12/09/2009

PITACOS DA SEMANA

Contratos e esportividade na F1
Rubens Barrichello criticou Nelsinho Piquet por ter premeditado acidente no GP de Cingapura de 2008. Do ponto de vista da esportividade, da ética do esporte, de valorizar a vitória do competidor por seus méritos, não por artifícios desleais, a crítica é mais que justa. Nelsinho, pelas notícias veiculadas na imprensa, teria alegado que sua atitude deveu-se a condição imposta pela equipe Renault para renovação de seu contrato. Aliás, o conflito entre bom comportamento desportivo e seguimento cego às determinações da equipe, inclusive ilegais ou antiéticas, para manutenção de contrato não parece novo na Fórmula 1. Além do caso de Nelsinho, lembro-me do GP da Áustria em 2002, quando Rubinho acionou o freio de sua Ferrari a poucos metros da linha de chegada para que o companheiro de equipe, Michael Schumacher, vencesse a prova. Também o fez a mando da equipe, também preocupado com a manutenção de seu contrato com a escuderia italiana. É claro que os episódios não são iguais, que jogos de equipe existem há muito tempo, que a atitude de Rubinho/Ferrari não chega à trapaça configurada no caso Nelsinho/Renault. Mas, com suas distinções de grau, entram na lista de eventos antiesportivos guindados pela força excessiva dos vínculos contratuais. Criticáveis, ambos, com a devida diferença de rigor.

Ainda, a lei antifumo e a liberdade individual

Ainda escuto críticas à lei antifumo baseadas na tese da afronta à liberdade individual do fumante. Os críticos não entenderam – ou não querem entender – que a restrição ao fumo em locais públicos fechados não objetiva restringir o fumante, mas, sim, proteger o não fumante ou o fumante passivo. Dessa forma, defendendo radicalmente a liberdade individual, é possível ser fervorosamente favorável à liberdade extrema de o sujeito suicidar-se, o que, aliás, faz o fumante. O que não se pode admitir é que, sob a bandeira da liberdade individual, o fumante, em vez de suicídio, cometa homicídio.

Medo das ditaduras

Um novo espectro ronda o Brasil – o espectro da ditadura. Pelo menos essa é uma denúncia muito em voga feita por pessoas temerosas por perderem sua liberdade em face de iminentes sinais de cerceamento arbitrário do Estado, dos governos, enfim, DELES!!! (deles???) à liberdade individual. Para ficar no exemplo acima, o Estado cerceia a liberdade individual de jogar fumaça de cigarro na cara do sujeito ao lado – este, também, um agente à paisana da tirania estatal. Outros exemplos: também não se pode mais sonegar tão facilmente os impostos (ainda bem que acabaram com a CPMF!) depois que inventaram a nota fiscal paulista; o indivíduo também viu seu sacrossanto direito de se embebedar e sair por aí atropelando os outros depois que promulgaram a lei seca; maracutaias não podem mais ser combinadas pelo telefone depois que a intrusiva Polícia Federal começou com a moda de escutas telefônicas em operações investigativas de nome esquisito. E, a reboque das mudanças constitucionais América do Sul afora, dando mais poder e direito de reeleições sucessivas – Venezuela, Colômbia e Equador que o digam – , é certo que o mesmo ocorrerá no Brasil: será aprovada a re-reeleição do presidente, o povão, tornado irracional pelo bolsa-família, re-reelegerá Lula. Este, então, imune às denúncias de corrupção (presidente-teflon), abastado de votos e altos índices de aprovação, por fim, invadirá os meios de comunicação críticos a sua gestão, assim como fizera Collor, Chavez e, recentemente, Cristina Kirchner. Eis o medo retomando sua primazia sobre a esperança.
A propósito da fobia às supostas ditaduras emergentes, são simplesmente maravilhosas as tiras do genial Laerte, publicadas na Folha de S.Paulo nos últimos dias. A sátira, aliás, é uma excelente resposta às críticas histéricas sobre pseudo-ditaduras e, até mesmo, revelações ridículas de certo ressurgimento nazista. Vale a pena uma espiada nos quadrinhos abaixo.







