22/11/2011

Ao Reynaldo Gianecchini

Não me considero imaturo, apesar de ser bastante autocrítico a respeito. Anteontem, contudo, me senti uma criança de colo. Também não me considero um materialista empedernido; prezo o lado espiritual do ser humano. Só que, anteontem, senti o quão incapaz sou de fugir das preocupações comezinhas do dia-a-dia em prol de uma visão mais ampla do que seja realmente essencial. Apesar disso, como me senti bem anteontem!

Tudo por causa da entrevista concedida por Reynaldo Gianecchini a Patrícia Poeta, no “Fantástico” (http://www.youtube.com/watch?v=JUdKifGVCvg). Esperava assistir a uma entrevista, mas assisti a uma aula. Uma aula sobre vida, dada por alguém que se deparou na carne com a questão da morte. O engraçado é que o Reynaldo, filho de professores, parece ter descoberto o cerne do ofício dos pais: adquirir sabedoria com as experiências e, ao mesmo tempo, capacidade de transmitir aos outros tudo o que aprendeu. Dito de outra maneira: aprender ao mesmo tempo em que se ensina. Ao final, pensei: que baita homenagem, quiçá inconsciente, ao “seu” Patão e à dona Heloísa.

Para quem está acostumado tão somente com a imagem do galã, da celebridade e do ator, certamente está admirado com a pessoa. Sempre admirei o Reynaldo por duas características: a inteligência e a maturidade. Certa vez, Marília Gabriela – na época, sua esposa – disse que Giane era um “jovem senhor”. Cá comigo, que estudei por alguns anos com um menino quieto, sempre compenetrado nas aulas, a quem os mais íntimos chamavam de Juninho, tenho a impressão de que o Reynaldo é velho desde que nasceu. Velho no bom sentido: experiente, sabedor das coisas, calejado para enfrentar os desafios que surgem, às vezes, sem qualquer aviso. Mas, sinceramente, passei a admirá-lo muito mais desde que foi noticiada sua doença. Anteontem foi o ápice.

Reynaldo, que sempre me pareceu consideravelmente incólume às vaidades naturais geradas pelos aplausos e histerias de fãs, assim como à cólera não menos natural em relação às críticas, algumas implacáveis, agora se mostra uma fortaleza diante do mais agudo sofrimento. Calma, não pretendo canonizá-lo: trata-se de um ser humano, demasiado humano. No entanto, como disse na entrevista, ao se referir aos últimos momentos do pai, descobriu que o ser humano carrega consigo uma substância divina, que evolui na medida em que desenvolve sua espiritualidade. Quem sabe, essa não seja a maior de todas as descobertas que um ser humano pode fazer de si próprio, de suas potencialidades.

Fiquei emocionado em vários momentos da entrevista. Por exemplo, quando se referiu ao quanto aprende com as crianças em tratamento contra o câncer. Talvez o próprio Reynaldo tenha pensado: “não posso me mostrar fraco diante dessas crianças” e, ao mesmo tempo, “como posso ser fraco se essas crianças se revelam tão fortes?”. Por um instante me veio a lembrança de quando meu primo Rafael Arjonas vinha a São Paulo para sessões de quimeoterapia e ficava hospedado em meu apartamento; nessa época, eu, que constantemente me lamentava do trabalho, da cidade, de tudo, senti uma vergonha estrondosa quando me deparei com aquele rapaz, todo sorridente e confiante. Senti-me péssimo ao notar o quão fraco eu estava sendo.

Reynaldo parece estar aprendendo – e transmitiu isso na linda entrevista – o mais profundo significado da vida. E o faz, creio, de duas formas. Primeira: ao lidar com a morte, compreende que o mais razoável é enaltecer a vida. A propósito, reflito às vezes: se a morte é inescapável (uma verdade absoluta, uma experiência que todos viverão, sem trocadilho, independentemente de idade ou de crenças e descrenças religiosas), para que perder tempo com lamúrias em vez de simplesmente viver da melhor maneira possível o tempo que temos? Tempo, inclusive, que desconhecemos, que pode ser mais ou menos breve (por mais que vivamos, sempre acharemos a vida breve), não importa o quão saudáveis estejamos. Isto vale tanto para quem concebe a morte como o fim, como para quem a vê como passagem para uma outra fase de vida. Claro, tudo isso é mera reflexão. Não é nada fácil colocar tais pensamentos em prática, transformar as convicções ideais em sentimentos íntimos consolidados. O Reynaldo, como dito, parece estar passando bem por esse aprendizado.

Também parece estar aprendendo sobre a vida ao lidar com o amor. Não é preciso muito esforço para notar o quão querido o Reynaldo é. As inúmeras palavras de apoio que recebe – escritas, faladas... gesticuladas –, as manifestações de carinho da família, dos amigos e dos fãs, as preces rogando sua cura, tudo isso é prova de amor. Mas o diferencial do Reynaldo, pelo que notei da entrevista, é que ele está sabendo receber e compartilhar esse amor; fazer desse sentimento uma substância que lhe auxilia não apenas no tratamento contra o câncer, mas como alimento para desenvolver sua espiritualidade, para viver plenamente como pessoa, como espírito. Isso é visível na descrição do momento da despedida do pai, pedindo e concedendo perdão, ou quando se compromete a cuidar da família, ou quando participa da festa dos que estão hospitalizados quando há alguma superação, ou, mesmo, quando se emociona ao observar tanto carinho direcionado a ele.

