29/09/2010

Para não dizer que não falei do pleito


A poucos dias das eleições, faço algumas observações sobre esta campanha eleitoral, no meu modesto entendimento, a mais pobre em conteúdo desde o retorno das eleições diretas em 1989. Triste contradição: quanto mais ricas as campanhas ficam em dinheiro, mais pobres se mostram em ideias e debate de programas e estratégias. O “marquetismo” – desculpe o palavrão, na falta de conceito melhor – tomou conta da política propriamente dita, buscando o seduzir o eleitor na mensagem rápida, sem muita reflexão, a partir das emoções mais profundas aliadas às impressões mais superficiais e generalizantes. Dessa forma, o confronto de ideias em torno de programas para educação, cultura, saúde, segurança, etc., cede ao diz-que-diz sobre quem fez mais ou menos, quem é o “pai” do plano de nome conhecido, quem é mais “sensível” aos problemas do povo. Os dados concretos são trocados pelas impressões imediatas, a visão estratégica para o país é relevada em prol do sorriso do candidato, da vestimenta da candidata, da competência em passar ao eleitor que são “confiáveis”.

Nessa troca do debate pela superficialidade marqueteira, não dá para aliviar a responsabilidade dos próprios políticos. Foi simplesmente lamentável ver Lula e Dilma posando de “pai” e “mãe” dos brasileiros, ao som de um jinglezinho que dizia “deixo em suas mãos o meu povo”. Como assim, viramos objeto? Deixamos de ser cidadãos, se é que o éramos? Eu quero a minha mãe, a de verdade! Simplesmente ridículo, ainda por cima tratando-se de um partido que ajudou sobremaneira na participação política de camadas antes totalmente marginalizadas. A propósito, quanto às críticas de afronta à democracia sofridas pelo PT, é bom que se lembre que democracia não constitui apenas respeito a regras e instituições formais, mas também em participação efetiva de todos os estratos da sociedade, não apenas de suas classes média e alta. Neste sentido, o PT tem muito mais a dizer do que seus opositores. Não obstante, posar de “pai” e “mãe” do povo nega a condição de cidadania, infantiliza a população, afunda a noção de republicanismo e desconstrói a história de politização que marcou o próprio PT. Lamentável.

Assim como foi lamentável o zigue-zague de Serra, um homem público com histórico de respeito, ora como Zé, ora o amigão da dona Maria e do seu Antonio, coitadinhos, ora como um candidato que “pode mais”, ora como raivosa reencarnação de Lacerda, vociferando contra o PT, Dilma, Zé Dirceu, Míriam Leitão, Banco Central independente, CBN, Evo Morales, FARC, Ahmadinejad e o que mais viesse pela frente. Contra Lula, bem, aí só pela tangente, às vezes até fazendo um elogio velado, à mercê do escudo de popularidade do presidente. Quanto a FHC, não se fala nem bem, nem mal. Aliás, o PSDB parece perguntar: quem é FHC mesmo?

Também não se pode dizer que foram edificantes as participações da imprensa e dos chamados intelectuais nesta campanha. Acerca destes, os poucos que mantêm uma postura de distanciamento, pouco contribuíram na produção de um debate que já nasceu moribundo; os tantos outros, os engajados, contribuíram bastante para tornar esse mesmo “debate” um festival de asneiras, repleto de expressões fortes, à guisa de xingamentos, mas nada esclarecedoras quanto à “realidade efetiva das coisas”, nos termos de Maquiavel. Mexicanização, peronização, priização, golpismo midiático, fascismo foram algumas das expressões fortes, porém tão abestadas quanto o Tiririca no intuito de dar azo de seriedade à campanha eleitoral.

Já a imprensa, muito embora nosso “pai” tenha falado um pouco além da conta – aliás, mantendo uma tradição de 8 anos –, colocou-se numa posição exagerada de vítima, como se sua liberdade (palavra surrada pelo uso excessivo) estivesse verdadeiramente em risco. Assim, num surto narcisista e como se o Brasil de Lula estivesse a copiar a Venezuela de Chavez ou mesmo a Argentina dos Kirchner, passou a falar mais de si do que das propostas e perspectivas para o país nos próximos quatro anos. Fulano ou sicrano, instituição X ou Y “defendeu a liberdade de imprensa” passou a ser presença cativa nas manchetes principais. Sim, o assunto é relevante – liberdade de imprensa, liberdade de expressão, liberdade de opinião, que, destaque-se, não são a mesma coisa – e compromete a democracia. No entanto, cá entre nós, alguém está realmente preocupado a instalação de alguma ditadura?

Confesso que, apesar do gosto que tenho pela política, não consegui me ater muito a esta campanha. Quem sabe, até mesmo por isso: a política, propriamente, esteve ausente dela.

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Trocando debate por denuncismo e as conversas para boi dormir

Nesta campanha, o debate foi, uma vez mais, trocado pelo denuncismo. Vale dizer, os casos da quebra de sigilo na Receita Federal e, principalmente, do tráfico de influência na Casa Civil, merecem destaque, sim. Óbvio! Porém, trocar toda a discussão sobre o governo nos próximos quatro anos pelo tom moralista quase exclusivo não deixa de ser uma perda grave para a democracia. Apesar do mote corrente segundo o qual “é tudo a mesma coisa”, há diferenças importantes entre as principais candidaturas e, por conseguinte, diferenças importantes sobre os rumos do país a depender de qual candidato saia vencedor das urnas. No caso de haver segundo turno a reboque das denúncias da Casa Civil – repito: não nego a importância do fato –, somado à experiência de 2006, em que Geraldo Alckmin foi alçado ao segundo turno em boa medida alçado pelo caso dos “aloprados”, a mensagem será clara: os escândalos e sua exploração em denúncia constante trazem resultado eleitoral. Ainda que não necessariamente leve à vitória final do denunciante.

Outro fator a provocar perda de conteúdo nas discussões sobre os destinos do Brasil é a exploração de factóides. E que seja debitada a culpa aos partidos em disputa e à imprensa, que bem poderia dar o devido peso às coisas. Dois factóides, ou, se preferir, conversas para boi dormir, são o “golpismo midiático” saído da boca revoltosa dos petistas e a “ameaça à democracia” denunciada aos brados por demo-tucanos. Não é inventando problemas que o Brasil não tem, ou, no mínimo, elevando-os à última potência, que partidos, imprensa, intelectuais e os componentes vários da chamada “opinião pública” (essa entidade etérea) trarão os melhores benefícios ao país. Mas, sim, discutindo as questões que realmente têm importância na problemática democracia brasileira. Problemática, porém real.

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O Legislativo além dos abestados

Antes das eleições, alguns parlamentares, digamos, melhor conceituados no quesito fluido “qualificação” desistiram da disputa nas urnas. O argumento: estavam fartos da sina de trabalharem duro no Congresso e serem pegos na taxação generalizante de que “político é tudo igual e é tudo corrupto”. Entre eles, José Eduardo Cardozo (PT-SP) e Ibsen Pinheiro (PMDB-RS). Confesso que fiquei órfão de candidato com a desistência de Cardozo, em quem votei nas duas últimas eleições.

Somada à ausência dos “qualificados” veio a enxurrada de “abestados”, celebridades e afins, tomando conta da campanha para a Câmara dos Deputados. Tiririca é o principal expoente desse “grupo”, devendo ser eleito o deputado mais votado do Brasil.

Infelizmente, centralizadas as análises nessa discussão monocórdica entre preparados e despreparados, qualificados e desqualificados, outros pontos vão passando em branco. Cito dois.

Primeiro: além de lamentar a avalanche de abestados é preciso perceber o quão premente é a reforma do sistema eleitoral. Do jeito que está, as regras são um convite a qualquer partido para convocar seus titiricas, maguilas e mulheres-pêra que, à guisa de protesto, trazem votos suficientes para gerar cadeiras adjacentes a  que, por si sós, partidos e coligações não conseguiriam. Que tal discutirmos a sério o voto em lista, o voto distrital ou o misto logo que 2011 chegar?

Segundo: um outro grupo, muitíssimo menor é verdade, não teve a visibilidade merecida pelas reportagens e comentário de analistas. Refiro-me ao grupo dos que deixaram de reclamar da política e dos políticos e se arriscaram, eles próprios, a um cargo na Câmara. Ari Friedenbach (pai da garota Liana, assassinada pelo menor conhecido como Champinha) e Keiko Otta (mãe do menino Ives Otta, também assassinado) são dois bons exemplos. No meio de tantas lamentações contra a política e seus abestados, talvez seja interessante darmos ênfase àqueles que carregam razões muito maiores para lamentarem da própria vida, mas que encontraram na participação política uma forma de fugirem do reles chororô, assumindo o compromisso de mudar alguma coisa para todos.

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É nóis!

Com fundamento no “discurso do esclarecido” – segundo o qual a escolha deste ou daquele candidato, certamente distinta da própria escolha, é fruto da ignorância do eleitor –, várias críticas surgem à possível eleição deste ou daquele candidato. Um deles é Netinho de Paula, candidato ao Senado pelo PCdoB, em São Paulo. Para determinado setor de “esclarecidos”, só o “povinho da periferia”, “ignorante”, “sem educação”, é capaz de eleger um sujeito desses. No embalo, alguns dos “esclarecidos” até arriscam propostas de proibição de voto para certas camadas “ignorantes” da população.

Já adianto que não votarei em Netinho de Paula, que não me convence como candidato ou mesmo como sambista (e eu adoro samba!), que demonstra arrogância no trato de parte da imprensa, para não falar do episódio de agressão à ex-esposa.

Porém, à grande votação de Netinho apurada nas pesquisas, além daquela já constatada como vereador na capital paulista, não debito a qualquer ignorância do eleitorado, argumento por si arrogante, preconceituoso e, ele próprio, ignorante.

A possível eleição de Netinho para o Senado me faz lembrar um artigo que li em 1998 (não me lembro o autor), defendendo que a população mais carente não confiava em si própria para representá-la politicamente. Assim, um sujeito que se identificava pessoalmente com Lula preferia votar em ACM – esses eram os exemplos dados no artigo, disso me lembro – porque confiava no “doutor” ou no "coronel", mas não no operário. De outra forma, entendia que lugar de operário é na fábrica, cabendo os postos políticos a quem tem status, “pedigree”, para ocupá-los: os “doutores”, “coronéis” e afins. Engraçado: é o próprio argumento do esclarecido aplicado a quem se assumia como um “ignorante”.

Pois bem, acredito que a eleição de Lula trouxe um grande avanço democrático no seguinte sentido. Largamente aprovado pela população brasileira, em especial as de camadas mais baixas, Lula serviu como um símbolo importante para a mudança de concepção dessas pessoas sobre elas próprias. O sujeito mais humilde, que antes duvidava daquele candidato que lhe fazia as vezes de espelho, passou a confiar mais neste, em si próprio e, por extensão, a duvidar um pouco dos “doutores” e "coronéis".

