Para variar, Caetano Veloso causou polêmica. No caso, a polêmica originou-se de trecho da entrevista concedida a Sonia Racy, do Estadão. Questionado sobre Marina Silva, Caetano demonstrou sua pretensão em votar na ex-petista, argumentando, ipsis litteris: “Não posso deixar de votar nela. É por demais forte simbolicamente para eu não me abalar. Marina é Lula e é Obama ao mesmo tempo. Ela é meio preta, é uma cabocla, é inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro. Ela fala bem.”
Termos como analfabeto, cafona e grosseiro são, certamente, ofensivos. No mínimo, deselegantes. Ou, utilizando o vocabulário do próprio compositor, grosseiros. Contudo, vindos da boca de Caetano, escolado na arte da polêmica, e dependendo do contexto em que se deu, há que se matizar a crítica, ponderar as reações. Há que se interpretar o trecho na sua relação com o todo da entrevista. Assim, correndo o risco de parecer ingênuo e de contrariar meus amigos petistas, em especial os mais exaltados – e são muitos! – , entendi de uma forma, digamos, light as expressões utilizadas pelo compositor baiano, considerando em conjunto dois outros trechos da mesma entrevista.
O primeiro: Caetano afirma de modo positivo que Marina é, simbolicamente, ao mesmo tempo, Lula e Obama; logo, vê aspectos positivos em Lula. No caso, a analogia entre Marina e Lula deve consistir na origem simples e na ascensão social de ambos.
O segundo trecho a ser observado é o seguinte, em resposta a questionamento sobre tendências políticas na América Latina: “Tem uma recaída num negócio que é tradicional aqui, a figura do líder populista - uma linha demagógica liderada por Hugo Chávez. Mas o interessante é que Lula tem um papel bem diferente disso. Lula é um grande líder populista, mas é mais pragmático - mesmo com essa euforia em que entrou desde a posse até hoje. Ter tido Fernando Henrique e Lula em seguida é um luxo. Saíram melhor que a encomenda, ambos.”
Em resumo, considerando as menções positivas ao presidente, não dá para se depreender da entrevista em tela que Caetano teve a pretensão de escorraçar Lula ou algo que o valha, não obstante o uso dos termos analfabeto, cafona e grosseiro.
Sim, Caetano é contraditório. Sempre o foi; e nisto também está sua genialidade: fazer-se e refazer-se perpetuamente, mas, com isso, criar e recriar sua obra, suas músicas, seus pensamentos, sua imagem. Mais do que ofender, acredito que Caetano tenha tentado ressaltar a falta de uma fala mais sofisticada em Lula, corroborada pelas tantas citações simplistas, por vezes inapropriadas, além das metáforas futebolísticas proferidas em profusão por Lula. Discordo, no entanto, quando Caetano afirma que “Lula não sabe falar”, dando azo àqueles pedantes pseudo-intelectuais de botequim, cujo esporte favorito é reforçar a pecha de ignorante no presidente, postando-se, eles próprios, hipocritamente como “gente escolada”, posto que detentora de um canudo qualquer... às vezes, nem isso. Muito pelo contrário, Lula tem uma capacidade ímpar de comunicar-se com empresários, com acadêmicos, com parte da classe média, com líderes da comunidade internacional e, especialmente, com o povão. Lula trata corretamente assuntos complexos, dando, no mínimo, as linhas fundamentais de cada um. O que pode acontecer – e é o que acontece na maioria dos casos – é a discordância em relação ao que pensa e decide o presidente. Como diria o outro: aí são outros quinhentos. Quanto à capacidade de comunicação do presidente com o povo, aliás, parafraseando seu bordão, quiçá nunca tenha havido antes na história deste país um líder popular como Lula. Tome-se por comparação Serra e Dilma: quanto esforço para extrair um sorriso, um gesto simpático!
Gerada a celeuma, o próprio Caetano procurou se explicar. Disse, inclusive, que as pessoas reagiram à manchete tal qual foi armada, não considerando o conjunto da entrevista. O que não deve ter convencido muito sua mãe, dona Canô, de 102 anos, que reprovou a fala do filho, manifestando intenção de pedir desculpas ao presidente.
A mim, concluo disso tudo apenas o seguinte: ao se observar os rumos promissores tomados pelo Brasil nos últimos anos, talvez Caetano tenha mesmo razão quando diz ser um luxo termos FHC e Lula em sequência, não obstante o primeiro entender que corremos o risco de adentrarmos num tal de “autoritarismo popular”. Assim como é um luxo termos Caetano Veloso como um dos principais expoentes da música e da cultura brasileiras. E por que não: que luxo termos uma brasileira como dona Canô que, mesmo centenária, revela-se lúcida e capaz de opinar e repreender o filho famoso com a mesma força que lhe deixou como legado!
Nenhum comentário:
Postar um comentário