30/09/2010

Formas diversas de defender a democracia e a liberdade de expressão

O presidente da OAB/SP Luiz Flávio Borges D’Urso, em nome da democracia e da liberdade de expressão, participou de dois “fronts” recentemente. Esteve no ato que lançou o “Manifesto em Defesa da Democracia”, que aponta o presidente Lula e seu governo como ameaças às instituições democráticas, e entrou com ação para proibir a exibição da série “Inimigos”, do artista Gil Valente, na Bienal de São Paulo, sob a alegação de que a obra faz uma apologia ao terrorismo. Juro por tudo o que é mais sagrado que também me são caríssimas a democracia e a liberdade de expressão, não obstante, tenho posição absolutamente distinta da do senhor D’Urso em ambas as “causas”. Sobre o ato, acho um exagero, uma tempestade em copo d’água, não conseguindo enxergar nem de longe que a democracia e a liberdade de expressão estejam em risco no Brasil. Pelo contrário, a ascensão social de camadas mais baixas observada nos anos Lula contribui sobremaneira para a democracia; pelo menos, para quem vê esse regime sob a ótica social, não apenas formal. Quanto à proibição (censura?) das obras artísticas, há que se atentar aos argumentos do presidente da OAB/SP, a seguir.

Em artigo publicado na Folha de S.Paulo, de 25/09/2010, intitulado “A lei veda a liberdade absoluta”, D’Urso defende que a liberdade inerente à democracia não pressupõe ausência de limites ao comportamento dos indivíduos. O argumento segue o senso popular segundo o qual o direito de um vai até onde acaba o do outro. Assim, tratando-se de obras artísticas, a liberdade de criação, desde que restrita à esfera exclusivamente privada, não pode ser cerceada; porém, quando tornadas públicas, colocadas ao alcance das pessoas, não podem atentar contra o outro (contra sua honra, sua moral, sua integridade, etc.). Da mesma forma, exemplifica o presidente da OAB/SP, que não é possível permitir a exibição de filmes pornográficos em rede aberta de televisão, assistida inclusive por crianças, sob a aura da liberdade de expressão ou da arte. Ninguém, inclusive os mais poderosos, nem nada, inclusive a arte, pode estar acima dos ditames da lei.


Gil Vicente

Muito bem, até aí concordamos em gênero, número e grau. Discordo, entretanto, do entendimento específico sobre a obra de Gil Vicente. Afirma D’Urso: “(...) entendo que a série “Inimigos” não deveria integrar essa mostra [Bienal de São Paulo]. Isso por fazer apologia ao crime, atacar a dignidade dos representados e atentar contra as instituições democráticas, representada pelo Presidente da República, entre outras figuras públicas internacionais, como o papa Bento 16”. Não vejo apologia ao crime, nem ataque à dignidade dos representados, muito menos contra as instituições democráticas. Aliás, quanto a esta última, parece-me mais um sintoma da síndrome de exageros que vitimou alguns dos nossos doutos juristas, somando-se ao enquadramento do presidente Lula como fascista, imputado por José Carlos Dias e Miguel Reale Júnior.

No tocante à apologia ao crime, bem, proibamos todos os filmes de Sylvester Stallone, Jean Claude Van Damme e congêneres, quase todos os funks cariocas, os videogames, etc. Essa discussão já não havia sido superada? É o velho pensamento de que o público não sabe distinguir representação artística de realidade e precisa, coitado, da tutela do Estado para que não faça nenhuma bobagem. Data máxima vênia, enxergar apologia ao crime pelo simples fato de que as ilustrações mostram o próprio autor assassinando personalidades conhecidas, além de cercear uma forma legítima de expressão do artista, também pressupõe uma inteligência assaz diminuta do público e de sua capacidade de exercício da cidadania. A propósito, alguém imagina uma pessoa induzida a matar Lula ou FHC, influenciada pelas ilustrações de Gil Vicente? Ou, pior, que esta seja a pretensão do artista com sua obra?

Sobre a dignidade dos representados, muito embora não pense que a personalidade pública – ou, para usar um jargão atual, a celebridade – é sempre pública, 24 horas por dia, não acredito que a obra se refira aos indivíduos, mas à sua representação pública. Daí, não se referindo à pessoa da celebridade retratada, mas à sua representação pública, que afeta a todos, passa a ser legítima a crítica que a obra busca atingir. Sim, Lula, FHC e o papa Bento 16 merecem respeito. Contudo, o que Gil Vicente faz é trabalhar com as figuras, as imagens públicas dessas pessoas, não atingindo seus indivíduos propriamente.

