Nome, RG, CPF, estado civil, endereço. Para que melhor se identifique a pessoa, há que se perguntar sobre o tipo sanguíneo, o estilo de música preferido, o time do coração, a ideologia política, as preferências gastronômicas. A identidade, contudo, ainda carece de precisão caso não sejam considerados os aspectos físicos: altura, cor da pele, sexo, peso, características (ou ausência) dos cabelos, etc. Detalhes são importantes. Tanto que a própria pessoa vai descobrindo esses detalhes aos poucos e, também aos poucos, descobre-se a si mesma.
Vários são os elementos que compõem a identidade de alguém. Identidade construída e estruturada perante os olhos dos outros e perante si mesmo; às vezes, uma não bate com a outra. Do conjunto desses elementos fundamenta-se o juízo que fazem de você e que o próprio cidadão, à frente do espelho ou nos mais íntimos momentos de auto-percepção, faz de si: ser considerado ou achar-se bonito ou feio, baixo ou alto, inteligente ou burro, simpático ou antipático, “do bem” ou “do mal”. O rol, claro, é meramente exemplificativo.
Eis o ponto da minha angústia atual. Desde a mais tenra idade, olho-me no espelho e vejo um sujeito não muito bonito (usemos um eufemismo para que não me aborreça ainda mais do que já estou), com cujas feições e mudanças do tempo aprendi a conviver. A barriga que aumenta, as rugas que surgem, os cabelos que embranquecem e raleiam. Não obstante a dura transformação dos anos, lá estou com todos os elementos constitutivos, mutatis mutandis. Quer dizer, desde há poucos dias, todos menos um: a pinta do lado direito do rosto.
Por 39 primaveras (na verdade, 40, já que nasci nessa estação), ela sempre esteve ali. No começo, era um minúsculo pontinho na bochecha gorda de uma criança. Motivo de carinhos, cuti-cuti e bilú-bilú. Era o menino da pinta, exposta com orgulho, como um aprazível adorno presenteado pela natureza.
Na adolescência, a pinta cresceu, mas continuava a ter o conceito em alta. Era o charme, a marca registrada, fator de distinção (sempre é bom ser especial, diferente dos demais, mormente nessa faixa etária). Se o sucesso com as garotas não era lá essas coisas, devia-se ao todo prejudicado da lataria, jamais à presença da pinta. Para ser sincero, gosto de acreditar que a pinta até auxiliou em determinadas conquistas.
Com a maturidade a pinta parece também ter desenvolvido certa aura de sobriedade. Dava um toque a mais no ar intelectual, uspiano, legado pelo rosto comumente sério em que residia. Nesse habitat, por assim dizer, combinava perfeitamente com os óculos e a barba rala e por fazer.
Mais tarde, foi usada em brincadeiras infantis. Como a sobrinha também tivera a sorte de nascer com uma pintinha, só que na testa, eu, tiozão, fingia que a retirava e colava na minha bochecha direita. Minha pobre sobrinha devia pensar, assustada: será que minha pinta, além de ser descolada da minha testa, ainda virou um carrapato na cara do titio? Devia ficar em pânico com a possibilidade de que eu a devolvesse tão avariada.
Pois é, a idade avançou e aquele ponto, antes singelo, pequeno, o charme, a marca registrada, tornara-se um monstrengo com feição de carrapato. Quer dizer, nem tanto. Mas o fato é que a pinta foi crescendo e se tornado disforme. Reconheço: assim como o todo do corpo em que estava inserida, a pobre pinta enfeiara com o tempo implacável.
Para piorar, começaram a pulular recomendações médicas para que fosse sumária e impiedosamente extirpada sob o argumento de que, no futuro, poderia se transformar em um tumor maligno. Quanto mais o tempo passava, quanto mais trombava com médicos – e não importava a especialidade do doutor ou da doutora –, mais aumentava a pressão. “Região de atrito, exposição ao sol, sei não; isso vai acabar virando um cancerzinho...”. Engraçado este termo: um substantivo amedrontador suavizado pelo diminutivo.
Sei que as recomendações médicas visavam tão-somente a preservação da minha saúde. Mas não deixavam de ser conselhos frios, que desconsideravam o que representava aquela pinta para minha identidade. “É preciso extirpá-la”, dito assim, de modo asséptico, insensível, absolutamente racional, tudo parecia limitar-se ao óbvio da prudência, medida cautelar necessária. Mas, como bem sei, a coisa era mais complexa.
Eis que chegou o dia em que se deu o inevitável. Tomado de coragem, parti resoluto ao consultório do doutor e, qual um súbito enlouquecido que vai ao barbeiro e manda passar máquina zero na cabeça, asseverei: “Pode tirar!”. E assim se fez. Protegido por anestesia local, sem qualquer dor física, mas apenas o nó na garganta por me desfazer de um pedaço tão querido, passei todo o tempo do “procedimento” conversando amenidades com o doutor para esquecer que a decisão não tinha volta. Jamais veria minha pinta novamente. Pior que isso foi vê-la num vidrinho com formol, descolada da face em que fincara raízes por quase quatro décadas. E injustamente denominada de "lesão".
Adeus, companheira. Sei que não sou mais a mesma pessoa. Continuo a me chamar João, portar o mesmo RG (acrescido de um dígito), perpetuando a baixa estatura e cultivando paixão corinthiana... mas deixei de ter você. Por isso, deixo cá minha homenagem. Obrigado por sua parcela de responsabilidade em fazer de mim quem sou. Ou melhor, quem fui. Afinal, doravante, ninguém saberá quem sou caso se refiram a um sujeito com uma pinta no lado direito do rosto.

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