01/03/2012

Rio, 447


Parabéns, Rio de Janeiro!
447 anos da cidade maravilhosa.

17/01/2012

Muito além da realidade

Começa mais um BBB. É o décimo-segundo. Ninguém aguenta mais! Ou, pelo menos, dizem que não aguentam. Ao topar com Bial e seus heróis há quem confesse sentir saudades do Berlusconi na TV. Como esse negócio dá tanta audiência? Se todos falam mal, se consideram de mau gosto, se fazem juras de não mencionar o bicho no facebook?

Logo de cara, o inusitado. Um rapaz jovem e bonito, exigência para participar do programa, e uma moça jovem e gostosa, condição idem, dormem na mesma cama sob o edredom: um clássico do BBB. Até aí, tudo normal. Ademais, ambos estavam bêbados. Também normal... a não ser para quem se preocupe com o consumo de álcool pelos filhos espectadores do show. O que não estava no script – se é que não estava, uma vez que nesse mundo televisivo até a realidade é manipulada – eram os movimentos dele enquanto ela permanecia inerte. Quem viu (o que viu?), dedurou: o rapaz aproveitou-se sexualmente da moça indefesa.

Pronto. Do repúdio generalizado ao programa até os trending topics é um pulinho. Qualquer mesa de boteco, sala de jantar ou de chats é sede de discussão do ocorrido. A Ministra cobra investigação severa. Pululam protestos na internet de mulheres indignadas, juntamente com manifestações machistas (“ela provocou, ela quis”). Juristas discutem a subsunção do fato ao tipo penal, se estupro de vulnerável é crime hediondo e se as imagens configuram prova suficiente do delito. E o comandante já não decreta que o amor é lindo.

Enquanto a Polícia Civil indicia o rapaz por suspeita de estupro, a Globo o expulsa da casa mais famosa do Brasil sem direito a paredão. Enquanto o acusado é solto, a suposta vítima continua presa na nave-mãe, sem contar com habeas corpus e sabe-se lá se com direito a exame de corpo de delito. Apesar de confinada, possivelmente abusada e (por ora) mal paga, há quem preveja que os brasileiros e, sobretudo, as brasileiras, comovidos, farão justiça à moça, levando-a à vitória. Se deu bem! (sem trocadilho, no caso, pra lá de infame). Como diria Cristiane Torloni: isso é um jogo, baby!

De volta à vida real (?), ignorante que sou, pergunto: foi realizada uma perícia no órgão genital da participante em momento oportuno? Se realizada, não elucidaria se houve ou não o estupro? Essa mania de querer facilitar as coisas... No universo do reality show, porém, o que importa não é o fato, mas a repercussão. Boninho, o diretor, defendeu-se atacando: quem acusa o participante é porque é racista! Claro (...), só porque o rapaz é negro. Quem vai contestar o big boss?

Indiciado e expulso, independentemente do desfecho do inquérito e do possível processo penal, o novo membro da extensa legião de ex-BBBs pode se sentir condenado. Pena perpétua de execração pública combinada com, caso opte, auto-exílio para algum país no qual retome o anonimato. Exposto em tudo o que se conhece de meio de comunicação, como poderá o rapaz, caso seja inocentado – sim, existe a possibilidade de ser inocente, apesar de só nos lembrarmos disso tarde demais –, levar sua vida normalmente? Igualmente a moça, exposta em rede nacional e em horário nobre, como o fará? Enfim, saberão viver sob a mácula de estuprador e estuprada, tanto faz qual seja a... realidade?

Começo a elucubrar, vou longe. Aposto que, das duas, uma: ou a Globo usará todo seu peso na colocação de panos quentes, forçando ao esquecimento da estória, qual político pego com dinheiro na cueca, ou revelará que tudo não passou de uma “brincadeira séria”, um jogo de cena protagonizado por atores contratados (quá-quá-quá, vocês pensaram que era tudo verdade!). Teorias da conspiração à parte, de uma forma ou de outra, a Vênus Platinada nos cobrará gratidão por contribuir com a discussão de tão grave questão social. Em outra direção, pergunto-me se alguém é capaz de apostar que o desfecho da novela, ops, do reality será a emissora obrigada a pagar indenizações aos envolvidos, quiçá superiores ao prêmio de um milhão e meio. Ou se sofrerá algum tipo de punição, lembrando que seus préstimos à informação, cultura e educação dos brasileiros constituem serviços em concessão pública. Ainda: quem apostará no desgaste do BBB junto aos patrocinadores e aos telespectadores e, pelo contrário, quem apostará no aumento exponencial do ibope do programa mais xingado e um dos mais vistos do país? Vote, você decide!

Bem, na realidade (?), a última opinião (ao fim e ao cabo, vendida como “opinião pública”) deve ser a da Globo. A última versão, oficial, a que fica. Mais ou menos, assim construída: Ana Maria Braga discutirá o episódio com especialistas, o Globo Repórter deixará por um dia a temática ecológica para revelar como vivem as estupradas no Brasil, Willian Bonner dará notícia a respeito no JN, assim como Zeca Camargo no Fantástico, e Faustão perguntará ao povo na rua o que acha disso tudo. E tocamos a vida, sem deixarmos de, volta e meia, dar uma espiada nas coisas que vêm do Projac.

Para uma empresa cujo dono já foi “muito além do Cidadão Kane” (a propósito, quem viu o filme?), agora vai além da realidade. Que reality show, que nada. Esse troço é surreal!

***

Obs: “Muito Além do Cidadão Kane” (“Beyond Citizen Kane”) é um documentário televisivo britânico, dirigido por Simon Hartog, exibido em 1993 pelo Channel 4, emissora pública do Reino Unido. Sempre houve forte oposição da Globo à sua exibição no país. Eu, inclusive, só consegui assisti-lo há poucos dias, graças ao You Tube. Ou seja, o filme sofreu (por razões óbvias) uma espécie de censura velada no Brasil. Da mesma forma que o filme “Amor Estranho Amor”, do diretor Walter Hugo Khouri, um dos principais do cinema nacional, já que não pega bem observar Xuxa Meneguel, a rainha dos baixinhos, nua e com um menino na cama.

Por essas e outras, fico aliviado por ter a Globo como suporte da democracia. Ela que sempre denuncia quando a liberdade de expressão está sob ameaça. Seja na Argentina, cuja presidenta arvora-se em retirar o monopólio do papel-jornal das mãos do Clarín e do La Nación. Seja na Venezuela, cujo presidente tem a petulância de tirar a concessão da emissora que participou da tentativa de golpe de Estado contra si. Seja no Brasil, onde volta e meia alguém insiste em propor a regulamentação da mídia.

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Em tempo: aproveito para esclarecer que não sou favorável à maior parte das atitudes dos Kirchner e de Chavez em relação à mídia em seus respectivos países. Só pondero que não apenas a ação autoritária do Estado, mas também o monopólio privado da mídia ameaçam a liberdade de expressão e a democracia. A Globo e outras grandes corporações da comunicação tendem a só apontar o dedo para frente, jamais para si próprias. Nesse sentido, sou, sim, favorável à regulamentação da mídia no Brasil.

09/12/2011

Onde fica Birigüi?



“Onde fica Birigüi?”. Eis a pergunta que um birigüiense habitante de São Paulo é obrigado a responder milhões de vezes. Respostas clássicas: “A 10 quilômetros de Araçatuba”, “uns 530 quilômetros da capital”, “no noroeste do estado”, “não muito distante da fronteira com o Mato Grosso do Sul”. Muitas vezes o interlocutor, posando de entendido, chuta (e erra): “Pelos lados de Ribeirão Preto, né”, “Fica em Minas, certo?”. O mais gostoso para um birigüiense, porém, é quando o sujeito diz: “Araçatuba? Também não conheço...”. Ao lado do desconsolo por saber-se ignorado do mapa, aflora um doce sabor de vingança ao notar que as cidades rivais são irmãs gêmeas na condição de desconhecidas de muitos paulistanos.

Mas, claro, há quem saiba das coisas. “Sim, Birigüi fica ao lado de Araçatuba, no noroeste do estado”, “Birigüi, a Cidade Pérola”, “capital nacional do calçado infantil”, “conheço: terra do Bandeirante, do biribol, do Paulinho McLaren, do Reynaldo Gianecchini”, “Êta, lugarzinho quente!”. E há também o sujeito que tem certeza do comentário e se assusta quando é corrigido: “Como assim, Marco Bianchi, Paulo Bonfá e Peterson Foca nunca viveram em Birigui?!”.

A pergunta subseqüente, via de regra, é: “O que significa Birigüi?”. Resposta didática: “Quando os fundadores chegaram, a terra era infestada por um mosquito chamado birigüizinho”. Segue-se uma risadinha marota do perguntador, correspondida por um sorrisinho envergonhado do nativo: “Pois é, minha cidade tem nome de mosquito”.

Tenho a impressão de que Birigüi resume bem o Brasil: os povos que vieram para cá (japoneses, espanhóis, italianos, libaneses, alemães); a passagem da agricultura para a indústria, cada vez mais moderna e pujante; a desigualdade social; a política impregnada pelo clientelismo, reveladora da lógica do coronelismo, enxada e voto, tão bem demonstrada por Vitor Nunes Leal; a tentativa de tantos conterrâneos de fazer a vida fora do país (Estados Unidos, Portugal, Japão, Itália, Inglaterra) e o movimento de retorno. Até Nicolau da Silva Nunes, o fundador, me vem à cabeça como um Pedro Álvares Cabral a chegar de trem e se deparar com índios, no caso, caingangues. Sua gente é uma expressão perfeita do caipira, um dos povos que compõem o grande povo brasileiro, conforme Darcy Ribeiro.