Quando vi algumas dessas ilustrações, lembrei-me de Andy Warhol, sua genial Pop Art, com a qual tomava os rostos de celebridades como Pelé, Marilyn Monroe e Mao Tsé-Tung, misturava-os às imagens de Mickey Mouse e/ou de uma garrafa de Coca-Cola, demonstrando que tais imagens constituem ícones, onipresentes na retina e no imaginário da nossa sociedade contemporânea: sociedade do espetáculo, sociedade de massas, sociedade das mercadorias e da publicidade, sociedade das imagens. Ou seja, o rosto de uma celebridade extrapola seu próprio indivíduo e passa a ser reconhecido e reproduzido em todos os cantos. Passa a fazer parte do mundo real e imaginário de todos. Veja o exemplo da famosa foto que Alberto Korda fez de Che Guevara, hoje vista até em bandeiras de torcidas de futebol.

Aliado a isso está o sentimento de explosão frente à ordem constituída, também representada nos líderes políticos retratados por Gil Vicente. Se D’Urso aponta a necessidade de preservação das instituições democráticas, a crítica a elas é direito legítimo a constar da própria democracia. Eis a crítica do artista, como que a dizer – igual, aliás, ao que pensa o cidadão comum, em um dos muitos momentos de frustração com as instituições e pessoas que as dirigem – “quero que morra esse Bush, essa rainha Elizabeth, esse Ariel Sharon!”. Na verdade, nem Vicente, nem ninguém, se propõe a matar alguém fisicamente, mas sua representação pública, sua imagem, a estrutura política e institucional em que se sustentam. Negar o direito a esse protesto é negar o mínimo de vazão das decepções constantes que têm a quase totalidade dos cidadãos, além de afirmar algo falso: que para ser democrático é preciso aceitar as coisas como estão, sem que possam ser transformadas ou mesmo subvertidas.

Eis a minha discordância em relação ao presidente da OAB/SP. Mas, em nome da democracia e da liberdade de expressão que, cada um da sua forma, procura defender, faça-se a discussão. Por ora, enquanto não há decisão judicial proibitiva, tomo a liberdade de exibir algumas das imagens da série “Inimigos”.








Em tempo: em 2008 foi exibido nos cinemas de São Paulo e do Rio o filme “A morte de George W.Bush”, do inglês Gabriel Range. O filme tratava justamente disso: do assassinato (fictício) do ex-presidente americano, personalidade também retratado por Gil Vicente. Não me lembro de nenhuma ação intentando proibir a exibição da película.

* Também postado em www.qultural.blogspot.com

29/09/2010

Para não dizer que não falei do pleito


A poucos dias das eleições, faço algumas observações sobre esta campanha eleitoral, no meu modesto entendimento, a mais pobre em conteúdo desde o retorno das eleições diretas em 1989. Triste contradição: quanto mais ricas as campanhas ficam em dinheiro, mais pobres se mostram em ideias e debate de programas e estratégias. O “marquetismo” – desculpe o palavrão, na falta de conceito melhor – tomou conta da política propriamente dita, buscando o seduzir o eleitor na mensagem rápida, sem muita reflexão, a partir das emoções mais profundas aliadas às impressões mais superficiais e generalizantes. Dessa forma, o confronto de ideias em torno de programas para educação, cultura, saúde, segurança, etc., cede ao diz-que-diz sobre quem fez mais ou menos, quem é o “pai” do plano de nome conhecido, quem é mais “sensível” aos problemas do povo. Os dados concretos são trocados pelas impressões imediatas, a visão estratégica para o país é relevada em prol do sorriso do candidato, da vestimenta da candidata, da competência em passar ao eleitor que são “confiáveis”.