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Fecha a conta, Zé

No início, José Serra esboçou algumas boas propostas ou, no mínimo, discussões importantes. No entanto, cedeu ao tom moralista, ao denuncismo, ao medo e às promessas populares (populistas?) no decorrer da campanha. As tais discussões iniciais eram: o Brasil precisa diminuir a carga tributária, diminuir a taxa de juros, aumentar os investimentos. Para que tudo isso ocorra, é fundamental que se diminua o gasto público. Eis uma tarefa árdua para o próximo presidente, seja quem for.

No entanto, as propostas de Serra representam uma conta que não fecha. Propõe diminuir a carga tributária (portanto, diminuir receita) ao mesmo tempo em que aumentará os investimentos públicos, além dos gastos com educação, saúde e segurança, já que “o Brasil pode mais”. De sobra, resolveu que instituirá o 13º ao Bolsa-Família e aumentará para R$ 600,00 o salário mínimo.

Sem querer ser chato, mas, essa conta fecha, Zé?

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Disputa presidencial obscurece as demais

Sou mais do que favorável à reforma política. Mais do que isso, sou daqueles que a concebem como a “mãe de todas as reformas”, e pretendo discuti-la mais a fundo oportunamente. Um dos pontos dessa reforma que a mim parece relevante é a realização de eleições gerais para todos os cargos políticos, de vereador a presidente. A princípio, a ideia me parece boa. Contudo, constato cada vez mais que a eleição presidencial obscurece as demais. A visibilidade das e o interesse nas disputas para governador e senador – para deputado federal e estadual então, nem se fala! – são bastante diminuídas ou extremamente vinculadas à disputa para Presidente da República. Em suma, ou esses cargos não têm a atenção merecida ou são levadas como uma mera extensão da disputa para o Palácio do Planalto, considerada “maior”.

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Imparcialidade da imprensa
Quanto à imparcialidade, alguns já colocam esse “princípio jornalístico” na berlinda, defendendo que os jornais e revistas escancarem de uma vez suas preferências. Pode mesmo ser uma escolha razoável, ao menos do ponto de vista da sinceridade com que o leitor é tratado. Neste sentido, menciono dois artigos, os quais reputo mais panfletários e eleitoreiros do que propriamente analíticos, publicados pela Folha de S.Paulo, dia 05/09/2010. No primeiro, intitulado “Descaminhos”, Rubens Ricúpero, depois de associar Lula a Perón, Vargas e Chávez, de falar em aliança espúria entre peemedebistas (menos o PMDB paulista, claro) e “sindicalistas de ficha suja”, e de criticar a política de transferência de renda que nos distanciará da “eficiência competitiva da China e da Índia”, conclui, pesaroso: “Se as pesquisas se confirmarem, é esse o país que sairá das urnas, não por culpa dos eleitores, mas por essa lógica das forças da aliança oficial”. No segundo, assinado por Ferreira Gullar (“Vamos errar de novo?”), em mais uma mostra do seu entendimento “objetivo” de que tudo de mau vem de Lula e do PT, mas nada há que se falar da aliança PSDB-DEM, o autor faz campanha aberta da candidatura de José Serra e lamenta a provável vitória de Dilma: “O povo nem sempre acerta. Por duas vezes, o Brasil elegeu presidentes surgidos do nada – Jânio e Collor. O resultado foi desastroso. Acha que vale a pena correr de novo esse risco?”. Por toda a contribuição ao país, cada um da sua maneira, Rubens Ricúpero e Ferreira Gullar são merecedores do respeito dos brasileiros, tendo muito peso as suas opiniões. Não obstante, o que me espanta é a Folha de S.Paulo, que se comprometeu em não defender esta ou aquela candidatura e que se vangloria da sua postura democrática e plural, só tenha colaboradores de um único viés: anti-Lula, anti-PT e anti-Dilma. Se há muitas formas de dizer a verdade falando só mentiras, como dizia o slogan da Folha, também há muitas formas de tomar partido fingindo-se imparcial.

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Do monopólio da ética ao monopólio da corrupção

Antes de ser governo, o PT vivia se colocando como o partido da ética na política (aliás, oportunamente gostaria de discutir ética na política e ética política), como aquele que acabaria com as maracutais quando chegasse ao poder. Não o fez, revelando o que muitos dos seus críticos de origem já diziam: é falso o maniqueísmo que joga com a ideia de um partido ter o monopólio da ética, enquanto a todos os outros recaem as tentações da corrupção.

Uma vez no governo e constatado o que foi constatado, é a vez do DEM e do PSDB apontarem o PT, com a mesma falsidade, como o detentor do monopólio da corrupção. Assumindo a mesma retórica raivosa do adversário outrora opositor – “a turma deles, essa corja de bandidos, essa raça” – os demo-tucanos vendem-se como a opção ética do momento.

Uma visão de longo prazo, porém, mostra que casos como Sivam, privatizações dirigidas, compra de votos para reeleição, Salvatore Cacciola, mensalão (ou, se preferir, mensalões), Waldomiro, aloprados, Erenice, dentre outros, são episódios que se misturam, abarcando a todos e confundindo a cabeça dos caçadores de santos ou separadores do joio e do trigo, quem é “do bem” e quem é “do mal”.

O fato é que o combate à corrupção é um desafio real e imenso para o Brasil. Mas sua efetivação passa por mudanças institucionais como mecanismos de transparência e prestação de contas, aprimoramento do controle interno e externo, financiamento público de campanha, diminuição vertiginosa dos cargos de confiança a serem loteados entre aliados, etc. Enquanto se achar que a solução é encontrar o verdadeiro mocinho que trará ética à política, nada mudará de fato e cada partido e político continuará jurando que é o tal mocinho e que o seu oponente é o bandido.

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Herança maldita e ingratidão, virtú e fortuna

Tão bobo quanto o discurso da herança maldita, segundo a qual o governo Lula promoveu o paraíso em terras tupiniquins, “apesar de FHC”, é o discurso da ingratidão, que apregoa o dever moral de Lula em beijar as mãos do antecessor, cuja política econômica foi tão-somente “copiada” a partir de 2003. Nem o legado foi só de fardos, nem a sequência foi só de inércia.

O aumento da taxa de crescimento e a formação de um forte mercado interno (25 milhões de pessoas saíram da miséria, 30 milhões entraram na classe média), verificados nos anos Lula, não seriam possíveis caso o país não tivesse previamente estabilizado a economia – o que, por si, já promoveu inclusão social – e construído o marco legal para a gestão responsável das finanças públicas, condição fundamental para o não retorno à escalada inflacionária. Quanto à efetivação dessa nova e melhor condição do país, não dá para negar os méritos de FHC, tanto o Ministro da Fazenda como o Presidente da República.

Por outro lado, o discurso da ingratidão de Lula em relação a FHC faz tanto sentido quanto o da ingratidão de FHC diante de Collor. Afinal, da mesma forma que seria impensável o crescimento com inclusão dos anos Lula sem a estabilidade advinda do Plano Real, o êxito deste só foi possível graças ao estupendo acúmulo das reservas internacionais gerada pela abertura ao mercado financeiro na era Collor em consonância com a então incipiente globalização financeira.

Sem diminuir a importância do Real, que soube aliar o engenhoso modelo da URV com a contenção dos déficits públicos primários, principalmente pela escalada da receita tributária, vale lembrar que a hiperinflação foi debelada não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. O aumento da liquidez internacional após a globalização financeira foi condição sine qua non para o sucesso dos planos de estabilização mundo afora, Real incluído. Aliás, como seria possível manter a paridade R$1,00=U$1, a essência da URV, não estivesse o Brasil com os cofres cheios de moeda estrangeira?

Ademais, se o PT foi contra o Plano Real, também se pode aventar que a política econômica do PSDB não geraria o crescimento com inclusão, já que predominava a ideia de que a ascensão da renda das camadas mais baixas seria inflacionária. Aumento real do salário mínimo, nem pensar: é proposta irresponsável!

Em suma, FHC e Lula, cada qual teve sua virtú (habilidade política) e sua fortuna (vantagens trazidas pela conjuntura), seus méritos e seus deméritos. Certo estava Caetano Veloso quando disse ser um luxo para o Brasil ter FHC seguido por Lula na Presidência. Completo: a mudança na ordem dos fatores alteraria o produto.

03/09/2010

Tia Chiquita

Apesar de certa crença, bastante popular, segundo a qual o sujeito já nasce torcendo para este ou para aquele time, sou mais afeito à tese de que o chamado time do coração se explica mais pela influência dos pais ou amigos próximos. Ou, ainda, pela repercussão de equipes brilhantes nos momentos em que o incipiente torcedor está passando pela fase de auto-afirmação individual e futebolística. Por exemplo: quantos e quantos torcedores flamenguistas foram forjados dentre os milhões de pequenos brasileiros que davam seus primeiros passos na vida e nos campinhos no exato período em que incrível rubro-negro de Zico, Adílio e Júnior realizava suas maiores façanhas, aqui e alhures.

Eu sou exemplo dessa tese. Corinthiano desde a mais tenra infância, segui o gosto do meu pai, além de ter crescido sob a égide dos feitos de Sócrates, Casagrande e companhia. Não obstante, meu pai, assim como seus irmãos (meus tios), não se encaixam lá tão bem à tese, muito embora também não comprovem sua invalidade. Meu avô, nascido em 1910 como o Corinthians, morador desde sempre no interior paulista, torcia para o São Paulo Futebol Clube. Teve o desgosto, portanto – na sua cabeça de tricolor, entenda-se bem –, de ver todos os quatro filhos ostentarem a bandeira do arquirrival. Não, os filhos não eram rebeldes, nem tomaram o futebol como um daqueles mecanismos comuns de diferenciação em relação aos ascendentes. O que explica a torcida dos “meninos” é a tia Chiquita, irmã de meu avô.

Imaginem a cena. Lá pelos idos dos anos 1940/50, a tia Chiquita era uma das únicas proprietárias de aparelho de rádio na localidade. O rádio, considerando a época e o lugar, era a mais poderosa porta de acesso às notícias da capital do estado, do país e do resto do mundo. Exagerando um pouco, penso que a tia Chiquita, para as pessoas que se aproximavam para escutar do seu radinho, tinha um poder de influência compatível ao do Datena hoje em dia: as notícias que vinham do seu aparelho eram passadas aos ouvintes ocasionais sob o filtro dos comentários da dona, realçados os feitos e minimizados os defeitos de quem caíra em suas graças.

