31/07/2012

A frase




Que importância tem se as bolsas caíram ou subiram? A discussão dos deputados, a decisão dos senadores, a determinação da presidenta: de que me valem? Qual foi mesmo a taxa selic? Tanto faz se o atacante do meu time está contundido e não jogará o clássico. Após ouvir aquela frase, como posso me preocupar com o pênalti perdido, o impedimento não marcado, a posição na tabela?

Não estou nem aí se curtiram meu comentário no face ou se escracharam meu blog. Quem liga para a semântica, as deficiências de estilo, a adequação sintática nas frases que escrevo? Diante daquela, todas as frases escritas ou faladas perderam o sentido.

Nem percebi se o café estava quente, se o pão estava queimado, se a moça do caixa acertou no troco. Dei de ombros para o congestionamento, para a poluição, para a previsão do tempo. Meu tempo, aliás, está congelado, pois o mundo parou: sou um mundo à parte. Retornando o movimento, o tempo será dividido em antes e depois da frase.

Às favas se o trabalho ficou acumulado e se estou com sobrepeso. Até rio se alguém aponta meus cabelos brancos e vou às gargalhadas quando notam minha careca. Amanhã, chego mais cedo ao batente, começo um regime, compro um chapéu panamá. Para tudo se dá um jeito. Menos para a frase. A frase é definitiva, maravilhosamente definitiva.

Quando der, passo na loja, visito a madrinha, combino o passeio, arrumo o escritório. Se eu lembrar, compro um bugue, gravo um cd, reconfiguro o windows. Lembro-me até de não esquecer o guarda-chuva. Quando der, ou melhor, quando passar o efeito da frase. Passará algum dia?

Tanto faz se há vida em Marte, água em Júpiter, brincos em Vênus ou anéis em Saturno. Estou me lixando se a Terra é azul e redonda ou roxa e quadrada. Não é a frase do Gagarin que me interessa, mas outra. Objetivos por conquistar, metas não atingidas: posso postergá-los. Quero mais que se exploda o que é comezinho, muito embora, ante a frase, tudo mais o seja.

Sim, há quem esteja triste porque o time perdeu, porque o aluguel subiu, porque o carro amassou, porque o marido tem outra. Há quem reproduza a mesmice rotineira e não esteja nem aí. Há quem reclame do chefe, conteste a cobrança, exija nota com cpf. Há quem vença uma doença grave, há quem escape da morte e há quem nada possa fazer. Há quem chore a morte do irmão, a perda do emprego, o fiasco nas vendas. Por estes, sinto-me até culpado: a felicidade, às vezes, é uma coisa impossível de se esconder.

Pensarei na qualidade de vida, na melhoria da educação, nos exemplos a dar, no dinheiro a poupar, nas cautelas necessárias. Por ora, só penso nessa bendita frase que me anestesiou e me deixou bobo. Frase seca, direta, singela e incontestável. Dita à queima-roupa: uma sentença, uma lei, a frase. Pronunciada por minha esposa, com olhar maroto, sem que eu pudesse esboçar reação:

“Você vai ser pai.”

Transcorrido um longo período de pensamentos soltos e sorriso aberto, encontro-me a questionar o sujeito da frase. Não é “você”: não há nada mais irrelevante do que a gramática neste momento. Também não sou eu, o “pai”. O sujeito existe, apesar de oculto. Tampouco sei se é menino ou menina. Ou se será parecido comigo, se gostará das mesmas coisas que eu. Apenas sei que já o amo, perdidamente e para sempre.

***

Obs: A frase foi dita em 21/07/2012.