Ontem foi comemorado o centenário da minha querida terra natal. Para escrever sobre ela, ocorreu-me de pronto a frase de Tolstoi – “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia” – e tentei vislumbrar o que há de universal na “minha” cidade. Reli um texto que escrevi por ocasião do 456º aniversário de São Paulo (http://blogdojfq.blogspot.com/2010/01/non-ducor-duco.html) e me chamou a atenção o seguinte trecho: “São Paulo me ajudou a amadurecer. (...) Amadurecimento significa virar dono do próprio nariz e do próprio destino, desenraizar-se sem renegar ou amaldiçoar as raízes”. No texto, lembrei da oscilação entre amor e ódio que senti pela capital paulista. Agora, lembro do mesmo sentimento em relação à “terrinha”. Quando não agüentava mais viver em Sampa, concebia Birigüi como a Pasárgada de Manuel Bandeira e me sentia o próprio Gonçalves Dias declamando “Canção do Exílio”. “Saudades da Minha Terra”, música caipira de Goiá e Belmont, ganhou status de hino pessoal. De volta a Birigui, no entanto, as coisas não foram exatamente como eu idealizava. Aos poucos, tudo passou a me incomodar – o pensamento conservador predominante, a visão de paraíso fundada num certo hedonismo machista e xucro (muié e cerveja, muié e cerveja, eis o mantra do único prazer existente), a cultura de ostentação de riqueza, a religiosidade exacerbada, e, até mesmo, a quase onipresença da música sertaneja. Só que muito do que os olhos veem não se deve à paisagem, mas sim aos próprios olhos. Por algum mecanismo psicológico que Freud deve explicar, eu, que valorizava tudo em Birigüi na mesma intensidade e proporção que demonizava em São Paulo, inverti os pratos da balança. Passei a ter saudade da saudade que sentia. O regresso à metrópole virou uma obsessão e a vida na “terrinha”, um tormento. É certo que o contato com a família e com os amigos era prazeroso, só que vinha com um gostinho de fracasso, pela dependência dos recursos dos pais.

De volta a São Paulo, acho que, enfim, desvendei a chave da minha eterna insatisfação. Concebendo a terra natal e a de adoção como antagônicas, passei a aceitar como natural a contradição de, ao mesmo tempo, desejar o que tanto uma como a outra me ofertam de bom, assim como a de negar o que em ambas me desagrada. O mais engraçado – e aprazível – é que, quando quero me ver livre do caos metropolitano, é a simplicidade interiorana que se apresenta como alternativa; e, quando me vejo entediado da mesmice birigüiense, corro para a agitação paulistana. Criei duas raízes.

O psicólogo Contardo Calligaris, analisando a modernidade, escreveu que “a família originária, da qual pertencemos, com certeza é o grupo contra o qual afirmamos nossa independência” e que essa afirmação confronta a “aventura arriscada da liberdade” com o “conforto opressivo das tradições”. Na verdade, queremos os dois: a liberdade e o conforto. Eis o conflito familiar primordial: ter presente o amor dos pais e a distância necessária para andarmos sozinhos. Quem sabe, a família não seja, por excelência, o habitat da relação de amor e ódio. Assim, pacificando esse conflito, creio ter construído dois lares: um, cosmopolita; o outro, provinciano. E me tornei, como diz Tom Zé, bilíngüe: falo a língua da metrópole e a língua do interior.

Retomando Tolstoi, talvez o escritor russo quisesse dizer que pintar a própria aldeia significa pintar as raízes, os mais íntimos elementos constitutivos de cada um de nós. Algo que todos os seres humanos têm, universal e independentemente de onde tenham nascido e de onde vivam. Disso concluo: quando me perguntarem onde fica Birigüi, darei alguma daquelas respostas clássicas. No entanto, intimamente, pensarei: em certo sentido, fica dentro de mim.

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Ontem, dia 8 de dezembro de 2011, não foi apenas a centenária Birigui que aniversariou. Também a Avenida Paulista (junto com o Parque do Ibirapuera, o lugar que mais gosto em Sampa) fez 120 anos. Ainda, minha sogra completou anos ontem. Neste caso, deixo de revelar a idade.

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Em homenagem a Birigüi, peço licença à reforma ortográfica para preservar o trema em todo o texto. Além da diferença do som (prefiro ser birigüiense a biriguiense), gosto de imaginar os pontos sobre o U e o I como se fossem três mosquitinhos. Três birigüizinhos.

05/12/2011

Meu ídolo


Quando vejo um garoto de sete anos com brilho nos olhos ao se deparar com o craque Neymar, sou capaz de entendê-lo perfeitamente. Com sete anos eu também tinha um ídolo que entortava os adversários, muito embora não fosse tão rápido.

Os meninos de sete anos da época de Leônidas deviam se orgulhar da jogada que ele criara e operava como ninguém: a bicicleta. Não me lembro de nenhuma bicicleta dada por meu ídolo. Assim como não me lembro de ninguém usar o calcanhar com tamanha habilidade e visão de jogo como ele.

Compreendo os guris de Minas que aos sete anos idolatravam o atleticano Reinaldo e o cruzeirense Tostão. Como aquele, meu ídolo marcava gols e comemorava com o braço esticado para cima e o punho cerrado. Como este, também era doutor e vestia a oito.

Vi crianças de sete anos idolatrando Ronaldo e venerando Romário. Logo surgiram as comparações. Quem era melhor? Quando eu tinha sete anos, meu ídolo era comparado a Zico. Acho até que este era melhor, mas o bom é que estavam juntos na seleção de Telê, a melhor de todas para mim. E, como meu ídolo, Zico também sabia alegrar o povão, brilhando em um clube de massas. Multidões que se entristeceram quando o Galinho saiu do Flamengo, assim como eu e outros tantos milhões lamentamos a despedida do nosso ídolo rumo a campos italianos. Logo a Itália, quanta injustiça!

A propósito, consigo até enxergar os pequenos holandeses de 74 e os garotos húngaros de 54, inconformados por não verem Cruyff e Puskas campeões do mundo. Desde criança, não admito que meu ídolo, capitão do mágico escrete de 82, tenha deixado de levantar o caneco.

Nos anos 90, seu irmão Raí foi idolatrado por pequenos são-paulinos. Também começara em Ribeirão, também jogava de modo elegante. Tinha um físico bem mais atlético, é verdade. E – coisa de família? – também se revelou um cidadão genuíno, participativo, politizado a ponto de apresentar suas demandas, de expor suas opiniões, de buscar um Brasil melhor. Muito embora tivesse o perfil de bom-moço, e não o de intelectual boêmio, como o do meu ídolo. Ainda que não tivesse ajudado a construir uma inusitada democracia em tempos de ditadura.

Meu ídolo tinha nome de filósofo e fama de inteligente, ao contrário do ingênuo e folclórico Garrincha. Mas, como Mané, era PhD da bola. Penso que os meninos com sete anos em 62 jamais aceitariam que a bebida, e não os zagueiros, seria capaz de derrubar seu ídolo. Eu, pelo menos, não consigo aceitar.

Dizem que Pelé não torcia para o Santos aos sete anos. Meu ídolo, sim. Justamente por causa de Pelé. Mas também virou a casaca ao se ver representante eterno de uma torcida, a do Corinthians, o meu time... o nosso time! Imagino meu ídolo aos sete anos, absorto com a maestria do melhor de todos os jogadores, sua competência em ditar o ritmo e a lógica da partida. Volto aos meus sete anos, quando ficava embasbacado ao notar que meu ídolo, a seu modo, também era capaz de majestosas proezas, ainda que não se lhe outorgassem a coroa de um rei.

Ontem foi um dia, ao mesmo tempo, feliz e triste. Ontem, nosso time foi campeão e meu ídolo morreu. Lembrei-me da primeira vez que comemorei um título do nosso time. Meu ídolo jogou, foi o principal responsável pela conquista. E eu tinha sete anos.


Bandeira que ganhei do meu tio Nino quando o Corinthians foi campeão paulista de 1979

22/11/2011

Ao Reynaldo Gianecchini

Não me considero imaturo, apesar de ser bastante autocrítico a respeito. Anteontem, contudo, me senti uma criança de colo. Também não me considero um materialista empedernido; prezo o lado espiritual do ser humano. Só que, anteontem, senti o quão incapaz sou de fugir das preocupações comezinhas do dia-a-dia em prol de uma visão mais ampla do que seja realmente essencial. Apesar disso, como me senti bem anteontem!

Tudo por causa da entrevista concedida por Reynaldo Gianecchini a Patrícia Poeta, no “Fantástico” (http://www.youtube.com/watch?v=JUdKifGVCvg). Esperava assistir a uma entrevista, mas assisti a uma aula. Uma aula sobre vida, dada por alguém que se deparou na carne com a questão da morte. O engraçado é que o Reynaldo, filho de professores, parece ter descoberto o cerne do ofício dos pais: adquirir sabedoria com as experiências e, ao mesmo tempo, capacidade de transmitir aos outros tudo o que aprendeu. Dito de outra maneira: aprender ao mesmo tempo em que se ensina. Ao final, pensei: que baita homenagem, quiçá inconsciente, ao “seu” Patão e à dona Heloísa.

