Que importância tem se as bolsas caíram ou subiram? A discussão dos deputados, a decisão dos senadores, a determinação da presidenta: de que me valem? Qual foi mesmo a taxa selic? Tanto faz se o atacante do meu time está contundido e não jogará o clássico. Após ouvir aquela frase, como posso me preocupar com o pênalti perdido, o impedimento não marcado, a posição na tabela?
Não estou nem aí se curtiram meu comentário no face ou se escracharam meu blog. Quem liga para a semântica, as deficiências de estilo, a adequação sintática nas frases que escrevo? Diante daquela, todas as frases escritas ou faladas perderam o sentido.
Nem percebi se o café estava quente, se o pão estava queimado, se a moça do caixa acertou no troco. Dei de ombros para o congestionamento, para a poluição, para a previsão do tempo. Meu tempo, aliás, está congelado, pois o mundo parou: sou um mundo à parte. Retornando o movimento, o tempo será dividido em antes e depois da frase.
Às favas se o trabalho ficou acumulado e se estou com sobrepeso. Até rio se alguém aponta meus cabelos brancos e vou às gargalhadas quando notam minha careca. Amanhã, chego mais cedo ao batente, começo um regime, compro um chapéu panamá. Para tudo se dá um jeito. Menos para a frase. A frase é definitiva, maravilhosamente definitiva.
Quando der, passo na loja, visito a madrinha, combino o passeio, arrumo o escritório. Se eu lembrar, compro um bugue, gravo um cd, reconfiguro o windows. Lembro-me até de não esquecer o guarda-chuva. Quando der, ou melhor, quando passar o efeito da frase. Passará algum dia?
Tanto faz se há vida em Marte, água em Júpiter, brincos em Vênus ou anéis em Saturno. Estou me lixando se a Terra é azul e redonda ou roxa e quadrada. Não é a frase do Gagarin que me interessa, mas outra. Objetivos por conquistar, metas não atingidas: posso postergá-los. Quero mais que se exploda o que é comezinho, muito embora, ante a frase, tudo mais o seja.
Sim, há quem esteja triste porque o time perdeu, porque o aluguel subiu, porque o carro amassou, porque o marido tem outra. Há quem reproduza a mesmice rotineira e não esteja nem aí. Há quem reclame do chefe, conteste a cobrança, exija nota com cpf. Há quem vença uma doença grave, há quem escape da morte e há quem nada possa fazer. Há quem chore a morte do irmão, a perda do emprego, o fiasco nas vendas. Por estes, sinto-me até culpado: a felicidade, às vezes, é uma coisa impossível de se esconder.
Pensarei na qualidade de vida, na melhoria da educação, nos exemplos a dar, no dinheiro a poupar, nas cautelas necessárias. Por ora, só penso nessa bendita frase que me anestesiou e me deixou bobo. Frase seca, direta, singela e incontestável. Dita à queima-roupa: uma sentença, uma lei, a frase. Pronunciada por minha esposa, com olhar maroto, sem que eu pudesse esboçar reação:
“Você vai ser pai.”
Transcorrido um longo período de pensamentos soltos e sorriso aberto, encontro-me a questionar o sujeito da frase. Não é “você”: não há nada mais irrelevante do que a gramática neste momento. Também não sou eu, o “pai”. O sujeito existe, apesar de oculto. Tampouco sei se é menino ou menina. Ou se será parecido comigo, se gostará das mesmas coisas que eu. Apenas sei que já o amo, perdidamente e para sempre.
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Obs: A frase foi dita em 21/07/2012.

