

Secretário de Kassab critica aliado José Serra ao condenar ação policial na cracolândia.

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