13/01/2011

Chuvas, pequenez e grandeza

São desoladoras, apesar de recorrentes, as imagens de pessoas perdendo o patrimônio, a família, os amigos e a própria vida com as fortes chuvas que caem sobre o sudeste. No estado de São Paulo, além da capital, Atibaia e Franco da Rocha são as cidades que mais sofrem com a destruição. No Rio, é a região serrana, especialmente as cidades de Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo. Com as chuvas, volta, pela enésima vez, a pergunta: até quando?

Até quando a união de fenômeno natural – em muito previsível! –, ocupação desordenada e inação do poder público produzirão resultados trágicos? De catástrofe em catástrofe, dos deslizamentos registrados pelas TVs na década de 1980, passando pelo Morro do Bumba e pelo Jardim Pantanal em 2010, até chegar aos mais de 300 mortos registrados nesta semana – por enquanto! –, as chuvas de início de ano no sudeste continuam a produzir resultados trágicos, mas, infelizmente, banalizados. Detalhe: trata-se da região e dos estados mais ricos do Brasil!

No caso do Rio de Janeiro, interessante foi a indagação feita pelo senhor Moacyr Duarte, especialista em gerenciamento de riscos, feita em um programa de televisão: A vitória inesperada sobre o tráfico no Morro do Alemão se choca com mais uma derrota anunciada para as chuvas. Será que os fluminenses conseguirão partir para a virada também nesse front?

Alguns sentimentos surgem desses fatos. Desolação e tristeza por tanto sofrimento. Impotência diante da força da natureza e da inação dos homens e governos. Descrença ante à recorrência das tragédias e a falta de atitudes fortes, definitivas.

A cena da senhora sendo resgatada na cidade de São José do Vale do Rio Preto (RJ) é chocante, além de paradigmática (ver vídeo em http://g1.globo.com/videos/bom-dia-brasil/v/imagens-mostram-resgate-dramatico-em-sao-jose-do-vale-do-rio-preto-rj/1409724/). Ela resiste sobre os escombros da sua casa, rodeada por cachorros, em meio à rua tornada rio pelo impressionante volume de água acumulada. Na undécima hora, agarrou-se com uma mão na corda que lhe fora jogada de um edifício em frente e, com a outra mão, tentou carregar um dos cães. A pressão da correnteza foi tão grande que a mulher se viu obrigada a sacrificar o animal para que segurasse a corda com as duas mãos. Aos poucos, com muito sacrifício, foi içada até a sacada do edifício e definitivamente salva.

A cena é extraordinária por revelar muito da pequenez e da grandeza da nossa condição humana. A pequenez diante da natureza e a grandeza da coragem em lutar pela vida. A pequenez dos governantes que se eximem de tomarem medidas rígidas e necessárias e a grandeza dos que se arriscam para resgatar um semelhante. A pequenez da indiferença em relação à exigências que a natureza faz para que seja explorada e a grandeza de pensamento dos que rezaram, gritaram e torceram pelo sucesso do salvamento.

Como a senhora do resgate, outros brasileiros resistem, buscam desesperadamente pela própria sobrevivência. Com a ajuda de outros, da sorte, de Deus, quem sabe, às vezes conseguem. Lamentam as perdas, agradecem o socorro e buscam reconstruir a vida. Só que no próximo ano, em uma cena muito parecida, podem se juntar à contabilidade de vítimas fatais caso não consigam, uma vez mais, segurar firme na corda.

12/01/2011

Geraldinho


Geraldinho Nogueira, mais conhecido simplesmente como Geraldinho, foi um excepcional contador de causos. Fazia esplendidamente o tipo caipira. Foi descoberto artisticamente por Hamilton Carneiro e José Batista, no ano de 1984. Faleceu em 1993.

No vídeo abaixo, Geraldinho conta o "causo da bicicleta" no programa Som Brasil, da Rede Globo, na época apresentado por Lima Duarte. Vale a pena conferir.


20/12/2010

Escondendo Marina

A Folha de S.Paulo publicou matéria sobre o evento realizado no Palácio do Planalto para registro em cartório de documento com um balanço dos 8 anos de governo Lula. Ministros e ex-ministros estiveram presentes. Na cobertura dos principais jornais, muito destaque para a participação de José Dirceu, quase nenhum para a de Marina Silva. Quanta imparcialidade!

A propósito, muito boa a carta de Nabil Bonduki, abaixo, publicada no Painel do Leitor da Folha de S.Paulo de ontem.

Marina e Dirceu

Por que a Folha deu muito mais destaque para José Dirceu do que para Marina Silva na matéria (Poder, 16/12) sobre o encontro de ex-ministros com Lula? A presença de Marina foi indiscutivelmente o fato político mais importante do evento; seu abraço no presidente é de longe mais significativo que o de Dirceu em Pallocci, foto principal da matéria.

Sem nenhum destaque, Marina aparece no final de pequena matéria dedicada aos participantes do famoso caso da bolinha de papel, que nada tem a ver com ela. Na única foto em que (não) aparece, está de costas, irreconhecível, fazendo anotações pessoais. É visível a preocupação em obscurecer sua presença, que talvez ganhasse destaque se falasse algo que a indispusesse com Lula.

Péssimo jornalismo, que esconde dos 20 milhões de eleitores de Marina sua dignidade e respeito ao governo de que participou.

Nabil Bonduki, São Paulo

14/12/2010

Da favela à Esplanada

A matéria abaixo, publicada na Folha de S.Paulo do último domingo, 11/12/2010, retrata um pouco da vida de Marivaldo de Castro Pereira, atual secretário nacional da Reforma do Judiciário. O Valdo, como é mais conhecido, esteve em Birigui, minha terra natal, algumas vezes por conta da assessoria que prestava ao deputado - e futuro Ministro da Justiça - José Eduardo Cardozo. Valdo é um grande exemplo de capacidade, como pessoa e como profissional. O texto é do jornalista Uirá Machado.
João.

***

Com sua trajetória, o atual secretário nacional da Reforma do Judiciário nos dá uma verdadeira lição de vida. Acompanhem o depoimento de Marivaldo de Castro Pereira à Folha:


Marivaldo de Castro Pereira, 31



(…) Depoimento a Uirá Machado

Às vezes, voltando da escola com os colegas, eu encontrava meu pai caído no caminho de casa, bêbado. Isso dava muita vergonha.

Meu pai tinha problema com álcool, batia na minha mãe. Ele torrava tudo com bebida e não deixava minha mãe trabalhar. Às vezes a gente tinha que pegar resto de comida no fim da feira.

Tudo isso aconteceu já em São Paulo, mas eu nasci em Brasília. Meus pais são de uma cidade chamada Correntina, no interior da Bahia.

Eles vieram para Brasília em 1977 em busca de emprego, e eu nasci dois anos depois. Meu pai começou a trabalhar como pedreiro. Quando tiveram o quarto filho, a vida ficou difícil, então eles decidiram tentar São Paulo. Eu tinha quatro anos.

Meu pai conseguiu um barraco num terreno em Pirituba [periferia de São Paulo]. Era um barraco mesmo, de madeira, precário. Eu só fui morar numa casa de alvenaria depois que meus pais se separaram e me mudei com a minha mãe para o Jaraguá [também na periferia de SP].

Eu tinha oito anos. Minha mãe começou a trabalhar de diarista para sustentar os quatro filhos. Ela sempre foi trabalhadora e colocava a gente em primeiro lugar.

Comecei a trabalhar com nove anos, na feira. Foi um período bacana, porque eu tinha autonomia para comprar alguma coisinha.

Eu trabalhava e estudava. Minha mãe nunca admitiu que a gente não estudasse. Todos os meus irmãos conseguiram concluir o ensino superior. Minha mãe é bem orgulhosa — ela só completou ensino básico e médio quando eu já estava na faculdade.

Como eu estudava em escola pública, não tinha perspectiva de entrar em uma universidade. Tinha professor que dizia: “Vai tentar a USP? Esquece, compra um jeans que é mais vantajoso”.

Antes da faculdade, trabalhei numa fábrica de acendedor de fogão, depois como ajudante de pedreiro, como contínuo em uma farmácia, como “boy” interno numa concessionária de veículos.

Foi na concessionária que ouvi falar do Cursinho da Poli [pré-vestibular voltado para alunos carentes]. Trabalhava das 8h à 18h e depois ia para o cursinho. No segundo semestre de 1997, comecei a trabalhar das 6h às 15h. Chegava mais cedo na aula e cochilava um pouco.