Para quem está acostumado tão somente com a imagem do galã, da celebridade e do ator, certamente está admirado com a pessoa. Sempre admirei o Reynaldo por duas características: a inteligência e a maturidade. Certa vez, Marília Gabriela – na época, sua esposa – disse que Giane era um “jovem senhor”. Cá comigo, que estudei por alguns anos com um menino quieto, sempre compenetrado nas aulas, a quem os mais íntimos chamavam de Juninho, tenho a impressão de que o Reynaldo é velho desde que nasceu. Velho no bom sentido: experiente, sabedor das coisas, calejado para enfrentar os desafios que surgem, às vezes, sem qualquer aviso. Mas, sinceramente, passei a admirá-lo muito mais desde que foi noticiada sua doença. Anteontem foi o ápice.

Reynaldo, que sempre me pareceu consideravelmente incólume às vaidades naturais geradas pelos aplausos e histerias de fãs, assim como à cólera não menos natural em relação às críticas, algumas implacáveis, agora se mostra uma fortaleza diante do mais agudo sofrimento. Calma, não pretendo canonizá-lo: trata-se de um ser humano, demasiado humano. No entanto, como disse na entrevista, ao se referir aos últimos momentos do pai, descobriu que o ser humano carrega consigo uma substância divina, que evolui na medida em que desenvolve sua espiritualidade. Quem sabe, essa não seja a maior de todas as descobertas que um ser humano pode fazer de si próprio, de suas potencialidades.

Fiquei emocionado em vários momentos da entrevista. Por exemplo, quando se referiu ao quanto aprende com as crianças em tratamento contra o câncer. Talvez o próprio Reynaldo tenha pensado: “não posso me mostrar fraco diante dessas crianças” e, ao mesmo tempo, “como posso ser fraco se essas crianças se revelam tão fortes?”. Por um instante me veio a lembrança de quando meu primo Rafael Arjonas vinha a São Paulo para sessões de quimeoterapia e ficava hospedado em meu apartamento; nessa época, eu, que constantemente me lamentava do trabalho, da cidade, de tudo, senti uma vergonha estrondosa quando me deparei com aquele rapaz, todo sorridente e confiante. Senti-me péssimo ao notar o quão fraco eu estava sendo.

Reynaldo parece estar aprendendo – e transmitiu isso na linda entrevista – o mais profundo significado da vida. E o faz, creio, de duas formas. Primeira: ao lidar com a morte, compreende que o mais razoável é enaltecer a vida. A propósito, reflito às vezes: se a morte é inescapável (uma verdade absoluta, uma experiência que todos viverão, sem trocadilho, independentemente de idade ou de crenças e descrenças religiosas), para que perder tempo com lamúrias em vez de simplesmente viver da melhor maneira possível o tempo que temos? Tempo, inclusive, que desconhecemos, que pode ser mais ou menos breve (por mais que vivamos, sempre acharemos a vida breve), não importa o quão saudáveis estejamos. Isto vale tanto para quem concebe a morte como o fim, como para quem a vê como passagem para uma outra fase de vida. Claro, tudo isso é mera reflexão. Não é nada fácil colocar tais pensamentos em prática, transformar as convicções ideais em sentimentos íntimos consolidados. O Reynaldo, como dito, parece estar passando bem por esse aprendizado.

Também parece estar aprendendo sobre a vida ao lidar com o amor. Não é preciso muito esforço para notar o quão querido o Reynaldo é. As inúmeras palavras de apoio que recebe – escritas, faladas... gesticuladas –, as manifestações de carinho da família, dos amigos e dos fãs, as preces rogando sua cura, tudo isso é prova de amor. Mas o diferencial do Reynaldo, pelo que notei da entrevista, é que ele está sabendo receber e compartilhar esse amor; fazer desse sentimento uma substância que lhe auxilia não apenas no tratamento contra o câncer, mas como alimento para desenvolver sua espiritualidade, para viver plenamente como pessoa, como espírito. Isso é visível na descrição do momento da despedida do pai, pedindo e concedendo perdão, ou quando se compromete a cuidar da família, ou quando participa da festa dos que estão hospitalizados quando há alguma superação, ou, mesmo, quando se emociona ao observar tanto carinho direcionado a ele.

Enfim, que belíssima entrevista, Rey! Desejo a você, do fundo do coração, toda a força e toda a paz do mundo. Quer dizer, se é que você já não as tem.

***

Em tempo: Concebo a existência individual como a representação de uma peça. Ou seja, ainda que acreditemos ser a pessoa que vemos no espelho, na verdade, representamos um personagem. Dessa forma, não sou o João, mas represento alguém que penso ser eu, cujo nome é João. Não sou, mas estou o João. Um dia, deixarei esse “papel” e farei outro. Assim como acredito já ter feito inúmeros outros papéis anteriormente. Eis a vida: o espírito é o ator, o verdadeiro ator, que, ao longo de uma vida infinita, representa muitos papéis. Com o passar do tempo, nos tornamos atores cada vez melhores.

Falando nisso, a mim parece que o Reynaldo está cada vez melhor na arte de atuar. Em todos os sentidos. Capaz de uma cena antológica como a da novela Esperança, em que, contracenando com Raul Cortez, pai e filho conversam, completamente bêbados. E capaz de, na “vida real”, enfrentar com serenidade impressionante um momento tão difícil.


07/11/2011

Identidade

Nome, RG, CPF, estado civil, endereço. Para que melhor se identifique a pessoa, há que se perguntar sobre o tipo sanguíneo, o estilo de música preferido, o time do coração, a ideologia política, as preferências gastronômicas. A identidade, contudo, ainda carece de precisão caso não sejam considerados os aspectos físicos: altura, cor da pele, sexo, peso, características (ou ausência) dos cabelos, etc. Detalhes são importantes. Tanto que a própria pessoa vai descobrindo esses detalhes aos poucos e, também aos poucos, descobre-se a si mesma.

Vários são os elementos que compõem a identidade de alguém. Identidade construída e estruturada perante os olhos dos outros e perante si mesmo; às vezes, uma não bate com a outra. Do conjunto desses elementos fundamenta-se o juízo que fazem de você e que o próprio cidadão, à frente do espelho ou nos mais íntimos momentos de auto-percepção, faz de si: ser considerado ou achar-se bonito ou feio, baixo ou alto, inteligente ou burro, simpático ou antipático, “do bem” ou “do mal”. O rol, claro, é meramente exemplificativo.

Eis o ponto da minha angústia atual. Desde a mais tenra idade, olho-me no espelho e vejo um sujeito não muito bonito (usemos um eufemismo para que não me aborreça ainda mais do que já estou), com cujas feições e mudanças do tempo aprendi a conviver. A barriga que aumenta, as rugas que surgem, os cabelos que embranquecem e raleiam. Não obstante a dura transformação dos anos, lá estou com todos os elementos constitutivos, mutatis mutandis. Quer dizer, desde há poucos dias, todos menos um: a pinta do lado direito do rosto.

Por 39 primaveras (na verdade, 40, já que nasci nessa estação), ela sempre esteve ali. No começo, era um minúsculo pontinho na bochecha gorda de uma criança. Motivo de carinhos, cuti-cuti e bilú-bilú. Era o menino da pinta, exposta com orgulho, como um aprazível adorno presenteado pela natureza.

Na adolescência, a pinta cresceu, mas continuava a ter o conceito em alta. Era o charme, a marca registrada, fator de distinção (sempre é bom ser especial, diferente dos demais, mormente nessa faixa etária). Se o sucesso com as garotas não era lá essas coisas, devia-se ao todo prejudicado da lataria, jamais à presença da pinta. Para ser sincero, gosto de acreditar que a pinta até auxiliou em determinadas conquistas.

Com a maturidade a pinta parece também ter desenvolvido certa aura de sobriedade. Dava um toque a mais no ar intelectual, uspiano, legado pelo rosto comumente sério em que residia. Nesse habitat, por assim dizer, combinava perfeitamente com os óculos e a barba rala e por fazer.

Mais tarde, foi usada em brincadeiras infantis. Como a sobrinha também tivera a sorte de nascer com uma pintinha, só que na testa, eu, tiozão, fingia que a retirava e colava na minha bochecha direita. Minha pobre sobrinha devia pensar, assustada: será que minha pinta, além de ser descolada da minha testa, ainda virou um carrapato na cara do titio? Devia ficar em pânico com a possibilidade de que eu a devolvesse tão avariada.

Pois é, a idade avançou e aquele ponto, antes singelo, pequeno, o charme, a marca registrada, tornara-se um monstrengo com feição de carrapato. Quer dizer, nem tanto. Mas o fato é que a pinta foi crescendo e se tornado disforme. Reconheço: assim como o todo do corpo em que estava inserida, a pobre pinta enfeiara com o tempo implacável.

Para piorar, começaram a pulular recomendações médicas para que fosse sumária e impiedosamente extirpada sob o argumento de que, no futuro, poderia se transformar em um tumor maligno. Quanto mais o tempo passava, quanto mais trombava com médicos – e não importava a especialidade do doutor ou da doutora –, mais aumentava a pressão. “Região de atrito, exposição ao sol, sei não; isso vai acabar virando um cancerzinho...”. Engraçado este termo: um substantivo amedrontador suavizado pelo diminutivo.