Nessa troca do debate pela superficialidade marqueteira, não dá para aliviar a responsabilidade dos próprios políticos. Foi simplesmente lamentável ver Lula e Dilma posando de “pai” e “mãe” dos brasileiros, ao som de um jinglezinho que dizia “deixo em suas mãos o meu povo”. Como assim, viramos objeto? Deixamos de ser cidadãos, se é que o éramos? Eu quero a minha mãe, a de verdade! Simplesmente ridículo, ainda por cima tratando-se de um partido que ajudou sobremaneira na participação política de camadas antes totalmente marginalizadas. A propósito, quanto às críticas de afronta à democracia sofridas pelo PT, é bom que se lembre que democracia não constitui apenas respeito a regras e instituições formais, mas também em participação efetiva de todos os estratos da sociedade, não apenas de suas classes média e alta. Neste sentido, o PT tem muito mais a dizer do que seus opositores. Não obstante, posar de “pai” e “mãe” do povo nega a condição de cidadania, infantiliza a população, afunda a noção de republicanismo e desconstrói a história de politização que marcou o próprio PT. Lamentável.

Assim como foi lamentável o zigue-zague de Serra, um homem público com histórico de respeito, ora como Zé, ora o amigão da dona Maria e do seu Antonio, coitadinhos, ora como um candidato que “pode mais”, ora como raivosa reencarnação de Lacerda, vociferando contra o PT, Dilma, Zé Dirceu, Míriam Leitão, Banco Central independente, CBN, Evo Morales, FARC, Ahmadinejad e o que mais viesse pela frente. Contra Lula, bem, aí só pela tangente, às vezes até fazendo um elogio velado, à mercê do escudo de popularidade do presidente. Quanto a FHC, não se fala nem bem, nem mal. Aliás, o PSDB parece perguntar: quem é FHC mesmo?

Também não se pode dizer que foram edificantes as participações da imprensa e dos chamados intelectuais nesta campanha. Acerca destes, os poucos que mantêm uma postura de distanciamento, pouco contribuíram na produção de um debate que já nasceu moribundo; os tantos outros, os engajados, contribuíram bastante para tornar esse mesmo “debate” um festival de asneiras, repleto de expressões fortes, à guisa de xingamentos, mas nada esclarecedoras quanto à “realidade efetiva das coisas”, nos termos de Maquiavel. Mexicanização, peronização, priização, golpismo midiático, fascismo foram algumas das expressões fortes, porém tão abestadas quanto o Tiririca no intuito de dar azo de seriedade à campanha eleitoral.

Já a imprensa, muito embora nosso “pai” tenha falado um pouco além da conta – aliás, mantendo uma tradição de 8 anos –, colocou-se numa posição exagerada de vítima, como se sua liberdade (palavra surrada pelo uso excessivo) estivesse verdadeiramente em risco. Assim, num surto narcisista e como se o Brasil de Lula estivesse a copiar a Venezuela de Chavez ou mesmo a Argentina dos Kirchner, passou a falar mais de si do que das propostas e perspectivas para o país nos próximos quatro anos. Fulano ou sicrano, instituição X ou Y “defendeu a liberdade de imprensa” passou a ser presença cativa nas manchetes principais. Sim, o assunto é relevante – liberdade de imprensa, liberdade de expressão, liberdade de opinião, que, destaque-se, não são a mesma coisa – e compromete a democracia. No entanto, cá entre nós, alguém está realmente preocupado a instalação de alguma ditadura?

Confesso que, apesar do gosto que tenho pela política, não consegui me ater muito a esta campanha. Quem sabe, até mesmo por isso: a política, propriamente, esteve ausente dela.

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Trocando debate por denuncismo e as conversas para boi dormir

Nesta campanha, o debate foi, uma vez mais, trocado pelo denuncismo. Vale dizer, os casos da quebra de sigilo na Receita Federal e, principalmente, do tráfico de influência na Casa Civil, merecem destaque, sim. Óbvio! Porém, trocar toda a discussão sobre o governo nos próximos quatro anos pelo tom moralista quase exclusivo não deixa de ser uma perda grave para a democracia. Apesar do mote corrente segundo o qual “é tudo a mesma coisa”, há diferenças importantes entre as principais candidaturas e, por conseguinte, diferenças importantes sobre os rumos do país a depender de qual candidato saia vencedor das urnas. No caso de haver segundo turno a reboque das denúncias da Casa Civil – repito: não nego a importância do fato –, somado à experiência de 2006, em que Geraldo Alckmin foi alçado ao segundo turno em boa medida alçado pelo caso dos “aloprados”, a mensagem será clara: os escândalos e sua exploração em denúncia constante trazem resultado eleitoral. Ainda que não necessariamente leve à vitória final do denunciante.