Quando veio o vestibular, tomei uma porrada. Não passei, fiquei muito mal. O que me ajudou foi o rap, sobretudo os Racionais MC’s. A música que mais me marcou foi “Negro limitado”.

Para levantar a cabeça, ouvi rap e prometi não dormir mais antes da aula. Eu acordava às 5h30, trabalhava das 6h às 15h, estudava e chegava em casa depois da meia-noite. Foi assim o ano inteiro, mas valeu a pena.

Entrar na USP mudou minha vida. Ninguém imagina o que é entrar na universidade pública quando você vem da periferia. É um outro mundo, muitas portas se abrem.

A escolha pelo direito eu fiz no cursinho. Estava em dúvida, porque gostava muito de engenharia mecânica, mas a militância política direcionou minha opção. Busquei o direito porque achava que poderia ajudar a transformar a sociedade.

Na faculdade, eu me sentia um estranho no ninho, eu tinha preconceito e também sofria preconceito, mas aos poucos fui me enturmando.

A minha turma quis se dar um nome. A gente formou o “100% Favela”, com camiseta e tudo. Não eram todos da favela, só alguns, mas aquilo era legal, era uma provocação para a galera mais esnobe da faculdade. Minha ideia era politizar todo mundo.

Na vida acadêmica, me envolvi com política estudantil e trabalhei assessorando movimento de moradia. Trabalhei com José Eduardo Cardozo, que era vereador [pelo PT] naquela época [agora escolhido para ser ministro da Justiça no governo Dilma].

Ao sair da faculdade, tentei advogar, mas foi um desastre. Eu só advogava para gente pobre e acabava pagando para trabalhar.

Em 2005, voltei para Brasília, onde tudo começou. Quem me chamou foi o Pierpaolo [Bottini], quando virou secretário da Reforma do Judiciário. A gente se conheceu na faculdade, atuando no movimento de moradia.

Assumi o Departamento de Política Judiciária, depois a sub-chefia para Assuntos Jurídicos da Casa Civil e, agora, a Secretaria Nacional da Reforma o Judiciário.

O grande objetivo é aproveitar a experiência que eu tive na Casa Civil e aproximar a política de acesso à Justiça das demais políticas sociais.

A minha história me permite entender o sofrimento das pessoas com pouco dinheiro e compreender que toda política pública precisa levar os mais pobres em consideração. A vida de quem está na pobreza é muito difícil. Quem nasceu com dinheiro nem imagina quanto é difícil.

08/12/2010

Dia 8 de dezembro, dia da música


No dia 8 de dezembro de 1980, portanto, há exatos 30 anos, John Lennon foi assassinado em frente ao edifício Dakota, em Nova York.



Também no dia 8 de dezembro, mas do ano de 1994, também em Nova York, morreu Tom Jobim, um dos maiores músicos brasileiros e de todo o mundo.

É impossível não relacionar o dia 8 de dezembro à música. Muito embora, considerando as perdas de Lennon e Tom, talvez faça mais sentido relacionar a data ao silêncio.

Strawberry Fields, área do Central Park que homenageia Lennon
Edifício Dakota

03/12/2010

Woody Allen e Paul McCartney no YouTube

Depois de pelejar um pouco, aprendi a colocar vídeos no YouTube. Coloquei dois vídeos feitos pela Aline. Um, do show do Paul McCartney, no Morumbi. Outro, do Café Carlyle, em Nova York, quando assistimos à apresentação de Woody Allen e a banda de jazz de Eddy Davis.

De agora em diante, será um vídeo atrás do outro.

Vale a pena conferir: www.youtube.com/JFQuirino

25/11/2010

Terra da música linda

A chegada foi complicada, a fila era quilométrica, encontrar um táxi para voltar, uma tarefa hercúlea. Do instante em que saí rumo ao estádio até o momento em que cheguei em casa foram-se quase 12 horas! Para piorar, o dia seguinte era dia de trabalho. Minha única vantagem é que no domingo, quando assisti ao show, não choveu, diferentemente da segunda. Todas as dificuldades, porém, não tiraram em nada a beleza e a emoção proporcionadas por essa lenda chamada Paul McCartney. Quando cheguei em casa, às 2 da matina, o sorriso ia de orelha a orelha, e ainda tive disposição para escutar um cd dos Beatles e ver as fotos tiradas durante a apresentação.

Mesmo sabedor de sua condição de mito, “Sir” Paul esbanja simpatia e simplicidade. Aliás, é um gigante da música também por isso. Ao chegar ao Morumbi, ainda à tarde, Paul revelou-se da janela do carro que o levava e acenou às milhares de pessoas que formavam a imensa fila. Durante o espetáculo, a postura não foi diferente. Paul cativava o público, esboçava frases em português, muitas vezes lidas em textos colados no chão. “Tudo ótimo?”, perguntou, num carregado sotaque britânico. “Tudo!”, foi o grito sincero ecoado da multidão de fãs.

Quando Paul cantou All My Loving, a impressão foi de ter ocorrido um terremoto. Tive a sensação de que testemunhava um acontecimento inexplicável, histórico, lendário, mágico, antológico, sei lá. Como se Beethoven, em pessoa, executasse a Nona Sinfonia ou Elvis Presley, ressuscitado – se é que morreu –, cantasse Love Me Tender. Creio que a maioria das pessoas ali presentes, eu inclusive, aprenderam a conceber os Beatles como uma banda mítica, além da realidade, própria do mundo dos deuses. No entanto, ali estava, em carne, osso e voz, um daqueles garotos de Liverpool. E os 68 anos do ídolo não lhe tirou o status (perpétuo?) de garoto. A presença de McCartney produziu em nossas retinas e mentes uma viagem a um passado real ou idealizado (para quem não o viveu de fato): de repente, estávamos todos nos revolucionários anos 60.

A aura mágica do show persistiu durante todo o tempo. Quando Paul foi ao piano de cauda e cantou The Long And Winding Road e, mais adiante, Let It Be. Quando, em um outro piano, ao estilo psicodélico de Magical Mistery Tour, tocou e cantou Hey Jude. Quando assumiu a postura de roqueiro e executou, auxiliado pela ótima banda, Day Tripper, Get Back, Helter Skelter. Quando partiu para as baladas ao violão: And I Love Her, Blackbird, Yesterday. Quando “explodiu” o palco com Live And Let Die. Quando homenageou sua gatinha Linda (My Love), seu amigo John (Let Me Roll It e Give Peace a Chance) e seu amigo George (Something).


Em determinado momento, Paul se referiu à satisfação de retornar ao Brasil, emendando: “Brasil, terra da música linda”. A frase não era demagógica. É sabido que McCartney aprecia a música brasileira. Tanto que foi conferir apresentação de “nosso” Ivan Lins em Nova York, em 2001, quando do lançamento do disco “Jobiniando”. Tanto que, na apresentação da segunda-feira, brincou com a platéia por conta da chuva, emendando um “chove, chuva”, conhecida música de Jorge Benjor. E, se o ex-beatle aprecia a música brasileira, não é menos verdade que nossa música sofreu influência do grupo. Gilberto Gil, por exemplo, confessou que os tropicalistas miravam-se diretamente nos Beatles e o rock da Jovem Guarda também sofria influência direta da banda inglesa. Ou seja, influência que atingiu, ninguém mais, ninguém menos, que Caetano, Gil, Gal, Betânia, Mutantes, Erasmo, Roberto Carlos.

Aliás, há que se contar nos dedos quem, no Brasil ou fora dele, faz música boa e não sofreu influência dos Beatles. No caso específico da passagem do rock ao pop, a banda foi uma das principais, senão a principal ponte. Impulsionaram o estilo nascido nos anos 1950, com Elvis, desenvolvendo-o ao longo da carreira, nos anos 60. Com o psicodelismo, com a influência de sons indianos, com experimentalismos que levaram a um esboço do que viria a ser a música tecno (ex: o trecho final de A Day in The Life) ou do heavy metal (ex: Helter Skelter é som da pesada).

