03/09/2010

Tia Chiquita

Apesar de certa crença, bastante popular, segundo a qual o sujeito já nasce torcendo para este ou para aquele time, sou mais afeito à tese de que o chamado time do coração se explica mais pela influência dos pais ou amigos próximos. Ou, ainda, pela repercussão de equipes brilhantes nos momentos em que o incipiente torcedor está passando pela fase de auto-afirmação individual e futebolística. Por exemplo: quantos e quantos torcedores flamenguistas foram forjados dentre os milhões de pequenos brasileiros que davam seus primeiros passos na vida e nos campinhos no exato período em que incrível rubro-negro de Zico, Adílio e Júnior realizava suas maiores façanhas, aqui e alhures.

Eu sou exemplo dessa tese. Corinthiano desde a mais tenra infância, segui o gosto do meu pai, além de ter crescido sob a égide dos feitos de Sócrates, Casagrande e companhia. Não obstante, meu pai, assim como seus irmãos (meus tios), não se encaixam lá tão bem à tese, muito embora também não comprovem sua invalidade. Meu avô, nascido em 1910 como o Corinthians, morador desde sempre no interior paulista, torcia para o São Paulo Futebol Clube. Teve o desgosto, portanto – na sua cabeça de tricolor, entenda-se bem –, de ver todos os quatro filhos ostentarem a bandeira do arquirrival. Não, os filhos não eram rebeldes, nem tomaram o futebol como um daqueles mecanismos comuns de diferenciação em relação aos ascendentes. O que explica a torcida dos “meninos” é a tia Chiquita, irmã de meu avô.

Imaginem a cena. Lá pelos idos dos anos 1940/50, a tia Chiquita era uma das únicas proprietárias de aparelho de rádio na localidade. O rádio, considerando a época e o lugar, era a mais poderosa porta de acesso às notícias da capital do estado, do país e do resto do mundo. Exagerando um pouco, penso que a tia Chiquita, para as pessoas que se aproximavam para escutar do seu radinho, tinha um poder de influência compatível ao do Datena hoje em dia: as notícias que vinham do seu aparelho eram passadas aos ouvintes ocasionais sob o filtro dos comentários da dona, realçados os feitos e minimizados os defeitos de quem caíra em suas graças.

Ademais, apesar de não me lembrar dela, falecida quando eu ainda era muito criança, consta que a tia Chiquita era do tipo apaixonada, não dava a sua versão dos fatos sob as amarras do princípio da isenção. Pelo contrário. Assim, Getúlio não era simplesmente o presidente do Brasil, mas o maravilhoso “pai do povo” brasileiro. E o melhor, o mais belo, o mais glorioso, o mais tudo de todos os times do planeta era, para a tia Chiquita, o Corinthians. Ainda por cima, aquele escrete formado por Gilmar, Cláudio, Luizinho e Baltazar jogava muito e conquistava títulos importantes.

Trocando em miúdos, por conta da influência da tia Chiquita e do seu poderoso radinho, meu pai e meus tios não se tornaram são-paulinos como meu avô, mas, sim, corinthianos. Ato contínuo, quase todos os seus filhos, eu incluso, seguimos a vocação mosqueteira.

Neste ano de 2010, além do Timão, também o meu avô completou 100 anos. Há poucos dias, contudo, quatro meses após comemorar um século de vida, meu avô faleceu. Tenho a crença de que foi muito bem recebido na espiritualidade pelos tantos entes queridos que cultivou por aqui. Dentre eles, certamente está a tia Chiquita, feliz por comemorar o centenário do Corinthians e por reencontrar seu irmão também centenário, nosso amado freguês.

2 comentários:

  1. Celso Borges10/12/2011, 16:11

    Parabéns por esta crônica maravolhosa e parabéns também pelo Penta do nosso Timão. No meu caso, acho que já nasci corinthiano, pois não me recordo de ter sido influenciado por ninguém e nem por meu pai que aliás, é palmeirense, coitado.

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  2. Obrigado, Celso. E saudações alvinegras pentacampeãs!

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