Enfim, que belíssima entrevista, Rey! Desejo a você, do fundo do coração, toda a força e toda a paz do mundo. Quer dizer, se é que você já não as tem.

***

Em tempo: Concebo a existência individual como a representação de uma peça. Ou seja, ainda que acreditemos ser a pessoa que vemos no espelho, na verdade, representamos um personagem. Dessa forma, não sou o João, mas represento alguém que penso ser eu, cujo nome é João. Não sou, mas estou o João. Um dia, deixarei esse “papel” e farei outro. Assim como acredito já ter feito inúmeros outros papéis anteriormente. Eis a vida: o espírito é o ator, o verdadeiro ator, que, ao longo de uma vida infinita, representa muitos papéis. Com o passar do tempo, nos tornamos atores cada vez melhores.

Falando nisso, a mim parece que o Reynaldo está cada vez melhor na arte de atuar. Em todos os sentidos. Capaz de uma cena antológica como a da novela Esperança, em que, contracenando com Raul Cortez, pai e filho conversam, completamente bêbados. E capaz de, na “vida real”, enfrentar com serenidade impressionante um momento tão difícil.


07/11/2011

Identidade

Nome, RG, CPF, estado civil, endereço. Para que melhor se identifique a pessoa, há que se perguntar sobre o tipo sanguíneo, o estilo de música preferido, o time do coração, a ideologia política, as preferências gastronômicas. A identidade, contudo, ainda carece de precisão caso não sejam considerados os aspectos físicos: altura, cor da pele, sexo, peso, características (ou ausência) dos cabelos, etc. Detalhes são importantes. Tanto que a própria pessoa vai descobrindo esses detalhes aos poucos e, também aos poucos, descobre-se a si mesma.

Vários são os elementos que compõem a identidade de alguém. Identidade construída e estruturada perante os olhos dos outros e perante si mesmo; às vezes, uma não bate com a outra. Do conjunto desses elementos fundamenta-se o juízo que fazem de você e que o próprio cidadão, à frente do espelho ou nos mais íntimos momentos de auto-percepção, faz de si: ser considerado ou achar-se bonito ou feio, baixo ou alto, inteligente ou burro, simpático ou antipático, “do bem” ou “do mal”. O rol, claro, é meramente exemplificativo.

Eis o ponto da minha angústia atual. Desde a mais tenra idade, olho-me no espelho e vejo um sujeito não muito bonito (usemos um eufemismo para que não me aborreça ainda mais do que já estou), com cujas feições e mudanças do tempo aprendi a conviver. A barriga que aumenta, as rugas que surgem, os cabelos que embranquecem e raleiam. Não obstante a dura transformação dos anos, lá estou com todos os elementos constitutivos, mutatis mutandis. Quer dizer, desde há poucos dias, todos menos um: a pinta do lado direito do rosto.

Por 39 primaveras (na verdade, 40, já que nasci nessa estação), ela sempre esteve ali. No começo, era um minúsculo pontinho na bochecha gorda de uma criança. Motivo de carinhos, cuti-cuti e bilú-bilú. Era o menino da pinta, exposta com orgulho, como um aprazível adorno presenteado pela natureza.

Na adolescência, a pinta cresceu, mas continuava a ter o conceito em alta. Era o charme, a marca registrada, fator de distinção (sempre é bom ser especial, diferente dos demais, mormente nessa faixa etária). Se o sucesso com as garotas não era lá essas coisas, devia-se ao todo prejudicado da lataria, jamais à presença da pinta. Para ser sincero, gosto de acreditar que a pinta até auxiliou em determinadas conquistas.

Com a maturidade a pinta parece também ter desenvolvido certa aura de sobriedade. Dava um toque a mais no ar intelectual, uspiano, legado pelo rosto comumente sério em que residia. Nesse habitat, por assim dizer, combinava perfeitamente com os óculos e a barba rala e por fazer.

Mais tarde, foi usada em brincadeiras infantis. Como a sobrinha também tivera a sorte de nascer com uma pintinha, só que na testa, eu, tiozão, fingia que a retirava e colava na minha bochecha direita. Minha pobre sobrinha devia pensar, assustada: será que minha pinta, além de ser descolada da minha testa, ainda virou um carrapato na cara do titio? Devia ficar em pânico com a possibilidade de que eu a devolvesse tão avariada.

Pois é, a idade avançou e aquele ponto, antes singelo, pequeno, o charme, a marca registrada, tornara-se um monstrengo com feição de carrapato. Quer dizer, nem tanto. Mas o fato é que a pinta foi crescendo e se tornado disforme. Reconheço: assim como o todo do corpo em que estava inserida, a pobre pinta enfeiara com o tempo implacável.