Outro fator a provocar perda de conteúdo nas discussões sobre os destinos do Brasil é a exploração de factóides. E que seja debitada a culpa aos partidos em disputa e à imprensa, que bem poderia dar o devido peso às coisas. Dois factóides, ou, se preferir, conversas para boi dormir, são o “golpismo midiático” saído da boca revoltosa dos petistas e a “ameaça à democracia” denunciada aos brados por demo-tucanos. Não é inventando problemas que o Brasil não tem, ou, no mínimo, elevando-os à última potência, que partidos, imprensa, intelectuais e os componentes vários da chamada “opinião pública” (essa entidade etérea) trarão os melhores benefícios ao país. Mas, sim, discutindo as questões que realmente têm importância na problemática democracia brasileira. Problemática, porém real.

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O Legislativo além dos abestados

Antes das eleições, alguns parlamentares, digamos, melhor conceituados no quesito fluido “qualificação” desistiram da disputa nas urnas. O argumento: estavam fartos da sina de trabalharem duro no Congresso e serem pegos na taxação generalizante de que “político é tudo igual e é tudo corrupto”. Entre eles, José Eduardo Cardozo (PT-SP) e Ibsen Pinheiro (PMDB-RS). Confesso que fiquei órfão de candidato com a desistência de Cardozo, em quem votei nas duas últimas eleições.

Somada à ausência dos “qualificados” veio a enxurrada de “abestados”, celebridades e afins, tomando conta da campanha para a Câmara dos Deputados. Tiririca é o principal expoente desse “grupo”, devendo ser eleito o deputado mais votado do Brasil.

Infelizmente, centralizadas as análises nessa discussão monocórdica entre preparados e despreparados, qualificados e desqualificados, outros pontos vão passando em branco. Cito dois.

Primeiro: além de lamentar a avalanche de abestados é preciso perceber o quão premente é a reforma do sistema eleitoral. Do jeito que está, as regras são um convite a qualquer partido para convocar seus titiricas, maguilas e mulheres-pêra que, à guisa de protesto, trazem votos suficientes para gerar cadeiras adjacentes a  que, por si sós, partidos e coligações não conseguiriam. Que tal discutirmos a sério o voto em lista, o voto distrital ou o misto logo que 2011 chegar?

Segundo: um outro grupo, muitíssimo menor é verdade, não teve a visibilidade merecida pelas reportagens e comentário de analistas. Refiro-me ao grupo dos que deixaram de reclamar da política e dos políticos e se arriscaram, eles próprios, a um cargo na Câmara. Ari Friedenbach (pai da garota Liana, assassinada pelo menor conhecido como Champinha) e Keiko Otta (mãe do menino Ives Otta, também assassinado) são dois bons exemplos. No meio de tantas lamentações contra a política e seus abestados, talvez seja interessante darmos ênfase àqueles que carregam razões muito maiores para lamentarem da própria vida, mas que encontraram na participação política uma forma de fugirem do reles chororô, assumindo o compromisso de mudar alguma coisa para todos.

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É nóis!

Com fundamento no “discurso do esclarecido” – segundo o qual a escolha deste ou daquele candidato, certamente distinta da própria escolha, é fruto da ignorância do eleitor –, várias críticas surgem à possível eleição deste ou daquele candidato. Um deles é Netinho de Paula, candidato ao Senado pelo PCdoB, em São Paulo. Para determinado setor de “esclarecidos”, só o “povinho da periferia”, “ignorante”, “sem educação”, é capaz de eleger um sujeito desses. No embalo, alguns dos “esclarecidos” até arriscam propostas de proibição de voto para certas camadas “ignorantes” da população.

Já adianto que não votarei em Netinho de Paula, que não me convence como candidato ou mesmo como sambista (e eu adoro samba!), que demonstra arrogância no trato de parte da imprensa, para não falar do episódio de agressão à ex-esposa.

Porém, à grande votação de Netinho apurada nas pesquisas, além daquela já constatada como vereador na capital paulista, não debito a qualquer ignorância do eleitorado, argumento por si arrogante, preconceituoso e, ele próprio, ignorante.