Sei que as recomendações médicas visavam tão-somente a preservação da minha saúde.  Mas não deixavam de ser conselhos frios, que desconsideravam o que representava aquela pinta para minha identidade. “É preciso extirpá-la”, dito assim, de modo asséptico, insensível, absolutamente racional, tudo parecia limitar-se ao óbvio da prudência, medida cautelar necessária. Mas, como bem sei, a coisa era mais complexa.

Eis que chegou o dia em que se deu o inevitável. Tomado de coragem, parti resoluto ao consultório do doutor e, qual um súbito enlouquecido que vai ao barbeiro e manda passar máquina zero na cabeça, asseverei: “Pode tirar!”. E assim se fez. Protegido por anestesia local, sem qualquer dor física, mas apenas o nó na garganta por me desfazer de um pedaço tão querido, passei todo o tempo do “procedimento” conversando amenidades com o doutor para esquecer que a decisão não tinha volta. Jamais veria minha pinta novamente. Pior que isso foi vê-la num vidrinho com formol, descolada da face em que fincara raízes por quase quatro décadas. E injustamente denominada de "lesão".

Adeus, companheira. Sei que não sou mais a mesma pessoa. Continuo a me chamar João, portar o mesmo RG (acrescido de um dígito), perpetuando a baixa estatura e cultivando paixão corinthiana... mas deixei de ter você. Por isso, deixo cá minha homenagem. Obrigado por sua parcela de responsabilidade em fazer de mim quem sou. Ou melhor, quem fui. Afinal, doravante, ninguém saberá quem sou caso se refiram a um sujeito com uma pinta no lado direito do rosto.

01/11/2011

Titebilidade

Alunos fumam maconha no campus. Polícia mobiliza um batalhão inteiro, lança bombas de gás lacrimogênio e o escambau  para dar um “teje preso” nos maconheiros. Alunos formam uma horda pretensamente revolucionária para defender os companheiros, sobem nas viaturas, invadem o prédio da administração e escondem o rosto com camiseta, lembrando cena de rebelião de presídio. Mais uma vez. Um deles, mais empolgado, queima a bandeira do Brasil. Mas a polícia só quer o império da lei; o cacete é inevitável, alegam. Sim, estão preparados para lidar com a situação. Preparadíssimos! Da mesma forma que na retirada dos camelôs da feirinha da madrugada. Quem manda ser ilegal e, sem direito ao contraditório, posar de comerciante de produtos piratas e roubados?
Ex-presidente descobre estar doente. Na internet, pululam mensagens de apoio juntamente a destemperos e manifestações desumanas (inconfessáveis, não fosse o anonimato) pró-tumor, não pró-pessoa. “Devia ser internado pelo SUS!”; se é contra o Lula (até câncer?), é legal. Na TV, repórter é agredida por grupelho que, pela enésima vez (sempre com surpresa e violência), atrapalha o link ao vivo. Alguns acham legal; tudo que ferra a Globo é legal. Além do mais, humor agora é assim, punk, à moda Rafinha. Para outros: “cadê a polícia que não prende esses caras?”. Ah, tá na USP, tá no Bráz... Só não está na proteção da juíza, assassinada. Ou na dos gays que andam pela Paulista. Ou na do deputado carioca, forçado a se exilar, em pleno século XXI, para que não seja morto também. Por bandido ou, quem sabe, pela própria polícia.
E tomem gritos, xingamentos, acusações, bravatas. De um lado: “Tudo vândalo, terrorista, esquerdista de merda, revolucionários de meia pataca, lixo da história, corruptos todos: PT, PC do B, Venezuela, diretório acadêmico, presidenta (faxineira é o catso!), ex-presidente metalúrgico vagabundo!”. A resposta: “Elite de merda, direita de bosta, exploradores dos pobres, parasitas do dinheiro público, indignemo-nos contra todos esses corruptos: PSDB, DEM, EUA, reitor, banqueiros, mídia, governador mauricinho, ex-presidente neoliberal entreguista (virou maconheiro também?)!”.
Quer saber, concordo com o Tite. “Está faltando namorar!”. Eis o melhor remédio para os dias que correm. Levar o jogo da vida com mais titebilidade, mas sempre em busca da vitória. Falta pensar nas coisas com mais moderação, menos fígado. Para torcer apaixonadamente, serve o Timão.

27/06/2011

Relato de um majestoso tabu em casal




Começamos a ficar juntos em 2003, pouco depois do Corinthians ter faturado o Paulistão contra o São Paulo. Como bom corinthiano, comemorei muito as duas vitórias por 3 a 2 contra o tricolor. Também tirei minhas casquinhas nos amigos são-paulinos. Como bom cavalheiro, porém, preservei-a de maiores zombarias futebolísticas.

A relação foi se prolongando, ficando séria. Passamos todo o ano juntos. Muito além, confesso, do que pensava que duraria. Naquele ano, após a final do paulista, o time dela batera o meu em junho e goleara em dezembro. Como boa companheira, ela restringiu as gozações a sorrisos marotos e leves manifestações de uma suposta superioridade.

As coisas ficaram sérias. Tanto no aspecto afetivo como no ludopédico. Dois anos já tinham ido, podíamos nos dizer, sei lá, noivos. Ela praticamente passou a morar na minha casa ou, a rigor, na casa de meus pais. Sua presença me alegrava, apesar das brigas que têm todos os casais. O que me intrigava era aquela espécie de maldição futebolística, já traduzida pelos comentaristas esportivos como um pequeno tabu.

Ao final de 2005, meu Corinthians sagrou-se campeão brasileiro, em um polêmico certame em que 11 partidas tiveram que ser jogadas novamente, após descoberta de que um juiz ladrão participava de um esquema de manipulação de resultados. Só que, mesmo campeão nacional, contando com Nilmar, Masquerano, Tevez e companhia, o Timão já amargava oito partidas sem vencer o São Paulo. Em uma delas, inclusive, tomou uma sova histórica (5 a 1!), no Pacaembu, com direito ao primeiro gol de Rogério Ceni, de pênalti, no Timão, em que fiquei com a clara impressão de que a surra só não foi maior porque os jogadores são-paulinos ficaram com dó.

Pior que isso (dava para ser pior?), também em 2005, o Tricolor faturou a terceira Libertadores – justo a Libertadores, nossa obsessão! – e, em seguida, o Mundial de Clubes da FIFA – o mesmo torneio cujo primeiro e até então único campeão era o Corinthians! Apesar de tudo, como prova de amor, herculeamente, esforcei-me para torcer pelo arquirrival no fatídico jogo contra o Liverpool. E deu certo (certo?). Apesar de só o time inglês ter jogado, o São Paulo venceu por 1 a 0. Nesse dia, convenci-me de que o tal Rogério Ceni não é só bom batedor de faltas; é bom goleiro também. A melhor parte foi ver a alegria estampada no semblante dela quando o juiz apitou o final da partida. Aquele olhar me fez entender que o sacrifício valera a pena.

Em 2006, nossa vida sofreu uma reviravolta definitiva. Aprovado em um concurso público, mudei-me para a capital. Que maravilha! Poderia curtir a vida cultural da metrópole: cinemas, teatros, shows e, lógico, os jogos do Timão no Pacaembu. Aluguei um apartamento e, em seguida, ela veio morar comigo. Impus-lhe a condição de não parar a faculdade e arranjar um trabalho. Em um mês, se tanto, as condições estavam satisfeitas e eu não tinha mais como escapar: estávamos casados... ainda que em união estável. Apesar do tempo juntos, o receio era natural. Será que daria certo? Será que não era ela a responsável pela maldição do Majestoso – como é chamado o clássico entre Corinthians e São Paulo –, a culpada por aquele tabu? Afinal, desde que estávamos juntos, jamais meu time havia vencido o dela. Neste mesmo ano, a sina persistiu. Além disso, o São Paulo venceu o Brasileirão. Ela, apesar de carinhosa, apesar de sutil nas observações, já me tratava como freguês.

O duro era aguentar as piadinhas. A mais engraçada – para quem não era corinthiano, claro – era a do cachorro. Mais ou menos, assim: o sujeito comenta com um amigo que suspeitava que seu cachorro era corinthiano, pois toda vez que o Corinthians perdia para o São Paulo, o bicho se escondia na casinha e ficava chorando; quando o Corinthians empatava, ia para a cozinha e não sai mais, todo sem graça. “E quando o Corinthians ganha”, questiona o amigo, ao que o sujeito responde: “Ainda não sei, só tenho o cachorro há três anos!”. Como esta, haviam milhares de anedotas e chistes sobre a freguesia mosqueteira no Majestoso.

Chegamos a 2007, um ano emblemático. Logo no réveillon, fiz lá meus desejos, dentre os quais acabar com o tabu. Em fevereiro, no primeiro Majestoso do ano, procurei reunir todas as forças místicas para dar cabo do problema. Liguei para um amigo, que conhecia um bar no qual jamais assistira uma peleja em que Timão tivesse saído sem os três pontos. Já pra lá!, pensei. Mas eis que a sina parecia resistente: o bar estava fechado. Isso é hora de se reformar um estabelecimento desses? Bem, resolvi assistir à partida em casa, recorrendo a mandingas caseiras: usar a camisa da sorte, bater no braço do sofá três vezes, não tomar cerveja enquanto o adversário atacava, coisas do tipo. Sabe-se lá por que, estava convicto de que o jejum acabaria naquele dia. Na verdade, não conseguia me conformar que durasse tanto. Resultado final: 3 a 1... para o São Paulo. Com direito a outro gol do Rogério Ceni – cara chato! –, o segundo dele contra o meu Corinthians.

