31/03/2011

Imagens inusitadas. Também por isso, maravilhosas

Há quem viva se queixando de que nada muda no Brasil ou no mundo. Apesar da persistência de muitas mazelas e da recorrência de problemas que há muito gostaríamos que estivessem solucionados, não dá para negar que, em vários aspectos, já avançamos.

Basta observar algumas das fotos recentes mais veiculadas pela imprensa. Imagine que você estivesse no final dos anos 1970, por exemplo, e uma criatura vinda do futuro lhe apresentada a foto abaixo, com a seguinte legenda: “Chefes de Estado dos EUA e do Brasil se encontram. Ano: 2011”. Confesso que, a princípio, tenderia a pensar que o homem negro é o presidente do Brasil e a mulher, presidenta dos Estados Unidos. De qualquer forma, fosse quem fosse, não deixaria de considerar um avanço a escolha de uma mulher e de um negro para tais cargos. Porém, para o contentamento ser completo, deveria a legenda trazer a seguinte informação, muito apropriada para que vive nos anos 70: "Em 2011, o Brasil é uma democracia e seu presidente foi escolhido pelo voto popular".


Agora, depois de cientes de que a mulher é a chefe de Estado do Brasil, aumentaria minha alegria ao ser apresentado à foto abaixo, com os dizeres: “Dilma, presidente do Brasil, e suas ministras”. Não, as coisas não são iguais em 2011!


Para completar, a foto abaixo. Em fins da década de 70, o sujeito ficaria estupefato ao constatar que os senhores da foto são o presidente Jimmy Carter e o presidente Fidel Castro. Pela legenda, saberia que, em 2011, são ex-presidentes dos EUA e de Cuba, em encontro na cidade de Havana.


Sim, nem tudo são flores no Brasil e no mundo de hoje. Nem tudo mudou tanto assim. No entanto, dizer que o mundo continua igualzinho, que nada melhora, me desculpe, mas parece a expressão da absoluta incapacidade de ver o mundo com otimismo, ainda que por olhos bem realistas. Conheço pessoas com essa incapacidade. Aliás, por ironia, algumas delas nasceram no final da década de 70.

30/03/2011

Tradição, família e promiscuidade

Poucos dias após o deputado Júlio Campos (DEM-MT) ter sido “mal interpretado” ao se referir ao Ministro do STF Joaquim Barbosa como “moreno escuro”, também o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) parece ter erroneamente passado por racista. Afinal, alegou o parlamentar, “minha esposa é afro-descendente e meu sogro é negão”. Ah, bom!

Em participação no programa CQC, o polêmico (no caso, eufemismo para truculento) deputado “progressista” respondeu a perguntas de populares. Perguntado sobre suas referências políticas, respondeu: Médici, Geisel, Figueiredo. Arguido sobre o que faria se pegasse o filho fumando maconha, tascou: “daria uma porrada”. Indagado sobre sua reação diante de uma hipotética homossexualidade do filho, disse que não corre esse risco, pois o filho teve boa educação, com pai presente. Também afirmou que desfiles gays são “promoção de maus costumes”. E o gran finale: questionado por Preta Gil sobre o que faria se seu filho se apaixonasse por uma garota negra, Bolsonaro respondeu: “Ô Preta, não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco. Meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambiente como, lamentavelmente, é o teu”.

Sinceramente, acredito nas desculpas de Sua Excelência. Em uma sequência de perguntas sobre gays, pode muito bem ter sido traído por uma pergunta sobre relações raciais. Enfim, ajustando as contas, Bolsonaro não teria se revelado racista, mas, sim, homofóbico. Ah, bom!

Não é novidade que Jair Bolsonaro conquistou a condição de mais bem acabada expressão do reacionarismo nacional. É o nosso Jean-Marie Le Pen e o nosso Tea Party. No entanto, além das conclusões mais óbvias, a fala de Bolsonaro, especialmente por responder a Preta Gil, fez com que me ocorresse a seguinte dúvida: qual o verdadeiro propósito que mobilizou o golpe de 1964 e qual a natureza das forças que sustentaram o regime militar?

Tenho uma hipótese: o que mais afrontava o conservadorismo radicalizado da época – com participação expressiva nas Forças Armadas e na Igreja Católica, muito embora as duas instituições também tivessem, ainda que em número menor, expoentes à esquerda – não era só o perigo do comunismo, mas o perigo da revolução cultural e comportamental que aflorara com tudo nos anos 1960. A emergência do sexo livre, o combate das mulheres às amarras machistas ou os gays mostrando-se orgulhosamente à revelia da repressão moralista, tudo isso embutido no furacão de sexo, drogas e rock’n roll, causava verdadeiro pânico nos tradicionalistas.

A principal manifestação de apoio aos militares, logo após o golpe, chamou-se Marcha da Família com Deus pela Liberdade, realizada em 02/04/64, no Rio de Janeiro. Não apenas os regimes político e econômico estavam em jogo, mas a família e Deus. Ou seja, a estrutura familiar e social, tal qual concebida tradicionalmente, sob a benção da Santa Madre Igreja, devia ser preservada. Pode-se imaginar o medo desse pessoal de ver o Brasil invadido por gays, mulheres desonradas e toda a sorte de “promiscuidade”. Tanto quanto ou maior que o medo de ver o país sob o comando de comunistas. A propósito, seriam farinha do mesmo saco: o “promíscuo” seria o equivalente comportamental do inimigo político, o “subversivo”.

Em seu livro “Verdade Tropical”, Caetano Veloso relembra o exílio imposto a ele e a Gilberto Gil, o pai de Preta. Em determinado momento, mostra-se surpreso pelo fato deles, artistas do movimento tropicalista, terem sido vítimas do regime. Logo os tropicalistas, sobre os quais pairavam críticas, vindas da própria esquerda, de concessões à cultura de massas, de serem alienados, despolitizados etc. Caetano interpreta que, de certa forma, esses “transviados” da Tropicália seriam mais perigosos ao status quo do que artistas ditos engajados.

Ao acusar Preta Gil e o ambiente familiar em que foi educada, Bolsonaro demonstra, tardiamente – anacronicamente, talvez seja o termo mais apropriado –, quem são os inimigos das viúvas da ditadura e demais reacionários. Na falta de comunistas, nesta época pós-muro de Berlin, o impulso raivoso volta-se a quem quer que desafie o mundinho ordeiro, santificado, estruturado sobre os alicerces da moral e dos bons costumes. Bolsonaro age como um defensor desse mundo e de seus valores. Assim como, para ele, devem fazer os verdadeiros patriotas, estejam eles nos quartéis, nos claustros ou quaisquer outros lugares imunes às investidas da “promiscuidade”.

Por mais respeito que se deva à opinião e à sua livre expressão em uma sociedade democrática, a própria defesa da democracia e do Estado de Direito impõe certas cautelas. A primeiríssima delas é o respeito irrestrito aos ditames da nossa Constituição, a mesma que Bolsonaro um dia jurou. Ditames como a defesa dos direitos humanos (art. 1º, III; art. 4º, II; art. 5º, III), o que não se coaduna com a apologia da tortura. Ou da construção de uma sociedade sem preconceitos (art. 3º, IV), o que não se concilia com o racismo, a homofobia ou qualquer forma de discriminação.

A se considerar o Brasil de hoje como um Estado democrático de Direito, a defesa do que prescreve nossa Constituição é o mínimo que se espera de todos os cidadãos brasileiros, especialmente daqueles democraticamente eleitos para exercer um cargo político. Inclusive Jair Bolsonaro, um viúvo apaixonado da ditadura, ironicamente eleito pelo voto popular.

***


Em tempo: tão ou mais ofensivo que as palavras de Jair Bolsonaro no programa CQC é o desenho colocado na porta do seu gabinete. Em uma alusão aos desaparecidos do Araguaia, a figura sugere que são cachorros os que procuram por ossadas naquela região do país. Imagino o quanto essa “brincadeira” não fere as pessoas que há anos buscam os corpos de familiares, provavelmente assassinados por “patriotas” como o nobre deputado.

29/03/2011

Morre José Alencar


Há pouco foi dada a notícia da morte do ex-presidente da República José Alencar. O ex-vice presidente enfrentou um câncer por 13 anos.

Alencar começou a trabalhar cedo, aos 14 anos, como vendedor de tecidos. Fundou a Coteminas, empresa que veio a se tornar um dos maiores conglomerados têxteis do país. Fez-se empresário bem sucedido, angariando grande fortuna.

Demonstrando vocação para a política, foi presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais por 15 anos, além de comandar a Associação Comercial de Minas e a Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte.

Candidatou-se ao governo de Minas em 1994, ficando em terceiro lugar. Em 98, elegeu-se senador. O grande salto na política veio em 2002, quando compôs a chapa presidencial com Lula. A presença de José Alencar como vice tinha a missão de amenizar o receio do empresariado nacional em relação a Lula. Era a junção do grande líder operário com o grande empresário. O capital e o trabalho, enfim, unidos pelo desenvolvimento do Brasil.

A mensagem foi bem recebida. Eleito, Alencar portou-se digna e mineiramente no cargo de vice-presidente. Soube assumir seu papel de coadjuvante, mas sem deixar de dar seus recados e de mostrar seu peso. Tornou-se um contumaz crítico da política de juros do próprio governo. Em 2004, assumiu o cargo de Ministro da Defesa, ajudando a enfrentar a crise do setor aéreo. Foi um alicerce, jamais um estorvo a Lula, merecendo parte dos créditos pelas conquistas do governo.