04/09/2009

ELUCUBRAÇÕES LUDOPÉDICAS




Futebol é Cultura

Não dá para falar de futebol sem, vez por outra, mencionar um dos maiores cronistas do esporte: Nelson Rodrigues. Neste instante ocorrem-me duas frases antológicas do mestre, tricolor doente (estivesse vivo, estaria mais doente do que nunca com a bolinha do seu Fluminense no Brasileirão): “qualquer pelada de ponta de esquina tem a complexidade de uma tragédia shakespeareana” e “o pior cego é o que só vê a bola”. Mas tem gente que a ainda reduz o futebol a mero instrumento de alienação das massas, “ópio do povo”. Achando-se reis em terra de cegos, não percebem a própria dificuldade de enxergar. Oh, auto-ilusão vanguardista!
As frases de Nelson vêm a calhar como epígrafes para um artigo sobre um fato inusitado, especialmente para nós, brasileiros, ocorrido há poucos dias em terras britânicas. O jogador "brasileiro", naturalizado croata, Eduardo da Silva, do Arsenal, cavou e converteu um pênalti em partida disputada contra o Celtic da Escócia. Ao constatarem a simulação do jogador, Eduardo foi alvo de apupos e vaias dos torcedores rivais e, pasmem, dos torcedores de seu próprio time. Após o jogo, a execração de Eduardo generalizou-se, ganhado repercussão na mídia. Em suma, Eduardo da Silva, que motivou comoção pública por uma longa e sofrida jornada de volta aos campos, após grave lesão, perdeu toda a simpatia angariada com tal luta por conta de uma atitude para nós, brasileiros, comum, banal e, para grande parte, desejável, se em benefício do seu time.
Outro caso interessante, também no Velho Continente, aconteceu no começo deste ano. Em partida pelo campeonato romeno, o árbitro assinalou pênalti no atacante do Rapid Bucareste, Costin Lazar, em partida contra o Otetul Galati. Para surpresa de todos, Lazar recusou-se a bater o pênalti, alegando não tê-lo sofrido. Diante da sinceridade supreendente do jogador, o árbitro, premiando o famoso fair play, fez prosseguir o jogo com bola ao chão. Detalhe: o Rapid, àquela altura, vencia o adversário por 3 x 0. Mas não é por isso que a atitude de Costin Lazar deixa de ser elogiável. E, realmente, mereceu aplausos na mídia mundo afora, e na Europa em especial.
Em contraste, também neste ano, agora em campos brasileiros, meu Corinthians enfrentou o Botafogo no Pacaembu. Nesta partida, o atacante botafoguense André Lima marcou um gol com a mão. O tento, escandalosamente irregular, foi validado pelo árbitro, para angústia da massa mosqueteira. (A propósito, não vêm ao caso os erros do juizão em prol do Corinthians). O fato é que, ao contrário das ocorrências européias, nenhuma vaia se ouviu contra André Lima, nem de uma torcida, nem de outra, ou mesmo críticas duras ao atacante foram registradas na imprensa esportiva. Toda a culpa recaiu nas costas da arbitragem, esta sim, massacrada pelos times, torcedores, repórteres, comentaristas.
Resumo da ópera: na Inglaterra, o brasileiro do Arsenal foi punido com suspensão por dois jogos; no Brasil, o árbitro Arilson Bispo da Anunciação foi suspenso pela CBF por tempo indeterminado, não apenas pelo gol de mão, mas pelo conjunto da obra de lambanças. Perguntas que não querem calar: alguém por lá cogitou punir o árbitro por cair na malandragem de Eduardo? Ou, por aqui, alguém cogitou punir o jogador botafoguense por meter a mão na bola? Não, pelo menos que eu saiba. E se houve, foi um grito no deserto.
Vejam a diferença dos casos, reveladora de importantes contrastes culturais, no entendimento deste reles apreciador do esporte bretão. Se bobear, dá até tese de antropologia; teses de botequim, então, nem se fala! Enquanto na Europa o jogador é punido, aqui, pune-se a arbitragem; enquanto lá, os jogadores são cobrados por seu comportamento em campo, em gramados brasileiros, a cobrança toda recai sobre a autoridade que tem a competência para (e o dever de) punir, mas não tem o direito de ser “mané", de ser ludibriado pela “malandragem” do atleta. Aliás, em terras européias malandragens como as praticadas por Eduardo da Silva e André Lima são punidas; aqui são premiadas. O erro de Eduardo da Silva, talvez, não tenha sido sua atitude, mas onde ela se deu.
Lanço minha hipótese. Da ênfase dada ao comportamento, digamos, ético dos jogadores na Europa, à rigidez punitiva da arbitragem no Brasil, pode-se aventar o seguinte, para além dos estádios de futebol: Europeus dão fundamental importância às atitudes dos indivíduos pelo fato destes serem concebidos como verdadeiros cidadãos, na plenitude de seus direitos e também de suas obrigações e responsabilidades; No Brasil, como a cidadania já é sobrepujada pelo fato de valer o princípio do “aos amigos tudo, aos inimigos a lei”, driblar as regras passa a ser uma atitude socialmente aceita, até como legítima defesa de quem tem poucos recursos para se impor na sociedade. Os problemas sociais lá, em primeiro lugar, são procurados nos indivíduos que compõem a sociedade; aqui, no Estado, que tem o dever de punir, de corrigir e de conduzir a sociedade. Em analogia futebolística, o jogador representa o indivíduo, foco da perspectiva européia, enquanto o árbitro representa o poder estatal, enfatizada na ótica brasileira.
Em suma, os casos citados, quando opostos, revelam diferenças culturais interessantíssimas. Alem de revelarem o quão rico é esse esporte em que tais características culturais ficam tão à mostra. Também revelam o que Nelson Rodrigues já enxergava há muito tempo: que há muito mais nesse jogo chamado futebol do que supõe nossa vã filosofia.
Obs: sobre esses e outros casos envolvendo o fair play, vale a pena dar uma olhada na reportagem veiculada no Globo Esporte de 08/09/09:
http://video.globo.com/Videos/Player/Esportes/0,,GIM1120103-7824-EDUARDO+DA+SILVA+E+PUNIDO+POR+CAVAR+PENALTI,00.html