 
 
Só que a riqueza dos Beatles não se limita à música. Assim como expressam como ninguém as inovações musicais dos anos 60, também sintetizam de forma ímpar a revolução cultural e comportamental dessa época. O “princípio” do sexo, drogas e rock’n roll está intimamente ligado à imagem da banda: liberdade sexual e de comportamento, crítica às posturas tradicionais, valorização dos jovens em sua busca por uma identidade própria, crítica aos dogmas religiosos, crítica à cultura de guerra, busca por espiritualidade, etc., tudo isso, de uma forma ou de outra, aparece na extensa obra beatleniana. A propósito, vai além do grupo: com as mensagens de paz, amor e liberdade de John e Paul, ou mesmo na militância deste, às vezes ridicularizada, em defesa do vegetarianismo e pela proteção aos animais.

Em suma, se há uma revolução musical nos Beatles, também há bandeiras por uma revolução cultural e comportamental. Isso explica porque os “beatlemaníacos” renovam-se a cada geração. Porque no show antológico do Morumbi havia 64 mil pessoas, de 14 a 80 anos, cantando, absolutamente comovidas, encantadas.

McCartney está certo: o Brasil é a terra da música linda. De uma outra forma, muito especial, também o foi nesse dia inesquecível em que tive o privilégio de vê-lo cantar.

Sim, Sir Paul: está tudo ótimo!

11/11/2010

Pitacos

José e Pilar

Assisti ontem ao filme "José e Pilar", documentário que retrata a vida cotidiana do escritor português José Saramago e sua esposa Pilar Del Rio. Sou suspeito, já que me considero um "saramaguista", fã da pessoa e da obra de Saramago, mas posso dizer: o filme é imperdível! A discussão dos dois em defesa de Hillary Clinton (Pilar) e de Obama (Saramago) é simplesmente antológica.

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Tropa de Elite 2

Outro filmaço - com muito mais ibope, diga-se de passagem - é "Tropa de Elite 2". Na minha singela opinião, é muito melhor que o primeiro e, quiçá, o melhor filme brasileiro desde "Cidade de Deus". O Capitão Nascimento passa por uma crise de visão de mundo por perceber que seu maior inimigo, "O Sistema", é bem maior e mais complexo do que imaginava. Muito embora o diretor José Padilha e o ator Wagner Moura reprovem a interpretação, o fato é que o Capitão Nascimento assemelha-se sim a Rambo no "Tropa 1", o que não acontece no filme continuação.

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Casamento Gay
Engraçada a ideia lançada nas eleições por José Serra e Marina Silva acerca do casamento gay. Ambos defendem a união de direitos entre os homossexuais, mas também que casamento é um conceito religioso, alheio à esfera política. Como o termo "casamento" consta de parágrafos do artigo 226 da Constituição Federal, pergunto: a nossa Carta Magna é uma regulamentação normativa da Bíblia ou o fundamento jurídico-legal do nosso Estado, pretensamente laico?

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Imprensa: nem golpista, nem vítima
Quem assiste aos noticiários acaba convencido de que a imprensa - a mídia, para usar o termo corrente - está à mercê da censura no Brasil. Quem vê, pensa. Mas não dizem que concessão pública - toda e qualquer, menos os meios de comunicação - é passível de controle público, além de não abordarem as diferenças entre liberdade de opinião e liberdade de imprensa, tratando as duas como se fossem a mesma coisa. Que o diga a psicóloga Maria Rita Kehl que, ao defender sua opinião, perdeu a coluna que tinha no Estadão; ou seja, a liberdade de opinião da psicóloga chocou-se com a liberdade do jornal em propagar um pensamento único. Justamente o jornal que sofre, de fato, uma censura judicial relativa à proibição de noticiar fatos sobre Fernando Sarney. O que penso: a imprensa não é golpista, mas enviesada; por outro lado, de coitada tem muito pouco. 

14/10/2010

Feliz dia das crianças


Uma das imagens mais comoventes, dentre tantas, do resgate dos 33 mineiros chilenos que ficaram soterrados a 700 metros de profundidade, durante 68 dias, foi registrada no momento em que o filho de Florencio Avalos, o primeiro a sair, começou a chorar ao perceber que o pai estava a salvo. Um momento de emoção e alegria que não se restringiu aos chilenos, espalhando-se mundo afora, quando milhões (ou seriam bilhões?) de pessoas angustiadas presenciaram o sucesso da operação, com os olhos marejados, mas profundamente contentes. Em frente à TV, quantos não se regozijaram ao assistir um homem saindo de uma cápsula esquisita chamada Fênix e ser abraçado pelo filho?!


Apesar da dramaticidade extrema da situação, foi um momento raro de solidariedade humana em escala planetária, em que todos fomos um pouco chilenos, um pouco socorristas, um pouco familiares aflitos, guardiões da mais intensa esperança.


O dia do resgate foi 13 de outubro. Mesmo com um dia de atraso, quero desejar feliz dia das crianças àquele garoto, bem como às demais crianças que brincavam com homens vestidos de palhaços, à espera do reencontro com pais, avôs e tios.

09/10/2010

Desabafo

Quem quer ser presidente para defender “valores cristãos” não pode criticar o presidente de outro país que diz defender “valores muçulmanos”. Defender a democracia pressupõe a defesa do Estado laico. Liberdade religiosa pressupõe a convivência de todas as religiões e de quem nelas não crê. Senão, o que há é uma ditadura religiosa que impõe a sua moral particular, ainda que majoritária, a quem dela não compartilha. Pelo amor de Deus, deixem Deus fora das eleições! Abaixo a constituição de uma república fundamentalista cristã! Fazer das eleições um falso plebiscito sobre o aborto é imbecilizar o debate, indigno de quem se acha tão esclarecido em meio a pobres ignorantes. Sou democrata: respeito o pluralismo e a convivência de todos os credos. Sou cristão: sigo o princípio de dar a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.

07/10/2010

Enquetes

Vote nas enquetes abaixo:

2º Turno: Se a eleição fosse hoje, em quem você votaria para Presidente, Dilma ou Serra?
Para votar, acesse: http://www.politiqas.blogspot.com/

Quem será o campeão brasileiro de 2010?
Para votar, acesse: http://www.ludopedicas.blogspot.com/

01/10/2010

A ligação de Serra, a mídia e a democracia

Notícia na Primeira Página da Folha de ontem: “Após ligação de Serra, Mendes para julgamento de ação movida pelo PT”.

Pergunto aos tucanos: e agora, não há ameaça à democracia? Ou isso só existe quando o ato é praticado por Lula?

E pergunto aos petistas: e agora, não há golpismo da mídia? Ou isso só existe quando a notícia é contra Dilma?

* Texto publicado no Painel do Leitor da Folha de S.Paulo, hoje, 01/10/10.

30/09/2010

Formas diversas de defender a democracia e a liberdade de expressão

O presidente da OAB/SP Luiz Flávio Borges D’Urso, em nome da democracia e da liberdade de expressão, participou de dois “fronts” recentemente. Esteve no ato que lançou o “Manifesto em Defesa da Democracia”, que aponta o presidente Lula e seu governo como ameaças às instituições democráticas, e entrou com ação para proibir a exibição da série “Inimigos”, do artista Gil Valente, na Bienal de São Paulo, sob a alegação de que a obra faz uma apologia ao terrorismo. Juro por tudo o que é mais sagrado que também me são caríssimas a democracia e a liberdade de expressão, não obstante, tenho posição absolutamente distinta da do senhor D’Urso em ambas as “causas”. Sobre o ato, acho um exagero, uma tempestade em copo d’água, não conseguindo enxergar nem de longe que a democracia e a liberdade de expressão estejam em risco no Brasil. Pelo contrário, a ascensão social de camadas mais baixas observada nos anos Lula contribui sobremaneira para a democracia; pelo menos, para quem vê esse regime sob a ótica social, não apenas formal. Quanto à proibição (censura?) das obras artísticas, há que se atentar aos argumentos do presidente da OAB/SP, a seguir.

Em artigo publicado na Folha de S.Paulo, de 25/09/2010, intitulado “A lei veda a liberdade absoluta”, D’Urso defende que a liberdade inerente à democracia não pressupõe ausência de limites ao comportamento dos indivíduos. O argumento segue o senso popular segundo o qual o direito de um vai até onde acaba o do outro. Assim, tratando-se de obras artísticas, a liberdade de criação, desde que restrita à esfera exclusivamente privada, não pode ser cerceada; porém, quando tornadas públicas, colocadas ao alcance das pessoas, não podem atentar contra o outro (contra sua honra, sua moral, sua integridade, etc.). Da mesma forma, exemplifica o presidente da OAB/SP, que não é possível permitir a exibição de filmes pornográficos em rede aberta de televisão, assistida inclusive por crianças, sob a aura da liberdade de expressão ou da arte. Ninguém, inclusive os mais poderosos, nem nada, inclusive a arte, pode estar acima dos ditames da lei.