Ademais, apesar de não me lembrar dela, falecida quando eu ainda era muito criança, consta que a tia Chiquita era do tipo apaixonada, não dava a sua versão dos fatos sob as amarras do princípio da isenção. Pelo contrário. Assim, Getúlio não era simplesmente o presidente do Brasil, mas o maravilhoso “pai do povo” brasileiro. E o melhor, o mais belo, o mais glorioso, o mais tudo de todos os times do planeta era, para a tia Chiquita, o Corinthians. Ainda por cima, aquele escrete formado por Gilmar, Cláudio, Luizinho e Baltazar jogava muito e conquistava títulos importantes.

Trocando em miúdos, por conta da influência da tia Chiquita e do seu poderoso radinho, meu pai e meus tios não se tornaram são-paulinos como meu avô, mas, sim, corinthianos. Ato contínuo, quase todos os seus filhos, eu incluso, seguimos a vocação mosqueteira.

Neste ano de 2010, além do Timão, também o meu avô completou 100 anos. Há poucos dias, contudo, quatro meses após comemorar um século de vida, meu avô faleceu. Tenho a crença de que foi muito bem recebido na espiritualidade pelos tantos entes queridos que cultivou por aqui. Dentre eles, certamente está a tia Chiquita, feliz por comemorar o centenário do Corinthians e por reencontrar seu irmão também centenário, nosso amado freguês.

10/08/2010

Prece de despedida

Querido vô Lazo,

Após 100 anos de uma bela passagem por este plano, seu espírito está novamente livre da matéria. Que o retorno à espiritualidade se dê em paz.

De cá, receba o pensamento amoroso dos que aqui continuam, felizes por terem-no conhecido, por terem convivido com você.

Aí, receba os abraços daqueles entes amados que já haviam feito a passagem que você faz agora. Receba o carinho dos seus irmãos, dos seus pais, dos seus grandes amigos.

Até que enfim pode matar a saudade da companheira cuja ausência tanto te fazia sofrer. Apesar da despedida, é bom pensar na felicidade do seu encontro com a vó...

Obrigado pelos valores, pelos ensinamentos, pelo seu legado.

Um beijo, e vá com Deus.

De um neto que te ama.

24/07/2010

Justiça à brasileira

Na Folha de S.Paulo de ontem, dia 23/07/2010, foi publicado mais um excelente artigo do não menos excelente Ruy Castro, intitulado "Pressa em condenar". O texto está reproduzido aí embaixo, vale a pena ser lido.

É engraçado como esses crimes mais recentes (e evidentes) - Isabela Nardoni, Mércia Nakashima, goleiro Bruno - mexem com as pessoas, que logo tomam as portas dos fóruns e delegacias para externarem sua "indignação". Tudo passa a ter um aspecto de espetáculo, comportando-se jornalistas, autoridades e "populares" como competidores pela luz das câmeras. A grita geral é por justiça, pela condenação sumária. Mas o resultado prático desse processo todo é relevado, para não dizer esquecido.

Bem, vamos ao artigo de Ruy Castro.

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Pressa em Condenar
Ruy Castro

O delegado encarregado do caso Bruno acaba de completar seus 30 dias de fama. Durante esse período, investigou, acusou, julgou, condenou e só faltou passar a sentença sobre o jogador. Muito além da sola, foi detetive, carcereiro, promotor, júri e juiz. Tal versatilidade pode representar uma economia para os cofres do Estado, mas está em desacordo com noções elementares de justiça.

Ocupado em dar entrevistas, ele só não teve tempo de apresentar as provas de que necessitava – nem mesmo o corpo de Eliza Samudio, dado de barato desde o primeiro instante. Com isso, o advogado de defesa já conta com a vitória numa primeira instância, tantas são as supostas irregularidades técnicas.

Aliás, este é dos raros casos em que o uso do 'suposto' – recurso adotado pela imprensa para noticiar sem se comprometer – se aplica. Enquanto não encontrarem o cadáver, Bruno deveria ser apenas o suposto assassino ou mandante. Ou nem isso, porque ainda não está configurado o crime. Pois, justamente neste caso, alguns tabloides e canais de TV já partiram para a acusação frontal: Bruno é tratado como assassino ou mandante, e não se discute.

O curioso é que, um mês depois, o imbróglio parece mais enrolado do que nunca. Pelos depoimentos, Bruno, três cúmplices, seis ou sete testemunhas e uma mulher diferente por semana entram e saem de carros, motéis e chácaras, e o bebê passa de mão em mão enquanto eles se acusam e se desdizem deixando todo mundo tonto. É Agatha Christie ao ritmo dos Irmãos Marx.

No Brasil, temos pressa em condenar. Mas, uma vez estabelecida a condenação, não há pressa para executar a sentença. O jornalista Antonio Pimenta Neves, por exemplo, réu confesso, julgado e condenado pela morte de sua ex-namorada, arrisca-se a morrer de velhice fora da prisão onde deveria estar há dez anos.

04/07/2010

A Vitória de Sarriá


Eu tinha dez anos. Formava com alguns amigos da rua um time, modéstia à parte, praticamente imbatível. Para aumentar ainda mais nosso potencial, estávamos fortemente influenciados pela magnífica seleção brasileira comandada por Telê Santana. O clima de Copa do Mundo era inescapável: verde e amarelo por todos os lados, camisas canarinho ostentadas com orgulho, o pavilhão nacional à mostra, seguindo, contudo, o protocolo patriótico determinado pela liturgia militar, cujo regime ainda imperava; por exemplo: bandeira brasileira pintada na camisa como se fosse uma reles estampa era quase um crime de lesa-pátria. Além disso, tinha o Naranjito, o mascote daquela Copa da Espanha, qual uma entidade onipresente: pintado nos muros, em forma de bonecos, pequenos, médios e grandes. E tinham as músicas: “Voa, canarinho”, cantada pelo Júnior, lateral do Flamengo e da própria seleção, e a do Luiz Ayrão, uma espécie de segundo hino nacional: “Dá-lhe, dá-lhe, bola/Meu canarinho vai deixar a gaiola/Vai pra Espanha de mala e viola/ Vai dar olé à espanhola/ E rola e rola e rola...”.

Em resumo, tudo cheirava a futebol, seleção brasileira e Copa do Mundo. E o escrete de Zico, Sócrates, Falcão & Cia. encantava o mundo, a ponto de não se conceber possibilidade de fracasso naquela tentativa de obter o tetra, primeiro caneco pós-Pelé. Da mesma forma, nosso timinho, cujo campo era o asfalto escaldante da rua da minha casa, também encantava os transeuntes eventuais, sortudos por poderem observar o fino da bola jogada por aqueles meninos, eu incluso.


Detalhe: cada jogador da rua correspondia a um craque da seleção, buscando imitá-lo no estilo futebolístico e nos trejeitos. Uma vez ouvi Chico Buarque dizendo na TV que ainda não jogava tão bem como Pagão, seu ídolo maior, mas já sabia copiar uma cuspidinha que o craque santista dava. Pois é o que fazíamos. As comemorações, por exemplo, fosse gol do Sócrates – o da rua, claro –, comemorava-se com postura ereta, o braço direito estendido ao céu; fosse o Zico, o seu alter ego da rua saia correndo, meio curvado para a frente, e pulava socando o ar.

Daí, quem sabe, a explicação de boa parte da excelência futebolística demonstrada por aqueles meninos. Se não éramos lá muito originais, pelo menos imitávamos gênios da bola. Eu era o Falcão: jogava no meio-campo, articulando as jogadas, chegando às vezes à frente para marcar meus golzinhos. Lembro-me que o Neimar era o Sócrates, ambos altos e esguios, e o Maurinho, salvo engano, era o Cerezo. E o Zico, quem era o Zico mesmo? Bem, o negócio é que tentávamos naquela rua reproduzir os prodígios que víamos de nossos craques em campos espanhóis. A coisa era tão séria, apesar da natureza de brincadeira, que deixávamos de assistir aos jogos, disputando, no mesmo tempo, partidas na rua. Claro que entrávamos correndo em casa para ver o gol, tão logo ouvíamos os rojões espocarem concomitantemente aos gritos que emanavam de todas as casas da vizinhança. Assim, víamos o replay do gol, e já passávamos à tarefa de repeti-lo no asfalto.

Foi assim contra a União Soviética, contra a Escócia – e não importava se saíamos perdendo, pois havia a certeza da virada –, contra a Nova Zelândia. Contra a Argentina, porém, valia o ditado dos benefícios da cautela e da canja de galinha. Afinal, tratava-se do arquirrival e então campeão do mundo, não obstante sermos nós os atuais campeões morais, incontestáveis favoritos. Foi sem perdão. Mal começou o jogo, o juiz marcou falta a uns quarenta metros do gol de Fillol. Não importava a distância, Eder enfiava o pé, e sabíamos – assim como os argentinos – que o negócio era perigoso. Não deu outra: Fillol até conseguiu rebater, mas Serginho e Zico partiram como um foguete para cima da bola, o Galinho chegou primeiro e enfiou a pelota pra dentro. Massacre só: 3 a 1, fora o baile, com direito a expulsão do Maradona. Perdeu a cabeça, coitado, atordoado com o olé brasileiro.

Aí veio a Itália, que também vencera os argentinos, mas por um gol a menos: 2 a 1. Por isso, tínhamos a vantagem do empate. Não sei para quê, se venceríamos mesmo... Foi meu primeiro encontro com os cruéis clichês do futebol: a caixinha de surpresas, o imponderável, a injustiça do jogar melhor e ainda assim perder. Sempre que o Paolo Rossi – jamais esqueceríamos esse nome, eterno vilão – marcava um gol, tínhamos a certeza de que o Brasil iria atrás e faria o redentor gol de empate. Afinal, já conhecíamos o filme, fora assim em jogos anteriores. Era até bom, dava mais emoção sair perdendo e virar o jogo. Oh, inocência de criança, virgem de desilusões! Ao primeiro gol de Rossi, Sócrates respondeu com um toque de gênio no canto de Zoff. Ao segundo, Falcão, numa angustiante espera que durou até metade do segundo tempo, enfiou o pé esquerdo e a bola foi morrer na gaveta direita do veterano goleirão italiano. Pronto, estava cumprido o script. Mas o tal do Paolo Rossi, endiabrado, marcou o terceiro e o tempo já era curto. Tudo bem, quanto mais dramática, mais gostosa a vitória. O problema é que o tempo passou, o Brasil criou algumas chances, mas o Dino Zoff – outro vilão italiano – impediu que a bola entrasse.

Quando o juiz apitou o final do jogo, senti um nó na garganta que jamais sentira por conta de futebol. Foi o primeiro grande desgosto ludopédico, o primeiro de verdade. Olhei para o meu pai e perguntei, como se as imagens da televisão não fossem o bastante: “O Brasil perdeu?” Meu pai, em silêncio – devia estar sofrendo também, do seu jeito adulto –, confirmou balançando a cabeça afirmativamente. Fiquei quieto por uns instantes, olhando a TV, vendo os jogadores da seleção saírem de campo chorando. Não convencido da eliminação, indaguei meu pai novamente: “Então, o Brasil não pode mais ser campeão?” Meu pai, com outro gesto de cabeça, confirmou a melancólica sentença.