A possível eleição de Netinho para o Senado me faz lembrar um artigo que li em 1998 (não me lembro o autor), defendendo que a população mais carente não confiava em si própria para representá-la politicamente. Assim, um sujeito que se identificava pessoalmente com Lula preferia votar em ACM – esses eram os exemplos dados no artigo, disso me lembro – porque confiava no “doutor” ou no "coronel", mas não no operário. De outra forma, entendia que lugar de operário é na fábrica, cabendo os postos políticos a quem tem status, “pedigree”, para ocupá-los: os “doutores”, “coronéis” e afins. Engraçado: é o próprio argumento do esclarecido aplicado a quem se assumia como um “ignorante”.

Pois bem, acredito que a eleição de Lula trouxe um grande avanço democrático no seguinte sentido. Largamente aprovado pela população brasileira, em especial as de camadas mais baixas, Lula serviu como um símbolo importante para a mudança de concepção dessas pessoas sobre elas próprias. O sujeito mais humilde, que antes duvidava daquele candidato que lhe fazia as vezes de espelho, passou a confiar mais neste, em si próprio e, por extensão, a duvidar um pouco dos “doutores” e "coronéis".

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Fecha a conta, Zé

No início, José Serra esboçou algumas boas propostas ou, no mínimo, discussões importantes. No entanto, cedeu ao tom moralista, ao denuncismo, ao medo e às promessas populares (populistas?) no decorrer da campanha. As tais discussões iniciais eram: o Brasil precisa diminuir a carga tributária, diminuir a taxa de juros, aumentar os investimentos. Para que tudo isso ocorra, é fundamental que se diminua o gasto público. Eis uma tarefa árdua para o próximo presidente, seja quem for.

No entanto, as propostas de Serra representam uma conta que não fecha. Propõe diminuir a carga tributária (portanto, diminuir receita) ao mesmo tempo em que aumentará os investimentos públicos, além dos gastos com educação, saúde e segurança, já que “o Brasil pode mais”. De sobra, resolveu que instituirá o 13º ao Bolsa-Família e aumentará para R$ 600,00 o salário mínimo.

Sem querer ser chato, mas, essa conta fecha, Zé?

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Disputa presidencial obscurece as demais

Sou mais do que favorável à reforma política. Mais do que isso, sou daqueles que a concebem como a “mãe de todas as reformas”, e pretendo discuti-la mais a fundo oportunamente. Um dos pontos dessa reforma que a mim parece relevante é a realização de eleições gerais para todos os cargos políticos, de vereador a presidente. A princípio, a ideia me parece boa. Contudo, constato cada vez mais que a eleição presidencial obscurece as demais. A visibilidade das e o interesse nas disputas para governador e senador – para deputado federal e estadual então, nem se fala! – são bastante diminuídas ou extremamente vinculadas à disputa para Presidente da República. Em suma, ou esses cargos não têm a atenção merecida ou são levadas como uma mera extensão da disputa para o Palácio do Planalto, considerada “maior”.

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Imparcialidade da imprensa
Quanto à imparcialidade, alguns já colocam esse “princípio jornalístico” na berlinda, defendendo que os jornais e revistas escancarem de uma vez suas preferências. Pode mesmo ser uma escolha razoável, ao menos do ponto de vista da sinceridade com que o leitor é tratado. Neste sentido, menciono dois artigos, os quais reputo mais panfletários e eleitoreiros do que propriamente analíticos, publicados pela Folha de S.Paulo, dia 05/09/2010. No primeiro, intitulado “Descaminhos”, Rubens Ricúpero, depois de associar Lula a Perón, Vargas e Chávez, de falar em aliança espúria entre peemedebistas (menos o PMDB paulista, claro) e “sindicalistas de ficha suja”, e de criticar a política de transferência de renda que nos distanciará da “eficiência competitiva da China e da Índia”, conclui, pesaroso: “Se as pesquisas se confirmarem, é esse o país que sairá das urnas, não por culpa dos eleitores, mas por essa lógica das forças da aliança oficial”. No segundo, assinado por Ferreira Gullar (“Vamos errar de novo?”), em mais uma mostra do seu entendimento “objetivo” de que tudo de mau vem de Lula e do PT, mas nada há que se falar da aliança PSDB-DEM, o autor faz campanha aberta da candidatura de José Serra e lamenta a provável vitória de Dilma: “O povo nem sempre acerta. Por duas vezes, o Brasil elegeu presidentes surgidos do nada – Jânio e Collor. O resultado foi desastroso. Acha que vale a pena correr de novo esse risco?”. Por toda a contribuição ao país, cada um da sua maneira, Rubens Ricúpero e Ferreira Gullar são merecedores do respeito dos brasileiros, tendo muito peso as suas opiniões. Não obstante, o que me espanta é a Folha de S.Paulo, que se comprometeu em não defender esta ou aquela candidatura e que se vangloria da sua postura democrática e plural, só tenha colaboradores de um único viés: anti-Lula, anti-PT e anti-Dilma. Se há muitas formas de dizer a verdade falando só mentiras, como dizia o slogan da Folha, também há muitas formas de tomar partido fingindo-se imparcial.