Amor ao futuro

Ainda alicerçado em recordações mosqueteiras, lembrei-me de três ex-jogadores do Timão: Marcos Sena, Deco e Liedson. Com exceção deste, os outros dois não tiveram passagem brilhante pelo Parque São Jorge.
O que me chama a atenção quanto aos três, porém, é o seguinte: alem de ex-corinthianos, são ex-brasileiros. Sim, ex-brasileiros, já que se naturalizaram espanhol, no caso de Sena, e portugueses, no caso de Deco e Liedson. Assim o fizeram, provavelmente, para jogarem nas seleções espanhola e portuguesa, uma vez que não teriam chances de jogar no excrete canarinho e, quem sabe, disputar uma Copa do Mundo. Deco, aliás, disputou a de 2006. Marcos Sena, titular da Fúria, ganhou a última Eurocopa. Liedson, por fim, supre uma deficiência de artilheiros na seleção de Portugal.
A onda de naturalizações, que, diga-se de passagem, não é nova (há jogadores brasileiros por tudo o que é seleção mundo afora há muito tempo) remete, além da arqui-propalada condição do Brasil como principal país gerador de jogadores, a duas críticas popularmente constatáveis.
A primeira refere-se ao fim do amor à camisa. É comum ouvir do barbeiro, do jornaleiro da esquina, do padeiro, dos torcedores, enfim, frases do tipo: “antigamente jogador tinha amor à camisa, ao clube; hoje, só pensam em dinheiro, em fama”. A conclusão inescapável é de que ser torcedor virou atitude de trouxa, diante da quase total ausência de compromisso do jogador com a camisa que veste. Esta crítica não se restringe aos brasileiros, tornando-se regra no futebol dito moderno. Hoje, jogador é profissional, faz contrato, lapida sua imagem pública, em que pesem os nada raros escândalos contendo ingredientes de sexo, drogas, brigas etc. E futebol tornou-se razão, relegando-se a paixão aos torcedores, confirmando sua condição de trouxas. Logo, jogador que fica beijando camisa de clube, jogador-torcedor, envolvimento passional com o jogo seriam reminiscências de tempos finados ou expressões escancaradas de cinismo.
A segunda crítica popular diz respeito à quase inexistência de amor à pátria pelos brasileiros. “Americano, sim, ama seu país; japonês, sim, até vira kamikaze pelo seu país; brasileiro, qual o quê, não dá a mínima para o Brasil”. O que diriam esses porta-vozes do senso comum no caso dos jogadores naturalizados? Veriam neles amor às novas pátrias que os acolheram? Ou mais uma forma de esperteza à brasileira? Provavelmente, a segunda opção.
Um caso ainda mais radical foi a de outro jogador “brasileiro”: Amauri, da Juventus de Turim. Chegou a ser cogitada sua convocação por Dunga, o que desagradou a mãe do jogador, que viu na convocação um mero artifício para impedir que o filhinho fosse, num futuro breve, convocado pela seleção italiana. Que absurdo, não: alguém compreender uma possível convocação para a seleção brasileira como uma ofensa!!! Contudo, o titubear de Amauri entre as seleções de Brasil e Itália acabou por desagradar a gregos e troianos, ou melhor, a brasileiros e italianos. O garrudo jogador da Azzurra e do Milan, Gatuso, chegou a afirmar não ser Amauri necessário à Itália. E não é mesmo. Muito menos ao Brasil.
No entanto, a questão não é onde jogará Amauri, mas sim, caspita, Amauri, afinal de contas, é brasileiro ou italiano? Assim como Eduardo da Silva, Marcos Sena, Deco e Liedson são brasileiros, croatas, espanhóis, portugueses ou o quê?