Fiquei em silêncio por mais algum tempo. De repente, me deu vontade jogar bola na rua, como fazíamos sempre em dia de Copa. Aliás, por que nós, os meninos da rua, não estávamos jogando na hora da partida do Brasil? Bem, peguei a bola e parti. Ao abrir a porta de casa, não é que os outros já estavam lá! Todo mundo com sorriso amarelo, com um semblante fechado que expressava o constrangimento pela inesperada derrota, enlutados por sabermos que o Brasil, contra todas as nossas certezas de criança, não seria campeão na Espanha. Pior ainda para nós, que jamais víramos o Brasil ganhar uma Copa.


“Chuta a bola aqui”, gritou alguém. E logo estavam formadas as equipes, justamente Brasil x Itália, e partimos para a vingança. Esquecemos da tristeza, o luto se desfez, mas aqueles que assumiram o escrete italiano estavam inspirados pelo feito de há pouco da Azzurra contra a nossa seleção. O moleque que assumiu a condição de Paolo Rossi, coitado, estava se achando. Mas não teve pra eles, não. Fomos com tudo e nos vingamos sem pena, do nosso jeito. Ali na rua não tinha para ninguém. Só deu Brasil.

Findo o jogo da rua, voltamos a sorrir e a nos ver como os melhores do mundo. E, sem que nenhum adulto nos ensinasse, descobrimos algo muito importante: se no futebol o melhor pode perder, mesmo perdendo pode não deixar de ser o melhor. Logo, de uma forma ou de outra, são vitoriosos. O sentimento de derrota, assim, deu lugar novamente ao gosto pela vitória. Se nós, os meninos da rua que imitávamos Zico, Sócrates, Falcão & Cia. éramos imbatíveis, logo, aqueles jogadores mágicos, nossos eternos ídolos, também haviam vencido. Eram, ou melhor, são campeões. Apenas não conquistaram um torneiozinho mixuruca que, como bem disse Garrincha, não tem nem returno.
Venceram, com certeza. Pelo menos, é a lembrança que guardo desde os meus longínquos dez anos.

***

Hoje tenho 37 anos. Depois da Copa da Espanha, já vieram outros sete mundiais, incluído este de 2010. Destes, vi o Brasil ser derrotado em cinco e vencer dois. Apesar da emoção da vitória, jamais uma outra seleção brasileira me encantou como aquela de 1982. Tenho certeza que muitos outros que como eu tinham perto de 10 anos naquela época concebem o escrete de Telê como algo mágico, encantado, quase imbatível... Quase.

Será que é só uma dessas visões hipervalorizadas por virem dos tempos de infância, como os desenhos animados antigos que jamais admitimos serem pior que os de hoje? Não, neste caso, pelo menos, não. É porque aquela seleção era boa mesmo. Se não fosse, não estaria brilhando nas retinas e nas memórias de tanta gente até hoje. A propósito, como os garotos de 10 anos em 2006 ou 2010 levarão na memória de adulto as seleções brasileiras das Copas da Alemanha e da África do Sul? Guardarão o mesmo encanto em relação aos times de Parreira e Dunga que guardam os então meninos, como eu, em relação ao time de Telê? Provavelmente não.

Sem trocadilhos românticos, cuja intenção de fundo é produzir o autoengano: Acredito sinceramente que há derrotas que pairam como vitórias, e vice-versa. A chamada “tragédia de Sarriá” é um exemplo clássico. Como pode um time derrotado ser tão cultuado até hoje? Quem viu, sabe muito bem o porquê. Então, no mínimo, há que se ponderar muito as palavras para sentenciar que aquilo foi uma derrota. É muito pragmatismo numérico. É dar muita importância para números frios constantes de um placar.


Falando nisso, já pensando em 2014, quando a Copa do Mundo será no Brasil, gostaria muito que os dirigentes do nosso futebol não se preocupassem apenas com o número de estrelinhas que ostentamos acima do escudo. Sim, são importantes; são fundamentais mesmo. Mas não menos importante é o encanto que fica em cada brasileiro com o futebol jogado por seus compatriotas em campo. Dependendo da magia com que jogam, o fato de ser penta, hexa, hepta, etc., pode até ficar em segundo plano. E, cá entre nós, do mesmo jeito que jogo feio não é garantia de vitória, podemos muito bem apostar na vitória com um jogo encantador. Como o daquele time de 82, por exemplo.

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18/06/2010

Morreu José Saramago


Acabo de saber que morreu hoje, dia 18 de junho de 2010, o escritor português José Saramago.

Saramago, Prêmio Nobel de Literatura de 1998, o único autor em língua portuguesa a receber tal honraria, além de escritor de imenso talento e de estilo peculiaríssimo, unicamente seu, era portador de um ideário humanista que influenciou milhares de pessoa mundo afora.

O pensamento de Saramago, influenciado pelas concepções comunistas, ia muito além do marxismo vulgar, das explicações economicistas e classistas ou do ateísmo. O que diferenciava Saramago, sobretudo, era o alcance de sua inteligência para abarcar a essência do humano, com suas mazelas e belezas infinitas. E, apesar dos pesares, apesar, inclusive, de o próprio escritor querer se mostrar um pessimista incorrigível, sempre havia um quê de esperança ao final de seus escritos: contos, romances, peças de teatro, poesia.

Eu, particularmente, sinto-me um pouco órfão com a morte de Saramago. Aprendi a apreciá-lo, adaptando-me a seu estilo, digamos, diferente – um fluxo narrativo veloz, em que se confundem personagens, autor, diálogos, narrações, comentários, sem travessões e quase tudo em um único parágrafo –, desde que no meu aniversário em 1997 fui presenteado por meu primo Arnaldo com o livro “Todos os Nomes”. Não consegui mais deixar de ler todos os romances publicados doravante, até o último, “Caim”. Também fui atrás de livros anteriores: “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, “Jangada de Pedra”, “Memorial do Convento” e meus preferidos: “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, “Ensaio Sobre a Cegueira” e “Levantado do Chão”.

Em 2008, quando Saramago esteve no Brasil para lançar “A Viagem do Elefante”, fiz uma verdadeira via-crúcis em sua perseguição. Assisti à cerimônia de lançamento no Sesc Pinheiros, à Sabatina da Folha de São Paulo, ao lançamento da exposição “A Consistência dos Sonhos” no Instituto Tomie Ohtake (a foto acima foi tirada lá, quando o escritor dava uma entrevista para a televisão). Confesso que fiquei frustrado por não ter conseguido uma dedicatória em meu livro. No entanto, fiquei sinceramente emocionado pelas oportunidades de estar frente a frente desse escritor que me é tão caro.

Sei que não terei mais a felicidade de ler um novo livro de Saramago. Porém, posso reler os antigos e ler os que ainda não li. A propósito, começo hoje a ler “História do Cerco de Lisboa”, que ganhei de presente de minha amiga Talita – engraçado, todos os meus amigos sabem que sou um contumaz “saramagueano”.

Não sei por que, de cara associei o Senhor José, personagem de “Todos os Nomes”, o livro que me fez descobrir Saramago, à figura do seu autor. E assim me despeço:

Senhor José, onde quer que esteja – me desculpe se não consigo compartilhar de seu ateísmo –, muito obrigado pela sabedoria, pelo prazer da leitura, especialmente, pelo prazer com a nossa língua portuguesa, que você foi capaz de levar a milhares, talvez milhões de leitores mundo afora. Eu, humildemente, coloco-me entre eles. Saiba que deixa, além do incomensurável legado da literatura e do pensamento humanista, algo que só nós, os que falamos e pensamos em língua portuguesa, podemos entender: saudade.

14/06/2010

Campanha Nacional de Doação de Sangue

Hoje, dia 14 de junho, é o Dia Nacional do Doador de Sangue, instituído pela OMS e celebrado no Brasil desde 2004. Também hoje começa a Campanha Nacional de Doação de Sangue.

No mês de junho os estoques dos bancos de sangue costumam cair bastante. A situação tende a ser ainda pior agora, por causa da Copa do Mundo.

Há três anos procuro doar sangue, pelo menos de 4 em 4 meses. Não custa nada, não dói nada e nunca me impediu de fazer quaisquer das minhas atividades cotidianas. E o principal: é muito gratificante saber que essa atitude pode ajudar a salvar a vida de outra pessoa.

Portanto, não há razões para não doar, muito pelo contrário.

Abaixo, algumas informações da página do Ministério da Saúde (www.saude.gov.br) para quem quer se tornar um doador.


          OUTRAS INFORMAÇÕES IMPORTANTES
Para doar sangue é necessário- Sentir-se bem, com saúde; apresentar documento com foto, válido em todo território nacional; ter entre 18 e 65 anos de idade; ter peso acima de 50Kg.

Recomendações para o dia da doação- Nunca vá doar sangue em jejum; faça um repouso mínimo de 6 horas na noite anterior a doação; não ingerir bebidas alcoólicas nas 12 horas anteriores; evitar fumar por pelo menos 2 horas antes da doação; evitar alimentos gordurosos nas 3 horas antecedentes a doação; Interromper as atividades por 12 horas as pessoas que exercem profissões como: pilotar avião ou helicóptero, conduzir ônibus ou caminhões de grande porte, subir em andaimes e praticar pára-quedismo ou mergulho.

Quem não pode doar- Quem teve diagnóstico de hepatite após os 10 anos de idade; mulheres grávidas ou amamentando; pessoas que estão expostas a doenças transmissíveis pelo sangue como AIDS, hepatite, sífilis e doença de chagas; usuários de drogas; aqueles que tiveram relacionamento sexual com parceiro desconhecido ou eventual, sem uso de preservativos.

Ah, um recadinho especial aos corinthianos. O Timão organiza uma campanha de doação bem legal chamada “Sangue Corinthiano”. Vale uma olhada no site: http://www.sanguecorinthiano.com.br/

14/05/2010

Racismo e outras "coisas de jogo"

Ontem foi dia 13 de maio. Comemorou-se os 122 anos de assinatura da Lei Áurea, quando foi abolida a escravidão no Brasil. Há quem minimize a importância dessa data como marco da luta dos negros pela liberdade, pela conquista de direitos iguais e contra o racismo. Há quem prefira o 20 de novembro, dia da morte de Zumbi dos Palmares, quando se comemora o “dia da consciência negra”. A importância do negro na sociedade brasileira deve ser destacada todos os dias, assim como sua luta por dignidade e respeito.