Entretanto, não foi somente como empresário ou como político que José Alencar tornou-se figura simpática aos brasileiros, passando a ser respeitado em todo o país. Alencar ganhou a admiração nacional, sobretudo, pela luta que travou bravamente pela própria vida. Em 1997, passou por cirurgia para a retirada de tumores no rim e no estômago. De lá até o dia de hoje, disputou inúmeros embates com a doença, vencendo todos. Muitas e muitas vezes vinha a notícia, acompanhada Brasil afora, de que o vice-presidente, depois o ex-vice presidente, estava internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Em geral, a notícia vinha com o destaque de que o estado do paciente inspirava cuidados especiais ou, mesmo, que era grave. A cada vez que Alencar saia do hospital, as pessoas sentenciavam: “como é forte esse homem!”

A própria presidente Dilma, em seu discurso de posse, enalteceu a força, a vontade de viver deste bravo mineiro. A propósito, a própria Dilma, também mineira, passara pela angústia de um tratamento para combater um câncer no sistema linfático.

Hoje, enfim, acabou-se a luta de José Alencar. Mesmo morto, porém, não deixa de levar o respeito dos brasileiros e das brasileiras que aprenderam a admirar sua força e seu jeito mineiro – calmo, paciente – de enfrentar, por tanto tempo, o maior de todos os adversários: a morte.

19/03/2011

Obama está podendo?

Obama e família, ao desembarcarem no Brasil, hoje

Barack Obama foi eleito presidente dos EUA após polêmica (para não dizer malfadada) gestão de George W.Bush. O primeiro presidente negro ou, como querem alguns de seus compatriotas, o primeiro presidente afro-americano da história, assumiu sob forte expectativa positiva e aos coros de “sim, nós podemos”. De longe, um slogan mais simpático do que “é a economia, estúpido”, mote de campanha do colega democrata Bill Clinton.

A propósito, passada mais da metade do mandato, vem a pergunta: nós podemos o quê, hein? Fazer um governo menos arrogante que o de Bush filho? Sim, claro, ainda bem. Mas o slogan sugere mais ousadia. Podemos ir além, podemos o impensável, podemos o impossível. Podemos fortalecer a hegemonia (ou estancar o declínio) americano no globo sem apelar às guerras e ações militares invasivas e ilegítimas (preventivas?). Podemos promover reformas sociais à esquerda (entenda-se, esquerda para padrões americanos). Podemos resgatar a pujança da economia do Tio Sam e, a reboque, a economia mundial, competindo com a superemergente China.

De fato, Obama ousou em algumas de suas atitudes, conquistou algumas vitórias, mas também mostrou certo abuso na marquetagem (um dos males das sociedades modernas) e alguns sinais de hesitação.

O presidente cuida de sua imagem a todo instante. É hábil nisso. Não descuida da pose em frente ao púlpito, na Casa Branca, quando faz ameaças veladas ou dá indiretas, ora a Ahmadinejad, ora a Kaddafi ou a quem mais a opinião pública tome como o capeta na Terra. Ou quando profere discursos na Alemanha, no Egito ou onde mais sua equipe de marketing acredite que ajudará na construção do seu perfil de “líder mundial”.

Só que além da fina estampa, da elegância e do charme, há também conteúdo político. Obama tentou promover conquistas marcantes, algumas vezes com sucesso. Agendou a retirada das tropas do Iraque – no Afeganistão, a coisa é mais complicada. Prometeu fechar a prisão de Guantânamo, o que, pelas últimas notícias, deu para trás. Promoveu a histórica reforma do sistema de saúde e colocou na agenda a reforma do sistema financeiro. Enfrenta relativamente bem a crise econômica (em que pesem os efeitos negativos da guerra cambial para nós, emergentes). Tentou resgatar relações com países árabes, abaladas pelo antecessor. Propôs a recolocação da hegemonia americana sob o “paradigma Sputinik”, uma concorrência, especialmente com a China, baseada em inovações tecnológicas constantes – algo bem mais alvissareiro que o paradigma do choque de civilizações e a decorrente estratégia da “guerra ao terror”.

Obama até recebeu um Prêmio Nobel da Paz, muito mais pelas expectativas criadas em torno de seu governo do que propriamente por realizações efetivas. No discurso, para desagrado de muitos, chamou a atenção de que a paz muitas vezes exige a guerra. Talvez fosse uma forma de dizer: sim, sou da paz, mas não se esqueçam que sou o presidente de um país chamado Estados Unidos da América, historicamente consolidado e fortalecido com fundamento nas armas e nas guerras.

Nesses anos de gestão, o atual presidente americano enfrentou/enfrenta dois momentos históricos cruciais: a crise econômica de 2008/9 e a onda contra regimes autocratas no norte da África e no Oriente Médio. São históricos porque podem determinar, finalmente, como a nova ordem mundial irá se estruturar no pós-Guerra Fria e após a frustrada tentativa de Bush em impor uma lógica neoimperialista a partir do medo contra o terrorismo (para alguns, sinônimo de muçulmanos). No entanto, o titubeio de Obama não deixa claro se poderá, de fato, constituir uma opção à proposta dos neocons. Especialmente porque a alternativa, qualquer que seja, passa pela dura admissão de que os EUA, doravante, não podem mais ser o único condutor do mundo, a partir de seus exclusivos interesses. Caso o admita, Obama, sim, ainda poderá avançar muito em mudanças relevantes. Se bobear, os neocons, falcões, Tea Party e Cia. (no sentido de companhia) poderão, por sua vez, dizer: sim, podemos retomar as rédeas da América.

***

Em tempo: atualizando observação feita no post abaixo, foi anunciado que Obama não mais fará o discurso para americano ver na Cinelândia, no Rio, amanhã. O discurso será no Teatro Municipal, para uma platéia seleta. Particularmente, achei bom. Tratando-se de teatro, melhor mesmo que o discurso ocorra no Municipal.

Museu de cera Madame Tussauds, NY

17/03/2011

Vão-se os cinemas de rua, vai-se uma época




A poucos dias da visita de Obama ao Rio de Janeiro, em compasso de espera pelo discurso a ser feito na Cinelândia, a cidade de São Paulo vê mais um de seus cinemas de rua, o Belas Artes, enfim, fechar as portas. Se a Cinelândia carioca tem esse nome porque no passado, diferentemente de hoje, abrigava várias salas de exibição, a mesma sina parece se impor à região da Avenida Paulista.

Quando vim para Sampa, no longínquo ano de 1991, fiquei orgulhoso por saber que ao longo dos quase três quilômetros de sua principal avenida havia mais cinemas que em Porto Alegre inteira. Desde então, tornei-me habitué de alguns deles. O Belas Artes, o Gemini, o do Conjunto Nacional, que já teve vários nomes – Bombril, Livraria Cultura, não sei mais o quê –, assim como o da Gazeta, hoje Reserva Cultural. Além deles, claro, têm os dos shoppings: os do Pátio Paulista, na ponta do Paraíso, e o Bristol, no Center 3, na ponta da Consolação. Para ficar só na famosa avenida, sem falar dos cinemas da rua Augusta e outros.

Há pouco tempo fechou o Gemini – pela enésima vez – e hoje, o Belas Artes. Ocorre no “centro novo” o mesmo já observado no “centro velho” de São Paulo. Os locais onde antes eram exibidas as preciosidades da sétima arte, agora se destinam ao consumo de bugigangas e aos cultos religiosos. Não dá para negar certo desconforto nostálgico, uma sensação ruim, ao constatar que hábitos caros a muitos da minha geração não mais serão possíveis. Além da frustração por um processo econômico e social que, apesar dos protestos, não é simples de ser contido, muito menos revertido. Aliás, será que deve ser contido e revertido? Há culpados, inimigos a serem combatidos?

A lembrança foi longe e retornei à minha terra natal, Birigui, onde eu ia às matinês do Cine Pérola todos os domingos, rigorosamente. Lembrei-me das filas imensas, virando a esquina, quando passava filme do Mazzaropi. Lembrei-me até de quando assisti “Os Trapalhões no Planeta dos Macacos”, minha primeiríssima ida a uma sala de cinema, morrendo de medo por achar que gorilas sairiam de trás da tela para nos atacar. Mas, terrível mesmo foi ver o prédio que abrigava o Cine Pérola ir abaixo para dar lugar ao estacionamento de um banco. Também me lembrei da luta inglória de alguns cidadãos biriguienses para tombar o prédio que abrigou o primeiro cinema da cidade, o qual não conheci, e que hoje é uma loja de motos.

Pior do que testemunhar a extinção dos cinemas de rua é perceber que não mais haverá um espaço de cultura, entretenimento e sociabilidade criado em seu redor. Acaba-se a caminhada tranqüila pela Avenida Paulista, batendo papo com a namorada ou com amigos, com destino a um boteco próximo para comentários e críticas, ao sabor de cerveja e petisco, sobre o filme que se acabara de assistir. Assim acontece no Rio, em Sampa e até em Birigui.