Fiquei acabado. Reclamei, esbravejei, roguei pragas contra tudo e contra todos. E ela, percebendo que a coisa ficara séria, veio me acolher. Sequer fez menção em tirar sarro, reforçar a lembrança da freguesia, nada disso. Não por medo de brigas, mas por companheirismo mesmo. Notei que ela própria passava a querer que aquele tabu findasse. Para o meu bem e para bem do nosso casamento. Acompanhou-me até a padaria da esquina, onde eu terminei de afogar as mágoas. E dizem que corinthiano gosta de sofrer! Tudo tem limites nessa vida, ora bolas! O bom disso foi notar a verdade do dito popular: azar no jogo, sorte no amor.

Em julho, um empatezinho de 1 a 1 deu o sinal de que alguma coisa mudaria em breve. Foi então que, no momento de maior angústia, quando meu Corinthians brigava para não ficar na zona de rebaixamento e o São Paulo dela rumava para o bicampeonato brasileiro, quando se esperava uma goleada histórica, deu-se o, digamos, milagre. Em um jogo truncado, em que o limitadíssimo escrete alvinegro foi mais raçudo do que nunca, em um ataque aparentemente despretensioso, a bola sobrou para o zagueiro Betão mandar a bola para o fundo das redes de Ceni – tooooma!!! Eu não me aguentava no sofá. Gritava como um doido, pulava, xingava. Quando o juiz apitou, então, esguelei com jamais na vida: acabooooooouuuu!!!! Xoooô, tabu!!! Olhei para ela, que, cabisbaixa, deu um sorriso amarelo e me cumprimentou. “Até que enfim”. Chamei-a para ir novamente à padaria da esquina, mas, desta vez, com outro espírito.

Como desgraça pouca é bobagem, a quebra do tabu de mais de quatro anos foi apenas o consolo para o maior vexame da história do Timão: o rebaixamento. Na fatídica partida contra o Grêmio, que assisti sentado no chão e com a TV sem som, ela preferiu manter-se fechada no quarto. Estava estudando para uma prova da faculdade, embora eu ache que a razão principal era mesmo me deixar só com meu sofrimento. Quando o jogo acabou – tá, confesso, chorei –, ela se esforçou para me consolar. “Não fique assim. Esses caras ganham uma fortuna e não estão nem aí. Não vale a pena ficar desse jeito”. Novamente, ocorreu-me o dito: azar no jogo – mas quanto azar, meu Deus! –, sorte no amor. No final do ano, até tentei retribuir, cumprimentando-a pelo bicampeonato tricolor. Por que tanto para uns e tão pouco para outros?

Em 2008, enquanto o Timão disputava e ganhava o título da segundona, retornando à Série A, de onde jamais deveria ter saído, o Tricolor faturava o tricampeonato da primeirona. No Majestoso, o Corinthians mostrou que a sina de derrotas estava realmente terminada. Ou melhor, não mais perdia para o rival São Paulo. Isso ficou mais claro em 2009, quando o alvinegro trouxe nada mais, nada menos que Ronaldo Fenômeno, o maior artilheiro de todas as Copas. Muito embora fossem grandes as dúvidas sobre a condição física do “encorpado” Ronaldo, o fato é que o Fenômeno encaixou-se perfeitamente naquele escrete que havia evoluído muito durante a campanha da Série B. Mano Menezes, o técnico do mesmo Grêmio que havia jogado a pá de cal sobre o time de Parque São Jorge em 2007, agora no clube, montara uma bela equipe: Chicão, Willian, André Santos, Elias, Cristian, Jorge Henrique e Douglas eram reforços que haviam vingado. O Timão engrenou e papou, invicto, o Paulistão, além da Copa do Brasil daquele ano. E fez do São Paulo seu freguês preferido: dos cinco jogos de 2009, três vitórias e dois empates – destaque para as vitórias nas duas partidas das semifinais do Paulistão. Nestes jogos, enquanto ela comemorava os raros gols do São Paulo na sala, em frente à TV, eu saia para gritar no quarto os muitos gols e as vitórias do meu Corinthians no quarto. Questão de diplomacia doméstica... Tooooooooma!!!!

Em 2010, ano do centenário corinthiano, tanto o alvinegro como o tricolor participaram da Libertadores. Mas não se enfrentaram. O Corinthians caiu diante do Flamengo e o São Paulo, do Internacional. No confronto direto, três partidas: três vitórias do Corinthians.

Assim, entramos em 2011. Corinthianos repletos de si, bancando de imbatíveis diante dos rivais são-paulinos. Até a piadinha do cachorro agora era contada invertendo-se os times. O tabu invertido, no entanto, serviu de motivação aos são-paulinos para findar a sina derrotista. Por falar em sina, em destino, sabe-se lá por que, naquele histórico dia 27/03/11, tanto eu quanto ela sentimos que a escrita do tabu seria encerrada. Tudo parecia confluir a favor do São Paulo. Ronaldo havia encerrado a carreira dias antes, após a desclassificação relâmpago do Corinthians na pré-Libertadores, contra o fraco Tolima, da Colômbia. Roberto Carlos também anunciara sua ida para o futebol russo, aumentando o abismo corinthiano. Mas a superioridade moral do São Paulo advinha, especialmente, do fato de Rogério Ceni estar a apenas um golzinho da histórica marca dos 100, algo incrível para um goleiro. Destaque-se: seria o centésimo gol da carreira, mas não o centésimo em jogos oficiais, reconhecidos pela FIFA. A instituição maior do futebol não admitia em suas estatísticas dois dos gols computados a Ceni. De qualquer forma, a iminência da fantástica marca dava força extra ao Tricolor. Ah, além de que o mando era do time do Morumbi que, jogando em Barueri, pelo campeonato paulista, teria praticamente todo o estádio a seu favor.

Dito e feito. São Paulo 2x1 Corinthians. Fim do tabu, com direito ao centésimo gol de Rogério Ceni. Enquanto eu assistia, e sofria, àquilo pela TV, ela estava no shopping. Na verdade, o intuito não era fazer compras, mas, tenho certeza, me deixar em paz com meu sofrimento... mais uma vez. Nada que impedisse o sorriso sádico na chegada, e as palavras de convencimento: “Não disse que o tabu ia acabar”, “Não disse que o Rogério ia marcar o centésimo”, "Não disse, não disse..."

Enfim, essa é a história dos tabus na nossa vida de casal. Tabus que, por fim, caíram. Mas continuamos amando nossos times e, principalmente, continuamos a nos amar. Pela primeira vez, estamos juntos sem que paire um tabu entre Corinthians e São Paulo. Talvez seja melhor assim. Quem vence ou quem perde, importa pouco. Os dois são grandes e sempre serão. O principal é que o clássico, assim como o casal, continue eternamente majestoso.



***

Em tempo: Coloquei este relato no blog um dia após o Corinthians ter vencido o São Paulo por 5 a 0, com direito a frango de Rogério Ceni. É o primeiro jogo pós-tabus. Só por isso este texto foi postado agora. Só por isso...

Curiosidade: Rogério Ceni e Liedson estiveram presentes na primeira e na última partida aqui mencionadas, respectivamente em 2003 e 2011.

26/06/2011

Dois meninos



O ano: 1950. O menino brincava enquanto o pai ouvia o rádio com máxima atenção. O pai, jogador de futebol profissional, dissera ao garoto que aquela era a mais importante partida da história do país. Uma final de Copa do Mundo disputada no Brasil, em que a seleção nacional, com seu glorioso uniforme branco, disputaria, favorita, a taça contra a celeste uruguaia. O menino, vendo a seriedade no semblante do pai, compreendia, na sua forma de criança, o quão relevante era aquele jogo de bola para os adultos; para seu pai, em especial. Apesar de continuar brincando, não deixava de atentar para as reações e humores do velho por um segundo sequer. Assim, sorriu quando o pai comemorou o gol da seleção, ficou apreensivo quando ocorreu o empate e arrasado quando um tal de Ghiggia marcou o tento da virada. Só não chorou como o pai, que foi às lágrimas quando o jogo acabou e o Brasil, apesar do favoritismo, de ter Zizinho e de jogar em casa, perdeu um Mundial que todos davam como ganho. Com um sorriso envergonhado, o menino se aproximou do pai e disse, amoroso:

- Não liga não, pai. Quando eu crescer, ganho um desse pro senhor.