Ser brasileiro ou de qualquer outra nacionalidade passou, aos brasileiros, digamos, natos, uma mera formalidade para um fim último supostamente mais importante: o futuro. Concretizar uma carreira de sucesso é mais importante para o indivíduo do que pertencer ou dizer-se pertencente a este ou àquele grupo, país, nação, cultura. Da mesma forma que se tornou normal a alguém casar-se “só no papel” para obter uma cidadania estrangeira e, com isso, a perspectiva de um futuro melhor.
Parafraseando propaganda divulgada há certo tempo, “brasileiro não desiste nunca”. Sim, e isto é louvável. O paradoxo é: não desiste nunca, mesmo que para realizar seu sonho, deixe de ser brasileiro.

22/08/2009

PITACOS DA SEMANA

Em Defesa da Lei Antifumo

Depois de São Paulo, outros Estados estão promulgando suas leis proibitivas ao fumo em locais fechados. A aprovação dos paulistas é maciça, inclusive entre os próprios fumantes: 71% destes aprovam a nova lei, segundo pesquisa do Datafolha.
Desprovida de quantidade, a minoria descontente aposta na estridência de seu descontentamento. Além da torcida para a lei “não pegar”, há os argumentos. Primeiro: a lei é inconstitucional. Opinião, aliás, da Advocacia Geral da União, em parecer emitido junto ao STF. Inconstitucional porque a competência para legislar sobre a matéria seria da União, não de Estados e Municípios. Segundo argumento: a lei fere a liberdade individual, por suposto, a do indivíduo fumante. Neste sentido, li, estupefato, artigo de um colunista de prestigioso jornal, defendendo não haver comprovação científica de relação causal entre fumo passivo e câncer. O que motivou o autor a comparar os defensores da lei a nazistas e, por conseguinte, os pobres fumantes a judeus no holocausto. Quanto exagero! Um terceiro argumento diz respeito ao incômodo: se a fumaça do cigarro incomoda os não fumantes, então, seriam necessárias outras proibições, como, por exemplo, a crianças chatas que ficam pulando e gritando entre as mesas de um restaurante.
Quanto ao primeiro argumento, confesso não conhecer os fundamentos jurídicos pró e contra a constitucionalidade/inconstitucionalidade da lei para formar um juízo a respeito. Quanto aos outros dois, digo o seguinte. Não nego minhas dúvidas em relação às verdades emanadas pelas autoridades científicas (se a verdade é relativa, também o é a verdade científica), mas continuo acreditando na quase totalidade dos cientistas que apontam os malefícios do tabagismo à saúde, inclusive o passivo, como também creio que Neil Armstrong pisou na lua em 1969, em que pesem as “evidências em contrário”. Sobre as crianças, quando for comprovado que suas brincadeiras causam câncer a quem está perto, serei favorável a lei que as confinem a creches especializadas, enquanto os adultos saboreiam seus deliciosos pratos em um requintado restaurante.
http://www.al.sp.gov.br/repositorio/legislacao/lei/2009/lei%20n.13.541,%20de%2007.05.2009.htm>
A Lei Seca não pegou. Ou melhor, “deixou de pegar”
Por falar em leis, a lei seca, aquela que pune com mais severidade quem for pego dirigindo após ingestão de bebida alcoólica, depois de um começo promissor, parece que “deixou de pegar”. Uma pena. E uma lição: não basta a promulgação da lei; é preciso que se lhe faça cumprir. Sempre.