Os shoppings centers, com seu universo consumista, sua seletividade em prol de “gente bonita” e seus Cinemarks da vida, serão nossa única opção.


Gemini, janeiro de 2010.

14/02/2011

Crepúsculo de jogo



Marcos, Cafu , Gamarra, Baresi e Roberto Carlos, Falcão, Zico, Zidane e Maradona, Romário e Ronaldo. Na reserva: Rogério Ceni, Leandro, Lúcio, Maldini e Junior, Matthaus, Platini, Sócrates e Ronaldinho Gaúcho, Klinsmann e Van Basten. Se coubessem, estariam também Schumacher, Gullit e Careca. Às vezes me lembro de outros, sou forçado a mudar o time. Melhor não pensar.

Eis o que considero a escalação com os melhores jogadores que vi jogar, ponderadas as posições. O princípio dessa memória data do final dos anos 1970, começo dos 80. O time titular joga num 4-4-2 meio manco, assumidamente frágil na marcação: recuso-me a escalar volantes faltosos e zagueiros brucutus. Afinal, eu sou o técnico do meu time de todos os tempos – o meu tempo –, ninguém tasca. Terão que me engolir!

Como bom aspirante a boleiro, apaixonado por futebol desde que me entendo por gente, gosto da brincar de técnico, escalando times disso e daquilo. Gosto de selecionar os melhores. Noto vieses, alguns, inconscientes, outros, nem tanto. Por exemplo: na minha seleção predominam brasileiros. Também, pudera: além de ser a minha nacionalidade, somos realmente os melhores, ora bolas. Neste caso, ninguém faz mais milagre que o santo de casa.

Acompanhei e acompanho a trajetória de cada um dos ídolos que escalo nos “meus” times. Alguns, continuo a acompanhar, já que não pararam: Marcos, Ceni, Roberto Carlos. Hoje, um deles chega ao fim da carreira. Ou, como diria Fiori Giglioti, chega ao crepúsculo de jogo, torcida brasileira.

Apesar de saber que a aposentadoria viria neste ano, apesar de perceber que o desempenho atual está longe daquele dos áureos tempos, o desolamento pela notícia é inevitável. O sentimento que surge é um misto de nostalgia e de melancolia. De saudades do futebol brilhante, da fantástica capacidade em marcar gols, da determinação em superar graves lesões e críticas. De alegria pelas boas lembranças vestindo camisas que me são tão caras: da seleção brasileira e do Corinthians. Que maravilha rever os gols em Oliver Kahn! Ou aquele golaço contra o Santos, encobrindo Fábio Costa! Para não falar daquele do alambrado, de cabeça – o ponto fraco do Fenômeno –, contra o Palmeiras, no último minuto! Que delícia!

Infelizmente, também há tristeza, vergonha e revolta pela antecipação do fim motivar-se, em parte, pela violência das “organizadas” que dizem representar a torcida da qual faço parte.


Eis Ronaldo: Três vezes escolhido o melhor jogador do mundo. Campeão de duas Copas e maior artilheiro de todas elas. O segundo maior artilheiro da seleção brasileira, atrás somente de Pelé (ou o primeiro, já que, como diria Pepe, Pelé não conta...)*. Bi-campeão da Copa América, campeão da Copa das Confederações. Flamenguista de coração, desfilou sua genialidade no São Cristóvão, no Cruzeiro, no PSV Eidhoven, nos rivais espanhóis Barcelona e Real Madrid, nos rivais italianos Internazionale e Milan, e – bendito seja – no Timão. Conquistou títulos em quase todos.

De uns tempos para cá, passou a travar uma luta ingrata contra a balança. Acostumou-se a ser chamado de gordo por todos. Do mais singelo cidadão até o presidente da República. De forma ofensiva ou carinhosamente. O fato é que o peso o incomodava, não obstante tenha levado a pecha, por vezes, em tom de brincadeira.

E como sofreu com as contusões. Os joelhos, principalmente o direito, fizeram com que se distanciasse dos gramados por muito tempo. Em 1996, inflamação nos dois joelhos e calcificação no direito: dois meses sem jogar. Em 1999, rompimento parcial do tendão patelar do joelho direito: quatro meses parado. Em 2000, rompimento total do tendão patelar do joelho direito: quinze meses de gancho e a sentença proferida por muitos boleiros afoitos de que jamais voltaria aos gramados. Não só voltou, pelas mãos de um sábio Felipão, como foi fundamental para a conquista do penta. Depois disso, ainda sofreu rompimento total do tendão patelar do joelho esquerdo – para variar –, ausentando-se dos campos por mais treze meses. Além dessas, sofreu outras contusões menores. Voltou sempre.

Foi até o limite, até não dar mais. Até se convencer de que o corpo não mais executava a jogada genial que a mente antecipava. Até o fatídico dia de hoje, quando, como diria Falcão, morre pela primeira vez. Ou, como ensina o filósofo da bola Sócrates Brasileiro, cede à realidade de que, mesmo não abandonando o futebol, o futebol o abandonou.

Salve, Ronaldo Nazário de Lima, um dos maiores atacantes da história do futebol. Surgido Ronaldo, tornou-se Ronaldinho na Copa de 94 para se diferenciar do xará zagueiro, que virou Ronaldão. Adiante, voltou a ser Ronaldo para se diferenciar do outro Ronaldinho, o Gaúcho. Seja lá o nome que se lhe dê, basta o apelido, justo: Fenômeno.

Não verei mais Ronaldo nos campos. Não torcerei mais por ele pela televisão ou nas arquibancadas do Pacaembu. Meu consolo é que, independentemente da aposentadoria, continuarei a convocá-lo para a seleção dos melhores que vi jogar.


* Dependendo da fonte, Ronaldo aparece como o segundo ou o terceiro maior artilheiro da seleção brasileira, atrás de Zico. Dependendo da fonte, é considerada apenas a seleção principal ou também as seleções de base.

16/01/2011

Ajuda às vítimas das chuvas no Rio

Quem quiser ajudar as vítimas das chuvas na região serrana do estado do Rio de Janeiro, depósitos podem ser feitos nas seguintes contas do Banco do Brasil:

Teresópolis:
Agência: 0741-2
Conta: 110000-9

Nova Friburgo:
Agência: 0335-2
Conta: 120000-3

Petrópolis:
Agência: 0080-9
Conta: 76000-5

13/01/2011

Chuvas, pequenez e grandeza

São desoladoras, apesar de recorrentes, as imagens de pessoas perdendo o patrimônio, a família, os amigos e a própria vida com as fortes chuvas que caem sobre o sudeste. No estado de São Paulo, além da capital, Atibaia e Franco da Rocha são as cidades que mais sofrem com a destruição. No Rio, é a região serrana, especialmente as cidades de Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo. Com as chuvas, volta, pela enésima vez, a pergunta: até quando?

Até quando a união de fenômeno natural – em muito previsível! –, ocupação desordenada e inação do poder público produzirão resultados trágicos? De catástrofe em catástrofe, dos deslizamentos registrados pelas TVs na década de 1980, passando pelo Morro do Bumba e pelo Jardim Pantanal em 2010, até chegar aos mais de 300 mortos registrados nesta semana – por enquanto! –, as chuvas de início de ano no sudeste continuam a produzir resultados trágicos, mas, infelizmente, banalizados. Detalhe: trata-se da região e dos estados mais ricos do Brasil!

No caso do Rio de Janeiro, interessante foi a indagação feita pelo senhor Moacyr Duarte, especialista em gerenciamento de riscos, feita em um programa de televisão: A vitória inesperada sobre o tráfico no Morro do Alemão se choca com mais uma derrota anunciada para as chuvas. Será que os fluminenses conseguirão partir para a virada também nesse front?

Alguns sentimentos surgem desses fatos. Desolação e tristeza por tanto sofrimento. Impotência diante da força da natureza e da inação dos homens e governos. Descrença ante à recorrência das tragédias e a falta de atitudes fortes, definitivas.

A cena da senhora sendo resgatada na cidade de São José do Vale do Rio Preto (RJ) é chocante, além de paradigmática (ver vídeo em http://g1.globo.com/videos/bom-dia-brasil/v/imagens-mostram-resgate-dramatico-em-sao-jose-do-vale-do-rio-preto-rj/1409724/). Ela resiste sobre os escombros da sua casa, rodeada por cachorros, em meio à rua tornada rio pelo impressionante volume de água acumulada. Na undécima hora, agarrou-se com uma mão na corda que lhe fora jogada de um edifício em frente e, com a outra mão, tentou carregar um dos cães. A pressão da correnteza foi tão grande que a mulher se viu obrigada a sacrificar o animal para que segurasse a corda com as duas mãos. Aos poucos, com muito sacrifício, foi içada até a sacada do edifício e definitivamente salva.

A cena é extraordinária por revelar muito da pequenez e da grandeza da nossa condição humana. A pequenez diante da natureza e a grandeza da coragem em lutar pela vida. A pequenez dos governantes que se eximem de tomarem medidas rígidas e necessárias e a grandeza dos que se arriscam para resgatar um semelhante. A pequenez da indiferença em relação à exigências que a natureza faz para que seja explorada e a grandeza de pensamento dos que rezaram, gritaram e torceram pelo sucesso do salvamento.