Para piorar, começaram a pulular recomendações médicas para que fosse sumária e impiedosamente extirpada sob o argumento de que, no futuro, poderia se transformar em um tumor maligno. Quanto mais o tempo passava, quanto mais trombava com médicos – e não importava a especialidade do doutor ou da doutora –, mais aumentava a pressão. “Região de atrito, exposição ao sol, sei não; isso vai acabar virando um cancerzinho...”. Engraçado este termo: um substantivo amedrontador suavizado pelo diminutivo.

Sei que as recomendações médicas visavam tão-somente a preservação da minha saúde.  Mas não deixavam de ser conselhos frios, que desconsideravam o que representava aquela pinta para minha identidade. “É preciso extirpá-la”, dito assim, de modo asséptico, insensível, absolutamente racional, tudo parecia limitar-se ao óbvio da prudência, medida cautelar necessária. Mas, como bem sei, a coisa era mais complexa.

Eis que chegou o dia em que se deu o inevitável. Tomado de coragem, parti resoluto ao consultório do doutor e, qual um súbito enlouquecido que vai ao barbeiro e manda passar máquina zero na cabeça, asseverei: “Pode tirar!”. E assim se fez. Protegido por anestesia local, sem qualquer dor física, mas apenas o nó na garganta por me desfazer de um pedaço tão querido, passei todo o tempo do “procedimento” conversando amenidades com o doutor para esquecer que a decisão não tinha volta. Jamais veria minha pinta novamente. Pior que isso foi vê-la num vidrinho com formol, descolada da face em que fincara raízes por quase quatro décadas. E injustamente denominada de "lesão".

Adeus, companheira. Sei que não sou mais a mesma pessoa. Continuo a me chamar João, portar o mesmo RG (acrescido de um dígito), perpetuando a baixa estatura e cultivando paixão corinthiana... mas deixei de ter você. Por isso, deixo cá minha homenagem. Obrigado por sua parcela de responsabilidade em fazer de mim quem sou. Ou melhor, quem fui. Afinal, doravante, ninguém saberá quem sou caso se refiram a um sujeito com uma pinta no lado direito do rosto.

01/11/2011

Titebilidade

Alunos fumam maconha no campus. Polícia mobiliza um batalhão inteiro, lança bombas de gás lacrimogênio e o escambau  para dar um “teje preso” nos maconheiros. Alunos formam uma horda pretensamente revolucionária para defender os companheiros, sobem nas viaturas, invadem o prédio da administração e escondem o rosto com camiseta, lembrando cena de rebelião de presídio. Mais uma vez. Um deles, mais empolgado, queima a bandeira do Brasil. Mas a polícia só quer o império da lei; o cacete é inevitável, alegam. Sim, estão preparados para lidar com a situação. Preparadíssimos! Da mesma forma que na retirada dos camelôs da feirinha da madrugada. Quem manda ser ilegal e, sem direito ao contraditório, posar de comerciante de produtos piratas e roubados?
Ex-presidente descobre estar doente. Na internet, pululam mensagens de apoio juntamente a destemperos e manifestações desumanas (inconfessáveis, não fosse o anonimato) pró-tumor, não pró-pessoa. “Devia ser internado pelo SUS!”; se é contra o Lula (até câncer?), é legal. Na TV, repórter é agredida por grupelho que, pela enésima vez (sempre com surpresa e violência), atrapalha o link ao vivo. Alguns acham legal; tudo que ferra a Globo é legal. Além do mais, humor agora é assim, punk, à moda Rafinha. Para outros: “cadê a polícia que não prende esses caras?”. Ah, tá na USP, tá no Bráz... Só não está na proteção da juíza, assassinada. Ou na dos gays que andam pela Paulista. Ou na do deputado carioca, forçado a se exilar, em pleno século XXI, para que não seja morto também. Por bandido ou, quem sabe, pela própria polícia.
E tomem gritos, xingamentos, acusações, bravatas. De um lado: “Tudo vândalo, terrorista, esquerdista de merda, revolucionários de meia pataca, lixo da história, corruptos todos: PT, PC do B, Venezuela, diretório acadêmico, presidenta (faxineira é o catso!), ex-presidente metalúrgico vagabundo!”. A resposta: “Elite de merda, direita de bosta, exploradores dos pobres, parasitas do dinheiro público, indignemo-nos contra todos esses corruptos: PSDB, DEM, EUA, reitor, banqueiros, mídia, governador mauricinho, ex-presidente neoliberal entreguista (virou maconheiro também?)!”.
Quer saber, concordo com o Tite. “Está faltando namorar!”. Eis o melhor remédio para os dias que correm. Levar o jogo da vida com mais titebilidade, mas sempre em busca da vitória. Falta pensar nas coisas com mais moderação, menos fígado. Para torcer apaixonadamente, serve o Timão.