Lei Seca<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2008/Lei/L11705.htm>O Estado e as leis restritivas de conduta
Tanto a lei antifumo como a lei seca, em vez de intervenção arbitrária do Estado à liberdade dos indivíduos (como somos liberais, não!), são absolutamente legítimas por constituírem proteção de parcela desprotegida da sociedade; no caso, os não fumantes e aqueles transeuntes e motoristas que podem ser vitimados por um veículo conduzido por pessoa sem condições momentâneas para isso. Afinal, não é papel do Estado, como expressão jurídico-política da sociedade, produzir e executar normas necessárias à convivência pacífica dos indivíduos? Em outras palavras, se a liberdade de uns limita-se à liberdade dos outros, quem o garante na prática, legitimamente, senão o Estado? No entanto, para fazê-lo, não basta promulgar as leis; é preciso fiscalizar e obrigar sua execução diuturnamente, e não apenas em um primeiro momento. Os bafômetros já não são suficientes para o cumprimento da lei seca. O que acontecerá com a lei antifumo? Mas, neste caso, a perspectiva é um tanto mais otimista, pois há um componente a mais: a fiscalização dos não fumantes.

A crise do Senado e a tradição política brasileira
A crise no Senado evidencia, para além dos atos secretos envolvendo Sarney, eternos males da política brasileira. O trio patrimonialismo/fisiologismo/clientelismo, apesar da defesa muito em voga entre cientistas políticos de que não mais norteiam o sistema político, ou melhor, a relação Executivo/Legislativo – se é que o fizeram alguma vez –, parece, sim, sólido e determinante. E, como isto é um blog e não uma tese ou paper escrito para revista acadêmica, e portanto, como não falo na qualidade de cientista social, mas de assumido especulador (é tão bom sair das amarras da ciência !), como não tenho que provar estatisticamente ou fundamentar teoricamente minhas assertivas, a mim soa claro que o trio supracitado é essencial para explicar a política brasileira em geral, e a crise do Senado em particular. Afinal, se todos faziam uso indevido das cotas de passagens aéreas, se há claras evidências de que Sarney e outros presidentes do Senado são responsáveis por atos secretos e nomeações irregulares, se até os tucanos Artur Virgílio e Sérgio Guerra foram pegos com a boca na botija, um ao pagar salários a funcionário ausente, outro a custear viagem da filha ao exterior com dinheiro público, logo concluo: há utilização de recursos públicos como se privados fossem (patrimonialismo); há distribuição de benesses a apadrinhados, cujo sentido final certamente é a perpetuação no poder via reeleições sucessivas (clientelismo); e, last but not least, há concessões de um lado para compensações futuras de outro, vulgo “toma lá, dá cá” (fisiologismo).