Como a senhora do resgate, outros brasileiros resistem, buscam desesperadamente pela própria sobrevivência. Com a ajuda de outros, da sorte, de Deus, quem sabe, às vezes conseguem. Lamentam as perdas, agradecem o socorro e buscam reconstruir a vida. Só que no próximo ano, em uma cena muito parecida, podem se juntar à contabilidade de vítimas fatais caso não consigam, uma vez mais, segurar firme na corda.

12/01/2011

Geraldinho


Geraldinho Nogueira, mais conhecido simplesmente como Geraldinho, foi um excepcional contador de causos. Fazia esplendidamente o tipo caipira. Foi descoberto artisticamente por Hamilton Carneiro e José Batista, no ano de 1984. Faleceu em 1993.

No vídeo abaixo, Geraldinho conta o "causo da bicicleta" no programa Som Brasil, da Rede Globo, na época apresentado por Lima Duarte. Vale a pena conferir.


20/12/2010

Escondendo Marina

A Folha de S.Paulo publicou matéria sobre o evento realizado no Palácio do Planalto para registro em cartório de documento com um balanço dos 8 anos de governo Lula. Ministros e ex-ministros estiveram presentes. Na cobertura dos principais jornais, muito destaque para a participação de José Dirceu, quase nenhum para a de Marina Silva. Quanta imparcialidade!

A propósito, muito boa a carta de Nabil Bonduki, abaixo, publicada no Painel do Leitor da Folha de S.Paulo de ontem.

Marina e Dirceu

Por que a Folha deu muito mais destaque para José Dirceu do que para Marina Silva na matéria (Poder, 16/12) sobre o encontro de ex-ministros com Lula? A presença de Marina foi indiscutivelmente o fato político mais importante do evento; seu abraço no presidente é de longe mais significativo que o de Dirceu em Pallocci, foto principal da matéria.

Sem nenhum destaque, Marina aparece no final de pequena matéria dedicada aos participantes do famoso caso da bolinha de papel, que nada tem a ver com ela. Na única foto em que (não) aparece, está de costas, irreconhecível, fazendo anotações pessoais. É visível a preocupação em obscurecer sua presença, que talvez ganhasse destaque se falasse algo que a indispusesse com Lula.

Péssimo jornalismo, que esconde dos 20 milhões de eleitores de Marina sua dignidade e respeito ao governo de que participou.

Nabil Bonduki, São Paulo

14/12/2010

Da favela à Esplanada

A matéria abaixo, publicada na Folha de S.Paulo do último domingo, 11/12/2010, retrata um pouco da vida de Marivaldo de Castro Pereira, atual secretário nacional da Reforma do Judiciário. O Valdo, como é mais conhecido, esteve em Birigui, minha terra natal, algumas vezes por conta da assessoria que prestava ao deputado - e futuro Ministro da Justiça - José Eduardo Cardozo. Valdo é um grande exemplo de capacidade, como pessoa e como profissional. O texto é do jornalista Uirá Machado.
João.

***

Com sua trajetória, o atual secretário nacional da Reforma do Judiciário nos dá uma verdadeira lição de vida. Acompanhem o depoimento de Marivaldo de Castro Pereira à Folha:


Marivaldo de Castro Pereira, 31



(…) Depoimento a Uirá Machado

Às vezes, voltando da escola com os colegas, eu encontrava meu pai caído no caminho de casa, bêbado. Isso dava muita vergonha.

Meu pai tinha problema com álcool, batia na minha mãe. Ele torrava tudo com bebida e não deixava minha mãe trabalhar. Às vezes a gente tinha que pegar resto de comida no fim da feira.

Tudo isso aconteceu já em São Paulo, mas eu nasci em Brasília. Meus pais são de uma cidade chamada Correntina, no interior da Bahia.

Eles vieram para Brasília em 1977 em busca de emprego, e eu nasci dois anos depois. Meu pai começou a trabalhar como pedreiro. Quando tiveram o quarto filho, a vida ficou difícil, então eles decidiram tentar São Paulo. Eu tinha quatro anos.

Meu pai conseguiu um barraco num terreno em Pirituba [periferia de São Paulo]. Era um barraco mesmo, de madeira, precário. Eu só fui morar numa casa de alvenaria depois que meus pais se separaram e me mudei com a minha mãe para o Jaraguá [também na periferia de SP].

Eu tinha oito anos. Minha mãe começou a trabalhar de diarista para sustentar os quatro filhos. Ela sempre foi trabalhadora e colocava a gente em primeiro lugar.

Comecei a trabalhar com nove anos, na feira. Foi um período bacana, porque eu tinha autonomia para comprar alguma coisinha.

Eu trabalhava e estudava. Minha mãe nunca admitiu que a gente não estudasse. Todos os meus irmãos conseguiram concluir o ensino superior. Minha mãe é bem orgulhosa — ela só completou ensino básico e médio quando eu já estava na faculdade.

Como eu estudava em escola pública, não tinha perspectiva de entrar em uma universidade. Tinha professor que dizia: “Vai tentar a USP? Esquece, compra um jeans que é mais vantajoso”.

Antes da faculdade, trabalhei numa fábrica de acendedor de fogão, depois como ajudante de pedreiro, como contínuo em uma farmácia, como “boy” interno numa concessionária de veículos.

Foi na concessionária que ouvi falar do Cursinho da Poli [pré-vestibular voltado para alunos carentes]. Trabalhava das 8h à 18h e depois ia para o cursinho. No segundo semestre de 1997, comecei a trabalhar das 6h às 15h. Chegava mais cedo na aula e cochilava um pouco.

Quando veio o vestibular, tomei uma porrada. Não passei, fiquei muito mal. O que me ajudou foi o rap, sobretudo os Racionais MC’s. A música que mais me marcou foi “Negro limitado”.

Para levantar a cabeça, ouvi rap e prometi não dormir mais antes da aula. Eu acordava às 5h30, trabalhava das 6h às 15h, estudava e chegava em casa depois da meia-noite. Foi assim o ano inteiro, mas valeu a pena.

Entrar na USP mudou minha vida. Ninguém imagina o que é entrar na universidade pública quando você vem da periferia. É um outro mundo, muitas portas se abrem.

A escolha pelo direito eu fiz no cursinho. Estava em dúvida, porque gostava muito de engenharia mecânica, mas a militância política direcionou minha opção. Busquei o direito porque achava que poderia ajudar a transformar a sociedade.

Na faculdade, eu me sentia um estranho no ninho, eu tinha preconceito e também sofria preconceito, mas aos poucos fui me enturmando.

A minha turma quis se dar um nome. A gente formou o “100% Favela”, com camiseta e tudo. Não eram todos da favela, só alguns, mas aquilo era legal, era uma provocação para a galera mais esnobe da faculdade. Minha ideia era politizar todo mundo.

Na vida acadêmica, me envolvi com política estudantil e trabalhei assessorando movimento de moradia. Trabalhei com José Eduardo Cardozo, que era vereador [pelo PT] naquela época [agora escolhido para ser ministro da Justiça no governo Dilma].

Ao sair da faculdade, tentei advogar, mas foi um desastre. Eu só advogava para gente pobre e acabava pagando para trabalhar.

Em 2005, voltei para Brasília, onde tudo começou. Quem me chamou foi o Pierpaolo [Bottini], quando virou secretário da Reforma do Judiciário. A gente se conheceu na faculdade, atuando no movimento de moradia.

Assumi o Departamento de Política Judiciária, depois a sub-chefia para Assuntos Jurídicos da Casa Civil e, agora, a Secretaria Nacional da Reforma o Judiciário.

O grande objetivo é aproveitar a experiência que eu tive na Casa Civil e aproximar a política de acesso à Justiça das demais políticas sociais.

A minha história me permite entender o sofrimento das pessoas com pouco dinheiro e compreender que toda política pública precisa levar os mais pobres em consideração. A vida de quem está na pobreza é muito difícil. Quem nasceu com dinheiro nem imagina quanto é difícil.

08/12/2010

Dia 8 de dezembro, dia da música


No dia 8 de dezembro de 1980, portanto, há exatos 30 anos, John Lennon foi assassinado em frente ao edifício Dakota, em Nova York.



Também no dia 8 de dezembro, mas do ano de 1994, também em Nova York, morreu Tom Jobim, um dos maiores músicos brasileiros e de todo o mundo.

É impossível não relacionar o dia 8 de dezembro à música. Muito embora, considerando as perdas de Lennon e Tom, talvez faça mais sentido relacionar a data ao silêncio.

Strawberry Fields, área do Central Park que homenageia Lennon
Edifício Dakota

03/12/2010

Woody Allen e Paul McCartney no YouTube

Depois de pelejar um pouco, aprendi a colocar vídeos no YouTube. Coloquei dois vídeos feitos pela Aline. Um, do show do Paul McCartney, no Morumbi. Outro, do Café Carlyle, em Nova York, quando assistimos à apresentação de Woody Allen e a banda de jazz de Eddy Davis.

De agora em diante, será um vídeo atrás do outro.