A propósito, há pouco tempo ocorreu um episódio de racismo no futebol brasileiro – mais um! Em partida realizada pela Copa do Brasil entre Palmeiras e Atlético Paranaense, uma cena acabou se destacando mais do que a peleja em si. O zagueiro palmeirense Danilo, após uma cobrança de escanteio, entrou em atrito com o zagueiro atleticano Manoel. Este ameaçou lhe dar uma cabeçada, ao que Danilo reagiu cuspindo e chamando Manoel de “macaco”. As hostilidades recíprocas prosseguiram por todo o jogo – Manoel chegou a pisar em Danilo quando este estava caído –, e foi além. Após a partida, o atleticano dirigiu-se a uma delegacia, onde registrou boletim de ocorrência contra o palmeirense por injúria qualificada por discriminação racial. Ambos foram denunciados no STJD, mas confesso desconhecer se houve alguma punição efetiva nos gramados e a quantas anda o caso na esfera criminal.

O que me chamou mais a atenção foram as reações. De um lado, aqueles que julgaram a atitude de Danilo como imperdoável expressão de racismo, merecedora da máxima pena. De outro, os que acharam a questão uma bobagem, muita discussão por nada ou, explorando a fauna para transitar do racismo à homofobia, uma “veadagem”. O próprio Danilo, por sua vez, definiu sua atitude como uma dessas “coisas de jogo”. Ou seja, algo normal, que acontece em qualquer partida, como os encontrões, as faltas, as reclamações com o árbitro, as vaias e cantos da torcida, as discussões ríspidas entre companheiros do mesmo time para demonstrarem sua vontade de vencer (lembram-se dos “afagos” entre Obina e Maurício, ex-companheiros de Danilo?). Enfim, “coisas do jogo” são coisas corriqueiras, normais, ordinárias, sem importância, fazem parte da vida. E ponto. Será?

A atitude de Danilo é condenável, certamente, assim como toda forma de racismo. Do mais velado ao mais escancarado. Porém, sem querer justificar, mas, sim, entender a atitude do jogador, tento focar o sentido mais profundo da sua frase. Como assim chamar um adversário negro de “macaco” é “coisa de jogo”? Quer dizer que uma afronta dessas é normal, banal?

Fundado no escravismo que vigorou por séculos no Brasil, legalmente extirpado no 13 de maio de 1888, o racismo subsiste na sociedade brasileira, donde os gramados e as arquibancadas constituem também seus espaços. Subsiste em forma e intensidade diferentes do racismo observado em outras sociedades. Nesse sentido – de estar, de alguma forma, presente – o racismo, infelizmente, é normal como a homofobia, o bullying nas escolas, a corrupção na esfera pública, a ganância dos empresários, a sonegação de impostos, e tantas outras coisas observadas com frequência indesejada, mas real. É tudo “coisa do jogo”. Mesmo que não seja aceitável.

Os preconceitos, todavia, não teriam a persistência que têm se existissem apenas nesse âmbito genérico a que denominamos ora como sociedade, ora como cultura. Têm um domicílio mais recôndito: o inconsciente dos indivíduos, o mais profundo de suas almas. Aliás, um dia após a partida, Danilo veio a público desculpar-se pela reação infeliz e alegou não ser racista. Acredito piamente que Danilo não se veja, com toda a sinceridade, como racista. Pelo menos, esse tipo de preconceito não lhe ocorre conscientemente. Mas também acredito que o racismo está nele de modo inconsciente, evidenciado pelo impulso incontrolável quando afrontado por Manoel.

Na mesma vertente pode ser entendida frase do jovem craque Neymar, em entrevista a uma rádio. A jornalista questionou-lhe se já havia sofrido preconceito racial, ao que Neymar respondeu: "Nunca. Nem dentro, nem fora do campo. Até porque não sou preto, né?". Objetivamente, é cada vez mais complicado afirmar-se desta ou daquela cor ou raça. Não obstante, Neymar não se ver como negro, enquanto muitas pessoas – a jornalista, inclusive – assim o fazem, diz muita coisa sobre os preconceitos escondidos em nós. Falando nisso, há um ótimo estudo da antropóloga Lilia Schwartz mostrando certos negros que, ao ascenderem econômica e socialmente, passaram por uma espécie de “embranquecimento” da autoimagem. Isto é, lembram-se do tempo em que eram pobre e “eram negros”.

Paradoxalmente, apesar de admitir como fato social que o racismo é “coisa de jogo”, acredito que condição fundamental para que esta e outras formas de preconceito sejam definitivamente debeladas da sociedade (utopia?) é a não aceitação, de modo veemente, de atitudes como as de Danilo. Não, não são “coisas de jogo”! As pessoas devem, sim, indignar-se quando se deparam com irrupções racistas como essa, sem o desdém cínico e confortável de taxar as críticas de “veadagem”. De qualquer forma, também devem tomar muito cuidado para controlarem nelas próprias esses impulsos discriminatórios, reveladores da necessidade de atenção íntima quanto aos próprios preconceitos, inconscientemente guardados.

Uma atitude louvável foi tomada pelo governo brasileiro e de países africanos: pediram à ONU que discuta propostas práticas para erradicar o racismo do esporte. Resolução nesse sentido foi aprovada por unanimidade no Conselho de Direitos Humanos da entidade, em Genebra. O combate ao racismo vai muito além do fair play pregado pela FIFA. É interessante como, mesmo persistindo os xingamentos nas arquibancadas – xinga-se o árbitro, ou melhor, sua mãe, xinga-se o craque adversário de tudo, especialmente de “veado” –, já vigora uma auto-contenção por parte dos torcedores, ao menos os brasileiros, em relação a insultos racistas. Infelizmente, em outros lugares tais insultos são ainda observados, causando a repulsa de todo o mundo, como no caso do Zenit, de São Petersburgo, na Rússia: seus torcedores imitavam macacos em jogos contra adversários que tinham jogadores negros no elenco.

Encerro, aproveitando a passagem do 13 de maio para registrar a homenagem aos tantos e tantos negros que ajudaram a fazer do futebol a força que é no Brasil e no mundo. Desde o mais anônimo perna-de-pau até o Rei Pelé. E também para saudar o fato de que daqui a alguns dias assistindo a uma Copa do Mundo em plena África. Melhor: na África do Sul, de Mandela.

JFQ

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28/04/2010

Sexo, hipertensão e manchetes

Deu em toda a imprensa. Escrita, falada, televisada e cibernética. A manchete proferida por todos os cantos, com ligeiras variações de palavras, mas não de conteúdo, é a seguinte: “Para combater hipertensão, Ministro da Saúde recomenda sexo”. Dada a ênfase, a notícia se espalhou com o seguinte viés: o Ministro recomendou apenas sexo ou o sexo foi a principal recomendação do Ministro para se combater a hipertensão.

Isso é falso. Nem tanto a tese, mas a notícia.

Os apresentadores e comentaristas falam do assunto com um sorrisinho envergonhado de menina-moça pega de surpresa pela despudorada investida de um gavião. “Hi, hi, hi. Ministro safadinho!”. Outros, compenetrados na postura formal e carrancuda, criticam-no com olhar sério. Após a tradicional chacoalhada de cabeça para demonstrar reprovação, exclamam: “Como assim, sexo, seu Ministro?”. De um lado ou de outro, a notícia, isto é, não o fato em si, mas como o fato é noticiado, fortalece a ideia de que o Ministro cometera uma gafe ou, pelo menos, uma imprecisão médica, propondo algo não comprovado cientificamente. Além de obsceno às famílias mais conservadoras.

O que me chama a atenção nesse bafafá todo, digno (digno?) de manchetes em primeiras páginas dos principais diários e na abertura dos mais assistidos telejornais, não é a tal sugestão do Ministro, mas, justamente, como esta passou a ser veiculada. Na verdade, José Gomes Temporão, um dos mais sérios e respeitados ministros do governo Lula, citou, em tom claramente de brincadeira, o sexo como uma dentre outras modalidades de atividade física, esta sim, fator de combate à hipertensão. Mais especificamente, Temporão, ao lançar a Campanha Nacional de Combate à Hipertensão Arterial, mencionou atividades físicas em geral – além do sexo, recomendou que as pessoas dancem, o que não dá o mesmo ibope que o sexo –, que controlem seus alimentos e seu peso. E, principalmente (ressalto: principalmente!), recomendou medição frequente da pressão arterial e consulta ao médico.

O vídeo com a declaração do Ministro está logo aí embaixo.

Nos jornais, porém, a ênfase é toda na frase do sexo, limitando-se a um canto de página as informações que deveriam prevalecer, tais como, fatores de risco para hipertensão: estresse, consumo excessivo de sal (mais de 6g/dia), ingestão de álcool, sobrepeso, diabetes, histórico familiar, tabagismo; sintomas da crise hipertensiva: mal-estar, falta de ar, dor de cabeça, náuseas e vômitos, turvação da visão, hemorragia nasal. A propósito, tirei as informações acima de um box da Folha de S.Paulo de ontem, dia 27/4/10, página C4, cuja manchete é “Ministro recomenda sexo contra hipertensão”.

Não entendo essa forma reduzida e enviesada de noticiar algo tão sério. Será que assim se vende mais jornal ou as pessoas ficam mais presas à TV? Será um estilo formatado intencionalmente para desqualificar o ministro, o governo, a campanha? Seja lá o que for, do modo como a imprensa noticiou o fato, não apenas desqualifica injustamente o ministro como, pior, enfraquece uma campanha cujo objetivo é importantíssimo para a saúde dos brasileiros: o combate à hipertensão.


29/03/2010

A Justiça dos Homens na Tela da TV

Há dois anos a população ficou estarrecida. Soubera pela TV do assassinato da menina, atirada pela janela do sexto andar. Deu em todos os canais: todos os repórteres noticiaram, todos os âncoras pronunciaram as manchetes com cara de repulsa e comoção, todas as apresentadoras entrevistaram os familiares e envolvidos, em meio às juras de inocência de uns, à descrença de outros, à revolta de todos.

Ao compasso das matérias sensacionalistas e das palavras de ordem – “isso é uma vergonha!”, “onde vamos parar?”, “por que não há pena de morte neste país?”, “quero ver neguinho dos direitos humanos proteger esses safados!” –, a TV também contemplou seu público com o melhor didatismo. Lá estavam os peritos a arrazoarem por que os fatos ocorreram assim ou assado e os insignes criminalistas a explicarem como funciona o Tribunal do Júri, como se dá a dosimetria (palavra esquisita!) da pena, como são escolhidos os jurados, como atuam promotor e advogado de defesa, quem pode assistir à sessão, etc. e tal. A cada dia de julgamento, dezenas de análises, comentários e meros pitacos de especialistas e leigos. Quando surgia o repórter no chamado link, a primeira pergunta era: “Fala pra gente, Fulano, qual foi a reação das pessoas naquele momento?”. A resposta mais frequente: “Muita emoção...”.

