02/11/2009

A Paixão de Geisy

Não era homem, mas mulher. Loira, olhos verdes, um metro e setenta de altura, sedutora: uma bela mulher. Seu nome era Geisy, também conhecida como Michele Vedras. Seu nome não estava inscrito em nenhum livro sagrado, mas em um blog. Não se tratava de um deus, um semideus, um filho dileto Dele, mas de uma simples pecadora, como todos nós. Ou de pior estirpe, ao menos para os vorazes moços que, em massa, a agrediram com xingamentos e ameaças de estupro, enquanto, solitários, a desejavam com a mesma voracidade. Ou para as raivosas moças, repentinamente pudicas, em colérica histeria contra aquela que atentava à moral e aos bons costumes, e lhes roubava a preciosa atenção dos moços. Não pensaram em seus próprios pecados antes de lhe atirarem pedras, de a bolinarem, de lançarem-lhe ofensas e cliques de celular para posterior humilhação pública via internet.
Apesar das diferenças, Geisy também era de origem humilde e teve, naquele instante, sua paixão. No seu calvário, teve como cruz um curto vestido vermelho. Fizeram as vezes de soldados romanos os seguranças da escola e os policiais militares que a escoltaram por fim. Reles cumpridores de ordens, não permitiram o avanço das hordas, mas pensaram consigo: com esses trajes provocantes, essa vadia estava pedindo, ah se estava!
Qual o sujeito que deu água em vez de vinagre, houve o professor que resistiu à invasão da classe pela multidão ensandecida e vestiu a pobre com seu jaleco, cobrindo aquele corpo diabólico.
Geisy nunca foi conhecida pela capacidade de curar leprosos ou de proferir parábolas, mas de provocar os instintos com sua sensualidade. Um poder perigoso este, causador de implacável ira daqueles que não o têm e não aceitam que lhes falte.
Não feriram de morte seu corpo, mas sua alma. Levada ao extremo da humilhação, à crucificação de sua dignidade, pergunta-se: conseguirá Geisy renascer?
A direção da Universidade tomará providências em relação ao que aconteceu em seu campus ou simplesmente lavará as mãos?
E os algozes de Geisy, o que lhes ocorrerá? Serão punidos? Ou serão perdoados, pois não sabem o que fazem?

***

Geisy, uma estudante de turismo da Uniban, foi humilhada a caminho de sua classe de aula por conta de alegada indecência do vestido que trajava.
Para quem não acompanhou, há vários vídeos circulando pela internet (um deles em link abaixo). O caso é rico em reflexões: comportamentos adequados e inadequados, reações justificáveis e injustificáveis, direitos da mulher, distinção de gêneros quanto ao exercício da sexualidade, o papel da escola na formação social dos indivíduos, bullying em tempos de internet, comportamento de massas, danos morais, etc, etc, etc. Às reflexões, porém, deveria somar-se a indignação das mulheres e pelas mulheres. Não contra o suposto despudor de Geisy, mas, justamente, contra essa visão anacrônica e absurdamente reacionária. O episódio representa um retrocesso sob a ótica das conquistas femininas. E, quem sabe, a oportunidade dos que prezam tais conquistas manifestarem com veemência seu repúdio, exigindo punição exemplar, sem desculpas ou abrandamentos, daqueles que sob a covarde proteção das massas promoveram um verdadeiro linchamento moral.

www.folha.com.br/093026

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