Vale a pena conferir: www.youtube.com/JFQuirino

25/11/2010

Terra da música linda

A chegada foi complicada, a fila era quilométrica, encontrar um táxi para voltar, uma tarefa hercúlea. Do instante em que saí rumo ao estádio até o momento em que cheguei em casa foram-se quase 12 horas! Para piorar, o dia seguinte era dia de trabalho. Minha única vantagem é que no domingo, quando assisti ao show, não choveu, diferentemente da segunda. Todas as dificuldades, porém, não tiraram em nada a beleza e a emoção proporcionadas por essa lenda chamada Paul McCartney. Quando cheguei em casa, às 2 da matina, o sorriso ia de orelha a orelha, e ainda tive disposição para escutar um cd dos Beatles e ver as fotos tiradas durante a apresentação.

Mesmo sabedor de sua condição de mito, “Sir” Paul esbanja simpatia e simplicidade. Aliás, é um gigante da música também por isso. Ao chegar ao Morumbi, ainda à tarde, Paul revelou-se da janela do carro que o levava e acenou às milhares de pessoas que formavam a imensa fila. Durante o espetáculo, a postura não foi diferente. Paul cativava o público, esboçava frases em português, muitas vezes lidas em textos colados no chão. “Tudo ótimo?”, perguntou, num carregado sotaque britânico. “Tudo!”, foi o grito sincero ecoado da multidão de fãs.

Quando Paul cantou All My Loving, a impressão foi de ter ocorrido um terremoto. Tive a sensação de que testemunhava um acontecimento inexplicável, histórico, lendário, mágico, antológico, sei lá. Como se Beethoven, em pessoa, executasse a Nona Sinfonia ou Elvis Presley, ressuscitado – se é que morreu –, cantasse Love Me Tender. Creio que a maioria das pessoas ali presentes, eu inclusive, aprenderam a conceber os Beatles como uma banda mítica, além da realidade, própria do mundo dos deuses. No entanto, ali estava, em carne, osso e voz, um daqueles garotos de Liverpool. E os 68 anos do ídolo não lhe tirou o status (perpétuo?) de garoto. A presença de McCartney produziu em nossas retinas e mentes uma viagem a um passado real ou idealizado (para quem não o viveu de fato): de repente, estávamos todos nos revolucionários anos 60.

A aura mágica do show persistiu durante todo o tempo. Quando Paul foi ao piano de cauda e cantou The Long And Winding Road e, mais adiante, Let It Be. Quando, em um outro piano, ao estilo psicodélico de Magical Mistery Tour, tocou e cantou Hey Jude. Quando assumiu a postura de roqueiro e executou, auxiliado pela ótima banda, Day Tripper, Get Back, Helter Skelter. Quando partiu para as baladas ao violão: And I Love Her, Blackbird, Yesterday. Quando “explodiu” o palco com Live And Let Die. Quando homenageou sua gatinha Linda (My Love), seu amigo John (Let Me Roll It e Give Peace a Chance) e seu amigo George (Something).


Em determinado momento, Paul se referiu à satisfação de retornar ao Brasil, emendando: “Brasil, terra da música linda”. A frase não era demagógica. É sabido que McCartney aprecia a música brasileira. Tanto que foi conferir apresentação de “nosso” Ivan Lins em Nova York, em 2001, quando do lançamento do disco “Jobiniando”. Tanto que, na apresentação da segunda-feira, brincou com a platéia por conta da chuva, emendando um “chove, chuva”, conhecida música de Jorge Benjor. E, se o ex-beatle aprecia a música brasileira, não é menos verdade que nossa música sofreu influência do grupo. Gilberto Gil, por exemplo, confessou que os tropicalistas miravam-se diretamente nos Beatles e o rock da Jovem Guarda também sofria influência direta da banda inglesa. Ou seja, influência que atingiu, ninguém mais, ninguém menos, que Caetano, Gil, Gal, Betânia, Mutantes, Erasmo, Roberto Carlos.

Aliás, há que se contar nos dedos quem, no Brasil ou fora dele, faz música boa e não sofreu influência dos Beatles. No caso específico da passagem do rock ao pop, a banda foi uma das principais, senão a principal ponte. Impulsionaram o estilo nascido nos anos 1950, com Elvis, desenvolvendo-o ao longo da carreira, nos anos 60. Com o psicodelismo, com a influência de sons indianos, com experimentalismos que levaram a um esboço do que viria a ser a música tecno (ex: o trecho final de A Day in The Life) ou do heavy metal (ex: Helter Skelter é som da pesada).

 
 
Só que a riqueza dos Beatles não se limita à música. Assim como expressam como ninguém as inovações musicais dos anos 60, também sintetizam de forma ímpar a revolução cultural e comportamental dessa época. O “princípio” do sexo, drogas e rock’n roll está intimamente ligado à imagem da banda: liberdade sexual e de comportamento, crítica às posturas tradicionais, valorização dos jovens em sua busca por uma identidade própria, crítica aos dogmas religiosos, crítica à cultura de guerra, busca por espiritualidade, etc., tudo isso, de uma forma ou de outra, aparece na extensa obra beatleniana. A propósito, vai além do grupo: com as mensagens de paz, amor e liberdade de John e Paul, ou mesmo na militância deste, às vezes ridicularizada, em defesa do vegetarianismo e pela proteção aos animais.

Em suma, se há uma revolução musical nos Beatles, também há bandeiras por uma revolução cultural e comportamental. Isso explica porque os “beatlemaníacos” renovam-se a cada geração. Porque no show antológico do Morumbi havia 64 mil pessoas, de 14 a 80 anos, cantando, absolutamente comovidas, encantadas.

McCartney está certo: o Brasil é a terra da música linda. De uma outra forma, muito especial, também o foi nesse dia inesquecível em que tive o privilégio de vê-lo cantar.

Sim, Sir Paul: está tudo ótimo!

11/11/2010

Pitacos

José e Pilar

Assisti ontem ao filme "José e Pilar", documentário que retrata a vida cotidiana do escritor português José Saramago e sua esposa Pilar Del Rio. Sou suspeito, já que me considero um "saramaguista", fã da pessoa e da obra de Saramago, mas posso dizer: o filme é imperdível! A discussão dos dois em defesa de Hillary Clinton (Pilar) e de Obama (Saramago) é simplesmente antológica.

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Tropa de Elite 2

Outro filmaço - com muito mais ibope, diga-se de passagem - é "Tropa de Elite 2". Na minha singela opinião, é muito melhor que o primeiro e, quiçá, o melhor filme brasileiro desde "Cidade de Deus". O Capitão Nascimento passa por uma crise de visão de mundo por perceber que seu maior inimigo, "O Sistema", é bem maior e mais complexo do que imaginava. Muito embora o diretor José Padilha e o ator Wagner Moura reprovem a interpretação, o fato é que o Capitão Nascimento assemelha-se sim a Rambo no "Tropa 1", o que não acontece no filme continuação.

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Casamento Gay
Engraçada a ideia lançada nas eleições por José Serra e Marina Silva acerca do casamento gay. Ambos defendem a união de direitos entre os homossexuais, mas também que casamento é um conceito religioso, alheio à esfera política. Como o termo "casamento" consta de parágrafos do artigo 226 da Constituição Federal, pergunto: a nossa Carta Magna é uma regulamentação normativa da Bíblia ou o fundamento jurídico-legal do nosso Estado, pretensamente laico?

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Imprensa: nem golpista, nem vítima
Quem assiste aos noticiários acaba convencido de que a imprensa - a mídia, para usar o termo corrente - está à mercê da censura no Brasil. Quem vê, pensa. Mas não dizem que concessão pública - toda e qualquer, menos os meios de comunicação - é passível de controle público, além de não abordarem as diferenças entre liberdade de opinião e liberdade de imprensa, tratando as duas como se fossem a mesma coisa. Que o diga a psicóloga Maria Rita Kehl que, ao defender sua opinião, perdeu a coluna que tinha no Estadão; ou seja, a liberdade de opinião da psicóloga chocou-se com a liberdade do jornal em propagar um pensamento único. Justamente o jornal que sofre, de fato, uma censura judicial relativa à proibição de noticiar fatos sobre Fernando Sarney. O que penso: a imprensa não é golpista, mas enviesada; por outro lado, de coitada tem muito pouco. 

14/10/2010

Feliz dia das crianças


Uma das imagens mais comoventes, dentre tantas, do resgate dos 33 mineiros chilenos que ficaram soterrados a 700 metros de profundidade, durante 68 dias, foi registrada no momento em que o filho de Florencio Avalos, o primeiro a sair, começou a chorar ao perceber que o pai estava a salvo. Um momento de emoção e alegria que não se restringiu aos chilenos, espalhando-se mundo afora, quando milhões (ou seriam bilhões?) de pessoas angustiadas presenciaram o sucesso da operação, com os olhos marejados, mas profundamente contentes. Em frente à TV, quantos não se regozijaram ao assistir um homem saindo de uma cápsula esquisita chamada Fênix e ser abraçado pelo filho?!


Apesar da dramaticidade extrema da situação, foi um momento raro de solidariedade humana em escala planetária, em que todos fomos um pouco chilenos, um pouco socorristas, um pouco familiares aflitos, guardiões da mais intensa esperança.


O dia do resgate foi 13 de outubro. Mesmo com um dia de atraso, quero desejar feliz dia das crianças àquele garoto, bem como às demais crianças que brincavam com homens vestidos de palhaços, à espera do reencontro com pais, avôs e tios.