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Do monopólio da ética ao monopólio da corrupção

Antes de ser governo, o PT vivia se colocando como o partido da ética na política (aliás, oportunamente gostaria de discutir ética na política e ética política), como aquele que acabaria com as maracutais quando chegasse ao poder. Não o fez, revelando o que muitos dos seus críticos de origem já diziam: é falso o maniqueísmo que joga com a ideia de um partido ter o monopólio da ética, enquanto a todos os outros recaem as tentações da corrupção.

Uma vez no governo e constatado o que foi constatado, é a vez do DEM e do PSDB apontarem o PT, com a mesma falsidade, como o detentor do monopólio da corrupção. Assumindo a mesma retórica raivosa do adversário outrora opositor – “a turma deles, essa corja de bandidos, essa raça” – os demo-tucanos vendem-se como a opção ética do momento.

Uma visão de longo prazo, porém, mostra que casos como Sivam, privatizações dirigidas, compra de votos para reeleição, Salvatore Cacciola, mensalão (ou, se preferir, mensalões), Waldomiro, aloprados, Erenice, dentre outros, são episódios que se misturam, abarcando a todos e confundindo a cabeça dos caçadores de santos ou separadores do joio e do trigo, quem é “do bem” e quem é “do mal”.

O fato é que o combate à corrupção é um desafio real e imenso para o Brasil. Mas sua efetivação passa por mudanças institucionais como mecanismos de transparência e prestação de contas, aprimoramento do controle interno e externo, financiamento público de campanha, diminuição vertiginosa dos cargos de confiança a serem loteados entre aliados, etc. Enquanto se achar que a solução é encontrar o verdadeiro mocinho que trará ética à política, nada mudará de fato e cada partido e político continuará jurando que é o tal mocinho e que o seu oponente é o bandido.

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Herança maldita e ingratidão, virtú e fortuna

Tão bobo quanto o discurso da herança maldita, segundo a qual o governo Lula promoveu o paraíso em terras tupiniquins, “apesar de FHC”, é o discurso da ingratidão, que apregoa o dever moral de Lula em beijar as mãos do antecessor, cuja política econômica foi tão-somente “copiada” a partir de 2003. Nem o legado foi só de fardos, nem a sequência foi só de inércia.

O aumento da taxa de crescimento e a formação de um forte mercado interno (25 milhões de pessoas saíram da miséria, 30 milhões entraram na classe média), verificados nos anos Lula, não seriam possíveis caso o país não tivesse previamente estabilizado a economia – o que, por si, já promoveu inclusão social – e construído o marco legal para a gestão responsável das finanças públicas, condição fundamental para o não retorno à escalada inflacionária. Quanto à efetivação dessa nova e melhor condição do país, não dá para negar os méritos de FHC, tanto o Ministro da Fazenda como o Presidente da República.

Por outro lado, o discurso da ingratidão de Lula em relação a FHC faz tanto sentido quanto o da ingratidão de FHC diante de Collor. Afinal, da mesma forma que seria impensável o crescimento com inclusão dos anos Lula sem a estabilidade advinda do Plano Real, o êxito deste só foi possível graças ao estupendo acúmulo das reservas internacionais gerada pela abertura ao mercado financeiro na era Collor em consonância com a então incipiente globalização financeira.

Sem diminuir a importância do Real, que soube aliar o engenhoso modelo da URV com a contenção dos déficits públicos primários, principalmente pela escalada da receita tributária, vale lembrar que a hiperinflação foi debelada não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. O aumento da liquidez internacional após a globalização financeira foi condição sine qua non para o sucesso dos planos de estabilização mundo afora, Real incluído. Aliás, como seria possível manter a paridade R$1,00=U$1, a essência da URV, não estivesse o Brasil com os cofres cheios de moeda estrangeira?

