27/01/2010

Non Ducor Duco*

* Não sou conduzido, conduzo



Amor e ódio, dois sentimentos opostos, são comuns aos paulistanos em relação à sua cidade. Aos paulistanos “da gema” e aos paulistanos por adoção, como eu. Tais sentimentos podem estar presentes no mesmo paulistano, oscilando ao longo do tempo no ritmo frenético da própria metrópole.

Quando vim a São Paulo para estudar, em 1991, estava maravilhado por morar naquela cidade gigantesca aonde vinha com freqüência, na infância, para visitar tios e primos. Também sentia medo, o medo típico de um caipira para o qual a estranheza em relação àquele gigantismo é inescapável. Ademais, tinha apenas 19 anos.

Mais acostumado ao “jeitão” da cidade e de sua gente – um tanto fria, qual o clima – , fazendo jus a Caetano, diante da dureza imposta pela metrópole, aprendi depressa a chamar-lhe de realidade. O “avesso do avesso do avesso do avesso” passou a contrastar muito com o “outro sonho feliz de cidade”: as saudades de minha terra natal, Birigui, minha família, meus amigos, meu modo de vida anterior.

O que mais incomodava não eram os congestionamentos, a violência, o frio, a poluição, apesar de incomodarem, é claro. O pior para mim, indiscutivelmente, era a solidão. Solidão que parece ser mesmo marca registrada de São Paulo, cantada em verso e prosa, expressa em músicas e filmes, ironicamente denunciada por Nelson Rodrigues: “A pior forma de solidão é a companhia de um paulista”. Engraçado: um lugar com mais de 10 milhões de habitantes, onde você pode sentir-se o mais isolado dos seres!

Não se trata apenas de estar só, sem alguém por perto, mas de não ter relações próximas, propriamente afetivas, com ninguém. Se no interior todos se conhecem – muitas vezes a ponto de também criar grande incômodo, como se vivêssemos em um reality show do tipo Big Brother, onde todos vigiam a vida de todos – , na metrópole a impressão é a de sermos insignificantes formiguinhas em meio a um formigueiro de proporções infinitas.

Assim, como um ex-marido que se separa da mulher após incontáveis brigas, passando a maldizê-la na frente de todos e a todo instante, passei a emanar meu desprezo por essa “terra de loucos”, de onde, qual Carlota Joaquina, não queria levar nem mesmo o pó nos sapatos.

Fui embora, após 7 anos. Num primeiro momento, fiquei aliviado por estar “em casa” novamente. Porém, passado algum tempo, senti na pele que a “terra de loucos” passara também a ser “minha casa”. A saudade de São Paulo – contra a qual jurara ódio eterno – foi aumentando aos poucos. Descobri que fora dessa cidade imensa, cinzenta, fria e chuvosa não encontrava algumas coisas que me passaram a ser caríssimas: os teatros, os cinemas, os espetáculos musicais, as possibilidades de cultura, enfim, da qual passei a sentir a mesma falta que o brasileiro sente do arroz com feijão quando está no estrangeiro. Também precisava ir ao Pacaembu, ver jogos do Corinthians. Ou me envolver em intermináveis papos-cabeça com amigos uspianos em botecos da Vila Madalena. E as corridinhas no Ibirapuera! E ver as coisas acontecerem ao vivo, e não pela televisão... Essa é uma sensação engraçada: quem vem de fora percebe que São Paulo é o “lugar onde as coisas acontecem”.

Pronto. Já não perdia uma oportunidade de dar uma esticadinha à capital. Descobri que a metrópole não era apenas o monstro, mas também um lugar pitoresco e aconchegante. Se para Caetano, em determinado momento, “ainda não havia Rita Lee”, para mim, ainda não havia Paulo Vanzolini e Adoniram Barbosa. Mas eles estavam lá; sua São Paulo estava lá.

Depois de nove anos retornei, e cá estou há mais três. Já não sofro mais daquela triste solidão de antes. Sim, hoje não estou sozinho, e isso ajuda. Todavia, o aconchego, por assim dizer, não se deve somente ao casamento, mas a outra relação com a cidade derivada da transformação realizada em mim, em grande medida, pela própria cidade: São Paulo me ajudou a amadurecer. Bem entendido: amadurecimento não significa endurecimento ou tornar-se frio. Amadurecimento significa virar dono do próprio nariz e do próprio destino, desenraizar-se sem renegar ou amaldiçoar as raízes. Pelo contrário: é saber dividir o carinho indestrutível às raízes com o carinho às novas raízes, no caso, novas raízes paulistanas. Afinal, São Paulo é justamente isso: o compartilhamento de milhões de raízes em sua nova e comum raiz. Para quem quiser e souber aprender, em São Paulo aprende-se a conviver com o outro, com o diferente, sem perder a própria identidade.

Dessa forma, descobri que São Paulo, sobretudo, é “o lugar onde não se é conduzido, mas se conduz”. Como se a inscrição latina em sua bandeira – Non Ducor Duco – não se referisse exclusivamente à força econômica, política ou cultural da cidade, mas também às próprias pessoas, aos paulistanos. Os “da gema” e os de adoção, como eu.

Parabéns, São Paulo, pelos 456 anos! Com a gratidão de quem reconhece tudo o que recebeu e continua recebendo dessa “terra de loucos”.

2 comentários:

  1. Rogério Ceron03/02/2010, 11:15

    Muito bom o depoimento, somente quem também passou por essa adaptação pode compreender a riqueza dos sentimentos expressos nessa mescla de amor e ódio pela Cidade.

    Ps. Compartilho de quase tudo nesse texto, menos ao "bando de loucos", que implicitamente faz referência a um time que jamais ganhará a Libertadores...

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  2. Obrigado pelo comentário, Rogério. Você acredita que nem me passou pela cabeça essa associação entre "terra de loucos" e "bando de loucos"? Pois é verdade. Aliás, esses assuntos, trato em outro blog: www.ludopedicas.blogspot.com Dê uma passada lá. E, se quiser, faça comentários em prol do seu tricolor. Serão bem-vindos.
    Abraço.

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