09/10/2010

Desabafo

Quem quer ser presidente para defender “valores cristãos” não pode criticar o presidente de outro país que diz defender “valores muçulmanos”. Defender a democracia pressupõe a defesa do Estado laico. Liberdade religiosa pressupõe a convivência de todas as religiões e de quem nelas não crê. Senão, o que há é uma ditadura religiosa que impõe a sua moral particular, ainda que majoritária, a quem dela não compartilha. Pelo amor de Deus, deixem Deus fora das eleições! Abaixo a constituição de uma república fundamentalista cristã! Fazer das eleições um falso plebiscito sobre o aborto é imbecilizar o debate, indigno de quem se acha tão esclarecido em meio a pobres ignorantes. Sou democrata: respeito o pluralismo e a convivência de todos os credos. Sou cristão: sigo o princípio de dar a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.

07/10/2010

Enquetes

Vote nas enquetes abaixo:

2º Turno: Se a eleição fosse hoje, em quem você votaria para Presidente, Dilma ou Serra?
Para votar, acesse: http://www.politiqas.blogspot.com/

Quem será o campeão brasileiro de 2010?
Para votar, acesse: http://www.ludopedicas.blogspot.com/

01/10/2010

A ligação de Serra, a mídia e a democracia

Notícia na Primeira Página da Folha de ontem: “Após ligação de Serra, Mendes para julgamento de ação movida pelo PT”.

Pergunto aos tucanos: e agora, não há ameaça à democracia? Ou isso só existe quando o ato é praticado por Lula?

E pergunto aos petistas: e agora, não há golpismo da mídia? Ou isso só existe quando a notícia é contra Dilma?

* Texto publicado no Painel do Leitor da Folha de S.Paulo, hoje, 01/10/10.

30/09/2010

Formas diversas de defender a democracia e a liberdade de expressão

O presidente da OAB/SP Luiz Flávio Borges D’Urso, em nome da democracia e da liberdade de expressão, participou de dois “fronts” recentemente. Esteve no ato que lançou o “Manifesto em Defesa da Democracia”, que aponta o presidente Lula e seu governo como ameaças às instituições democráticas, e entrou com ação para proibir a exibição da série “Inimigos”, do artista Gil Valente, na Bienal de São Paulo, sob a alegação de que a obra faz uma apologia ao terrorismo. Juro por tudo o que é mais sagrado que também me são caríssimas a democracia e a liberdade de expressão, não obstante, tenho posição absolutamente distinta da do senhor D’Urso em ambas as “causas”. Sobre o ato, acho um exagero, uma tempestade em copo d’água, não conseguindo enxergar nem de longe que a democracia e a liberdade de expressão estejam em risco no Brasil. Pelo contrário, a ascensão social de camadas mais baixas observada nos anos Lula contribui sobremaneira para a democracia; pelo menos, para quem vê esse regime sob a ótica social, não apenas formal. Quanto à proibição (censura?) das obras artísticas, há que se atentar aos argumentos do presidente da OAB/SP, a seguir.

Em artigo publicado na Folha de S.Paulo, de 25/09/2010, intitulado “A lei veda a liberdade absoluta”, D’Urso defende que a liberdade inerente à democracia não pressupõe ausência de limites ao comportamento dos indivíduos. O argumento segue o senso popular segundo o qual o direito de um vai até onde acaba o do outro. Assim, tratando-se de obras artísticas, a liberdade de criação, desde que restrita à esfera exclusivamente privada, não pode ser cerceada; porém, quando tornadas públicas, colocadas ao alcance das pessoas, não podem atentar contra o outro (contra sua honra, sua moral, sua integridade, etc.). Da mesma forma, exemplifica o presidente da OAB/SP, que não é possível permitir a exibição de filmes pornográficos em rede aberta de televisão, assistida inclusive por crianças, sob a aura da liberdade de expressão ou da arte. Ninguém, inclusive os mais poderosos, nem nada, inclusive a arte, pode estar acima dos ditames da lei.


Gil Vicente

Muito bem, até aí concordamos em gênero, número e grau. Discordo, entretanto, do entendimento específico sobre a obra de Gil Vicente. Afirma D’Urso: “(...) entendo que a série “Inimigos” não deveria integrar essa mostra [Bienal de São Paulo]. Isso por fazer apologia ao crime, atacar a dignidade dos representados e atentar contra as instituições democráticas, representada pelo Presidente da República, entre outras figuras públicas internacionais, como o papa Bento 16”. Não vejo apologia ao crime, nem ataque à dignidade dos representados, muito menos contra as instituições democráticas. Aliás, quanto a esta última, parece-me mais um sintoma da síndrome de exageros que vitimou alguns dos nossos doutos juristas, somando-se ao enquadramento do presidente Lula como fascista, imputado por José Carlos Dias e Miguel Reale Júnior.

No tocante à apologia ao crime, bem, proibamos todos os filmes de Sylvester Stallone, Jean Claude Van Damme e congêneres, quase todos os funks cariocas, os videogames, etc. Essa discussão já não havia sido superada? É o velho pensamento de que o público não sabe distinguir representação artística de realidade e precisa, coitado, da tutela do Estado para que não faça nenhuma bobagem. Data máxima vênia, enxergar apologia ao crime pelo simples fato de que as ilustrações mostram o próprio autor assassinando personalidades conhecidas, além de cercear uma forma legítima de expressão do artista, também pressupõe uma inteligência assaz diminuta do público e de sua capacidade de exercício da cidadania. A propósito, alguém imagina uma pessoa induzida a matar Lula ou FHC, influenciada pelas ilustrações de Gil Vicente? Ou, pior, que esta seja a pretensão do artista com sua obra?

Sobre a dignidade dos representados, muito embora não pense que a personalidade pública – ou, para usar um jargão atual, a celebridade – é sempre pública, 24 horas por dia, não acredito que a obra se refira aos indivíduos, mas à sua representação pública. Daí, não se referindo à pessoa da celebridade retratada, mas à sua representação pública, que afeta a todos, passa a ser legítima a crítica que a obra busca atingir. Sim, Lula, FHC e o papa Bento 16 merecem respeito. Contudo, o que Gil Vicente faz é trabalhar com as figuras, as imagens públicas dessas pessoas, não atingindo seus indivíduos propriamente.

Quando vi algumas dessas ilustrações, lembrei-me de Andy Warhol, sua genial Pop Art, com a qual tomava os rostos de celebridades como Pelé, Marilyn Monroe e Mao Tsé-Tung, misturava-os às imagens de Mickey Mouse e/ou de uma garrafa de Coca-Cola, demonstrando que tais imagens constituem ícones, onipresentes na retina e no imaginário da nossa sociedade contemporânea: sociedade do espetáculo, sociedade de massas, sociedade das mercadorias e da publicidade, sociedade das imagens. Ou seja, o rosto de uma celebridade extrapola seu próprio indivíduo e passa a ser reconhecido e reproduzido em todos os cantos. Passa a fazer parte do mundo real e imaginário de todos. Veja o exemplo da famosa foto que Alberto Korda fez de Che Guevara, hoje vista até em bandeiras de torcidas de futebol.

Aliado a isso está o sentimento de explosão frente à ordem constituída, também representada nos líderes políticos retratados por Gil Vicente. Se D’Urso aponta a necessidade de preservação das instituições democráticas, a crítica a elas é direito legítimo a constar da própria democracia. Eis a crítica do artista, como que a dizer – igual, aliás, ao que pensa o cidadão comum, em um dos muitos momentos de frustração com as instituições e pessoas que as dirigem – “quero que morra esse Bush, essa rainha Elizabeth, esse Ariel Sharon!”. Na verdade, nem Vicente, nem ninguém, se propõe a matar alguém fisicamente, mas sua representação pública, sua imagem, a estrutura política e institucional em que se sustentam. Negar o direito a esse protesto é negar o mínimo de vazão das decepções constantes que têm a quase totalidade dos cidadãos, além de afirmar algo falso: que para ser democrático é preciso aceitar as coisas como estão, sem que possam ser transformadas ou mesmo subvertidas.

Eis a minha discordância em relação ao presidente da OAB/SP. Mas, em nome da democracia e da liberdade de expressão que, cada um da sua forma, procura defender, faça-se a discussão. Por ora, enquanto não há decisão judicial proibitiva, tomo a liberdade de exibir algumas das imagens da série “Inimigos”.








Em tempo: em 2008 foi exibido nos cinemas de São Paulo e do Rio o filme “A morte de George W.Bush”, do inglês Gabriel Range. O filme tratava justamente disso: do assassinato (fictício) do ex-presidente americano, personalidade também retratado por Gil Vicente. Não me lembro de nenhuma ação intentando proibir a exibição da película.

* Também postado em www.qultural.blogspot.com

29/09/2010

Para não dizer que não falei do pleito


A poucos dias das eleições, faço algumas observações sobre esta campanha eleitoral, no meu modesto entendimento, a mais pobre em conteúdo desde o retorno das eleições diretas em 1989. Triste contradição: quanto mais ricas as campanhas ficam em dinheiro, mais pobres se mostram em ideias e debate de programas e estratégias. O “marquetismo” – desculpe o palavrão, na falta de conceito melhor – tomou conta da política propriamente dita, buscando o seduzir o eleitor na mensagem rápida, sem muita reflexão, a partir das emoções mais profundas aliadas às impressões mais superficiais e generalizantes. Dessa forma, o confronto de ideias em torno de programas para educação, cultura, saúde, segurança, etc., cede ao diz-que-diz sobre quem fez mais ou menos, quem é o “pai” do plano de nome conhecido, quem é mais “sensível” aos problemas do povo. Os dados concretos são trocados pelas impressões imediatas, a visão estratégica para o país é relevada em prol do sorriso do candidato, da vestimenta da candidata, da competência em passar ao eleitor que são “confiáveis”.