Gil Vicente

Muito bem, até aí concordamos em gênero, número e grau. Discordo, entretanto, do entendimento específico sobre a obra de Gil Vicente. Afirma D’Urso: “(...) entendo que a série “Inimigos” não deveria integrar essa mostra [Bienal de São Paulo]. Isso por fazer apologia ao crime, atacar a dignidade dos representados e atentar contra as instituições democráticas, representada pelo Presidente da República, entre outras figuras públicas internacionais, como o papa Bento 16”. Não vejo apologia ao crime, nem ataque à dignidade dos representados, muito menos contra as instituições democráticas. Aliás, quanto a esta última, parece-me mais um sintoma da síndrome de exageros que vitimou alguns dos nossos doutos juristas, somando-se ao enquadramento do presidente Lula como fascista, imputado por José Carlos Dias e Miguel Reale Júnior.

No tocante à apologia ao crime, bem, proibamos todos os filmes de Sylvester Stallone, Jean Claude Van Damme e congêneres, quase todos os funks cariocas, os videogames, etc. Essa discussão já não havia sido superada? É o velho pensamento de que o público não sabe distinguir representação artística de realidade e precisa, coitado, da tutela do Estado para que não faça nenhuma bobagem. Data máxima vênia, enxergar apologia ao crime pelo simples fato de que as ilustrações mostram o próprio autor assassinando personalidades conhecidas, além de cercear uma forma legítima de expressão do artista, também pressupõe uma inteligência assaz diminuta do público e de sua capacidade de exercício da cidadania. A propósito, alguém imagina uma pessoa induzida a matar Lula ou FHC, influenciada pelas ilustrações de Gil Vicente? Ou, pior, que esta seja a pretensão do artista com sua obra?

Sobre a dignidade dos representados, muito embora não pense que a personalidade pública – ou, para usar um jargão atual, a celebridade – é sempre pública, 24 horas por dia, não acredito que a obra se refira aos indivíduos, mas à sua representação pública. Daí, não se referindo à pessoa da celebridade retratada, mas à sua representação pública, que afeta a todos, passa a ser legítima a crítica que a obra busca atingir. Sim, Lula, FHC e o papa Bento 16 merecem respeito. Contudo, o que Gil Vicente faz é trabalhar com as figuras, as imagens públicas dessas pessoas, não atingindo seus indivíduos propriamente.

Quando vi algumas dessas ilustrações, lembrei-me de Andy Warhol, sua genial Pop Art, com a qual tomava os rostos de celebridades como Pelé, Marilyn Monroe e Mao Tsé-Tung, misturava-os às imagens de Mickey Mouse e/ou de uma garrafa de Coca-Cola, demonstrando que tais imagens constituem ícones, onipresentes na retina e no imaginário da nossa sociedade contemporânea: sociedade do espetáculo, sociedade de massas, sociedade das mercadorias e da publicidade, sociedade das imagens. Ou seja, o rosto de uma celebridade extrapola seu próprio indivíduo e passa a ser reconhecido e reproduzido em todos os cantos. Passa a fazer parte do mundo real e imaginário de todos. Veja o exemplo da famosa foto que Alberto Korda fez de Che Guevara, hoje vista até em bandeiras de torcidas de futebol.

Aliado a isso está o sentimento de explosão frente à ordem constituída, também representada nos líderes políticos retratados por Gil Vicente. Se D’Urso aponta a necessidade de preservação das instituições democráticas, a crítica a elas é direito legítimo a constar da própria democracia. Eis a crítica do artista, como que a dizer – igual, aliás, ao que pensa o cidadão comum, em um dos muitos momentos de frustração com as instituições e pessoas que as dirigem – “quero que morra esse Bush, essa rainha Elizabeth, esse Ariel Sharon!”. Na verdade, nem Vicente, nem ninguém, se propõe a matar alguém fisicamente, mas sua representação pública, sua imagem, a estrutura política e institucional em que se sustentam. Negar o direito a esse protesto é negar o mínimo de vazão das decepções constantes que têm a quase totalidade dos cidadãos, além de afirmar algo falso: que para ser democrático é preciso aceitar as coisas como estão, sem que possam ser transformadas ou mesmo subvertidas.

Eis a minha discordância em relação ao presidente da OAB/SP. Mas, em nome da democracia e da liberdade de expressão que, cada um da sua forma, procura defender, faça-se a discussão. Por ora, enquanto não há decisão judicial proibitiva, tomo a liberdade de exibir algumas das imagens da série “Inimigos”.








Em tempo: em 2008 foi exibido nos cinemas de São Paulo e do Rio o filme “A morte de George W.Bush”, do inglês Gabriel Range. O filme tratava justamente disso: do assassinato (fictício) do ex-presidente americano, personalidade também retratado por Gil Vicente. Não me lembro de nenhuma ação intentando proibir a exibição da película.

* Também postado em www.qultural.blogspot.com

29/09/2010

Para não dizer que não falei do pleito


A poucos dias das eleições, faço algumas observações sobre esta campanha eleitoral, no meu modesto entendimento, a mais pobre em conteúdo desde o retorno das eleições diretas em 1989. Triste contradição: quanto mais ricas as campanhas ficam em dinheiro, mais pobres se mostram em ideias e debate de programas e estratégias. O “marquetismo” – desculpe o palavrão, na falta de conceito melhor – tomou conta da política propriamente dita, buscando o seduzir o eleitor na mensagem rápida, sem muita reflexão, a partir das emoções mais profundas aliadas às impressões mais superficiais e generalizantes. Dessa forma, o confronto de ideias em torno de programas para educação, cultura, saúde, segurança, etc., cede ao diz-que-diz sobre quem fez mais ou menos, quem é o “pai” do plano de nome conhecido, quem é mais “sensível” aos problemas do povo. Os dados concretos são trocados pelas impressões imediatas, a visão estratégica para o país é relevada em prol do sorriso do candidato, da vestimenta da candidata, da competência em passar ao eleitor que são “confiáveis”.

Nessa troca do debate pela superficialidade marqueteira, não dá para aliviar a responsabilidade dos próprios políticos. Foi simplesmente lamentável ver Lula e Dilma posando de “pai” e “mãe” dos brasileiros, ao som de um jinglezinho que dizia “deixo em suas mãos o meu povo”. Como assim, viramos objeto? Deixamos de ser cidadãos, se é que o éramos? Eu quero a minha mãe, a de verdade! Simplesmente ridículo, ainda por cima tratando-se de um partido que ajudou sobremaneira na participação política de camadas antes totalmente marginalizadas. A propósito, quanto às críticas de afronta à democracia sofridas pelo PT, é bom que se lembre que democracia não constitui apenas respeito a regras e instituições formais, mas também em participação efetiva de todos os estratos da sociedade, não apenas de suas classes média e alta. Neste sentido, o PT tem muito mais a dizer do que seus opositores. Não obstante, posar de “pai” e “mãe” do povo nega a condição de cidadania, infantiliza a população, afunda a noção de republicanismo e desconstrói a história de politização que marcou o próprio PT. Lamentável.

Assim como foi lamentável o zigue-zague de Serra, um homem público com histórico de respeito, ora como Zé, ora o amigão da dona Maria e do seu Antonio, coitadinhos, ora como um candidato que “pode mais”, ora como raivosa reencarnação de Lacerda, vociferando contra o PT, Dilma, Zé Dirceu, Míriam Leitão, Banco Central independente, CBN, Evo Morales, FARC, Ahmadinejad e o que mais viesse pela frente. Contra Lula, bem, aí só pela tangente, às vezes até fazendo um elogio velado, à mercê do escudo de popularidade do presidente. Quanto a FHC, não se fala nem bem, nem mal. Aliás, o PSDB parece perguntar: quem é FHC mesmo?

Também não se pode dizer que foram edificantes as participações da imprensa e dos chamados intelectuais nesta campanha. Acerca destes, os poucos que mantêm uma postura de distanciamento, pouco contribuíram na produção de um debate que já nasceu moribundo; os tantos outros, os engajados, contribuíram bastante para tornar esse mesmo “debate” um festival de asneiras, repleto de expressões fortes, à guisa de xingamentos, mas nada esclarecedoras quanto à “realidade efetiva das coisas”, nos termos de Maquiavel. Mexicanização, peronização, priização, golpismo midiático, fascismo foram algumas das expressões fortes, porém tão abestadas quanto o Tiririca no intuito de dar azo de seriedade à campanha eleitoral.

