21/10/2009

Um Vitorioso


Rubens Barrichello, mais uma vez, não conseguiu vencer o GP Brasil de Fórmula 1. Ainda por cima, viu acabarem suas chances de sagrar-se o campeão de 2009. Para delírio dos humoristas, lutará para ser o... segundo! Aliás, Rubinho já foi vice-campeão mundial duas vezes, em 2002 e 2004. O piloto parece mesmo ser perseguido pela sina de vice, de eterno segundo. E, como no Brasil vice é sinônimo de nada, Rubinho pode ter renovada a pecha de fracassado.

Voltemos no tempo. No início do longínquo ano de 1985 – minha memória é boa para essas coisas – , Ayrton Senna concedeu uma histórica entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura. Comentava sua promissora primeira temporada na desconhecida escuderia Toleman e suas expectativas para correr na então poderosa Lotus naquele ano. Assim como Nelson Piquet surgira como um sucessor de Emerson Fittipaldi, consolidava-se a expectativa de que Senna viesse a ser o sucessor de Piquet, e algumas perguntas do programa foram nesse sentido. Bem, lá pelas tantas, surge o vídeo de um menininho de 13 anos, fazendo uma pergunta à revelação brasileira da Fórmula 1. Seu nome era Rubens Barrichello, também ele uma revelação, mas do kart.

O tempo passou, Senna tornou-se tricampeão assim como Piquet, além de um verdadeiro mito da F1, condição reforçada com sua trágica morte. Ainda, quis o destino que tivesse consigo nas pistas, em 1993, aquele menino do kart que outrora lhe questionara no Roda Viva. Dessa forma, quase como uma passagem natural da história, formava-se a expectativa de que Barrichello seria um dia o brasileiro campeão a suceder Senna.

A expectativa ganhou proporções de apelo nacional, tão logo arrefecido o trauma pela morte de Senna no GP de San Marino, em Ímola, na Itália, em 1994. A propósito, dois dias antes, nos treinos para este GP, o próprio Rubinho sofrera um grave acidente, sendo visitado no hospital pelo próprio Ayrton.

A expectativa tornou-se cobrança escancarada após a ida de Rubinho à Ferrari no ano 2000. Finalmente, o piloto brasileiro dirigiria um carro competitivo. Todavia, os anos 2000 a 2004 seriam marcados como a “era Schumacher”, companheiro de equipe de Barrichello, até então bicampeão mundial. Vale dizer, os 5 títulos do alemão na Ferrari explicam-se em grande parte, além da sua incontestável genialidade, pela ausência de adversários à altura (o que não faltava na época de Piquet e Senna), pela hegemonia da Ferrari e pela indisfarçável predileção da equipe por Schumi, restando a Rubinho o papel de piloto auxiliar. Esta função, aliás, foi exercida ao extremo na famosa corrida da Áustria, em 2002, quando Barrichello deixou Schumacher passar a poucos metros da linha de chegada. Diga-se de passagem, até então víamos com bons olhos a figura do piloto auxiliar, especialmente pelas boas recordações de Ricardo Patrese e Gerard Berger, fiéis escudeiros de Piquet, na Brabham, e de Senna na Mc Laren. O problema é que agora o “escada”, e não o piloto principal, era o brasileiro...

Apesar dos pesares, em que pese o “pecado mortal” de não ter se tornado campeão e de dificilmente vir a sê-lo, Rubens Barrichello é um vitorioso, está inscrito na história da Fórmula 1 e, certamente, é um dos principais ícones do automobilismo brasileiro de todos os tempos. Cito alguns dos seus feitos: 1) É um dos 6 brasileiros vencedores de Grandes Prêmios, com 11 vitórias, ficando atrás somente dos 3 campeões mundiais: Fittipaldi, Piquet e Senna; 2) Foi duas vezes vice-campeão mundial, quando o campeão foi o hours concours Michael Schumacher; 3) No GP de Hockenheim em 2000 (na Alemanha, por ironia), marcado como a primeira vitória de um piloto brasileiro depois do GP da Austrália de 1993, vencido por Ayrton Senna, Barrichello largou na 18ª posição no Grid e chegou em primeiro, fazendo desta a segunda maior corrida de recuperação de um piloto vencedor do GP; 4) É o 4º piloto que mais pontuou na história da Fórmula 1; 5) Por fim, é o piloto de Fórmula 1 com o maior número de Grandes Prêmios disputados: 283 até o último GP Brasil.

Por essas e outras, pode-se considerar um tanto descabida a pecha de piloto lento e fracassado impingida a Rubens Barrichello, não obstante as inúmeras quebras (especialmente por problema hidráulico) e derrotas em sua longa carreira.

A mim parece que essa mácula propagada à exaustão nos programas humorísticos deve-se fundamentalmente ao fato de Rubinho não ter sido campeão, cumprindo a escrita traçada por Fittipaldi, Piquet e Senna. Ah, se o título tivesse vindo neste ano!

O fato é que não veio. E Barrichello deve ser lembrado não por seus feitos, mas por seus tropeços. E pelo fato de ter sido uma promessa fracassada. A propósito, afora os poucos anos de carreira, Felipe Massa também não passa, até este momento, de uma promessa. Brilhante e promissora promessa, saliente-se, que por muito pouco não se tornou campeão em 2008. Porém, efetivamente, até este instante, levando-se em conta apenas o título de campeão, é somente uma promessa.




Em tempo: A Gaviões ostenta nos estádios uma bandeira gigante de Ayrton Senna, que se dizia "corinthiano, mas não fanático”. Seria legal, nem que fosse em um pequeno cartaz, em um jogo sem importância, ver a imagem de Rubinho erguida pela Fiel torcida. Se a falta de títulos é razão impeditiva para fazê-lo, de outro modo, o gesto seria justificado pelas vezes em que Barrichello mostrou-se em público, orgulhoso, vestindo o manto sagrado do Timão.

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