01/07/2012

À tia Beatriz


Lembro-me de acordar bem cedo. A aula começava às sete ou sete e meia, se não me engano. As crianças chegavam acompanhadas pelos responsáveis; a maioria delas, de mãos dadas com as mães. Logo na entrada, como que a nos recepcionar, ficava o Guido com sua pipoca e seus doces. Uma legião de meninos de uniforme azul e meninas de uniforme rosa, munidos de lancheiras e outros apetrechos, marchava rumo às salas de aula. O prédio, o pátio, as quadras, tudo parece imenso na minha recordação infantil. Na verdade, o espaço ocupado pela Escola Estadual Stélio Machado Loureiro realmente é grande. Mas, acredito, não é maior do que o espaço afetivo ocupado nas vidas das tantas pessoas que passaram por ali. Na minha, inclusive.
Sempre digo que minha memória datada inicia-se aos sete anos de idade. Consigo localizar no tempo acontecimentos ocorridos a partir do longínquo 1979. Nem todos, obviamente. O que vem antes, todavia, ainda que me lembre, não tenho condições de apontar dia, mês e ano. Uma das prováveis razões para isso: 1979 é justamente o ano em que ingressei no pré-primário (carinhosamente chamado de “prezinho”) do Stélio. Foi quando me desvencilhei um pouquinho da proteção do pai e das barras da saia da mãe, da segurança do lar, enfim, onde eu era um pequeno rei. Dessa forma, o “prezinho” foi para mim, como para outros, a iniciação para a realidade dura da vida. A inédita e incontestável prova de que não somos o centro do universo. De que há regras de conduta a seguir ou, mais complexo, de que há um conjunto de valores diferenciando certo e errado. Uma moral a nos limitar as ações, fundada especialmente em um princípio: respeito aos demais.
Imagine o quão complicado, traumático mesmo, pode ser esse momento para uma criança de sete anos! Nem mesmo para os pais é um momento totalmente tranquilo. Claro que as primeiras noções de convivência já vêm da família, às vezes reforçada por lições de catecismo religioso: onde os olhos dos pais não alcançam, costumeiramente se usa o alerta de que “Deus castiga” ou, menos drástico, de que “Deus fica triste” com determinadas diabruras. Mas é na escola que aquelas noções começam a ser operadas na prática, nas relações com os coleguinhas de classe. Daí, a imensa responsabilidade do primeiro professor: deve ser, ao mesmo tempo, o educador que transmite o conhecimento das letras, dos cálculos, das artes e tudo o mais, e uma espécie de substituto dos pais na orientação das primeiras experiências com a independência, com a liberdade, com a responsabilidade, em suma, com a vida em sociedade.
Tive muita sorte. Minha primeira professora tinha grande habilidade (pode-se chamar também de sabedoria) em lidar com crianças. Sabia que o decisivo passo era ganhar a confiança dos pequenos. Deixar claro sua autoridade, mas nunca impô-la pelo medo ou por castigos, e sim, pela conquista paulatina na base da doçura, do carinho. Dessa forma, detinha a atenção da criançada nos momentos mais sérios e as deixava saborear os momentos de descontração. Sem que percebêssemos, a tensão pela mudança abrupta tornara-se sentimento de contentamento compartilhado em um ambiente de consolidação de amizades, de aprendizado,  de amadurecimento.
Minha primeira professora soube conduzir esse processo com mestria. Com a mesma competência trabalhou com várias gerações, anteriores e posteriores à minha. O mais interessante é que, passados tantos anos (décadas!), aquela doçura e aquele carinho não se perdem em nossas memórias!  Tenho certeza de que muitos dos seus ex-alunos, chegando à condição de pais, torceram para que os filhos tivessem a mesma sorte de encontrar uma professora como ela.
Sei que o tempo passa e as coisas mudam. Ainda não tenho filhos. Contudo, torço para que, quando os tiver, eles tenham experiências ao menos parecidas com as que tive e que me causam tanta saudade. Saudade, por exemplo, dessa época do “prezinho”. Saudade de brincar de massinha, de fazer desenhos com canetinha, de jogar futebol usando ki-chute, de comer o pão com mortadela da cantina do Jairo. Saudade do Stélio, das brincadeiras, do ambiente. Saudade dos tantos amigos: alguns dos quais, com mais ou menos frequência, ainda vejo; outros, que se perderam no tempo e no espaço, mas nunca do alcance da afeição. Saudade da tia Beatriz: das suas aulas, da sua doçura e do seu carinho. Saudade: palavra mais do que apropriada neste instante.