Já a imprensa, muito embora nosso “pai” tenha falado um pouco além da conta – aliás, mantendo uma tradição de 8 anos –, colocou-se numa posição exagerada de vítima, como se sua liberdade (palavra surrada pelo uso excessivo) estivesse verdadeiramente em risco. Assim, num surto narcisista e como se o Brasil de Lula estivesse a copiar a Venezuela de Chavez ou mesmo a Argentina dos Kirchner, passou a falar mais de si do que das propostas e perspectivas para o país nos próximos quatro anos. Fulano ou sicrano, instituição X ou Y “defendeu a liberdade de imprensa” passou a ser presença cativa nas manchetes principais. Sim, o assunto é relevante – liberdade de imprensa, liberdade de expressão, liberdade de opinião, que, destaque-se, não são a mesma coisa – e compromete a democracia. No entanto, cá entre nós, alguém está realmente preocupado a instalação de alguma ditadura?

Confesso que, apesar do gosto que tenho pela política, não consegui me ater muito a esta campanha. Quem sabe, até mesmo por isso: a política, propriamente, esteve ausente dela.

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Trocando debate por denuncismo e as conversas para boi dormir

Nesta campanha, o debate foi, uma vez mais, trocado pelo denuncismo. Vale dizer, os casos da quebra de sigilo na Receita Federal e, principalmente, do tráfico de influência na Casa Civil, merecem destaque, sim. Óbvio! Porém, trocar toda a discussão sobre o governo nos próximos quatro anos pelo tom moralista quase exclusivo não deixa de ser uma perda grave para a democracia. Apesar do mote corrente segundo o qual “é tudo a mesma coisa”, há diferenças importantes entre as principais candidaturas e, por conseguinte, diferenças importantes sobre os rumos do país a depender de qual candidato saia vencedor das urnas. No caso de haver segundo turno a reboque das denúncias da Casa Civil – repito: não nego a importância do fato –, somado à experiência de 2006, em que Geraldo Alckmin foi alçado ao segundo turno em boa medida alçado pelo caso dos “aloprados”, a mensagem será clara: os escândalos e sua exploração em denúncia constante trazem resultado eleitoral. Ainda que não necessariamente leve à vitória final do denunciante.

Outro fator a provocar perda de conteúdo nas discussões sobre os destinos do Brasil é a exploração de factóides. E que seja debitada a culpa aos partidos em disputa e à imprensa, que bem poderia dar o devido peso às coisas. Dois factóides, ou, se preferir, conversas para boi dormir, são o “golpismo midiático” saído da boca revoltosa dos petistas e a “ameaça à democracia” denunciada aos brados por demo-tucanos. Não é inventando problemas que o Brasil não tem, ou, no mínimo, elevando-os à última potência, que partidos, imprensa, intelectuais e os componentes vários da chamada “opinião pública” (essa entidade etérea) trarão os melhores benefícios ao país. Mas, sim, discutindo as questões que realmente têm importância na problemática democracia brasileira. Problemática, porém real.

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O Legislativo além dos abestados

Antes das eleições, alguns parlamentares, digamos, melhor conceituados no quesito fluido “qualificação” desistiram da disputa nas urnas. O argumento: estavam fartos da sina de trabalharem duro no Congresso e serem pegos na taxação generalizante de que “político é tudo igual e é tudo corrupto”. Entre eles, José Eduardo Cardozo (PT-SP) e Ibsen Pinheiro (PMDB-RS). Confesso que fiquei órfão de candidato com a desistência de Cardozo, em quem votei nas duas últimas eleições.

Somada à ausência dos “qualificados” veio a enxurrada de “abestados”, celebridades e afins, tomando conta da campanha para a Câmara dos Deputados. Tiririca é o principal expoente desse “grupo”, devendo ser eleito o deputado mais votado do Brasil.

Infelizmente, centralizadas as análises nessa discussão monocórdica entre preparados e despreparados, qualificados e desqualificados, outros pontos vão passando em branco. Cito dois.

Primeiro: além de lamentar a avalanche de abestados é preciso perceber o quão premente é a reforma do sistema eleitoral. Do jeito que está, as regras são um convite a qualquer partido para convocar seus titiricas, maguilas e mulheres-pêra que, à guisa de protesto, trazem votos suficientes para gerar cadeiras adjacentes a  que, por si sós, partidos e coligações não conseguiriam. Que tal discutirmos a sério o voto em lista, o voto distrital ou o misto logo que 2011 chegar?

Segundo: um outro grupo, muitíssimo menor é verdade, não teve a visibilidade merecida pelas reportagens e comentário de analistas. Refiro-me ao grupo dos que deixaram de reclamar da política e dos políticos e se arriscaram, eles próprios, a um cargo na Câmara. Ari Friedenbach (pai da garota Liana, assassinada pelo menor conhecido como Champinha) e Keiko Otta (mãe do menino Ives Otta, também assassinado) são dois bons exemplos. No meio de tantas lamentações contra a política e seus abestados, talvez seja interessante darmos ênfase àqueles que carregam razões muito maiores para lamentarem da própria vida, mas que encontraram na participação política uma forma de fugirem do reles chororô, assumindo o compromisso de mudar alguma coisa para todos.

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É nóis!

Com fundamento no “discurso do esclarecido” – segundo o qual a escolha deste ou daquele candidato, certamente distinta da própria escolha, é fruto da ignorância do eleitor –, várias críticas surgem à possível eleição deste ou daquele candidato. Um deles é Netinho de Paula, candidato ao Senado pelo PCdoB, em São Paulo. Para determinado setor de “esclarecidos”, só o “povinho da periferia”, “ignorante”, “sem educação”, é capaz de eleger um sujeito desses. No embalo, alguns dos “esclarecidos” até arriscam propostas de proibição de voto para certas camadas “ignorantes” da população.

Já adianto que não votarei em Netinho de Paula, que não me convence como candidato ou mesmo como sambista (e eu adoro samba!), que demonstra arrogância no trato de parte da imprensa, para não falar do episódio de agressão à ex-esposa.

Porém, à grande votação de Netinho apurada nas pesquisas, além daquela já constatada como vereador na capital paulista, não debito a qualquer ignorância do eleitorado, argumento por si arrogante, preconceituoso e, ele próprio, ignorante.

A possível eleição de Netinho para o Senado me faz lembrar um artigo que li em 1998 (não me lembro o autor), defendendo que a população mais carente não confiava em si própria para representá-la politicamente. Assim, um sujeito que se identificava pessoalmente com Lula preferia votar em ACM – esses eram os exemplos dados no artigo, disso me lembro – porque confiava no “doutor” ou no "coronel", mas não no operário. De outra forma, entendia que lugar de operário é na fábrica, cabendo os postos políticos a quem tem status, “pedigree”, para ocupá-los: os “doutores”, “coronéis” e afins. Engraçado: é o próprio argumento do esclarecido aplicado a quem se assumia como um “ignorante”.

Pois bem, acredito que a eleição de Lula trouxe um grande avanço democrático no seguinte sentido. Largamente aprovado pela população brasileira, em especial as de camadas mais baixas, Lula serviu como um símbolo importante para a mudança de concepção dessas pessoas sobre elas próprias. O sujeito mais humilde, que antes duvidava daquele candidato que lhe fazia as vezes de espelho, passou a confiar mais neste, em si próprio e, por extensão, a duvidar um pouco dos “doutores” e "coronéis".

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Fecha a conta, Zé

No início, José Serra esboçou algumas boas propostas ou, no mínimo, discussões importantes. No entanto, cedeu ao tom moralista, ao denuncismo, ao medo e às promessas populares (populistas?) no decorrer da campanha. As tais discussões iniciais eram: o Brasil precisa diminuir a carga tributária, diminuir a taxa de juros, aumentar os investimentos. Para que tudo isso ocorra, é fundamental que se diminua o gasto público. Eis uma tarefa árdua para o próximo presidente, seja quem for.

No entanto, as propostas de Serra representam uma conta que não fecha. Propõe diminuir a carga tributária (portanto, diminuir receita) ao mesmo tempo em que aumentará os investimentos públicos, além dos gastos com educação, saúde e segurança, já que “o Brasil pode mais”. De sobra, resolveu que instituirá o 13º ao Bolsa-Família e aumentará para R$ 600,00 o salário mínimo.