Quando o Uruguai bateu o Brasil naquela final de Copa, o tal menino tinha apenas nove anos de idade. Oito anos depois, aos dezessete, participou da campanha brasileira na Suécia, quando nossa seleção, jogando ora de amarelo, ora de azul, conquistou seu primeiro título mundial. A partir de então, o Brasil tornou-se o maior vencedor de mundiais e o status de país do futebol; o tal menino tornou-se o rei desse esporte. E o Santos, o time que o revelou, até hoje é conhecido como o mais completo e vencedor clube enquanto Pelé desfilou seu imenso talento pelos gramados do país e do mundo:

O ano: 2003. O mesmo Santos, pela primeira vez após a despedida do seu maior astro, disputava uma final de Libertadores. Com o rei, conquistara dois títulos; o primeiro contra o Boca Juniors, da Argentina, e o segundo, contra o Peñarol, do Uruguai. Mas isso ocorrera há quase quarenta anos. Desta vez, o adversário era novamente o Boca, o mesmo da primeira conquista. Outros meninos brilhantes haviam surgido na Vila famosa, a confiança era total. Não obstante, os argentinos tinham vencido o primeiro jogo, lá, por dois a zero. Nada que não pudesse ser revertido na finalíssima, em casa. Entre tantos torcedores, um homem assistia à partida pela televisão, enquanto o filho de onze anos brincava ao lado. Sim, brincava, mas não deixava de observar a peleja, nem de reparar nas reações e humores do pai. Quando a partida acabou, percebeu que a derrota por três a um para os argentinos, com Robinho e tudo, arrancara, além de alguns xingamentos, uma lágrima do pai. E, docemente, tentou consolá-lo:

- Não liga não, pai. Quando eu crescer, ganho um desse pro senhor.

O pai sorriu, apesar da dor da derrota. Notara a semelhança com a história do outro menino. Só não podia imaginar que o consolo do filho não era mera coincidência, mas o destino novamente escrito pela boca e pelo talento de outro menino, o seu Junior. Oito anos depois, o Santos disputa novamente uma final de Libertadores, contra o Peñarol – sim, o mesmo do segundo título da América –, e ergue a taça pela terceira vez. Melhor: pela primeira, após a despedida do seu menino-rei dos gramados. Agora, o Junior é o novo menino-rei.

Eis as histórias de dois meninos que reverteram a história. Que, de certa forma, nos redimiram. De uma final melancólica, de derrota, reescreveram outra, vitoriosa, campeã. A história do menino Pelé ocorreu de verdade. Já a do menino Neymar... bem, nada há que prove a existência dos fatos relatados, pelo menos até a vitória contra os uruguaios, absolutamente verdadeira. E é isso o que importa: é verdade que esses meninos cresceram, viraram reis e trouxeram – e continuam trazendo –, com seu talento inigualável de tratar a bola, tantas alegrias e taças. E também é verdade que esses meninos nasceram e nascerão de tempos em tempos neste país. Meninos de favelas, de campinhos de várzea, de escolinhas. Meninos da Vila. Meninos do Brasil.

JFQ

10/06/2011

A despedida do Fenômeno


Segunda-feira, no final da tarde, tive um estalo: se não for ao Pacaembu, jamais verei Ronaldo novamente em campo. O estalo me removeu os obstáculos que o mau tempo e o bolso impunham. Cento e quarenta reais, no Tobogã, com boas chances de assistir à partida sob chuva eram fatores que pesavam muito contra a decisão de ir ao estádio. Mas, enfim, não poderia faltar à despedida deste fenomenal artilheiro que me trouxe tantas alegrias como brasileiro e corinthiano. De mais a mais, duas ou três vezes que eu deixasse de ir a um boteco seriam suficientes para compensar o gasto. E, como diria nosso eterno Vicente Mateus, quem sai na chuva é para se queimar... (?)

Decisão tomada, vamos à execução. Um dia todo gasto em deslocamento para buscar o ingresso, ir ao trabalho, tomar o metrô (meia hora para passar a catraca da estação Sé!) e voltar ao Pacaembu, onde, dali a somente três horas, a seleção brasileira entraria em campo para enfrentar a Romênia. Ah, e o Fenômeno jogaria apenas 15 minutos. E daí?


 
A presença de Ronaldo nos campos foi fundamental para que torcedores como eu, que não vimos a geração de Pelé e há muitos anos deixamos de ver a geração de Zico e Sócrates, reavivássemos o amor pelo futebol e pela camisa da seleção brasileira.

Valeu, Fenômeno!

08/04/2011

"O Fator Deus", por José Saramago

No ano em que os atentados de 11 de setembro completam 10 anos, achei oportuno, para reflexão, colocar no blog texto de José Saramago, escrito na época.

Infelizmente, talvez esse texto se revele bastante atual, no momento em que o nome de Deus é pronunciado em matanças no mundo árabe, em que, sob a Sua benção, pastor da Flórida incita a queima do Corão e funcionários da ONU são assassinados no Afeganistão, em que deputado exalta a própria homofobia, taxando gays como avessos à família e a Ele, em que psicótico, à moda norte-americana, mata crianças em uma escola no Rio, pactuando previamente o Seu perdão...

O mundo - as religiões, em particular - precisa rever seriamente o que compreende por Deus e como influencia os seus fiéis, procurando evitar as barbaridades cometidas em nome Dele.

***

O fator Deus

JOSÉ SARAMAGO


Algures na Índia. Uma fila de peças de artilharia em posição. Atado à boca de cada uma delas há um homem. No primeiro plano da fotografia um oficial britânico ergue a espada e vai dar ordem de fogo. Não dispomos de imagens do efeito dos disparos, mas até a mais obtusa das imaginações poderá "ver" cabeças e troncos dispersos pelo campo de tiro, restos sanguinolentos, vísceras, membros amputados. Os homens eram rebeldes.

Algures em Angola. Dois soldados portugueses levantam pelos braços um

negro que talvez não esteja morto, outro soldado empunha um machete e prepara-se para lhe separar a cabeça do corpo. Esta é a primeira fotografia. Na segunda, desta vez há uma segunda fotografia, a cabeça já foi cortada, está espetada num pau, e os soldados riem. O negro era um guerrilheiro. Algures em Israel. Enquanto alguns soldados israelitas imobilizam um palestino, outro militar parte-lhe à martelada os ossos da mão direita. O palestino tinha atirado pedras. Estados Unidos da América do Norte, cidade de Nova York. Dois aviões comerciais norte-americanos, sequestrados por terroristas relacionados com o integrismo islâmico, lançam-se contra as torres do World Trade Center e deitam-nas abaixo.

Pelo mesmo processo um terceiro avião causa danos enormes no edifício do Pentágono, sede do poder bélico dos States. Os mortos, soterrados nos escombros, reduzidos a migalhas, volatilizados, contam-se por milhares.

As fotografias da Índia, de Angola e de Israel atiram-nos com o horror à cara, as vítimas são-nos mostradas no próprio instante da tortura, da agônica expectativa, da morte ignóbil. Em Nova York tudo pareceu irreal ao princípio, episódio repetido e sem novidade de mais uma catástrofe cinematográfica, realmente empolgante pelo grau de ilusão conseguido pelo engenheiro de efeitos especiais, mas limpo de estertores, de jorros de sangue, de carnes esmagadas, de ossos triturados, de merda. O horror, agachado como um animal imundo, esperou que saíssemos da estupefação para nos saltar à garganta. O horror disse pela primeira vez "aqui estou" quando aquelas pessoas saltaram para o vazio como se tivessem acabado de escolher uma morte que fosse sua. Agora o horror aparecerá a cada instante ao remover-se uma pedra, um pedaço de parede, uma chapa de alumínio retorcida, e será uma cabeça irreconhecível, um braço, uma perna, um abdômen desfeito, um tórax espalmado. Mas até mesmo isto é repetitivo e monótono, de certo modo já conhecido pelas imagens que nos chegaram daquele Ruanda-de-um-milhão-de-mortos, daquele Vietnã cozido a napalme, daquelas execuções em estádios cheios de gente, daqueles linchamentos e espancamentos daqueles soldados iraquianos sepultados vivos debaixo de toneladas de areia, daquelas bombas atômicas que arrasaram e calcinaram Hiroshima e Nagasaki, daqueles crematórios nazistas a vomitar cinzas, daqueles caminhões a despejar cadáveres como se de lixo se tratasse. De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta aos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em nome de Deus. Já foi dito que as religiões, todas elas, sem exceção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, que, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana. Ao menos em sinal de respeito pela vida, deveríamos ter a coragem de proclamar em todas as circunstâncias esta verdade evidente e demonstrável, mas a maioria dos crentes de qualquer religião não só fingem ignorá-lo, como se levantam iracundos e intolerantes contra aqueles para quem Deus não é mais que um nome, nada mais que um nome, o nome que, por medo de morrer, lhe pusemos um dia e que viria a travar-nos o passo para uma humanização real. Em troca prometeram-nos paraísos e ameaçaram-nos com infernos, tão falsos uns como outros, insultos descarados a uma inteligência e a um sentido comum que tanto trabalho nos deram a criar. Disse Nietzsche que tudo seria permitido se Deus não existisse, e eu respondo que precisamente por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o pior, principalmente o mais horrendo e cruel. Durante séculos a Inquisição foi, ela também, como hoje os talebanes, uma organização terrorista que se dedicou a interpretar perversamente textos sagrados que deveriam merecer o respeito de quem neles dizia crer, um monstruoso conúbio pactuado entre a religião e o Estado contra a liberdade de consciência e contra o mais humano dos direitos: o direito a dizer não, o direito à heresia, o direito a escolher outra coisa, que isso só a palavra heresia significa.

