Lembro-me de acordar bem cedo. A aula começava às sete ou sete e meia, se não me engano. As crianças chegavam acompanhadas pelos responsáveis; a maioria delas, de mãos dadas com as mães. Logo na entrada, como que a nos recepcionar, ficava o Guido com sua pipoca e seus doces. Uma legião de meninos de uniforme azul e meninas de uniforme rosa, munidos de lancheiras e outros apetrechos, marchava rumo às salas de aula. O prédio, o pátio, as quadras, tudo parece imenso na minha recordação infantil. Na verdade, o espaço ocupado pela Escola Estadual Stélio Machado Loureiro realmente é grande. Mas, acredito, não é maior do que o espaço afetivo ocupado nas vidas das tantas pessoas que passaram por ali. Na minha, inclusive.
Sempre digo que minha memória datada inicia-se aos sete anos
de idade. Consigo localizar no tempo acontecimentos ocorridos a partir do
longínquo 1979. Nem todos, obviamente. O que vem antes, todavia, ainda que me
lembre, não tenho condições de apontar dia, mês e ano. Uma das prováveis razões
para isso: 1979 é justamente o ano em que ingressei no pré-primário
(carinhosamente chamado de “prezinho”) do Stélio. Foi quando me desvencilhei um
pouquinho da proteção do pai e das barras da saia da mãe, da segurança do lar,
enfim, onde eu era um pequeno rei. Dessa forma, o “prezinho” foi para mim, como
para outros, a iniciação para a realidade dura da vida. A inédita e
incontestável prova de que não somos o centro do universo. De que há regras de
conduta a seguir ou, mais complexo, de que há um conjunto de valores
diferenciando certo e errado. Uma moral a nos limitar as ações, fundada
especialmente em um princípio: respeito aos demais.
Imagine o quão complicado, traumático mesmo, pode ser esse
momento para uma criança de sete anos! Nem mesmo para os pais é um momento totalmente
tranquilo. Claro que as primeiras noções de convivência já vêm da família, às
vezes reforçada por lições de catecismo religioso: onde os olhos dos pais não
alcançam, costumeiramente se usa o alerta de que “Deus castiga” ou, menos
drástico, de que “Deus fica triste” com determinadas diabruras. Mas é na escola
que aquelas noções começam a ser operadas na prática, nas relações com os coleguinhas
de classe. Daí, a imensa responsabilidade do primeiro professor: deve ser, ao
mesmo tempo, o educador que transmite o conhecimento das letras, dos cálculos, das
artes e tudo o mais, e uma espécie de substituto dos pais na orientação das
primeiras experiências com a independência, com a liberdade, com a
responsabilidade, em suma, com a vida em sociedade.
Tive muita sorte. Minha primeira professora tinha grande
habilidade (pode-se chamar também de sabedoria) em lidar com crianças. Sabia
que o decisivo passo era ganhar a confiança dos pequenos. Deixar claro sua
autoridade, mas nunca impô-la pelo medo ou por castigos, e sim, pela conquista
paulatina na base da doçura, do carinho. Dessa forma, detinha a atenção da
criançada nos momentos mais sérios e as deixava saborear os momentos de
descontração. Sem que percebêssemos, a tensão pela mudança abrupta tornara-se
sentimento de contentamento compartilhado em um ambiente de consolidação de amizades, de
aprendizado, de amadurecimento.
Minha primeira professora soube conduzir esse processo com mestria.
Com a mesma competência trabalhou com várias gerações, anteriores e posteriores
à minha. O mais interessante é que, passados tantos anos (décadas!), aquela
doçura e aquele carinho não se perdem em nossas memórias! Tenho certeza de que muitos dos seus
ex-alunos, chegando à condição de pais, torceram para que os filhos tivessem a
mesma sorte de encontrar uma professora como ela.
Sei que o tempo passa e as coisas mudam. Ainda não tenho
filhos. Contudo, torço para que, quando os tiver, eles tenham experiências ao
menos parecidas com as que tive e que me causam tanta saudade. Saudade, por
exemplo, dessa época do “prezinho”. Saudade de brincar de massinha, de fazer
desenhos com canetinha, de jogar futebol usando ki-chute, de comer o pão com
mortadela da cantina do Jairo. Saudade do Stélio, das brincadeiras, do
ambiente. Saudade dos tantos amigos: alguns dos quais, com mais ou menos
frequência, ainda vejo; outros, que se perderam no tempo e no espaço, mas nunca
do alcance da afeição. Saudade da tia Beatriz: das suas aulas, da sua doçura e
do seu carinho. Saudade: palavra mais do que apropriada neste instante.

Ela é inesquecível
ResponderExcluirAh... saudade!!!
ResponderExcluirÉpoca boa... que saudade do campinho de futebol do ColÉgio das Freiras. Chegavamos mais cedo e a pelota(invariavelmente levada por mim) rolava até o sino tocar(as vezes até depois). Quando iamos para sala com o ki-chute cheio de barro, sempre eramos recebidos por uma voz doce da Tia Maria ou mais tarde da Tia Carminha... Ah!!! Saudades...
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirSou da turma 1986, ahh quantas saudades de dona Beatriz
ResponderExcluirEPOCA BOA, O UNIFORME DA MOLECADA ERA SHORTINHO CURTOE NINGUEM ERA GAY, NOS DIAS DE HOJE USA UMA BERMUDA DE JECA.
ResponderExcluirMmeu irmao foi aluno dela
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirPutz, dez anos essa postagem, João Quirino, quanto tempo, reconheço alguns da foto, infelizmente não todos. Saudades do EEPSG Prof Stélio Machado Loureiro, de Birigui, nem tanto...
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