Prefeitos e vereadores eleitos em 2012 tomaram posse ontem,
dia 1º de janeiro de 2013. Para mim, do ponto de vista político, esse foi um
dia especialíssimo. Pela primeira vez, todos os “meus” candidatos, nas duas
cidades que mais amo – Birigui e São Paulo – foram eleitos. Sinceramente, penso
que as cidades ganharam muito com suas escolhas. Em São Paulo, tenho convicção no
bom trabalho de Fernando Haddad, na prefeitura, e de Nabil Bonduki, na Câmara.
Em Birigui, meu pai, Adauto Quirino Silva, retorna depois de 30 anos. Apesar da
natural suspeição por se tratar da palavra do filho, acredito na sua disposição
e capacidade de contribuir com o desenvolvimento da cidade. Assim como acredito
na disposição e na capacidade de Pedro Bernabé, que, no meu modesto entendimento,
identificou em seu discurso de posse o ponto central da luta política
biriguiense: a substituição da carcomida lógica clientelista por uma lógica cidadã
de contemplação de direitos a todos, sem distinções, por meio políticas
públicas eficientes. Também merece destaque o secretariado, repleto de bons
nomes. Como se não bastasse, a eleição
de Paulo Bearari para a presidência da Câmara foi um motivo a mais para
cultivar a esperança nos bons tempos. Que essa esperança se torne realidade.
Feliz 2013 a todos.
Blog do JFQ
Ideias, opiniões, narrações e pitacos
03/01/2013
Quando o Corinthians jogou em Yokohama
Quando amanheceu o dia no Brasil, já era noite na terra do sol nascente. Estávamos acordados, fiéis e loucos, lá e cá. Ou melhor, onipresentes, como um todo-poderoso. Assim como em 1990, quando Tupãzinho empurrou a bola de carrinho, 16 de dezembro seria, mais uma vez, dia de glória. Naquela época, diziam sermos incapazes de ultrapassar os limites do estado; até há alguns meses, asseveravam que jamais transporíamos as fronteiras do país. Quebraram a cara antes, repetiram a dose agora. Éramos a piada e viramos o paradigma.
Quando o Corinthians jogou em Yokohama, sabíamos que o Chelsea jogaria no 4-2-3-1. Eles, coitados, desconheciam nossa alternância do 4-4-2 para o 4-3-3, somando 30 mil na arquibancada e outros 30 milhões nas casas, bares, padocas e onde mais houvesse uma TV ligada. Era muita desproporção a nosso favor, mesmo se considerarmos os tantos milhões de euros ingleses, ou melhor, russos. Já tivemos a lição de que grana não é tudo. Obrigado, professor Kia Joorabichian, nosso ex-Abramovic. Maior patrimônio é o que temos: a massa disposta a sofrer e a lutar, sem parar. Torcida que, qual tsunami, invadiu o Japão, assim como já fizera em 1976. Para quem pensava que o Rio de Janeiro era perto demais, percebeu que o Japão, para nós, também é logo ali. Yokohama, Maracanã, Morumbi: fazemos de qualquer lugar um grande Pacaembu.
Quando o Corinthians jogou em Yokohama, nem todos o viram, mas ali estava Ronaldo Fenômeno, no mesmo gramado em que outrora brilhou com a amarelinha. Estavam, ainda, Rivellino, Sócrates, Teleco, Cláudio, nossas vidas, nossa história e nosso amor. No impecável gramado nipônico sobrepuseram-se o chão da Fazendinha, o terrão da zona leste, os tijolos da arena em construção, a várzea onde Neco brincava, o solo do Bom Retiro sob os pés de cinco iluminados operários. A propósito, se nascemos à luz dos lampiões, hoje nos veem sob a luz dos holofotes de todo o planeta.
Quando o Corinthians jogou em Yokohama, ao seu lado adentraram jogadores de uniforme azul. Olhando bem, os uniformes também eram verdes, tricolores e até alvinegros, de outra estirpe. Cech, Lampard, Hazard e Torres eram, ao mesmo tempo, “são” Marcos, Ademir, Raí e Pelé, unidos para que o mundo não fosse nosso uma vez mais. Só que, vestidos de azul, os algozes de outrora não repetiram seus feitos. Secaram a mais não poder, em vão. Do mesmo jeito que, dias antes, fracassaram na tentativa de fazer do Al Ahly um novo Tolima.