Nessa troca do debate pela superficialidade marqueteira, não dá para aliviar a responsabilidade dos próprios políticos. Foi simplesmente lamentável ver Lula e Dilma posando de “pai” e “mãe” dos brasileiros, ao som de um jinglezinho que dizia “deixo em suas mãos o meu povo”. Como assim, viramos objeto? Deixamos de ser cidadãos, se é que o éramos? Eu quero a minha mãe, a de verdade! Simplesmente ridículo, ainda por cima tratando-se de um partido que ajudou sobremaneira na participação política de camadas antes totalmente marginalizadas. A propósito, quanto às críticas de afronta à democracia sofridas pelo PT, é bom que se lembre que democracia não constitui apenas respeito a regras e instituições formais, mas também em participação efetiva de todos os estratos da sociedade, não apenas de suas classes média e alta. Neste sentido, o PT tem muito mais a dizer do que seus opositores. Não obstante, posar de “pai” e “mãe” do povo nega a condição de cidadania, infantiliza a população, afunda a noção de republicanismo e desconstrói a história de politização que marcou o próprio PT. Lamentável.

Assim como foi lamentável o zigue-zague de Serra, um homem público com histórico de respeito, ora como Zé, ora o amigão da dona Maria e do seu Antonio, coitadinhos, ora como um candidato que “pode mais”, ora como raivosa reencarnação de Lacerda, vociferando contra o PT, Dilma, Zé Dirceu, Míriam Leitão, Banco Central independente, CBN, Evo Morales, FARC, Ahmadinejad e o que mais viesse pela frente. Contra Lula, bem, aí só pela tangente, às vezes até fazendo um elogio velado, à mercê do escudo de popularidade do presidente. Quanto a FHC, não se fala nem bem, nem mal. Aliás, o PSDB parece perguntar: quem é FHC mesmo?

Também não se pode dizer que foram edificantes as participações da imprensa e dos chamados intelectuais nesta campanha. Acerca destes, os poucos que mantêm uma postura de distanciamento, pouco contribuíram na produção de um debate que já nasceu moribundo; os tantos outros, os engajados, contribuíram bastante para tornar esse mesmo “debate” um festival de asneiras, repleto de expressões fortes, à guisa de xingamentos, mas nada esclarecedoras quanto à “realidade efetiva das coisas”, nos termos de Maquiavel. Mexicanização, peronização, priização, golpismo midiático, fascismo foram algumas das expressões fortes, porém tão abestadas quanto o Tiririca no intuito de dar azo de seriedade à campanha eleitoral.

Já a imprensa, muito embora nosso “pai” tenha falado um pouco além da conta – aliás, mantendo uma tradição de 8 anos –, colocou-se numa posição exagerada de vítima, como se sua liberdade (palavra surrada pelo uso excessivo) estivesse verdadeiramente em risco. Assim, num surto narcisista e como se o Brasil de Lula estivesse a copiar a Venezuela de Chavez ou mesmo a Argentina dos Kirchner, passou a falar mais de si do que das propostas e perspectivas para o país nos próximos quatro anos. Fulano ou sicrano, instituição X ou Y “defendeu a liberdade de imprensa” passou a ser presença cativa nas manchetes principais. Sim, o assunto é relevante – liberdade de imprensa, liberdade de expressão, liberdade de opinião, que, destaque-se, não são a mesma coisa – e compromete a democracia. No entanto, cá entre nós, alguém está realmente preocupado a instalação de alguma ditadura?

Confesso que, apesar do gosto que tenho pela política, não consegui me ater muito a esta campanha. Quem sabe, até mesmo por isso: a política, propriamente, esteve ausente dela.

***

Trocando debate por denuncismo e as conversas para boi dormir

Nesta campanha, o debate foi, uma vez mais, trocado pelo denuncismo. Vale dizer, os casos da quebra de sigilo na Receita Federal e, principalmente, do tráfico de influência na Casa Civil, merecem destaque, sim. Óbvio! Porém, trocar toda a discussão sobre o governo nos próximos quatro anos pelo tom moralista quase exclusivo não deixa de ser uma perda grave para a democracia. Apesar do mote corrente segundo o qual “é tudo a mesma coisa”, há diferenças importantes entre as principais candidaturas e, por conseguinte, diferenças importantes sobre os rumos do país a depender de qual candidato saia vencedor das urnas. No caso de haver segundo turno a reboque das denúncias da Casa Civil – repito: não nego a importância do fato –, somado à experiência de 2006, em que Geraldo Alckmin foi alçado ao segundo turno em boa medida alçado pelo caso dos “aloprados”, a mensagem será clara: os escândalos e sua exploração em denúncia constante trazem resultado eleitoral. Ainda que não necessariamente leve à vitória final do denunciante.

Outro fator a provocar perda de conteúdo nas discussões sobre os destinos do Brasil é a exploração de factóides. E que seja debitada a culpa aos partidos em disputa e à imprensa, que bem poderia dar o devido peso às coisas. Dois factóides, ou, se preferir, conversas para boi dormir, são o “golpismo midiático” saído da boca revoltosa dos petistas e a “ameaça à democracia” denunciada aos brados por demo-tucanos. Não é inventando problemas que o Brasil não tem, ou, no mínimo, elevando-os à última potência, que partidos, imprensa, intelectuais e os componentes vários da chamada “opinião pública” (essa entidade etérea) trarão os melhores benefícios ao país. Mas, sim, discutindo as questões que realmente têm importância na problemática democracia brasileira. Problemática, porém real.

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O Legislativo além dos abestados

Antes das eleições, alguns parlamentares, digamos, melhor conceituados no quesito fluido “qualificação” desistiram da disputa nas urnas. O argumento: estavam fartos da sina de trabalharem duro no Congresso e serem pegos na taxação generalizante de que “político é tudo igual e é tudo corrupto”. Entre eles, José Eduardo Cardozo (PT-SP) e Ibsen Pinheiro (PMDB-RS). Confesso que fiquei órfão de candidato com a desistência de Cardozo, em quem votei nas duas últimas eleições.

Somada à ausência dos “qualificados” veio a enxurrada de “abestados”, celebridades e afins, tomando conta da campanha para a Câmara dos Deputados. Tiririca é o principal expoente desse “grupo”, devendo ser eleito o deputado mais votado do Brasil.

Infelizmente, centralizadas as análises nessa discussão monocórdica entre preparados e despreparados, qualificados e desqualificados, outros pontos vão passando em branco. Cito dois.

Primeiro: além de lamentar a avalanche de abestados é preciso perceber o quão premente é a reforma do sistema eleitoral. Do jeito que está, as regras são um convite a qualquer partido para convocar seus titiricas, maguilas e mulheres-pêra que, à guisa de protesto, trazem votos suficientes para gerar cadeiras adjacentes a  que, por si sós, partidos e coligações não conseguiriam. Que tal discutirmos a sério o voto em lista, o voto distrital ou o misto logo que 2011 chegar?

Segundo: um outro grupo, muitíssimo menor é verdade, não teve a visibilidade merecida pelas reportagens e comentário de analistas. Refiro-me ao grupo dos que deixaram de reclamar da política e dos políticos e se arriscaram, eles próprios, a um cargo na Câmara. Ari Friedenbach (pai da garota Liana, assassinada pelo menor conhecido como Champinha) e Keiko Otta (mãe do menino Ives Otta, também assassinado) são dois bons exemplos. No meio de tantas lamentações contra a política e seus abestados, talvez seja interessante darmos ênfase àqueles que carregam razões muito maiores para lamentarem da própria vida, mas que encontraram na participação política uma forma de fugirem do reles chororô, assumindo o compromisso de mudar alguma coisa para todos.

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É nóis!

Com fundamento no “discurso do esclarecido” – segundo o qual a escolha deste ou daquele candidato, certamente distinta da própria escolha, é fruto da ignorância do eleitor –, várias críticas surgem à possível eleição deste ou daquele candidato. Um deles é Netinho de Paula, candidato ao Senado pelo PCdoB, em São Paulo. Para determinado setor de “esclarecidos”, só o “povinho da periferia”, “ignorante”, “sem educação”, é capaz de eleger um sujeito desses. No embalo, alguns dos “esclarecidos” até arriscam propostas de proibição de voto para certas camadas “ignorantes” da população.

Já adianto que não votarei em Netinho de Paula, que não me convence como candidato ou mesmo como sambista (e eu adoro samba!), que demonstra arrogância no trato de parte da imprensa, para não falar do episódio de agressão à ex-esposa.

Porém, à grande votação de Netinho apurada nas pesquisas, além daquela já constatada como vereador na capital paulista, não debito a qualquer ignorância do eleitorado, argumento por si arrogante, preconceituoso e, ele próprio, ignorante.