Sem querer ser chato, mas, essa conta fecha, Zé?

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Disputa presidencial obscurece as demais

Sou mais do que favorável à reforma política. Mais do que isso, sou daqueles que a concebem como a “mãe de todas as reformas”, e pretendo discuti-la mais a fundo oportunamente. Um dos pontos dessa reforma que a mim parece relevante é a realização de eleições gerais para todos os cargos políticos, de vereador a presidente. A princípio, a ideia me parece boa. Contudo, constato cada vez mais que a eleição presidencial obscurece as demais. A visibilidade das e o interesse nas disputas para governador e senador – para deputado federal e estadual então, nem se fala! – são bastante diminuídas ou extremamente vinculadas à disputa para Presidente da República. Em suma, ou esses cargos não têm a atenção merecida ou são levadas como uma mera extensão da disputa para o Palácio do Planalto, considerada “maior”.

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Imparcialidade da imprensa
Quanto à imparcialidade, alguns já colocam esse “princípio jornalístico” na berlinda, defendendo que os jornais e revistas escancarem de uma vez suas preferências. Pode mesmo ser uma escolha razoável, ao menos do ponto de vista da sinceridade com que o leitor é tratado. Neste sentido, menciono dois artigos, os quais reputo mais panfletários e eleitoreiros do que propriamente analíticos, publicados pela Folha de S.Paulo, dia 05/09/2010. No primeiro, intitulado “Descaminhos”, Rubens Ricúpero, depois de associar Lula a Perón, Vargas e Chávez, de falar em aliança espúria entre peemedebistas (menos o PMDB paulista, claro) e “sindicalistas de ficha suja”, e de criticar a política de transferência de renda que nos distanciará da “eficiência competitiva da China e da Índia”, conclui, pesaroso: “Se as pesquisas se confirmarem, é esse o país que sairá das urnas, não por culpa dos eleitores, mas por essa lógica das forças da aliança oficial”. No segundo, assinado por Ferreira Gullar (“Vamos errar de novo?”), em mais uma mostra do seu entendimento “objetivo” de que tudo de mau vem de Lula e do PT, mas nada há que se falar da aliança PSDB-DEM, o autor faz campanha aberta da candidatura de José Serra e lamenta a provável vitória de Dilma: “O povo nem sempre acerta. Por duas vezes, o Brasil elegeu presidentes surgidos do nada – Jânio e Collor. O resultado foi desastroso. Acha que vale a pena correr de novo esse risco?”. Por toda a contribuição ao país, cada um da sua maneira, Rubens Ricúpero e Ferreira Gullar são merecedores do respeito dos brasileiros, tendo muito peso as suas opiniões. Não obstante, o que me espanta é a Folha de S.Paulo, que se comprometeu em não defender esta ou aquela candidatura e que se vangloria da sua postura democrática e plural, só tenha colaboradores de um único viés: anti-Lula, anti-PT e anti-Dilma. Se há muitas formas de dizer a verdade falando só mentiras, como dizia o slogan da Folha, também há muitas formas de tomar partido fingindo-se imparcial.

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Do monopólio da ética ao monopólio da corrupção

Antes de ser governo, o PT vivia se colocando como o partido da ética na política (aliás, oportunamente gostaria de discutir ética na política e ética política), como aquele que acabaria com as maracutais quando chegasse ao poder. Não o fez, revelando o que muitos dos seus críticos de origem já diziam: é falso o maniqueísmo que joga com a ideia de um partido ter o monopólio da ética, enquanto a todos os outros recaem as tentações da corrupção.

Uma vez no governo e constatado o que foi constatado, é a vez do DEM e do PSDB apontarem o PT, com a mesma falsidade, como o detentor do monopólio da corrupção. Assumindo a mesma retórica raivosa do adversário outrora opositor – “a turma deles, essa corja de bandidos, essa raça” – os demo-tucanos vendem-se como a opção ética do momento.

Uma visão de longo prazo, porém, mostra que casos como Sivam, privatizações dirigidas, compra de votos para reeleição, Salvatore Cacciola, mensalão (ou, se preferir, mensalões), Waldomiro, aloprados, Erenice, dentre outros, são episódios que se misturam, abarcando a todos e confundindo a cabeça dos caçadores de santos ou separadores do joio e do trigo, quem é “do bem” e quem é “do mal”.

O fato é que o combate à corrupção é um desafio real e imenso para o Brasil. Mas sua efetivação passa por mudanças institucionais como mecanismos de transparência e prestação de contas, aprimoramento do controle interno e externo, financiamento público de campanha, diminuição vertiginosa dos cargos de confiança a serem loteados entre aliados, etc. Enquanto se achar que a solução é encontrar o verdadeiro mocinho que trará ética à política, nada mudará de fato e cada partido e político continuará jurando que é o tal mocinho e que o seu oponente é o bandido.

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Herança maldita e ingratidão, virtú e fortuna

Tão bobo quanto o discurso da herança maldita, segundo a qual o governo Lula promoveu o paraíso em terras tupiniquins, “apesar de FHC”, é o discurso da ingratidão, que apregoa o dever moral de Lula em beijar as mãos do antecessor, cuja política econômica foi tão-somente “copiada” a partir de 2003. Nem o legado foi só de fardos, nem a sequência foi só de inércia.

O aumento da taxa de crescimento e a formação de um forte mercado interno (25 milhões de pessoas saíram da miséria, 30 milhões entraram na classe média), verificados nos anos Lula, não seriam possíveis caso o país não tivesse previamente estabilizado a economia – o que, por si, já promoveu inclusão social – e construído o marco legal para a gestão responsável das finanças públicas, condição fundamental para o não retorno à escalada inflacionária. Quanto à efetivação dessa nova e melhor condição do país, não dá para negar os méritos de FHC, tanto o Ministro da Fazenda como o Presidente da República.

Por outro lado, o discurso da ingratidão de Lula em relação a FHC faz tanto sentido quanto o da ingratidão de FHC diante de Collor. Afinal, da mesma forma que seria impensável o crescimento com inclusão dos anos Lula sem a estabilidade advinda do Plano Real, o êxito deste só foi possível graças ao estupendo acúmulo das reservas internacionais gerada pela abertura ao mercado financeiro na era Collor em consonância com a então incipiente globalização financeira.

Sem diminuir a importância do Real, que soube aliar o engenhoso modelo da URV com a contenção dos déficits públicos primários, principalmente pela escalada da receita tributária, vale lembrar que a hiperinflação foi debelada não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. O aumento da liquidez internacional após a globalização financeira foi condição sine qua non para o sucesso dos planos de estabilização mundo afora, Real incluído. Aliás, como seria possível manter a paridade R$1,00=U$1, a essência da URV, não estivesse o Brasil com os cofres cheios de moeda estrangeira?

Ademais, se o PT foi contra o Plano Real, também se pode aventar que a política econômica do PSDB não geraria o crescimento com inclusão, já que predominava a ideia de que a ascensão da renda das camadas mais baixas seria inflacionária. Aumento real do salário mínimo, nem pensar: é proposta irresponsável!

Em suma, FHC e Lula, cada qual teve sua virtú (habilidade política) e sua fortuna (vantagens trazidas pela conjuntura), seus méritos e seus deméritos. Certo estava Caetano Veloso quando disse ser um luxo para o Brasil ter FHC seguido por Lula na Presidência. Completo: a mudança na ordem dos fatores alteraria o produto.

03/09/2010

Tia Chiquita

Apesar de certa crença, bastante popular, segundo a qual o sujeito já nasce torcendo para este ou para aquele time, sou mais afeito à tese de que o chamado time do coração se explica mais pela influência dos pais ou amigos próximos. Ou, ainda, pela repercussão de equipes brilhantes nos momentos em que o incipiente torcedor está passando pela fase de auto-afirmação individual e futebolística. Por exemplo: quantos e quantos torcedores flamenguistas foram forjados dentre os milhões de pequenos brasileiros que davam seus primeiros passos na vida e nos campinhos no exato período em que incrível rubro-negro de Zico, Adílio e Júnior realizava suas maiores façanhas, aqui e alhures.