E, contudo, Deus está inocente. Inocente como algo que não existe, que não existiu nem existirá nunca, inocente de haver criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações do seu poder e da sua glória, enquanto os mortos se vão acumulando, estes das torres gêmeas de Nova York, e todos os outros que, em nome de um Deus tornado assassino pela vontade e pela ação dos homens, cobriram e teimam em cobrir de terror e sangue as páginas da história. Os deuses, acho eu, só existem no cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou, mas o "fator Deus", esse, está presente na vida como se efetivamente fosse o dono e o senhor dela. Não é um deus, mas o "fator Deus" o que se exibe nas notas de dólar e se mostra nos cartazes que pedem para a América (a dos Estados Unidos, não a outra...) a bênção divina. E foi o "fator Deus" em que o deus islâmico se transformou, que atirou contra as torres do World Trade Center os aviões da revolta contra os desprezos e da vingança contra as humilhações. Dir-se-á que um deus andou a semear ventos e que outro deus responde agora com tempestades. É possível, é mesmo certo. Mas não foram eles, pobres deuses sem culpa, foi o "fator Deus", esse que é terrivelmente igual em todos os seres humanos onde quer que estejam e seja qual for a religião que professem, esse que tem intoxicado o pensamento e aberto as portas às intolerâncias mais sórdidas, esse que não respeita senão aquilo em que manda crer, esse que depois de presumir ter feito da besta um homem acabou por fazer do homem uma besta.

Ao leitor crente (de qualquer crença...) que tenha conseguido suportar a repugnância que estas palavras provavelmente lhe inspiraram, não peço que se passe ao ateísmo de quem as escreveu. Simplesmente lhe rogo que compreenda, pelo sentimento de não poder ser pela razão, que, se há Deus, há só um Deus, e que, na sua relação com ele, o que menos importa é o nome que lhe ensinaram a dar. E que desconfie do "fator Deus". Não faltam ao espírito humano inimigos, mas esse é um dos mais pertinazes e corrosivos. Como ficou demonstrado e desgraçadamente continuará a demonstrar-se.

* Publicado na Folha de S.Paulo, em 19/09/2001.

06/04/2011

Racismo, não! Homofobia, pode?

Há poucos dias, o lateral Roberto Carlos, em partida do seu time, o Anzhi Makhachkala, contra o Zenit, ambos da Rússia, foi alvo de manifestação racista ao entrar em campo. Um torcedor aproximou-se para lhe entregar uma banana. Na partida entre Brasil e Escócia, uma banana foi jogada no gramado, causando enorme mal-estar por, num primeiro momento, suspeitar-se tratar de ato racista contra Neymar.

Os dois episódios, pela associação com o racismo, causaram asco na maioria das pessoas. “Como pode acontecer algo assim em pleno século XXI?”, indagam jornalistas, jogadores, torcedores e cidadãos em geral.

No entanto, a mesma repulsa não ocorre em relação à homofobia. Como se esta forma de preconceito não tivesse alcançado, digamos, o status de atitude moralmente reprovável ou mesmo criminosa que já alcançaram o machismo e o racismo, por exemplo.

Prova disso foi a manifestação da torcida do Cruzeiro, em partida pelas semifinais da Superliga de vôlei masculino, contra o jogador Michael dos Santos, do Vôlei Futuro, de Araçatuba (ver matéria: http://globoesporte.globo.com/volei/noticia/2011/04/volei-futuro-reclama-de-homofobia-e-tumulto-em-minas-cruzeiro-rebate.html ).

É bom que se diga: a repulsa causada pelo racismo e a quase normalidade com que se dá a homofobia não é um estranho contraste na cabeça de poucos, mas cultivado pela maioria das pessoas na nossa sociedade. Por um lado, há que se comemorar o fato de negros, apesar dos pesares, terem avançado nas suas conquistas. Reforço: apesar dos pesares, ou seja, apesar de estarmos muito longe de considerar superado o problema do racismo no Brasil. Por outro lado, é premente que sejam tomadas atitudes enérgicas para que atos de hostilidade contra homossexuais deixem de ser entendidos como fruto de um “preconceito aceitável” ou, pior, como reação legítima de resguardo da família, dos bons costumes ou qualquer valor tradicional concebido de modo bitolado, fechado, cujos defensores mais radicais se veem como guardiães da palavra de Deus, da Moral ou o do que os valha.

Por falar nisso, o deputado Jair Bolsonaro, ontem, no programa CQC, da Band, confirmou que fora mal interpretado na entrevista de semana passada. Tentando externar toda sua raiva contra os homossexuais, foi, coitado, tomado por racista. Quanta injustiça! A propósito, parabéns a Marcelo Tas, que, expondo a si próprio e à filha, que é gay, deu verdadeira prova de coragem ao tornar público seu orgulho por ela. Quem sabe, um dia esse orgulho possa superar o ódio e incapacidade de convivência ainda vistos em campos, quadras, parlamentos e alhures. Chegou a hora de dar uma banana a todas as formas de preconceito, inclusive a homofobia.

04/04/2011

É preciso aproveitar o “momento Bolsonaro”

Para muitos, Jair Bolsonaro é polêmico. Para outros, como o petista Cândido Vacarezza, Bolsonaro é estúpido. Para alguns, o parlamentar carioca é preconceituoso, mas há também – e são muitos – os que o consideram “apenas” sincero em suas convicções.

Seja lá o perfil que se atribua a Bolsonaro, há uma série de temas relevantes que vieram à tona com sua nova “performance”, na famosa entrevista ao CQC. Assim como uma série de medidas que podem ser tomadas, incentivadas por este “momento Bolsonaro”. São elas:


Um “preconceito aceitável”?

Admitamos como verdadeira que a resposta dada a Preta Gil, como alega o deputado, não se referia aos negros, mas aos gays. Logo, concluiremos: o deputado pensa que preconceito contra negros não é aceitável, mas contra gays, sim.

Talvez esteja, de fato, arraigada na sociedade brasileira atual essa impressão: a homofobia é um “preconceito aceitável”. Ou, quem sabe, sequer seja admitida como um preconceito. Mas, sim, proteção da família, da moral e dos bons costumes. Podem, inclusive, argumentar que homossexualismo é doença ou coisa do demo.

Historicamente, às mulheres não cabiam os mesmos direitos atribuídos aos homens. O direito ao voto, por exemplo, ou o termo “mulher honesta”, constante do Código Penal até há pouco tempo, evidenciam que o machismo, além de culturalmente sedimentado, estava institucionalizado no próprio ordenamento legal. Após brava luta feminista, hoje, pelo menos à vista de todos, não é admissível determinadas atitudes contra as mulheres, muito embora, claro, elas tenham muito ainda por conquistar. Bem, o próprio fato de termos hoje uma presidenta, democraticamente eleita, é sinal de que algo mudou.

Com os negros ocorre algo parecido. Em uma sociedade historicamente marcada pela escravidão, apesar de não termos tido algo como o apartheid sul-africano ou as leis discriminatórias norte-americanas – nos tempos em que não se imaginaria Mandela ou Obama eleitos presidentes –, tivemos (e ainda temos, em boa medida) formas de perpetuação dos negros em posições subalternas, alijados de conquistas e direitos. De qualquer forma, para usar um exemplo relativamente recente, se um jogador de futebol xingar outro de macaco, é bem possível que saia do estádio direto para uma delegacia, além de responder a processo judicial.

Em suma, mulheres e negros avançaram na conquista efetiva de direitos. Avançaram na luta contra a discriminação. Além disso, destaco: institucionalizaram algumas de suas conquistas. A Constituição de 1988 afirma que homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações (art. 5º, I), assim como o racismo é crime inafiançável e imprescritível (art. 5º, XLII). Em âmbito infraconstitucional, mulheres e negros também encontram guarida legal, como, por exemplo, na Lei 7716/89 (crimes de preconceito de raça ou de cor) ou na Lei 11340/06 (Maria da Penha).

No entanto, em que pese o art. 3º, IV, da Constituição, que determina como objetivo do Brasil promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade ou qualquer outra forma de discriminação, desconheço proteção legal específica aos homossexuais.

Eis a primeira medida que pode ser feita a partir do “momento Bolsonaro”: a promulgação de lei que criminalize a homofobia.

Há, sim, projetos tramitando no Congresso. O que talvez não há – pelo menos até agora – é a oportunidade para fazer com que tal projeto seja transformado em lei. Vale dizer, o que não ocorre, em medida considerável, por força de bancadas e parlamentares religiosos. Porém, da mesma forma, a submissão da mulher ao homem e a escravidão já foram tolerados e respaldados em discursos com citações bíblicas, em sermões de quem, em tese, fala em nome de Deus. É possível que se questione vigorosamente a naturalidade, ainda muito presente, com que os homossexuais são atacados sob o pretexto abjeto de se tratar de um preconceito em nome do Todo-Poderoso. Como se sua existência, e não a violência discriminatória ou mesmo física que sofrem, fosse um acinte às pessoas de bem e às famílias. Pelo menos, é o que pregam os que se acham donos da família e de Deus.

Questão de opinião?

Para surpresa de muitos, pululam aos milhares na internet manifestações favoráveis a Jair Bolsonaro. Afora quem comungue do pensamento retrógrado do deputado, há um argumento que chama a atenção: a democracia requer que se respeite todas as opiniões. Assim, o comentário racista ou homofóbico de Bolsonaro é interpretado como “mera” opinião, tão garantida pela Constituição como os direitos dos negros e dos gays. Simples assim. Será?

