“Esqueci de morrer”, ele diz, com o mesmo vezo irônico de sempre, mantido como uma marca registrada por toda sua longa vida. Todos que o conhecem sabem que por trás de cada frase dita, conquanto possa existir um fundo de seriedade, há também um habitual tom de escárnio. Tratar a própria esposa de “geringonça velha” ou se despedir das visitas dizendo “que limpeza!” não são atitudes compreendidas pelos interlocutores como ofensivas. Muito pelo contrário, causam risos em quem supostamente deveria reagir com cólera. “Esse é gozador!”, sentenciam.
Aquela frase – “esqueci de morrer” – traz consigo duas vertentes, sendo ambas, de uma forma ou de outra, sarcásticas. A primeira, óbvia, pela idade avantajada. E segunda, pela descrença que ele nutre a respeito da morte. Aliás, eis uma outra de suas marcas registradas: a fé inquebrantável na imortalidade do espírito. O corpo morre, mas a vida continua: ideia que lhe é extremamente cara, repassando aos outros como poderoso ensinamento. Tal crença o ajuda a manter a solidez ante a passagem dos entes queridos, um a um, numa sucessão pesarosa de despedidas, mas não de mortes, já que esta não existe. Foram-se os pais, os irmãos, os amigos, a esposa. Esta última, a saudade mais intensa, a dor que volta e meia irrompe voraz, que lhe custa dominar, mesmo convicto na vida eterna do espírito. “Sabe como é – explica docemente, tentando desvencilhar-se da lágrima que teima em cair dos olhos e do nó na garganta –, foram muitos anos juntos”. Eis o lado ruim de se completar 100 anos: a ausência física de tantos companheiros de jornada.
Meu avô nasceu em 20 de março de 1910. Completa hoje, portanto, um século de vida, expressando toda a fragilidade de seu corpo centenário e toda a fortaleza necessária, física e espiritualmente, para atingir um marco tão difícil. Registre-se: há um bom tempo ele vem afirmando que chegaria aos 100, como se fosse uma missão a ser cumprida.
Exercito a imaginação tentando visualizar como foi o meu avô criança, depois adolescente. Duas guerras mundiais, várias transformações culturais, mudanças de hábitos, de valores. Não obstante, sua personalidade é marcada mais pela perenidade das convicções e das atitudes do que pelas concessões às tantas modas embutidas na longa trajetória do tempo. Não se entenda, porém, que meu avô seja um desses conservadores rabujentos, avessos ao progresso, a maldizer o presente pela derrocada do passado. Não. Ele preza as transformações do mundo, as quais qualifica de evolução. Evolução: mais uma cara ideia espírita a trazer consigo como um valor.
Tais valores, inclusive, explicam sua retidão no pensar e no agir, seu hábito de fazer a caridade, de ajudar ao próximo sempre que preciso (visitar doentes, por exemplo, é quase um vício!). Além dos valores do trabalho, do estudo. Quanto a este, ressalte-se que batalhou para que os filhos fossem "doutores" – e conseguiu! – numa época em que isso não era nada fácil.
Exercito a imaginação tentando visualizar como foi o meu avô criança, depois adolescente. Duas guerras mundiais, várias transformações culturais, mudanças de hábitos, de valores. Não obstante, sua personalidade é marcada mais pela perenidade das convicções e das atitudes do que pelas concessões às tantas modas embutidas na longa trajetória do tempo. Não se entenda, porém, que meu avô seja um desses conservadores rabujentos, avessos ao progresso, a maldizer o presente pela derrocada do passado. Não. Ele preza as transformações do mundo, as quais qualifica de evolução. Evolução: mais uma cara ideia espírita a trazer consigo como um valor.
Tais valores, inclusive, explicam sua retidão no pensar e no agir, seu hábito de fazer a caridade, de ajudar ao próximo sempre que preciso (visitar doentes, por exemplo, é quase um vício!). Além dos valores do trabalho, do estudo. Quanto a este, ressalte-se que batalhou para que os filhos fossem "doutores" – e conseguiu! – numa época em que isso não era nada fácil.
Meu avô passou quase toda a vida no sítio, próximo a um pequeno lugarejo chamado Vila Lourdes, hoje município de Lourdes. Sua presença ali sempre foi marcante, sendo até hoje tratado com máximo respeito e carinho por todos. Chegado aos 100, ainda caminha sozinho. Só que a vista é falha, a mente e as emoções são claudicantes, a consciência é permeada por constantes lapsos. Mas continua firme, rijo, como se diz no interior.
Esse é Lázaro Quirino da Silva, meu amado vô Lazinho. A baixa estatura não lhe retira o evidente gigantismo como pessoa do bem. A estatura física, a propósito, é o único dos seus legados pelo qual não tenho lá muito a agradecer... Quanto à estatura moral, todavia – a inteireza do caráter, o apreço por fazer o bem, por ser correto –, guardarei eterna gratidão por tudo o que nos transmitiu, a mim e à nossa família.
Parabéns, vô. Você bem disse que chegaria aos 100! Muito embora eu confesse: achava que era mais uma das suas gozações.
Foto: eu criança e meu vô Lazinho em frente a um monjolo.
Essa foto deve ter sido tirada em 1975 ou 76.

Olá, passo por aqui somente para registrar que tive a inesquecível oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, bem como ser agraciado por uma inesperada ironia expressada pelo "Sr. Lazinho" ao ser apresentado. Foi marcante!
ResponderExcluirLuiz Fernando Stucchi (Silvinha)
De todas as pessoas que tive o prazer de conhecer e, consequentemente, amar, desde que ingressei na família "Ferreira Quirino da Silva", o vô Lazinho com certeza é uma das mais inestimáveis. Parabéns vô!!!
ResponderExcluirOlá João, sou Suetônio Meira, que a partir da amizade com Marcelo Quirino, acabei conhecendo boa parte da família Quirino e quero falar do centenário Lazinho, que conheci ainda nos tempos em que ele morava no Sítio em Lourdes.
ResponderExcluirQuero te parabenizar pela tua crônica, que revela um pouco de um grande homem que conheci e aprendi a respeitar de maneira imensurável. Gostaria apenas de lembrá-lo de uma frase que aprendi com o velho Lazinho e que se tornou a minha preferida desde então e que ele usava sempre que nos despedíamos:
"SEJA FELIZ"
E este é o desejo meu a Sr. Lazinho e a toda família Quirino.
Um forte abraço.
Suetônio Meira.
Hi Joao, hope u all ur doing well.
ResponderExcluirReading ur blog brought me so many great memories and i could visualized his funny way to act, the examples he always gave to us, determination, honesty, simplicity, faith and lots of joy for life. He always has been an example in my life, even living far from each others, his lecture always will be w/ me.
He is a joy to be around and i can't wait to see him soon.
Ur blog is great, congrats!!!!
Ur portuguese is amazing and an inspiration for me to read and learn more and more.
Miss u all
xoxo
A familia Quirino tem motivos de sobra pra se orgulhar do seu representante mais experiente, pois o sóbrio Sr. Lazinho encanta quem o conhece, é uma árvore que gerou bons frutos. Parabens pelo centenário desta encarnação, pois poucos são merecedores de um prémio como este nesta vida terrena.
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