Ibope bombando. Todo o país de olho na TV. E muitas, muitas pessoas aglomeradas em frente ao Fórum. Uns vieram do outro lado da cidade, outros, de cidades vizinhas, outros, ainda, do Piauí e além. Protestavam aos brados, clamando pela condenação dos acusados, rezando pela menina morta e, quiçá, para que aparecessem eles próprios, nem que fosse por um mísero segundo, no telejornal das oito. “Já pensou, ser visto em rede nacional?!”. O sujeito careca não perdeu tempo. Ficou à espreita do famoso repórter, calculou o horário da transmissão e pimba: como esperto papagaio de pirata, surgiu ao fundo, dançando, desenvolvendo sua performance com máxima rapidez, antes que os seguranças lhe negassem os minutos de fama a que todos têm direito, segundo Warhol. Missão cumprida: foi visto na Globo, eternizou-se no You Tube.

Os principais suspeitos eram o pai e a madrasta da menina. Haviam dado entrevista no Fantástico, assim como a mãe, todos com suas versões e emoções. O pai era um sujeito que já tivera suas demonstrações de violência, ameaçando a ex-mulher e sua família. Suspeitíssimo, já não bastassem todos os indícios e provas contra ele. Também a madrasta tivera arroubos de ciúmes. Em suma: culpados, sem sombra de dúvida. A imagem de ambos se deteriorava da mesma forma que a frágil alegação, repetida exaustiva e inutilmente, de que uma terceira pessoa estava no apartamento e que todas as provas periciais eram forjadas ou, no mínimo, infundadas.

Presos quase desde o ocorrido, pai e madrasta, então réus, postavam-se à frente do Conselho do Júri, composto por cidadãos comuns: quatro mulheres, três homens. Dentro do prédio, encenou-se o teatro de acusação e defesa. Fora, o circo da manifestação popular: cartazes pedindo justiça, prisão perpétua, pena de morte e a canonização da pobre menina. Já havia quem a considerasse santa. Dentro, o público seleto assistia à leitura dos autos, aos depoimentos de réus, testemunhas, peritos. Comovidos, choraram ao ver as fotos da criança morta. A autora de novelas, que sentira na pele o mesmo sofrimento da filha assassinada, prestou sua solidariedade à mãe. Fora, o promotor era aplaudido como um herói, enquanto o advogado era ameaçado e agredido. Um pastor precisou ser escoltado pela polícia, protegido da fúria dos populares pela heresia de clamar pelo perdão dos supostos assassinos. A voz do povo o condenara: arderá no fogo do inferno, se Deus quiser!

Por fim, o longo enredo chegou ao seu epílogo. Eis o veredicto: condenação! 31 anos para ele, 26 para ela. “Pouco!”, consideraram uns. “O suficiente”, entenderam outros. “O que importa é que foram condenados, justiça foi feita!”, comemoram quase todos. Ouviram-se os gritos e o espocar dos rojões. Explosão de contentamento, catarse coletiva. O promotor foi ovacionado. A família do réu saiu pelos fundos. “Lincha, lincha”, gritou a multidão, só contida à base de spray de pimenta. O caminhão com os condenados saiu em disparada rumo ao presídio. Centenas de homens, mulheres, velhos e crianças correram atrás, como cachorros impulsionados pelo instinto e pela tradição canina de perseguir veículos. Dentre eles, destacou-se uma voraz e gorda senhora que esmurrava o caminhão com sede de vingança.

Todos estavam aliviados. Justiça fora feita, os assassinos ficarão anos a fio trancafiados num presídio, oxalá, fétido, lotado, à mercê do sadismo de outros bandidos como eles. Só restava, então, voltarem para casa. Ainda precisavam fazer justiça com as próprias mãos, pelo telefone ou pela internet. Muitos brigariam para eliminar, de uma vez por todas, aquele redivivo brother homofóbico. A maioria, porém, jogaria fora da casa aquela maldita aberração humana sob a figura tosca de drag queen. Afinal, tamanha imoralidade também não poderia passar impune.

20/03/2010

O Centenário

“Esqueci de morrer”, ele diz, com o mesmo vezo irônico de sempre, mantido como uma marca registrada por toda sua longa vida. Todos que o conhecem sabem que por trás de cada frase dita, conquanto possa existir um fundo de seriedade, há também um habitual tom de escárnio. Tratar a própria esposa de “geringonça velha” ou se despedir das visitas dizendo “que limpeza!” não são atitudes compreendidas pelos interlocutores como ofensivas. Muito pelo contrário, causam risos em quem supostamente deveria reagir com cólera. “Esse é gozador!”, sentenciam.

Aquela frase – “esqueci de morrer” – traz consigo duas vertentes, sendo ambas, de uma forma ou de outra, sarcásticas. A primeira, óbvia, pela idade avantajada. E segunda, pela descrença que ele nutre a respeito da morte. Aliás, eis uma outra de suas marcas registradas: a fé inquebrantável na imortalidade do espírito. O corpo morre, mas a vida continua: ideia que lhe é extremamente cara, repassando aos outros como poderoso ensinamento. Tal crença o ajuda a manter a solidez ante a passagem dos entes queridos, um a um, numa sucessão pesarosa de despedidas, mas não de mortes, já que esta não existe. Foram-se os pais, os irmãos, os amigos, a esposa. Esta última, a saudade mais intensa, a dor que volta e meia irrompe voraz, que lhe custa dominar, mesmo convicto na vida eterna do espírito. “Sabe como é – explica docemente, tentando desvencilhar-se da lágrima que teima em cair dos olhos e do nó na garganta –, foram muitos anos juntos”. Eis o lado ruim de se completar 100 anos: a ausência física de tantos companheiros de jornada.

Meu avô nasceu em 20 de março de 1910. Completa hoje, portanto, um século de vida, expressando toda a fragilidade de seu corpo centenário e toda a fortaleza necessária, física e espiritualmente, para atingir um marco tão difícil. Registre-se: há um bom tempo ele vem afirmando que chegaria aos 100, como se fosse uma missão a ser cumprida.

Exercito a imaginação tentando visualizar como foi o meu avô criança, depois adolescente. Duas guerras mundiais, várias transformações culturais, mudanças de hábitos, de valores. Não obstante, sua personalidade é marcada mais pela perenidade das convicções e das atitudes do que pelas concessões às tantas modas embutidas na longa trajetória do tempo. Não se entenda, porém, que meu avô seja um desses conservadores rabujentos, avessos ao progresso, a maldizer o presente pela derrocada do passado. Não. Ele preza as transformações do mundo, as quais qualifica de evolução. Evolução: mais uma cara ideia espírita a trazer consigo como um valor.


Tais valores, inclusive, explicam sua retidão no pensar e no agir, seu hábito de fazer a caridade, de ajudar ao próximo sempre que preciso (visitar doentes, por exemplo, é quase um vício!). Além dos valores do trabalho, do estudo. Quanto a este, ressalte-se que batalhou para que os filhos fossem "doutores" – e conseguiu! – numa época em que isso não era nada fácil.

Meu avô passou quase toda a vida no sítio, próximo a um pequeno lugarejo chamado Vila Lourdes, hoje município de Lourdes. Sua presença ali sempre foi marcante, sendo até hoje tratado com máximo respeito e carinho por todos. Chegado aos 100, ainda caminha sozinho. Só que a vista é falha, a mente e as emoções são claudicantes, a consciência é permeada por constantes lapsos. Mas continua firme, rijo, como se diz no interior.

Esse é Lázaro Quirino da Silva, meu amado vô Lazinho. A baixa estatura não lhe retira o evidente gigantismo como pessoa do bem. A estatura física, a propósito, é o único dos seus legados pelo qual não tenho lá muito a agradecer... Quanto à estatura moral, todavia – a inteireza do caráter, o apreço por fazer o bem, por ser correto –, guardarei eterna gratidão por tudo o que nos transmitiu, a mim e à nossa família.

Parabéns, vô. Você bem disse que chegaria aos 100! Muito embora eu confesse: achava que era mais uma das suas gozações.




Foto: eu criança e meu vô Lazinho em frente a um monjolo.
Essa foto deve ter sido tirada em 1975 ou 76.

14/03/2010

Bandeiras em Luto



“Quando você morrer, quer que coloquem a bandeira do Corinthians sobre seu caixão?”, foi a pergunta da minha mulher. Engraçada essa, digamos, tradição brasileira. Desconheço se há algo parecido em outros países, mas, no Brasil, é bastante comum. No Brasil, aliás, o sujeito é identificado pelo nome, sobrenome, números de RG e CPF, profissão, estado civil, nacionalidade, naturalidade, residência, domicílio e o time do coração. Além disso, torcer para algum time, aqui, constitui uma peculiar estratificação social: sou da classe tal, tenho renda X, escolaridade Y e torço para o time W.

Minha mulher, vale dizer, me fez a pergunta influenciada pela triste imagem dos caixões do cartunista Glauco e de seu filho Raoni, cobertos, respectivamente, com as bandeiras do Corinthians e do São Paulo, além das bandeiras alusivas ao Santo Daime.

Glauco e Raoni foram mais duas vítimas da violência que assola nossa sociedade, diretamente relacionada ao consumo de drogas. Mutatis mutandis, a tragédia pertence ao mesmo rol de fatos violentos que tantas vezes observamos entre torcidas de futebol, não raro, produzindo vítimas fatais. Recentemente, uma briga entre as torcidas do São Paulo e do Palmeiras e outra, entre torcedores do Flamengo e do Vasco, fizeram aumentar ainda mais a lista infindável de vítimas dessa violência bestial e desenfreada.

Até quando essa barbárie vicejará no país? Até quando cobriremos caixões de pessoas assassinadas com bandeiras de seus times, em vez de as ter em mãos, vivos e sorridentes, tremulando-as por conta do resultado obtido em campo ou simplesmente para mostrar aos outros, sem romper a harmonia, o orgulho pelas cores do clube?

As bandeiras de dois times rivais sobre os caixões de pai e filho demonstram a possível convivência entre seres humanos com paixões distintas, mas compromissados com o amor mútuo, com o respeito ao outro, com uma bandeira maior que todas: a bandeira da paz.

Ao grande artista Glauco, o adeus deste que aprecia a sua arte desde a infância. Se compararmos os quadrinhos ao futebol, Glauco era, com certeza, um expoente do mais genuíno futebol-arte. Pena. Foi-se um craque.