Eu sou exemplo dessa tese. Corinthiano desde a mais tenra infância, segui o gosto do meu pai, além de ter crescido sob a égide dos feitos de Sócrates, Casagrande e companhia. Não obstante, meu pai, assim como seus irmãos (meus tios), não se encaixam lá tão bem à tese, muito embora também não comprovem sua invalidade. Meu avô, nascido em 1910 como o Corinthians, morador desde sempre no interior paulista, torcia para o São Paulo Futebol Clube. Teve o desgosto, portanto – na sua cabeça de tricolor, entenda-se bem –, de ver todos os quatro filhos ostentarem a bandeira do arquirrival. Não, os filhos não eram rebeldes, nem tomaram o futebol como um daqueles mecanismos comuns de diferenciação em relação aos ascendentes. O que explica a torcida dos “meninos” é a tia Chiquita, irmã de meu avô.

Imaginem a cena. Lá pelos idos dos anos 1940/50, a tia Chiquita era uma das únicas proprietárias de aparelho de rádio na localidade. O rádio, considerando a época e o lugar, era a mais poderosa porta de acesso às notícias da capital do estado, do país e do resto do mundo. Exagerando um pouco, penso que a tia Chiquita, para as pessoas que se aproximavam para escutar do seu radinho, tinha um poder de influência compatível ao do Datena hoje em dia: as notícias que vinham do seu aparelho eram passadas aos ouvintes ocasionais sob o filtro dos comentários da dona, realçados os feitos e minimizados os defeitos de quem caíra em suas graças.

Ademais, apesar de não me lembrar dela, falecida quando eu ainda era muito criança, consta que a tia Chiquita era do tipo apaixonada, não dava a sua versão dos fatos sob as amarras do princípio da isenção. Pelo contrário. Assim, Getúlio não era simplesmente o presidente do Brasil, mas o maravilhoso “pai do povo” brasileiro. E o melhor, o mais belo, o mais glorioso, o mais tudo de todos os times do planeta era, para a tia Chiquita, o Corinthians. Ainda por cima, aquele escrete formado por Gilmar, Cláudio, Luizinho e Baltazar jogava muito e conquistava títulos importantes.

Trocando em miúdos, por conta da influência da tia Chiquita e do seu poderoso radinho, meu pai e meus tios não se tornaram são-paulinos como meu avô, mas, sim, corinthianos. Ato contínuo, quase todos os seus filhos, eu incluso, seguimos a vocação mosqueteira.

Neste ano de 2010, além do Timão, também o meu avô completou 100 anos. Há poucos dias, contudo, quatro meses após comemorar um século de vida, meu avô faleceu. Tenho a crença de que foi muito bem recebido na espiritualidade pelos tantos entes queridos que cultivou por aqui. Dentre eles, certamente está a tia Chiquita, feliz por comemorar o centenário do Corinthians e por reencontrar seu irmão também centenário, nosso amado freguês.

10/08/2010

Prece de despedida

Querido vô Lazo,

Após 100 anos de uma bela passagem por este plano, seu espírito está novamente livre da matéria. Que o retorno à espiritualidade se dê em paz.

De cá, receba o pensamento amoroso dos que aqui continuam, felizes por terem-no conhecido, por terem convivido com você.

Aí, receba os abraços daqueles entes amados que já haviam feito a passagem que você faz agora. Receba o carinho dos seus irmãos, dos seus pais, dos seus grandes amigos.

Até que enfim pode matar a saudade da companheira cuja ausência tanto te fazia sofrer. Apesar da despedida, é bom pensar na felicidade do seu encontro com a vó...

Obrigado pelos valores, pelos ensinamentos, pelo seu legado.

Um beijo, e vá com Deus.

De um neto que te ama.

24/07/2010

Justiça à brasileira

Na Folha de S.Paulo de ontem, dia 23/07/2010, foi publicado mais um excelente artigo do não menos excelente Ruy Castro, intitulado "Pressa em condenar". O texto está reproduzido aí embaixo, vale a pena ser lido.

É engraçado como esses crimes mais recentes (e evidentes) - Isabela Nardoni, Mércia Nakashima, goleiro Bruno - mexem com as pessoas, que logo tomam as portas dos fóruns e delegacias para externarem sua "indignação". Tudo passa a ter um aspecto de espetáculo, comportando-se jornalistas, autoridades e "populares" como competidores pela luz das câmeras. A grita geral é por justiça, pela condenação sumária. Mas o resultado prático desse processo todo é relevado, para não dizer esquecido.

Bem, vamos ao artigo de Ruy Castro.

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Pressa em Condenar
Ruy Castro

O delegado encarregado do caso Bruno acaba de completar seus 30 dias de fama. Durante esse período, investigou, acusou, julgou, condenou e só faltou passar a sentença sobre o jogador. Muito além da sola, foi detetive, carcereiro, promotor, júri e juiz. Tal versatilidade pode representar uma economia para os cofres do Estado, mas está em desacordo com noções elementares de justiça.

Ocupado em dar entrevistas, ele só não teve tempo de apresentar as provas de que necessitava – nem mesmo o corpo de Eliza Samudio, dado de barato desde o primeiro instante. Com isso, o advogado de defesa já conta com a vitória numa primeira instância, tantas são as supostas irregularidades técnicas.

Aliás, este é dos raros casos em que o uso do 'suposto' – recurso adotado pela imprensa para noticiar sem se comprometer – se aplica. Enquanto não encontrarem o cadáver, Bruno deveria ser apenas o suposto assassino ou mandante. Ou nem isso, porque ainda não está configurado o crime. Pois, justamente neste caso, alguns tabloides e canais de TV já partiram para a acusação frontal: Bruno é tratado como assassino ou mandante, e não se discute.

O curioso é que, um mês depois, o imbróglio parece mais enrolado do que nunca. Pelos depoimentos, Bruno, três cúmplices, seis ou sete testemunhas e uma mulher diferente por semana entram e saem de carros, motéis e chácaras, e o bebê passa de mão em mão enquanto eles se acusam e se desdizem deixando todo mundo tonto. É Agatha Christie ao ritmo dos Irmãos Marx.

No Brasil, temos pressa em condenar. Mas, uma vez estabelecida a condenação, não há pressa para executar a sentença. O jornalista Antonio Pimenta Neves, por exemplo, réu confesso, julgado e condenado pela morte de sua ex-namorada, arrisca-se a morrer de velhice fora da prisão onde deveria estar há dez anos.

04/07/2010

A Vitória de Sarriá


Eu tinha dez anos. Formava com alguns amigos da rua um time, modéstia à parte, praticamente imbatível. Para aumentar ainda mais nosso potencial, estávamos fortemente influenciados pela magnífica seleção brasileira comandada por Telê Santana. O clima de Copa do Mundo era inescapável: verde e amarelo por todos os lados, camisas canarinho ostentadas com orgulho, o pavilhão nacional à mostra, seguindo, contudo, o protocolo patriótico determinado pela liturgia militar, cujo regime ainda imperava; por exemplo: bandeira brasileira pintada na camisa como se fosse uma reles estampa era quase um crime de lesa-pátria. Além disso, tinha o Naranjito, o mascote daquela Copa da Espanha, qual uma entidade onipresente: pintado nos muros, em forma de bonecos, pequenos, médios e grandes. E tinham as músicas: “Voa, canarinho”, cantada pelo Júnior, lateral do Flamengo e da própria seleção, e a do Luiz Ayrão, uma espécie de segundo hino nacional: “Dá-lhe, dá-lhe, bola/Meu canarinho vai deixar a gaiola/Vai pra Espanha de mala e viola/ Vai dar olé à espanhola/ E rola e rola e rola...”.

Em resumo, tudo cheirava a futebol, seleção brasileira e Copa do Mundo. E o escrete de Zico, Sócrates, Falcão & Cia. encantava o mundo, a ponto de não se conceber possibilidade de fracasso naquela tentativa de obter o tetra, primeiro caneco pós-Pelé. Da mesma forma, nosso timinho, cujo campo era o asfalto escaldante da rua da minha casa, também encantava os transeuntes eventuais, sortudos por poderem observar o fino da bola jogada por aqueles meninos, eu incluso.


Detalhe: cada jogador da rua correspondia a um craque da seleção, buscando imitá-lo no estilo futebolístico e nos trejeitos. Uma vez ouvi Chico Buarque dizendo na TV que ainda não jogava tão bem como Pagão, seu ídolo maior, mas já sabia copiar uma cuspidinha que o craque santista dava. Pois é o que fazíamos. As comemorações, por exemplo, fosse gol do Sócrates – o da rua, claro –, comemorava-se com postura ereta, o braço direito estendido ao céu; fosse o Zico, o seu alter ego da rua saia correndo, meio curvado para a frente, e pulava socando o ar.

