Não me considero imaturo, apesar de ser bastante autocrítico a respeito. Anteontem, contudo, me senti uma criança de colo. Também não me considero um materialista empedernido; prezo o lado espiritual do ser humano. Só que, anteontem, senti o quão incapaz sou de fugir das preocupações comezinhas do dia-a-dia em prol de uma visão mais ampla do que seja realmente essencial. Apesar disso, como me senti bem anteontem!
Tudo por causa da entrevista concedida por Reynaldo Gianecchini a Patrícia Poeta, no “Fantástico” (http://www.youtube.com/watch?v=JUdKifGVCvg). Esperava assistir a uma entrevista, mas assisti a uma aula. Uma aula sobre vida, dada por alguém que se deparou na carne com a questão da morte. O engraçado é que o Reynaldo, filho de professores, parece ter descoberto o cerne do ofício dos pais: adquirir sabedoria com as experiências e, ao mesmo tempo, capacidade de transmitir aos outros tudo o que aprendeu. Dito de outra maneira: aprender ao mesmo tempo em que se ensina. Ao final, pensei: que baita homenagem, quiçá inconsciente, ao “seu” Patão e à dona Heloísa.
Para quem está acostumado tão somente com a imagem do galã, da celebridade e do ator, certamente está admirado com a pessoa. Sempre admirei o Reynaldo por duas características: a inteligência e a maturidade. Certa vez, Marília Gabriela – na época, sua esposa – disse que Giane era um “jovem senhor”. Cá comigo, que estudei por alguns anos com um menino quieto, sempre compenetrado nas aulas, a quem os mais íntimos chamavam de Juninho, tenho a impressão de que o Reynaldo é velho desde que nasceu. Velho no bom sentido: experiente, sabedor das coisas, calejado para enfrentar os desafios que surgem, às vezes, sem qualquer aviso. Mas, sinceramente, passei a admirá-lo muito mais desde que foi noticiada sua doença. Anteontem foi o ápice.
Reynaldo, que sempre me pareceu consideravelmente incólume às vaidades naturais geradas pelos aplausos e histerias de fãs, assim como à cólera não menos natural em relação às críticas, algumas implacáveis, agora se mostra uma fortaleza diante do mais agudo sofrimento. Calma, não pretendo canonizá-lo: trata-se de um ser humano, demasiado humano. No entanto, como disse na entrevista, ao se referir aos últimos momentos do pai, descobriu que o ser humano carrega consigo uma substância divina, que evolui na medida em que desenvolve sua espiritualidade. Quem sabe, essa não seja a maior de todas as descobertas que um ser humano pode fazer de si próprio, de suas potencialidades.
Fiquei emocionado em vários momentos da entrevista. Por exemplo, quando se referiu ao quanto aprende com as crianças em tratamento contra o câncer. Talvez o próprio Reynaldo tenha pensado: “não posso me mostrar fraco diante dessas crianças” e, ao mesmo tempo, “como posso ser fraco se essas crianças se revelam tão fortes?”. Por um instante me veio a lembrança de quando meu primo Rafael Arjonas vinha a São Paulo para sessões de quimeoterapia e ficava hospedado em meu apartamento; nessa época, eu, que constantemente me lamentava do trabalho, da cidade, de tudo, senti uma vergonha estrondosa quando me deparei com aquele rapaz, todo sorridente e confiante. Senti-me péssimo ao notar o quão fraco eu estava sendo.