JFQ

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04/03/2010

Quem lê tanta notícia

A loira chegou, vinda de outras terras, ao país das maravilhas. À mão, outra espécie de loira, nada carnuda, e sim, líquida. Abaixo, aquelas criaturas morenas e festivas dançavam seminuas como se fosse o último dia de suas vidas. Uma multidão fantasiada pulava e cantava, tendo à frente o fluxo ritmado de passos, sons, carros e corpos. “Beautiful, beautiful!”, admirou a loira, sentindo-se em casa. Os cliques e os gritos não tardaram, todos em sua direção e dos outros de sua célebre estirpe. As imagens das duas loiras, a célebre e a líquida, rodaram o país. Não agradaram, porém, a todas as mulheres nativas, especialmente as pudicas, e desagradaram sobremaneira alguns doutos e togados senhores. Notaram e lhes proibiram a devassidão. Furiosos ficaram os que apostavam seus ricos vinténs no empreendimento das imagens, à cata dos sedentos glutões ávidos por comê-las, por bebê-las, por amá-las. “Fora a censura, viva a liberdade de expressão!”, bradaram, antes de arguirem: “Quem arcará com os prejuízos?”. “Moral, bons costumes”, gritaram outros. “Mulheres sim, objetos não!”, exclamaram outras. “Traz lá mais uma gelada!”, sentenciaram os demais.

Outros senhores de laia análoga – criadores de imagens – , regozijavam-se com o sucesso da casa dos reclusos. No seu interior, cada vez menos gente. Fora, cada vez mais curiosos a espiá-la. Rapazes e moças, simpatizantes e antipatizantes a promoverem fuxicos, intrigas, tramóias. Em uma palavra, execrável para muitos, essas pessoas estavam... jogando. Jogando? Na casa, a princípio, vale tudo. Inclusive dançar homem com homem e mulher com mulher. Quer dizer, não na inteligência de um dos rapazes, o retornado de outros tempos: outros tempos de casa, outros tempos da inteligência de homens e mulheres. Antro de diversidade: gente estranha, travestida, colorida, cabeluda e chata. Só não pode gordo, feio, barrigudo e sem ibope. Sobretudo, sem ibope!

Intranquilos com as coisas, sôfregos pela marola que os acalme, outros tantos intentavam enrolar ervas alternativas em protesto por não poderem fazê-lo com as ervas tradicionais. Em plena terra da garoa, decidiram esfumaçar a principal avenida com cheiro de orégano. E vieram os senhores doutos e togados, desacompanhados das pudicas, proibirem a queimada. Afinal, nessas bandas come-se pizza às pampa, mano, e orégano é gênero de primeira necessidade. Resguardemo-lo por razões morais, jurídicas, ecológicas e gastronômicas. Nesse ínterim entre os planos e a proibição, os nóias do centro sentiram que algo não cheirava bem. Os meganha, uns cem deles, vieram na toda e botaram todo mundo na parede. “Teje preso!”, e lá se foram uns trezentos em fila indiana. Já não pode ficar no centro, os bacanas de Higienópolis e adjacências também reclamam da presença dos nóias, e agora as otoridades não se entendem onde eles serão guardados: poliça prende, os doutores soltam, os homens do governador querem repressão, os doutores do prefeito dizem que é questão de saúde pública. Então, ficamos assim: enquanto otoridades não entram em acordo, os nóia retornam festivos às ruas. Mas vão para onde? Alguém lhes dê uma Luz! Só não lhes dê bagulho: não pode fumar maconha, não pode fumar orégano e cigarro só se não for em locais fechados de circulação pública! E se beber, não dirija!

Cerveja daqui, tapinha de lá, eis que tudo se mistura. O brother machão, após beber a célebre devessa e comer a líquida – ou seria o contrário? –, acende um cigarrinho de orégano e pergunta: “Foi bom pra você?”. “Well”, responde a loira, “Preferia aquela sua amiga drag e um charuto jamaicano legítimo, you know”. “E da casa, da casa você gostou, né?”. “Well, prefiro meus hotéis, honey”. Só assim o brother foi eliminado. Juntou-se aos nóias porque nóia é doido, mas não é frutinha. E assim as coisas andam pelos cantos do país das maravilhas. Na avenida do samba, na mais paulista das avenidas, nas cracolândias da vida e na casa mais famosa do Brasil.

* * *
Notícias:

Socialite Paris Hilton participa do carnaval carioca e faz propaganda da cerveja Devassa.

Justiça paulista proíbe a “marcha do orégano”.

Procuradoria abre processo para investigar homofobia no BBB.

Justiça tira do ar campanha da Schincariol com Paris Hilton.

Polícia prende 76 suspeitos de tráfico na cracolândia e recolhe 250 usuários.

Boy Jorge chama BBB10 de “lixo brasileiro”.

Secretário de Kassab critica aliado José Serra ao condenar ação policial na cracolândia.

02/03/2010

José Mindlin

A imagem de José Mindlin estava inescapavelmente associada à dos livros. Falava-se de Mindlin, logo aparecia sua imensa biblioteca, repleta de raridades: seu universo particular. A paixão pelos livros, pela leitura, foi sua marca registrada, legando a si o “título” de bibliófilo: amante e colecionador de livros. Procurava inocular nos outros o vírus que, como costumava dizer, uma vez inoculado, a pessoa jamais conseguia, felizmente, se curar: o vírus da paixão pela leitura. Coerente com essa missão de agente transmissor do vírus da leitura, legou ao público sua invejável biblioteca, doando seus livros à Universidade de São Paulo.

A propósito, tive a oportunidade de ver Mindlin em 2008, quando da vinda ao Brasil do escritor português José Saramago – a quem devo boa parte de minha paixão pela leitura – , no Sesc Pinheiros, para o lançamento de “A Viagem do Elefante”. Saramago, carinhosamente, fez menção à presença de Mindlin no recinto, e este respondeu com um aceno tímido, contido. Ambos, senhores à beira dos cem anos, imersos na sabedoria de uma longa vida dedicada às letras e ao pensamento crítico. No caso, pensamentos em muito discordantes, mas não no apreço às letras, à cultura e à consciência cidadã.

Mindlin foi um bem-sucedido empresário, fundador da Metal Leve, do setor de autopeças. E como empresário passou pelos anos da ditadura sob pressão. Após o AI-5, com o endurecimento do regime autoritário, foi criada a OBAN, Operação Bandeirante: órgão de informação e repressão, responsável, inclusive, por torturas e mortes. Conforme registrado em depoimentos no ótimo documentário “Cidadão Boilesen”, de Chaim Litewsky, quando o Henning Boilesen, diretor da Ultragás, articulou entre o empresariado brasileiro o financiamento da OBAN, teria encontrado a resistência de apenas dois empresários: Antônio Ermírio de Morais e José Mindlin.

Convidado pelo então governador paulista Paulo Egydio Martins para assumir uma pasta a ser criada – a Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia – , Mindlin, de pronto, recusou. Era contra o regime e não poderia compor um governo nomeado pelos militares, muito embora nutrisse amizade pelo governador. Paulo Egydio insistiu, argumentando que ninguém mais teria sua capacidade para assumir a secretaria. Mindlin, por sua vez, consultou amigos, dentre os quais o crítico Antonio Cândido, que o convenceram a aceitar o convite, já que seria uma oportunidade ímpar para desenvolver áreas tão importantes e, sobretudo, que seria melhor ele assumir a outro, comprometido com o regime ditatorial. Como secretário, José Mindlin promoveu algumas conquistas: plano de carreira para pesquisadores científicos, ampliação e recuperação de museus, bibliotecas e prédios históricos. Porém, em protesto, deixou a pasta após a morte do jornalista Wladimir Herzog.

José Mindlin foi, ainda, “imortal” da Academia Brasileira de Letras. Ironicamente, dizia querer trocar tal imortalidade por mais uns dez anos de vida. Para quê? Para poder ler mais uns tantos livros.

A morte de José Mindlin representa grande perda ao Brasil. Uma pena! Como também é uma pena que o ambiente brasileiro seja ainda tão pouco propício à proliferação do tal vírus da leitura. Uma pena que os empresários brasileiros, via de regra, não tenham tamanha consciência de cidadania, de compromisso e responsabilidade social com seu país. Uma pena que a cultura não seja tão valorizada no Brasil.

Mindlin foi exemplo de empresário, de ativista da cultura, de cidadão, de agente transmissor da paixão pelos livros. Enfim, um grande brasileiro.

27/01/2010

Non Ducor Duco*

* Não sou conduzido, conduzo



Amor e ódio, dois sentimentos opostos, são comuns aos paulistanos em relação à sua cidade. Aos paulistanos “da gema” e aos paulistanos por adoção, como eu. Tais sentimentos podem estar presentes no mesmo paulistano, oscilando ao longo do tempo no ritmo frenético da própria metrópole.

Quando vim a São Paulo para estudar, em 1991, estava maravilhado por morar naquela cidade gigantesca aonde vinha com freqüência, na infância, para visitar tios e primos. Também sentia medo, o medo típico de um caipira para o qual a estranheza em relação àquele gigantismo é inescapável. Ademais, tinha apenas 19 anos.

Mais acostumado ao “jeitão” da cidade e de sua gente – um tanto fria, qual o clima – , fazendo jus a Caetano, diante da dureza imposta pela metrópole, aprendi depressa a chamar-lhe de realidade. O “avesso do avesso do avesso do avesso” passou a contrastar muito com o “outro sonho feliz de cidade”: as saudades de minha terra natal, Birigui, minha família, meus amigos, meu modo de vida anterior.

O que mais incomodava não eram os congestionamentos, a violência, o frio, a poluição, apesar de incomodarem, é claro. O pior para mim, indiscutivelmente, era a solidão. Solidão que parece ser mesmo marca registrada de São Paulo, cantada em verso e prosa, expressa em músicas e filmes, ironicamente denunciada por Nelson Rodrigues: “A pior forma de solidão é a companhia de um paulista”. Engraçado: um lugar com mais de 10 milhões de habitantes, onde você pode sentir-se o mais isolado dos seres!

Não se trata apenas de estar só, sem alguém por perto, mas de não ter relações próximas, propriamente afetivas, com ninguém. Se no interior todos se conhecem – muitas vezes a ponto de também criar grande incômodo, como se vivêssemos em um reality show do tipo Big Brother, onde todos vigiam a vida de todos – , na metrópole a impressão é a de sermos insignificantes formiguinhas em meio a um formigueiro de proporções infinitas.

Assim, como um ex-marido que se separa da mulher após incontáveis brigas, passando a maldizê-la na frente de todos e a todo instante, passei a emanar meu desprezo por essa “terra de loucos”, de onde, qual Carlota Joaquina, não queria levar nem mesmo o pó nos sapatos.

Fui embora, após 7 anos. Num primeiro momento, fiquei aliviado por estar “em casa” novamente. Porém, passado algum tempo, senti na pele que a “terra de loucos” passara também a ser “minha casa”. A saudade de São Paulo – contra a qual jurara ódio eterno – foi aumentando aos poucos. Descobri que fora dessa cidade imensa, cinzenta, fria e chuvosa não encontrava algumas coisas que me passaram a ser caríssimas: os teatros, os cinemas, os espetáculos musicais, as possibilidades de cultura, enfim, da qual passei a sentir a mesma falta que o brasileiro sente do arroz com feijão quando está no estrangeiro. Também precisava ir ao Pacaembu, ver jogos do Corinthians. Ou me envolver em intermináveis papos-cabeça com amigos uspianos em botecos da Vila Madalena. E as corridinhas no Ibirapuera! E ver as coisas acontecerem ao vivo, e não pela televisão... Essa é uma sensação engraçada: quem vem de fora percebe que São Paulo é o “lugar onde as coisas acontecem”.