Os defensores de Bolsonaro apontam sua fidelidade às convicções. Cumulado a isso, o fato de a democracia exigir que se respeite a opinião alheia, por mais avessa que seja às nossas próprias opiniões ou valores. No entanto, também em nome da democracia, há limites à manifestação das opiniões. Por exemplo: em nome desse regime político, posso exaltar o nazismo ou o holocausto? Posso externar minha simpatia a crimes como a tortura? Posso fazer apologia da discriminação racial ou sexual? Não. Há, inclusive, limites impostos pela própria Constituição e por leis infraconstitucionais, como já dito.

Além disso, o parlamentar é enaltecido pela “coragem de falar o que pensa” e – o elogia da moda – por ser ficha limpa. O ficha limpa virou um bordão do senso comum, uma panaceia para todos os males da política e do Brasil. Como se todos os prós e contras nacionais fossem separáveis – qual o joio do trigo – entre fichas sujas e fichas limpas. Pior: como se apologia à tortura, assassinatos, racismo ou homofobia não fossem tão ou mais repugnantes que a clássica corrupção. Do “rouba, mas faz”, Bolsonaro inaugura o slogan “tortura e discrimina, mas é ficha limpa”.

Essa defesa do deputado reside em indisfarçável incapacidade em lidar com a democracia. Como também se trata de déficit democrático, em sentido contrário, sua condenação sumária. No caso dos defensores, prospera a falácia de que “no tempo dos militares” não havia corrupção. Mentira que deve ser contraditada, tanto pelo fato de na ditadura a imprensa ser tenazmente censurada – o que impedia a produção livre e a credibilidade das notícias ou denúncias de quaisquer espécie –, como pelo fato de os militares terem encontrado sustentação política em figuras para lá de suspeitas – para dizer o mínimo do mínimo –, como Paulo Maluf (eleito prefeito e governador e candidato à Presidência sob as bênçãos dos quartéis) ou José Sarney (presidente do PDS, partido da ditadura).

Segunda conclusão: É preciso aproveitar este momento para, sem qualquer sentimento de injustiça, levar adiante o processo de cassação do deputado Jair Bolsonaro. É preciso que se respeite a democracia e o Estado de direito que o Brasil, a duríssimas penas, e contra pessoas como o deputado Bolsonaro, conseguiu construir e, apesar dos pesares, manter e desenvolver.

Reforma política e o voto em lista

Chama a atenção o silêncio do Partido Progressista, o PP, do qual faz parte o deputado Bolsonaro. Afinal, o partido não tem qualquer responsabilidade sobre o que fazem seus parlamentares. Ou, quem sabe, não deve tomar partido (com o perdão do trocadilho) por atitudes “individuais” de seus filiados. Ou, ainda, como quem cala consente, não vê nada de mais nas “polêmicas” opiniões do nobre deputado.

Sim, claro que o partido deve ser chamado a se explicar e a assumir responsabilidades que também são suas. É legítimo que se lhe cobre a punição, até mesmo a desfiliação compulsória do mandatário de cargo político eleito sob sua legenda. Mas, diante da inércia, o que fazer?

Tramita atualmente no Congresso o projeto de reforma política. O principal tópico da reforma é a mudança do sistema eleitoral. Voto em lista, voto distrital, voto distrital misto são sistemas existentes nas democracias consolidadas e que servem como referência para as discussões da reforma brasileira. Eu, particularmente, tenho simpatia pelo voto em lista, muito embora considere pertinentes as críticas que tal sistema sofre, sobretudo, pelo possível fortalecimento excessivo do poder dos caciques de cada partido. Estes podem determinar unilateralmente os nomes da lista, tirando do eleitor a possibilidade de escolher os parlamentares que serão eleitos. Dessa forma, sou favorável ao voto em lista, mas com ressalvas. Por exemplo: a democracia interna dos partidos deve ser um pressuposto, não uma prerrogativa de cada agremiação. A escolha dos nomes da lista deve vir, obrigatoriamente, em prévias partidárias. Ou ainda – proposta minha – o voto pode ser dado em dois turnos: no primeiro, escolhe-se os partidos, determinando-se o percentual de cadeiras que cada qual terá; no segundo, em voto facultativo, também os eleitores escolhem os nomes que preencherão as cadeiras.

Votando a Bolsonaro, o voto em lista traz a vantagem de o próprio partido ser impelido a defender todos os seus candidatos. Ou melhor, todos os companheiros de lista teriam a missão de defender todos os nomes da lista, numa estratégia “um por todos e todos por um”. Por extensão, veriam-se obrigados a extirpar da lista aqueles candidatos que prejudicariam sua própria eleição. Em síntese, a presença de Bolsonaro – considerando suposta rejeição causada por seu nome – dificultaria a eleição de todos os seus colegas de PP. Diferentemente de hoje, quando todos se beneficiam dos votos trazidos por quem quer que seja, aumentando a soma do coeficiente eleitoral.

Terceira conclusão: É preciso aproveitar o “momento Bolsonaro” para levar adiante a reforma política e discutir a proposta do voto em lista, com salvaguardas para que os núcleos duros dos partidos não se tornem castas intocáveis e poderosíssimas no sistema político.

A Comissão da Verdade

Por fim, diante de mais uma manifestação de desapreço pela vida e pela dignidade humana sob a forma de apologia da tortura, é preciso que a Comissão da Verdade seja, finalmente, constituída. Assim como ocorreu na África do Sul, por determinação de Mandela e sob a coordenação de Desmond Tutu – dois prêmios Nobel da paz –, na Espanha, Portugal e em outros países.

Não se trata de revanchismo ou coisa do tipo, mas de resgate da história e devida responsabilização do Estado e seus agentes para com famílias de pessoas cujas vidas foram covardemente ceifadas. Há um abismo entre o Brasil e outros países que passaram pela vergonha da ditadura. Na Argentina, por exemplo, até mesmo ex-presidentes foram punidos. Lá, a punição dos agentes da ditadura não é vista sob a ótica do revanchismo, mas da justiça – a propósito, recomendo o ótimo filme “O Segredo dos Seus Olhos”, ganhador do Oscar (recomendo também o documentário brasileiro “Cidadão Boilesen”). Seria difícil imaginar os argentinos impassíveis com o desdém de um deputado pela busca angustiante dos restos mortais de familiares, como verificado no desenho do cachorrinho, colado na porta do gabinete de Bolsonaro.

Falando nisso, aproveito para aplaudir ação do promotor Otávio Bravo, do Ministério Público Militar do Rio, que abriu investigação sobre desaparecimentos de pessoas durante a ditadura com a participação de agentes das Forças Armadas ou que tenha ocorrido dentro de suas unidades. Aplaudo, especialmente, a inteligência da tese defendida pelo promotor, que postula que os casos de desaparecidos devem ser considerados sequestro em andamento até a localização de eventual resto mortal ou de “evidências verossímeis” de que as vítimas foram soltas ou mortas. Em suma, trata os casos sob o fundamento das leis penais vigentes, driblando o eterno pretexto de que a Lei de Anistia protege “os dois lados”.

Concluindo: é preciso aproveitar o “momento Bolsonaro” para efetivar a Comissão da Verdade.

***

Conclusão geral: à parte a repugnância gerada por seu protagonista, o “momento Bolsonaro” pode ser bastante útil para se concretizar algumas medidas politicamente difíceis. No caso, a promulgação de lei que criminalize a homofobia, a abertura do processo da cassação do próprio deputado, a reforma política e a constituição da Comissão da Verdade.

31/03/2011

Imagens inusitadas. Também por isso, maravilhosas

Há quem viva se queixando de que nada muda no Brasil ou no mundo. Apesar da persistência de muitas mazelas e da recorrência de problemas que há muito gostaríamos que estivessem solucionados, não dá para negar que, em vários aspectos, já avançamos.

Basta observar algumas das fotos recentes mais veiculadas pela imprensa. Imagine que você estivesse no final dos anos 1970, por exemplo, e uma criatura vinda do futuro lhe apresentada a foto abaixo, com a seguinte legenda: “Chefes de Estado dos EUA e do Brasil se encontram. Ano: 2011”. Confesso que, a princípio, tenderia a pensar que o homem negro é o presidente do Brasil e a mulher, presidenta dos Estados Unidos. De qualquer forma, fosse quem fosse, não deixaria de considerar um avanço a escolha de uma mulher e de um negro para tais cargos. Porém, para o contentamento ser completo, deveria a legenda trazer a seguinte informação, muito apropriada para que vive nos anos 70: "Em 2011, o Brasil é uma democracia e seu presidente foi escolhido pelo voto popular".


Agora, depois de cientes de que a mulher é a chefe de Estado do Brasil, aumentaria minha alegria ao ser apresentado à foto abaixo, com os dizeres: “Dilma, presidente do Brasil, e suas ministras”. Não, as coisas não são iguais em 2011!


Para completar, a foto abaixo. Em fins da década de 70, o sujeito ficaria estupefato ao constatar que os senhores da foto são o presidente Jimmy Carter e o presidente Fidel Castro. Pela legenda, saberia que, em 2011, são ex-presidentes dos EUA e de Cuba, em encontro na cidade de Havana.


Sim, nem tudo são flores no Brasil e no mundo de hoje. Nem tudo mudou tanto assim. No entanto, dizer que o mundo continua igualzinho, que nada melhora, me desculpe, mas parece a expressão da absoluta incapacidade de ver o mundo com otimismo, ainda que por olhos bem realistas. Conheço pessoas com essa incapacidade. Aliás, por ironia, algumas delas nasceram no final da década de 70.