Ademais, se o PT foi contra o Plano Real, também se pode aventar que a política econômica do PSDB não geraria o crescimento com inclusão, já que predominava a ideia de que a ascensão da renda das camadas mais baixas seria inflacionária. Aumento real do salário mínimo, nem pensar: é proposta irresponsável!

Em suma, FHC e Lula, cada qual teve sua virtú (habilidade política) e sua fortuna (vantagens trazidas pela conjuntura), seus méritos e seus deméritos. Certo estava Caetano Veloso quando disse ser um luxo para o Brasil ter FHC seguido por Lula na Presidência. Completo: a mudança na ordem dos fatores alteraria o produto.

03/09/2010

Tia Chiquita

Apesar de certa crença, bastante popular, segundo a qual o sujeito já nasce torcendo para este ou para aquele time, sou mais afeito à tese de que o chamado time do coração se explica mais pela influência dos pais ou amigos próximos. Ou, ainda, pela repercussão de equipes brilhantes nos momentos em que o incipiente torcedor está passando pela fase de auto-afirmação individual e futebolística. Por exemplo: quantos e quantos torcedores flamenguistas foram forjados dentre os milhões de pequenos brasileiros que davam seus primeiros passos na vida e nos campinhos no exato período em que incrível rubro-negro de Zico, Adílio e Júnior realizava suas maiores façanhas, aqui e alhures.

Eu sou exemplo dessa tese. Corinthiano desde a mais tenra infância, segui o gosto do meu pai, além de ter crescido sob a égide dos feitos de Sócrates, Casagrande e companhia. Não obstante, meu pai, assim como seus irmãos (meus tios), não se encaixam lá tão bem à tese, muito embora também não comprovem sua invalidade. Meu avô, nascido em 1910 como o Corinthians, morador desde sempre no interior paulista, torcia para o São Paulo Futebol Clube. Teve o desgosto, portanto – na sua cabeça de tricolor, entenda-se bem –, de ver todos os quatro filhos ostentarem a bandeira do arquirrival. Não, os filhos não eram rebeldes, nem tomaram o futebol como um daqueles mecanismos comuns de diferenciação em relação aos ascendentes. O que explica a torcida dos “meninos” é a tia Chiquita, irmã de meu avô.

Imaginem a cena. Lá pelos idos dos anos 1940/50, a tia Chiquita era uma das únicas proprietárias de aparelho de rádio na localidade. O rádio, considerando a época e o lugar, era a mais poderosa porta de acesso às notícias da capital do estado, do país e do resto do mundo. Exagerando um pouco, penso que a tia Chiquita, para as pessoas que se aproximavam para escutar do seu radinho, tinha um poder de influência compatível ao do Datena hoje em dia: as notícias que vinham do seu aparelho eram passadas aos ouvintes ocasionais sob o filtro dos comentários da dona, realçados os feitos e minimizados os defeitos de quem caíra em suas graças.

Ademais, apesar de não me lembrar dela, falecida quando eu ainda era muito criança, consta que a tia Chiquita era do tipo apaixonada, não dava a sua versão dos fatos sob as amarras do princípio da isenção. Pelo contrário. Assim, Getúlio não era simplesmente o presidente do Brasil, mas o maravilhoso “pai do povo” brasileiro. E o melhor, o mais belo, o mais glorioso, o mais tudo de todos os times do planeta era, para a tia Chiquita, o Corinthians. Ainda por cima, aquele escrete formado por Gilmar, Cláudio, Luizinho e Baltazar jogava muito e conquistava títulos importantes.

Trocando em miúdos, por conta da influência da tia Chiquita e do seu poderoso radinho, meu pai e meus tios não se tornaram são-paulinos como meu avô, mas, sim, corinthianos. Ato contínuo, quase todos os seus filhos, eu incluso, seguimos a vocação mosqueteira.

Neste ano de 2010, além do Timão, também o meu avô completou 100 anos. Há poucos dias, contudo, quatro meses após comemorar um século de vida, meu avô faleceu. Tenho a crença de que foi muito bem recebido na espiritualidade pelos tantos entes queridos que cultivou por aqui. Dentre eles, certamente está a tia Chiquita, feliz por comemorar o centenário do Corinthians e por reencontrar seu irmão também centenário, nosso amado freguês.