No dia 2 de dezembro de 2007, assisti, sentado no chão e com o som da TV
desligado, à partida entre Grêmio e Corinthians que culminou no rebaixamento do
meu time para a segunda divisão do campeonato brasileiro. O sofrível desempenho
no certame tornara previsível o desfecho trágico. Isso não impediu, ao apito
final, o susto, a descrença, a acusação de culpados, a vergonha. Passados
alguns minutos, ambiente tomado pela tristeza e pelo som cruel de rojões e
buzinas, com os olhos marejados, abri a porta do quarto onde minha mulher,
solidária – apesar de são-paulina –, recolhera-se para que eu curtisse minha
dor em paz. Pronta para consolar-me, ela se surpreendeu com o improvável
sorriso na face do marido. Sabe-se lá por que, sem mais nem menos, fui tomado
pela certeza quase absoluta de que tal momento era uma etapa necessária para o
Timão tornar-se verdadeiramente forte.
Qual um profeta, liguei para meu cunhado, também corinthiano, ávido por
lhe dar a boa nova. Após algumas tentativas frustradas – por razões óbvias, ele
evitava o telefone –, consegui despejar-lhe a profecia:
“Cara, pode escrever: o Dualib já está fora, o
clube vai se reestruturar, o time vai se reorganizar, vamos ganhar a segundona,
o Paulistão, a Copa do Brasil e, esteja certo, mais cedo do que você imagina
faturamos a Libertadores!”
O rompante de otimismo não impediu a preocupação com as possíveis
consequências da queda em certos torcedores: meus sobrinhos. Frente à
primeiríssima grande decepção futebolística, o que pensariam e como reagiriam
Ana Laura, 9, Rodrigo, 5, e Pedro, 1? Como absorveriam as gozações na escola e,
pior, os questionamentos íntimos? E nós, adultos, como prosseguiríamos na
catequização clubística, na pregação de que pertencíamos à torcida mais fiel da
camisa mais gloriosa do esporte bretão? Como sustentar a idolatria mosqueteira,
enfim, diante de tamanha demonstração de incompetência ludopédica? Eles, que já
haviam entrado em campo com os jogadores, passariam a recusar as visitas
eventuais ao Pacaembu e ao Parque São Jorge? Sem enrolação, a pergunta fatal
era: continuariam corinthianos? Eis a mais angustiante das indagações, uma vez
que o distintivo do time do coração não é um mero desenho, pois, sim, um
verdadeiro brasão de família: tão importante que a muitos acompanha por toda a
vida, do enfeite na porta da maternidade até a bandeira sobre o caixão!
A solução foi aproveitar o momento para dar novas lições às crianças. As
lições da derrota, por assim dizer. Primeira, a lição da humildade: vencer e
perder fazem parte da vida; aprendemos com ambos. De mais a mais – aí a fala já
não era mais tão humilde –, o futebol perderia a graça se só nós vencêssemos...
Segunda, a lição do tempo e do trabalho: há fases de conquistas e fases de
perdas; é preciso paciência, esforço e inteligência para que superemos o
período ruim e voltemos às vacas gordas. Como diz o ditado, não há mal que
sempre dure nem bem que nunca acabe. Porém, mudanças não vêm por inércia (tenho
minhas dúvidas se as crianças entenderam essa coisa de inércia). Por fim, a
mais importante das lições: independentemente das derrotas, somos grandes e
jamais deixaremos de sê-lo. A superação será a maior prova da nossa grandeza.
Grandeza, aliás, que não está somente nos resultados, mas, acima de tudo, no
nosso orgulho em vestir a camisa em qualquer circunstância.
Esta última era a lição mais delicada. Mesmo com a retórica bem
construída, francamente, é impossível sustentar o discurso da grandeza quando
um escrete só faz apanhar. O próprio torcedor, peregrinando anos e anos pelos
estádios sem faturar uma tacinha sequer, passa a questionar se seu clube é – ou
ainda é – realmente grande. Angústia maior: sendo extremamente penoso torcer
para time pequeno, muitas vezes o filho abdica da paixão herdada do pai,
virando a casaca em prol de camisa mais vencedora. Sejamos sinceros: quantos
filhos de corinthianos, palmeirenses e santistas não se tornaram são-paulinos
após as Libertadores e Mundiais conquistados pelo tricolor?!
Toda essa ladainha, claro, foi inspirada na “recaída” do Palmeiras. Quem
sou eu para dar conselhos, especialmente a um arquirrival! Ademais, um
arquirrival para quem a segundona não é experiência inédita! Todavia, atrevo-me
a aconselhar o coirmão, pensando (quase disse “torcendo”) para que o Verdão não
apenas volte e permaneça na divisão principal, como também para que recupere a
condição de time vitorioso, temido pelos demais. Penso que os palmeirenses
devem pressionar sua diretoria a promover mudanças necessárias e definitivas,
começando por uma trégua política, passando por ações de marketing (a marca
Palmeiras, apesar de desgastada, tem muito valor), pela escolha de um plantel
competitivo e pela manutenção do treinador por longo tempo, de preferência, em
paz para trabalhar. A propósito, paz é algo há muito não visto no Parque
Antártica, vide o nervosismo de vários jogadores observado ao longo do
Brasileirão. Por outro lado, dois fatores já pesam a favor: a construção da
nova Arena e a participação na próxima Libertadores. Se não for muita afronta
ao orgulho próprio, recomendaria ainda usar o “case” de sucesso do maior rival
como referência.
Outro conselho, mais subjetivo: busquem e expressem a alma alviverde. Há
tempos não vejo torcedores do Palestra, no seu mais legítimo estilo
“brasileiro-italianado”, qual o paulistano da gema a encarar sem medo a labuta
diária, baterem no peito e dizer: “Aqui é Parmera, bé-lô!”
Termino manifestando especial solidariedade aos amigos palmeirenses ora
apreensivos com a reação de suas crianças e com o futuro da família palestrina.
A eles digo: aproveitem a queda para transmitir as tais lições aos pequenos.
Sobretudo a lição da grandeza, segundo a qual para ser grande é preciso, antes
de tudo, sentir-se grande. Aliás, não há ninguém que queira mais ser grande do
que os pequenos! Tais como o Lucas e a Renatinha, filhos do palmeirense
Fabrízio Hamanaka, o Gustavo, filho do palmeirense Fernando Cunha, ou o Théo,
filho do não menos palmeirense Glauber Piva. Para comprovar a sinceridade da
recomendação, assevero que farei o mesmo com meu filho Henrique, prestes a
chegar. Muito embora espere fazê-lo sem sair da Série A.

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