Pronto. Já não perdia uma oportunidade de dar uma esticadinha à capital. Descobri que a metrópole não era apenas o monstro, mas também um lugar pitoresco e aconchegante. Se para Caetano, em determinado momento, “ainda não havia Rita Lee”, para mim, ainda não havia Paulo Vanzolini e Adoniram Barbosa. Mas eles estavam lá; sua São Paulo estava lá.

Depois de nove anos retornei, e cá estou há mais três. Já não sofro mais daquela triste solidão de antes. Sim, hoje não estou sozinho, e isso ajuda. Todavia, o aconchego, por assim dizer, não se deve somente ao casamento, mas a outra relação com a cidade derivada da transformação realizada em mim, em grande medida, pela própria cidade: São Paulo me ajudou a amadurecer. Bem entendido: amadurecimento não significa endurecimento ou tornar-se frio. Amadurecimento significa virar dono do próprio nariz e do próprio destino, desenraizar-se sem renegar ou amaldiçoar as raízes. Pelo contrário: é saber dividir o carinho indestrutível às raízes com o carinho às novas raízes, no caso, novas raízes paulistanas. Afinal, São Paulo é justamente isso: o compartilhamento de milhões de raízes em sua nova e comum raiz. Para quem quiser e souber aprender, em São Paulo aprende-se a conviver com o outro, com o diferente, sem perder a própria identidade.

Dessa forma, descobri que São Paulo, sobretudo, é “o lugar onde não se é conduzido, mas se conduz”. Como se a inscrição latina em sua bandeira – Non Ducor Duco – não se referisse exclusivamente à força econômica, política ou cultural da cidade, mas também às próprias pessoas, aos paulistanos. Os “da gema” e os de adoção, como eu.

Parabéns, São Paulo, pelos 456 anos! Com a gratidão de quem reconhece tudo o que recebeu e continua recebendo dessa “terra de loucos”.

18/01/2010

Zilda Arns



Tragédia incomensurável foi gerada pelo terremoto que atingiu o Haiti. Milhares de mortos em um país que sequer precisa de catástrofes naturais para ser um dos mais sofridos do mundo. Dentre os mortos, uma gigante brasileira: Zilda Arns.

Dona Zilda era portadora de um inarredável sorriso, pelo qual expressava, ao mesmo tempo, doçura, seriedade, força, serenidade e obstinação pela causa dos desamparados.

Era médica, pediatra e sanitarista, que optou por uma atuação distinta daquelas mais diletas à maioria de seus colegas. Fora dos hospitais e das clínicas, buscava propagar a saúde àqueles cujas condições de vida proporcionam, com recorrência, diarréia, desnutrição, verminoses e toda a sorte de moléstias sociais.

Era católica e cristã, no que há de mais essencial no termo: conduta voltada à caridade, fundada no amor ao próximo. A Pastoral da Criança, da qual é uma das fundadoras, tinha como referência a passagem evangélica em que Cristo realiza o milagre da multiplicação dos pães e peixes. Zilda Arns e sua Pastoral, todavia, não buscava distribuir diretamente o alimento – atitude também nobre, promovida por outros gigantes da solidariedade como Herbert de Souza – , mas em promover o milagre da multiplicação de informações, alimento necessário para que cada qual dos desvalidos atendidos construíssem, por si sós e em harmonia, a superação de suas situações de miséria.

Dona Zilda era mãe de cinco filhos consanguíneos. Além desses, adotou milhares de outros, ajudando a salvar-lhes as vidas, sem figura de linguagem, em sua empreitada pastoral. Os números são reveladores. No semiárido mineiro, por exemplo, a atuação da Pastoral da Criança produziu redução de 24,32% da mortalidade infantil e de 62,91% da mortalidade materna, em 2008.

Era, ainda, professora. Ensinava as coisas mais simples, porém fundamentais para salvar vidas de crianças: o uso do soro caseiro, a necessidade da pesagem semanal e do aleitamento materno, como fazer a multimistura – um composto nutritivo feito com alimentos encontrados nas próprias comunidades –, como conduzir ações educativas de base. Para não falar das magnânimas aulas de humanismo e de cidadania advindas de seu próprio exemplo de vida.

Zilda Arns era missionária que se tornou mártir ao morrer em missão, guerreira em uma guerra de solidariedade, que não mata, mas, sim, faz renascer à mais digna condição humana aqueles imersos nas situações mais desumanas.

Era cidadã, digamos, praticante. Cidadã na acepção mais justa dada por Augusto Boal: “cidadão não é aquele que vive em sociedade, mas aquele que a transforma”. Líder carismática, conduzia eficazes ações políticas, posto que públicas e voltadas ao público. Articulava-se com o poder constituído, independentemente de seus governantes de ocasião, potencializando as conquistas da Pastoral, ou melhor, das crianças às quais a Pastoral está voltada. Articulou também uma enorme rede de voluntários; por que não dizer, uma das formas mais pungentes de manifestação cidadã. E semeava a cidadania igualmente ao lutar pelo “empoderamento” – palavra feia, mas que traz consigo um significado importante – das pessoas e das comunidades mais simples. Ou seja, na concepção de dona Zilda, as pessoas mais simples e suas comunidades deveriam ser autônomas e responsáveis por seus atos e seus destinos, não se deixando tutelar pelo Estado, pelas burocracias, pelos poderosos.

Era brasileira, razão de enorme orgulho a todos nós, seus compatriotas.

Nesta hora de dor, a melhor homenagem que se pode prestar a essa grande mulher, ou melhor, a todas essas grandes mulheres reunidas na pessoa extraordinária chamada Zilda Arns, é o esforço para que seu trabalho persista, não obstante sua ausência física, pela Pastoral da Criança, pela Pastoral do Idoso e pelas diversas ações voltada aos desamparados sob sua inspiração.

Como expressou com propriedade Dom Paulo Evaristo Arns, outro gigante, irmão de dona Zilda, apesar da dor da perda: “Não é hora de perder a esperança.”

Jornalistas, garis e preconceitos

Boris Casoy envolveu-se numa saia justa – alguns dizem que cometeu uma gafe. Após felicitações de ano novo dadas por dois garis no Jornal da Band, telejornal do qual é âncora, sem saber que o microfone estava aberto, Casoy fez o seguinte comentário em tom de escárnio: “que merda: dois lixeiros desejando felicidades, do alto de suas vassouras...”. Prato cheio para uma saraivada de críticas: de razoáveis argumentos sobre a óbvia, mesmo que inconsciente, manifestação de preconceito social até condenações sumárias oriundas das mais hipócritas bocas politicamente corretas. Quanto a estas, a jornalista Barbara Gancia fez uma comparação interessante: muita dessa gente ilibada, pertencente, segundo Gancia, a uma “esquerda emburrada”, joga Boris Casoy no fogo do inferno, mas foi incapaz de criticar Lula quando cometeu a gafe dos “viados de Pelotas”. Certo. Mas tal comparação não afasta o preconceito que deve, sim, mesmo em mesa de bar, ser repelido. Ou só devemos aceitar felicitações dos mais elevados na “escala do trabalho” (ou da renda, muitas vezes sem qualquer trabalho), do alto de seus iates?
Casoy notabilizou-se pelos comentários indignados, feitos ao fim de reportagens relativas a falcatruas ou coisa que o valha, arrematados invariavelmente com o célebre bordão: “é uma vergonha!”. A imagem proba, com olhar reto, voz firme, e o próprio bordão, conferem a Casoy uma aura de coragem e, com ela, credibilidade junto a seu público. Credibilidade que não se limita ao público da “alta sociedade”, expandindo-se para as camadas mais baixas, aos garis e afins, ao chamado povão.
A propósito, sempre acreditei que a credibilidade da “fala grossa”, dos comentários indignados, atinge mais às camadas menos abastadas e, especialmente, com menos anos de estudo, carentes da opinião e da expressão dada pelo âncora corajoso de plantão. Aos mais escolados, entre os quais me incluo, tenho a impressão de que tal “estilo jornalístico” seduz menos, para não dizer que incomoda, uma vez que não queremos delegar a ninguém a interpretação/valoração dos fatos. Não; dê-nos somente a informação, e teremos a capacidade de formular nossas próprias opiniões, sem que um jornalista nos diga se isso ou aquilo é ou não é “uma vergonha!”. Seria preconceito de classe de minha parte? Talvez...
Mas Boris Casoy ainda está aquém de todo o potencial desse tipo de jornalista que faz justiça com as próprias mãos, ou melhor, com as próprias palavras. Talvez o grande expoente atual desse estilo seja José Luís Datena. Para este, não basta um mero comentário dito firmemente, concluído com um bordão; é preciso mais: comandar as câmeras, brigar ao vivo com autoridades, sentenciar penas capitais à bandidagem, proferir uns palavrões se necessário for. E emerge minha referida impressão: já vejo o povão – dentre os quais os garis que nos desejam feliz ano novo – balançando a cabeça afirmativamente, concordando com Casoy – “sim, isso é mesmo uma vergonha” – ou com Datena – “sim, esse sem-vergonha deveria pegar pena perpétua, sofrer bastante”. Enquanto isso, gente da classe média e da classe alta, “gente como a gente”, estaria ligada no Jornal Nacional, com seu casal de âncoras asséticos e sem comentários (limitados a uns olhares esporádicos de reprovação ou de consentimento), na TV Cultura, ou em outro desses telejornais “mais qualificados”.
Ledo engano. Pelo menos, se olharmos a pesquisa do DataFolha, realizada no final de 2009, em que Willian Bonner, âncora do JN, atrás apenas de Lula, é a pessoa mais confiável dentre 27 personalidades brasileiras listadas pelo instituto. Detalhe: Bonner supera inclusive José Luis Datena não apenas na pesquisa geral, mas, inclusive, quando se avalia apenas as pessoas que ganham até 2 salários mínimos. Achei a pesquisa interessante, e abalou um pouco esse preconceito que nutro da compreensão do povão sobre a imprensa. Pior: descobri que não sou tão “sabido” quanto pensava, apesar de ter mais anos de estudo que a maioria dos meus compatriotas. Senti-me, para ser sincero, o Homer Simpson que Willian Bonner, em suas palestras, diz ser o típico telespectador do Jornal Nacional. Também fiquei com a seguinte indagação na cabeça: Será que grande parte do público de Boris Casoy, quiçá a maioria, em vez de reprová-lo, concordou desavergonhadamente com o desdém aos garis?