Virou moda dizer que “não se pode falar mal de Lula”, como se qualquer crítica ao presidente fosse imediatamente censurada ou, quem sabe, prontamente abafada. Essa ideia já apareceu em artigos e falas de gente importante: políticos, artistas, intelectuais. Não raro, surgem comparações com a Venezuela de Chávez ou a Argentina de Cristina Kirchner, como se o conflito entre o governo e a imprensa nesses países ocorresse – ou, quiçá, estivesse na iminência de ocorrer – aqui no Brasil. Afinal, não somos todos aliados, não somos todos de esquerda?
Devo estar com problemas de percepção do mundo, pois, ao contrário, vejo Lula como a grande “Geni” do Brasil. Acordo com Alexandre Garcia e durmo com William Waack fazendo críticas ao governo e ao próprio presidente, terminando suas falas com um já manjado olhar irônico a expressar indignação e incredulidade com os rumos (terríveis!) tomados pelo país.
Sim, o problema deve ser meu. Não consigo enxergar, por mais que me esforce, essa impossibilidade de crítica ao presidente. Até ouço críticas que não devem existir. Por exemplo, ouvi Caetano chamar o presidente de analfabeto, cafona e grosseiro. Também li texto assinado por FHC acusando o presidente de aspirante a ditador “neoperonista”.
Ah, já não bastasse o jornalista do New York Times Larry Rother escrever artigo sugerindo que Lula seria alcoólatra (alguém aí tem um videozinho do Lula bêbado? É que eu nunca vi...), agora o jornalista César Benjamin, da Folha de S.Paulo, escreveu neste mesmo jornal relato em que cita frase dita por Lula em almoço, quando candidato à Presidência em 1994, acerca de tentativa frustrada de currar um rapaz no cárcere quando esteve preso, na época da ditadura. Benjamin só não foi tão claro sobre a circunstância em que a frase fora proferida, se em tom de brincadeira (de mau gosto, sem dúvida), e, tratando-se de uma brincadeira, o que seria fato e o que não seria. Só para arrematar, três provas de que a acusação insinuada por Benjamin é, no mínimo, exagerada: 1) Paulo de Tarso da Cunha Santos, publicitário que estava presente no tal almoço, afirmou ser a frase uma dentre tantas brincadeiras habituais de Lula durante a campanha; 2) José Maria de Almeida, José Cicote e Rubens Teodoro, presos com Lula no Dops, disseram não ter testemunhado situação similar à descrita no artigo; 3) Amigos de longa data do presidente, como Frei Betto, disseram jamais ter ouvido mencionado relato da boca de Lula, mas, é claro, César Benjamin e os demais presentes tiveram o privilégio de conhecer detalhes mais íntimos da vida de Luís Inácio, que resolveu abrir-se naquele instante.
Isso para ficarmos nas críticas mais recentes. Se retrocedermos no tempo, veremos que Lula já foi acusado de propor o aborto à namorada grávida (eleições de 1989), de, junto com o PT, auxiliar os sequestradores de Abílio Diniz, e de ser condescendente com esquemas de corrupção (mensalões e afins). Faltou o quê? Homicídio? Não! Também já se sugestionou que Lula estava envolvido na morte de Celso Daniel, ex-prefeito de Santo André, assassinado em 2002.
Em resumo, os adjetivos atribuídos diretamente ou com meias-voltas a Lula são os seguintes: corrupto, analfabeto, cafona, bêbado, autoritário, cúmplice de sequestro e homicídio, e, last but not least, estuprador (ou agente de tentativa de atentado violento ao puder, para melhor enquadramento criminal).
A pergunta que não quer calar: esse é o sujeito contra o qual não se pode falar? Certeza? Imagine se pudesse! Outra: este é o presidente do país em que a liberdade de expressão e, por conseguinte, a própria democracia correm risco? Sério ?! O que fazer? Chamar os militares para garanti-las?
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