Reynaldo parece estar aprendendo – e transmitiu isso na linda entrevista – o mais profundo significado da vida. E o faz, creio, de duas formas. Primeira: ao lidar com a morte, compreende que o mais razoável é enaltecer a vida. A propósito, reflito às vezes: se a morte é inescapável (uma verdade absoluta, uma experiência que todos viverão, sem trocadilho, independentemente de idade ou de crenças e descrenças religiosas), para que perder tempo com lamúrias em vez de simplesmente viver da melhor maneira possível o tempo que temos? Tempo, inclusive, que desconhecemos, que pode ser mais ou menos breve (por mais que vivamos, sempre acharemos a vida breve), não importa o quão saudáveis estejamos. Isto vale tanto para quem concebe a morte como o fim, como para quem a vê como passagem para uma outra fase de vida. Claro, tudo isso é mera reflexão. Não é nada fácil colocar tais pensamentos em prática, transformar as convicções ideais em sentimentos íntimos consolidados. O Reynaldo, como dito, parece estar passando bem por esse aprendizado.
Também parece estar aprendendo sobre a vida ao lidar com o amor. Não é preciso muito esforço para notar o quão querido o Reynaldo é. As inúmeras palavras de apoio que recebe – escritas, faladas... gesticuladas –, as manifestações de carinho da família, dos amigos e dos fãs, as preces rogando sua cura, tudo isso é prova de amor. Mas o diferencial do Reynaldo, pelo que notei da entrevista, é que ele está sabendo receber e compartilhar esse amor; fazer desse sentimento uma substância que lhe auxilia não apenas no tratamento contra o câncer, mas como alimento para desenvolver sua espiritualidade, para viver plenamente como pessoa, como espírito. Isso é visível na descrição do momento da despedida do pai, pedindo e concedendo perdão, ou quando se compromete a cuidar da família, ou quando participa da festa dos que estão hospitalizados quando há alguma superação, ou, mesmo, quando se emociona ao observar tanto carinho direcionado a ele.
Enfim, que belíssima entrevista, Rey! Desejo a você, do fundo do coração, toda a força e toda a paz do mundo. Quer dizer, se é que você já não as tem.
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Em tempo: Concebo a existência individual como a representação de uma peça. Ou seja, ainda que acreditemos ser a pessoa que vemos no espelho, na verdade, representamos um personagem. Dessa forma, não sou o João, mas represento alguém que penso ser eu, cujo nome é João. Não sou, mas estou o João. Um dia, deixarei esse “papel” e farei outro. Assim como acredito já ter feito inúmeros outros papéis anteriormente. Eis a vida: o espírito é o ator, o verdadeiro ator, que, ao longo de uma vida infinita, representa muitos papéis. Com o passar do tempo, nos tornamos atores cada vez melhores.
Falando nisso, a mim parece que o Reynaldo está cada vez melhor na arte de atuar. Em todos os sentidos. Capaz de uma cena antológica como a da novela Esperança, em que, contracenando com Raul Cortez, pai e filho conversam, completamente bêbados. E capaz de, na “vida real”, enfrentar com serenidade impressionante um momento tão difícil.
João, devo ser sincera ao dizer que não sou dada a fazer comentários em blogs... não por nada... talvez por falta de tempo ou preguiça, sei lá! Leio o texto e só! Mas não me contive diante de tamanha maravilha que acabo de ler! Já te admirava de outrora, dos tempos de All's well, mas aqui você mostrou seu "eu" mais profundo (e perfeito!). Parabéns pelo texto e pela homenagem ao nosso amigo Rey. Grande abraço, Veridiana Mattiazzo Gutierrez.
ResponderExcluirNossa, que legal Veridiana! Obrigado. Adorei ter merecido uma exceção à sua regra de não comentar em blogs... rsrs. O Rey está gerando uma aura muito legal de carinho. É isso que dá ser tão querido. Beijo.
ResponderExcluirParabéns Tuninho!!!
ResponderExcluirExcelênte texto,realmente é de emocionar!!
Abraço......Tico.
Valeu, Tiquinho.
ResponderExcluirAbraço.
Joao , tambem nao sou de comentar mas fiquei emocionada com o texto . Admiro toda sua familia vou divulgar seu blog adorei !!! Bj Renata Ferreira
ResponderExcluirObrigado, Re. bjs.
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