Daí, quem sabe, a explicação de boa parte da excelência futebolística demonstrada por aqueles meninos. Se não éramos lá muito originais, pelo menos imitávamos gênios da bola. Eu era o Falcão: jogava no meio-campo, articulando as jogadas, chegando às vezes à frente para marcar meus golzinhos. Lembro-me que o Neimar era o Sócrates, ambos altos e esguios, e o Maurinho, salvo engano, era o Cerezo. E o Zico, quem era o Zico mesmo? Bem, o negócio é que tentávamos naquela rua reproduzir os prodígios que víamos de nossos craques em campos espanhóis. A coisa era tão séria, apesar da natureza de brincadeira, que deixávamos de assistir aos jogos, disputando, no mesmo tempo, partidas na rua. Claro que entrávamos correndo em casa para ver o gol, tão logo ouvíamos os rojões espocarem concomitantemente aos gritos que emanavam de todas as casas da vizinhança. Assim, víamos o replay do gol, e já passávamos à tarefa de repeti-lo no asfalto.

Foi assim contra a União Soviética, contra a Escócia – e não importava se saíamos perdendo, pois havia a certeza da virada –, contra a Nova Zelândia. Contra a Argentina, porém, valia o ditado dos benefícios da cautela e da canja de galinha. Afinal, tratava-se do arquirrival e então campeão do mundo, não obstante sermos nós os atuais campeões morais, incontestáveis favoritos. Foi sem perdão. Mal começou o jogo, o juiz marcou falta a uns quarenta metros do gol de Fillol. Não importava a distância, Eder enfiava o pé, e sabíamos – assim como os argentinos – que o negócio era perigoso. Não deu outra: Fillol até conseguiu rebater, mas Serginho e Zico partiram como um foguete para cima da bola, o Galinho chegou primeiro e enfiou a pelota pra dentro. Massacre só: 3 a 1, fora o baile, com direito a expulsão do Maradona. Perdeu a cabeça, coitado, atordoado com o olé brasileiro.

Aí veio a Itália, que também vencera os argentinos, mas por um gol a menos: 2 a 1. Por isso, tínhamos a vantagem do empate. Não sei para quê, se venceríamos mesmo... Foi meu primeiro encontro com os cruéis clichês do futebol: a caixinha de surpresas, o imponderável, a injustiça do jogar melhor e ainda assim perder. Sempre que o Paolo Rossi – jamais esqueceríamos esse nome, eterno vilão – marcava um gol, tínhamos a certeza de que o Brasil iria atrás e faria o redentor gol de empate. Afinal, já conhecíamos o filme, fora assim em jogos anteriores. Era até bom, dava mais emoção sair perdendo e virar o jogo. Oh, inocência de criança, virgem de desilusões! Ao primeiro gol de Rossi, Sócrates respondeu com um toque de gênio no canto de Zoff. Ao segundo, Falcão, numa angustiante espera que durou até metade do segundo tempo, enfiou o pé esquerdo e a bola foi morrer na gaveta direita do veterano goleirão italiano. Pronto, estava cumprido o script. Mas o tal do Paolo Rossi, endiabrado, marcou o terceiro e o tempo já era curto. Tudo bem, quanto mais dramática, mais gostosa a vitória. O problema é que o tempo passou, o Brasil criou algumas chances, mas o Dino Zoff – outro vilão italiano – impediu que a bola entrasse.

Quando o juiz apitou o final do jogo, senti um nó na garganta que jamais sentira por conta de futebol. Foi o primeiro grande desgosto ludopédico, o primeiro de verdade. Olhei para o meu pai e perguntei, como se as imagens da televisão não fossem o bastante: “O Brasil perdeu?” Meu pai, em silêncio – devia estar sofrendo também, do seu jeito adulto –, confirmou balançando a cabeça afirmativamente. Fiquei quieto por uns instantes, olhando a TV, vendo os jogadores da seleção saírem de campo chorando. Não convencido da eliminação, indaguei meu pai novamente: “Então, o Brasil não pode mais ser campeão?” Meu pai, com outro gesto de cabeça, confirmou a melancólica sentença.

Fiquei em silêncio por mais algum tempo. De repente, me deu vontade jogar bola na rua, como fazíamos sempre em dia de Copa. Aliás, por que nós, os meninos da rua, não estávamos jogando na hora da partida do Brasil? Bem, peguei a bola e parti. Ao abrir a porta de casa, não é que os outros já estavam lá! Todo mundo com sorriso amarelo, com um semblante fechado que expressava o constrangimento pela inesperada derrota, enlutados por sabermos que o Brasil, contra todas as nossas certezas de criança, não seria campeão na Espanha. Pior ainda para nós, que jamais víramos o Brasil ganhar uma Copa.


“Chuta a bola aqui”, gritou alguém. E logo estavam formadas as equipes, justamente Brasil x Itália, e partimos para a vingança. Esquecemos da tristeza, o luto se desfez, mas aqueles que assumiram o escrete italiano estavam inspirados pelo feito de há pouco da Azzurra contra a nossa seleção. O moleque que assumiu a condição de Paolo Rossi, coitado, estava se achando. Mas não teve pra eles, não. Fomos com tudo e nos vingamos sem pena, do nosso jeito. Ali na rua não tinha para ninguém. Só deu Brasil.

Findo o jogo da rua, voltamos a sorrir e a nos ver como os melhores do mundo. E, sem que nenhum adulto nos ensinasse, descobrimos algo muito importante: se no futebol o melhor pode perder, mesmo perdendo pode não deixar de ser o melhor. Logo, de uma forma ou de outra, são vitoriosos. O sentimento de derrota, assim, deu lugar novamente ao gosto pela vitória. Se nós, os meninos da rua que imitávamos Zico, Sócrates, Falcão & Cia. éramos imbatíveis, logo, aqueles jogadores mágicos, nossos eternos ídolos, também haviam vencido. Eram, ou melhor, são campeões. Apenas não conquistaram um torneiozinho mixuruca que, como bem disse Garrincha, não tem nem returno.
Venceram, com certeza. Pelo menos, é a lembrança que guardo desde os meus longínquos dez anos.

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Hoje tenho 37 anos. Depois da Copa da Espanha, já vieram outros sete mundiais, incluído este de 2010. Destes, vi o Brasil ser derrotado em cinco e vencer dois. Apesar da emoção da vitória, jamais uma outra seleção brasileira me encantou como aquela de 1982. Tenho certeza que muitos outros que como eu tinham perto de 10 anos naquela época concebem o escrete de Telê como algo mágico, encantado, quase imbatível... Quase.

Será que é só uma dessas visões hipervalorizadas por virem dos tempos de infância, como os desenhos animados antigos que jamais admitimos serem pior que os de hoje? Não, neste caso, pelo menos, não. É porque aquela seleção era boa mesmo. Se não fosse, não estaria brilhando nas retinas e nas memórias de tanta gente até hoje. A propósito, como os garotos de 10 anos em 2006 ou 2010 levarão na memória de adulto as seleções brasileiras das Copas da Alemanha e da África do Sul? Guardarão o mesmo encanto em relação aos times de Parreira e Dunga que guardam os então meninos, como eu, em relação ao time de Telê? Provavelmente não.

Sem trocadilhos românticos, cuja intenção de fundo é produzir o autoengano: Acredito sinceramente que há derrotas que pairam como vitórias, e vice-versa. A chamada “tragédia de Sarriá” é um exemplo clássico. Como pode um time derrotado ser tão cultuado até hoje? Quem viu, sabe muito bem o porquê. Então, no mínimo, há que se ponderar muito as palavras para sentenciar que aquilo foi uma derrota. É muito pragmatismo numérico. É dar muita importância para números frios constantes de um placar.


Falando nisso, já pensando em 2014, quando a Copa do Mundo será no Brasil, gostaria muito que os dirigentes do nosso futebol não se preocupassem apenas com o número de estrelinhas que ostentamos acima do escudo. Sim, são importantes; são fundamentais mesmo. Mas não menos importante é o encanto que fica em cada brasileiro com o futebol jogado por seus compatriotas em campo. Dependendo da magia com que jogam, o fato de ser penta, hexa, hepta, etc., pode até ficar em segundo plano. E, cá entre nós, do mesmo jeito que jogo feio não é garantia de vitória, podemos muito bem apostar na vitória com um jogo encantador. Como o daquele time de 82, por exemplo.

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