A Culpa é da Imprensa!
Lá pelos anos 1980, Jô Soares tinha um programa na Rede Globo chamado “Viva o Gordo”. Nele, havia um personagem cujo bordão era “a culpa é do governo”. De unha encravada a meleca de cachorro na calçada, tudo era “culpa do governo”. Chegados os anos 2000, o personagem do Jô bem podia dar as caras, mas com outro bordão: “a culpa é da imprensa”.
Juliana Paes sente-se deprimida com a pecha de “casta”, trocadilho usado por José Simão, colunista da Folha, brincando com o duplo sentido de moça pudica e da peculiar estratificação da sociedade indiana. A depressão de Juliana, porém, não se deve ao seu trabalho e à forma como se expõe publicamente, mas ao que saiu na imprensa.
Edir Macedo é denunciado pelo Ministério Público por conta de indícios envolvendo desvio de dinheiro da Igreja Universal do Reino de Deus – imune à tributação, nos termos da Constituição Federal – para a Rede Record, uma empresa que objetiva lucro e é tributável. O fato, no entender do bispo, não se deve aos indícios, e sim... à imprensa ! No caso, à Rede Globo, supostamente temerosa com a concorrência exercida pela Rede Record.
Hugo Chavez, presidente da Venezuela, jamais seria passível de críticas em sua democracia bolivariana não fosse a maldita imprensa. É claro, e ao imperialismo ianque. Assim, determina aos meios de comunicação o mesmo que lhe ordenara o rei de Espanha: que se calem!
Se Sarney é acusado de responsabilidade pelos atos secretos e por nomeações e benesses indevidas, concedidas por ser presidente do Senado, surge o presidente Lula a denunciar o denuncismo da mídia, com o perdão da redundância. O próprio Sarney também acusa a imprensa, além dos políticos que não se conformam com seu apoio ao Planalto. E, como se não bastasse, o Judiciário proíbe publicações do jornal O Estado de São Paulo, envolvendo o filho de Sarney. É claro, pois a culpa é da imprensa!
Fico aflito ao ouvir que “a opinião pública” acha isso ou acha aquilo, “a opinião pública” cobra isso ou cobra aquilo. Como se se confundissem opiniões veiculadas pela imprensa e pensamento da sociedade ou do povo sob a expressão generalizadora “opinião pública”. Ao contrário do tal deputado gaúcho, não me lixo para a “opinião pública”, mas é bom que se defina bem o que isso venha a ser. No caso do mensalão, por exemplo, enquanto se propalava aos quatro ventos que a opinião pública exigia a responsabilização de Lula (em bom “juridiquês” constitucional: impeachment), o presidente nadava, e ainda nada, em estratosférica popularidade. Opinião pública, aqui, é igual a opinião da sociedade?
Não penso tampouco que a imprensa seja inocente, pautada a todo momento na crueza dos fatos ou isenta de interesses próprios. Os mensalões de uns recebem destaque imensamente maior que os mensalões de outros. Idem aos atos secretos de parlamentares destes ou daqueles partidos. A poderosa Rede Globo que o diga. Para citar alguns exemplos: enquanto milhares de pessoas começavam a ir às ruas para exigir o voto direto para presidente, a Globo noticiava o fato como se fosse uma pequena manifestação de meia dúzia de gatos pingados reivindicando algum benefício qualquer; em 1989, o exemplo clássico da cobertura enviesada do último debate entre Lula e Collor no Jornal Nacional; para não ficar só na política, quando houve o primeiro torneio mundial de clubes da Fifa, em 2000, em que a Rede Bandeirantes comprou a transmissão exclusiva dos jogos, o Globo Esporte dava notinhas rápidas, se tanto, como se fosse um campeonatinho de várzea. Esta, corintiano não esquece! E hoje, tempos idos, a mesma Globo expõe em alto e bom som, e imagens em HD, o quão importante foram as Diretas Já, a força dos cara-pintadas gritando “Fora Collor” e que o Corinthians é um dos times brasileiros campeões do mundo.
Ponderações feitas, a questão é que essa estória de todas as acusações, escândalos e difamações serem “culpa da imprensa” está virando, na melhor das hipóteses, falta de criatividade de quem não assume minimamente os próprios atos. Ou, simplesmente, de quem só quer aparecer se estiver bem na foto.