O caso de Geisy Arruda me fez lembrar o samba de Noel Rosa cujo refrão é:
Com que roupa eu vou?/ Pro samba que você me convidou
A lembrança de Noel, porém, é a única consequência boa deste lamentável episódio. Afinal, ao absurdo ocorrido em seu campus de São Bernardo, a Universidade Bandeirante (Uniban) conseguiu somar uma decisão estúpida e escandalosa. Já haviam dito que Uniban rima com Taleban, mas ainda não havia clareza quanto à similaridade de concepções entre ambos.
Geisy Arruda, a vítima, foi excluída da universidade, enquanto alguns dos criminosos – sim, injúria e difamação são crimes, conforme artigos 139 e 140 do Código Penal – que a perseguiram serão simplesmente suspensos. Se o forem! Essa é a sábia determinação dos aiatolás, quer dizer, dos dirigentes da Uniban. A propósito, alguém aí viu ou ouviu o magnífico reitor, senhor Heitor Pinto Filho, ou algum alto dirigente da instituição? Eu só vi um coitado de um advogado tentando justificar o injustificável, ninguém mais. Sei lá, talvez seja por vergonha, talvez porque nas regras do pudor da Uniban conste a proibição de o Pinto aparecer em público... Desculpe, não aguentei...
As alegações da Universidade para o desligamento de Geisy foram veiculadas em jornais como informe publicitário. Em suma: 1) a estudante usava “trajes inadequados, indicando postura incompatível com o ambiente da universidade, e, apesar de alertada, não modificou seu comportamento”; 2) ademais, a aluna optou por um percurso maior que o habitual rumo à sala de aula, “o que alimentou a curiosidade e o interesse de mais alunos e alunas”. A partir dessas pérolas, pergunto: A universidade mantém algum(a) estilista para definir e fiscalizar os “trajes adequados”, uma espécie de Glorinha Kalil entendida em véus, burcas e afins? Dependendo da roupa que se usa o aluno deve percorrer um trajeto ou outro? Do mesmo jeito que se cobra de Geisy compostura, não seria possível cobrar dos ditos alunos e alunos que segurem a onda da sua “curiosidade”?
A Constituição brasileira, em seu artigo 205, afirma que a educação visará ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. No que a Uniban contribui, levando-se em consideração o caso Geisy, para que seus alunos se tornem verdadeiros cidadãos? Tomara que no quesito “formação para o trabalho” a universidade seja mais competente.
Voltando ao samba de Noel Rosa, ao gosto da direção da Universidade Bandeirante, teria o refrão adaptado, como segue:
Com que burca eu vou/ Proteger o ambiente da Uniban
Êta sambinha ruim! Definitivamente, Noel não merece a paródia infame.
Três observações, em tempo:
Primeira: Acabo de saber que a Uniban reviu sua posição de desligar Geisy. Ou seja, a direção da Uniban, que no primeiro momento agiu de forma absurda, agora, pressionada, acuada e feito barata tonta, volta atrás. Ridículo, mas melhor assim. Aliás, à altura do senhor reitor: magnificamente ridículo!
Segunda: É hora de o MEC e as secretarias estaduais e municipais de educação preocuparem-se com a responsabilidade das instituições de ensino em formarem cidadãos, e não somente com o aspecto cognitivo. As instituições de ensino são espaços importantíssimos de socialização e, portanto, de formação e transmissão de valores. Duas sugestões: que conste da própria grade curricular a matéria “formação cidadã” e que haja um plano consistente de combate ao bullying em todas as instituições.
Terceira: É preocupante saber que muitos alunos da universidade, em vez de se contraporem aos agressores e à direção da Uniban, passam a hostilizar Geisy pela imagem negativa que a universidade angariou para si. Além disso, mais de 20% dos consultados em pesquisa do Jornal Hoje, da Rede Globo, culpam a aluna pelo ocorrido. Ou seja, a decisão por culpar a vítima e não os algozes – bastante comum em casos de estupro, diga-se de passagem – mostra-se arraigada na própria sociedade, não refletindo apenas a ignorância de quem decide. Neste sentido, o caso Geisy parece corroborar a interpretação daqueles que recusam apontar o nazismo como fruto exclusivo da cabeça e das atitudes de Hitler e seus comandados diretos, mas também como um fenômeno com raízes na própria sociedade alemã daquela época. Conclusões: 1) As batalhas contra racismo, homofobia, machismo e outras formas de discriminação estão longe de serem consideradas ganhas; e, 2) O preço da liberdade, realmente, é a eterna vigilância.
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