A possível eleição de Netinho para o Senado me faz lembrar um artigo que li em 1998 (não me lembro o autor), defendendo que a população mais carente não confiava em si própria para representá-la politicamente. Assim, um sujeito que se identificava pessoalmente com Lula preferia votar em ACM – esses eram os exemplos dados no artigo, disso me lembro – porque confiava no “doutor” ou no "coronel", mas não no operário. De outra forma, entendia que lugar de operário é na fábrica, cabendo os postos políticos a quem tem status, “pedigree”, para ocupá-los: os “doutores”, “coronéis” e afins. Engraçado: é o próprio argumento do esclarecido aplicado a quem se assumia como um “ignorante”.

Pois bem, acredito que a eleição de Lula trouxe um grande avanço democrático no seguinte sentido. Largamente aprovado pela população brasileira, em especial as de camadas mais baixas, Lula serviu como um símbolo importante para a mudança de concepção dessas pessoas sobre elas próprias. O sujeito mais humilde, que antes duvidava daquele candidato que lhe fazia as vezes de espelho, passou a confiar mais neste, em si próprio e, por extensão, a duvidar um pouco dos “doutores” e "coronéis".

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Fecha a conta, Zé

No início, José Serra esboçou algumas boas propostas ou, no mínimo, discussões importantes. No entanto, cedeu ao tom moralista, ao denuncismo, ao medo e às promessas populares (populistas?) no decorrer da campanha. As tais discussões iniciais eram: o Brasil precisa diminuir a carga tributária, diminuir a taxa de juros, aumentar os investimentos. Para que tudo isso ocorra, é fundamental que se diminua o gasto público. Eis uma tarefa árdua para o próximo presidente, seja quem for.

No entanto, as propostas de Serra representam uma conta que não fecha. Propõe diminuir a carga tributária (portanto, diminuir receita) ao mesmo tempo em que aumentará os investimentos públicos, além dos gastos com educação, saúde e segurança, já que “o Brasil pode mais”. De sobra, resolveu que instituirá o 13º ao Bolsa-Família e aumentará para R$ 600,00 o salário mínimo.

Sem querer ser chato, mas, essa conta fecha, Zé?

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Disputa presidencial obscurece as demais

Sou mais do que favorável à reforma política. Mais do que isso, sou daqueles que a concebem como a “mãe de todas as reformas”, e pretendo discuti-la mais a fundo oportunamente. Um dos pontos dessa reforma que a mim parece relevante é a realização de eleições gerais para todos os cargos políticos, de vereador a presidente. A princípio, a ideia me parece boa. Contudo, constato cada vez mais que a eleição presidencial obscurece as demais. A visibilidade das e o interesse nas disputas para governador e senador – para deputado federal e estadual então, nem se fala! – são bastante diminuídas ou extremamente vinculadas à disputa para Presidente da República. Em suma, ou esses cargos não têm a atenção merecida ou são levadas como uma mera extensão da disputa para o Palácio do Planalto, considerada “maior”.

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Imparcialidade da imprensa
Quanto à imparcialidade, alguns já colocam esse “princípio jornalístico” na berlinda, defendendo que os jornais e revistas escancarem de uma vez suas preferências. Pode mesmo ser uma escolha razoável, ao menos do ponto de vista da sinceridade com que o leitor é tratado. Neste sentido, menciono dois artigos, os quais reputo mais panfletários e eleitoreiros do que propriamente analíticos, publicados pela Folha de S.Paulo, dia 05/09/2010. No primeiro, intitulado “Descaminhos”, Rubens Ricúpero, depois de associar Lula a Perón, Vargas e Chávez, de falar em aliança espúria entre peemedebistas (menos o PMDB paulista, claro) e “sindicalistas de ficha suja”, e de criticar a política de transferência de renda que nos distanciará da “eficiência competitiva da China e da Índia”, conclui, pesaroso: “Se as pesquisas se confirmarem, é esse o país que sairá das urnas, não por culpa dos eleitores, mas por essa lógica das forças da aliança oficial”. No segundo, assinado por Ferreira Gullar (“Vamos errar de novo?”), em mais uma mostra do seu entendimento “objetivo” de que tudo de mau vem de Lula e do PT, mas nada há que se falar da aliança PSDB-DEM, o autor faz campanha aberta da candidatura de José Serra e lamenta a provável vitória de Dilma: “O povo nem sempre acerta. Por duas vezes, o Brasil elegeu presidentes surgidos do nada – Jânio e Collor. O resultado foi desastroso. Acha que vale a pena correr de novo esse risco?”. Por toda a contribuição ao país, cada um da sua maneira, Rubens Ricúpero e Ferreira Gullar são merecedores do respeito dos brasileiros, tendo muito peso as suas opiniões. Não obstante, o que me espanta é a Folha de S.Paulo, que se comprometeu em não defender esta ou aquela candidatura e que se vangloria da sua postura democrática e plural, só tenha colaboradores de um único viés: anti-Lula, anti-PT e anti-Dilma. Se há muitas formas de dizer a verdade falando só mentiras, como dizia o slogan da Folha, também há muitas formas de tomar partido fingindo-se imparcial.

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Do monopólio da ética ao monopólio da corrupção

Antes de ser governo, o PT vivia se colocando como o partido da ética na política (aliás, oportunamente gostaria de discutir ética na política e ética política), como aquele que acabaria com as maracutais quando chegasse ao poder. Não o fez, revelando o que muitos dos seus críticos de origem já diziam: é falso o maniqueísmo que joga com a ideia de um partido ter o monopólio da ética, enquanto a todos os outros recaem as tentações da corrupção.

Uma vez no governo e constatado o que foi constatado, é a vez do DEM e do PSDB apontarem o PT, com a mesma falsidade, como o detentor do monopólio da corrupção. Assumindo a mesma retórica raivosa do adversário outrora opositor – “a turma deles, essa corja de bandidos, essa raça” – os demo-tucanos vendem-se como a opção ética do momento.

Uma visão de longo prazo, porém, mostra que casos como Sivam, privatizações dirigidas, compra de votos para reeleição, Salvatore Cacciola, mensalão (ou, se preferir, mensalões), Waldomiro, aloprados, Erenice, dentre outros, são episódios que se misturam, abarcando a todos e confundindo a cabeça dos caçadores de santos ou separadores do joio e do trigo, quem é “do bem” e quem é “do mal”.

O fato é que o combate à corrupção é um desafio real e imenso para o Brasil. Mas sua efetivação passa por mudanças institucionais como mecanismos de transparência e prestação de contas, aprimoramento do controle interno e externo, financiamento público de campanha, diminuição vertiginosa dos cargos de confiança a serem loteados entre aliados, etc. Enquanto se achar que a solução é encontrar o verdadeiro mocinho que trará ética à política, nada mudará de fato e cada partido e político continuará jurando que é o tal mocinho e que o seu oponente é o bandido.

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Herança maldita e ingratidão, virtú e fortuna

Tão bobo quanto o discurso da herança maldita, segundo a qual o governo Lula promoveu o paraíso em terras tupiniquins, “apesar de FHC”, é o discurso da ingratidão, que apregoa o dever moral de Lula em beijar as mãos do antecessor, cuja política econômica foi tão-somente “copiada” a partir de 2003. Nem o legado foi só de fardos, nem a sequência foi só de inércia.

O aumento da taxa de crescimento e a formação de um forte mercado interno (25 milhões de pessoas saíram da miséria, 30 milhões entraram na classe média), verificados nos anos Lula, não seriam possíveis caso o país não tivesse previamente estabilizado a economia – o que, por si, já promoveu inclusão social – e construído o marco legal para a gestão responsável das finanças públicas, condição fundamental para o não retorno à escalada inflacionária. Quanto à efetivação dessa nova e melhor condição do país, não dá para negar os méritos de FHC, tanto o Ministro da Fazenda como o Presidente da República.

Por outro lado, o discurso da ingratidão de Lula em relação a FHC faz tanto sentido quanto o da ingratidão de FHC diante de Collor. Afinal, da mesma forma que seria impensável o crescimento com inclusão dos anos Lula sem a estabilidade advinda do Plano Real, o êxito deste só foi possível graças ao estupendo acúmulo das reservas internacionais gerada pela abertura ao mercado financeiro na era Collor em consonância com a então incipiente globalização financeira.

Sem diminuir a importância do Real, que soube aliar o engenhoso modelo da URV com a contenção dos déficits públicos primários, principalmente pela escalada da receita tributária, vale lembrar que a hiperinflação foi debelada não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. O aumento da liquidez internacional após a globalização financeira foi condição sine qua non para o sucesso dos planos de estabilização mundo afora, Real incluído. Aliás, como seria possível manter a paridade R$1,00=U$1, a essência da URV, não estivesse o Brasil com os cofres cheios de moeda estrangeira?

Ademais, se o PT foi contra o Plano Real, também se pode aventar que a política econômica do PSDB não geraria o crescimento com inclusão, já que predominava a ideia de que a ascensão da renda das camadas mais baixas seria inflacionária. Aumento real do salário mínimo, nem pensar: é proposta irresponsável!

Em suma, FHC e Lula, cada qual teve sua virtú (habilidade política) e sua fortuna (vantagens trazidas pela conjuntura), seus méritos e seus deméritos. Certo estava Caetano Veloso quando disse ser um luxo para o Brasil ter FHC seguido por Lula na Presidência. Completo: a mudança na ordem dos fatores alteraria o produto.