Junto a Ralf e Paulinho estavam Rincon e Vampeta, Elias e Cristian, a garra de Biro-Biro, Wilson Mano e Ezequiel. Danilo armou jogadas à la Zenon, deu passes como Neto, confiante como Marcelinho. Fábio Santos foi combativo, raçudo: estavam consigo Wladimir e Zé Maria. Luizinho, o pequeno polegar, esteve representado pelo também pequeno, nem tão habilidoso, porém incansável, Jorge Henrique. Nosso intelectual Paulo André mostrou a inteligência do seu amigo, nosso eterno Doutor, e a segurança de Gamarra. Só Alessandro e Chicão entraram em campo como eles próprios: os bravos capitães da nave que partiu do fundo do poço da segundona para chegar ao céu sem limites do mundo. Tite, que não é Osvaldo, nem Brandão nem de Oliveira – também não é Menezes, ainda que, com certeza, um genuíno mano –, mas Adenor, o professor que ensina seus comandados a namorar e a jogar com “incansabilidade”.
Diferentemente da Libertadores, desta vez Sheik não estava endiabrado como um Edílson, nem Romarinho foi um talismã como Dinei. Nem precisaram, pois, desta vez, o protagonismo coube a Cássio: o gigante fez o primeiro milagre com o reflexo empresado por Gilmar; quando fez o segundo, assumiu a destreza de Ronaldo Giovanelli; quando fez o terceiro, já canonizado, era o próprio Dida defendendo o pênalti de Anelka.
O gol aconteceu no segundo tempo, igual a outro, também fadado a morar eternamente em nossos corações. Como em 1977, quando Basílio resvalou de cabeça na área, assim o fez Jorge Henrique. Aquela bola sobrara para Vaguinho; esta, a Paulinho. Na sequência, Danilo chutou e, como a trave de outrora, Peter Cech fez a pelota e a sina caírem na cabecinha de ouro de Guerrero, redivivo Baltazar, gringo como Carlito, oportunista como Luizão, Casagrande e Geraldão. Como se a cabeçada de Wladimir não tivesse sido interceptada, o dejá-vu nem chegou ao chute fatal de Basílio para que o grito de gol ecoasse neste e no outro lado da Terra, eternizando a imagem da bola a passar o muro vazado de Ashley Cole, Ramires e David Luiz. Quase reprodução do quadro em que aos pobres Carlos, Polozi e Oscar, caídos no chão, só restou lamentar o cumprimento do destino.
Logo após, vi Guerreiro correr em direção à torcida, ao mesmo tempo em que Chicão mordia o escudo, Marcelinho girava os braços, Rivellino gritava, Sócrates erguia o braço e cerrava o punho, Tevez dançava cumbia, Romeu dava cambalhota, Ruço jogava beijinhos, Neto deslizava de joelhos, Dentinho beijava os pulsos e o Fenômeno balançava o indicador, na falta de um alambrado para se jogar.
Quando Alessandro levantou a taça, repetindo o gesto da conquista recente da América, ali estavam William em chamas, Rincon vociferando palavrões e Gamarra com sua elegância guarani. A se lamentar, apenas a companhia de José Maria Marin e Marco Polo Del Nero, filhotes de ditadura, posando na foto histórica do time do povo, em cuja camisa a democracia esteve tão dignamente estampada.
Quando o Corinthians jogou em Yokohama, estavam lá todos os corinthianos. Alguns milhares, de corpo presente. Outros milhões, em pensamento e emoção. Outros tantos, incontáveis, que sequer residem mais neste planeta ora conquistado por sua nação alvinegra: não estão aqui fisicamente, muito embora estejam na paixão legada a filhos, netos, bisnetos ou amigos, tornados loucos no imenso bando. Representantes de um povo sofrido, nem tanto hoje como no passado. Povo em ascensão, Obamas da ZL a descobrir que, sim, nós podemos. Povo que não pode mais ser visto, a não ser sob a incurável dor de cotovelo da rivalidade doentia, como torcedores de um timinho sem glórias sediado na Marginal sem número. Perdoem-me os coirmãos: hoje, o discurso rancoroso e pseudo-elitista só evidencia o temor de que esse time se torne potência globalizada. E, quem sabe, assim será. Afinal, aqui é Brasil e aqui é Corinthians!
De qualquer forma, apesar de tudo, pode até ser que continuem a nos ver como um time menor. Nas suas palavras, um time de favelados, de desdentados e analfabetos. Isso pouco importa, pois não é assim que nós nos vemos. E, quem sabe, talvez não seja assim que o mundo nos veja, pelo menos desde que o Corinthians jogou em Yokohama.
***
Agradeço a São Jorge pelo ano maravilhoso de 2012. Ano em que superamos o Santos de Neymar, o Boca de Riquelme e o Chelsea do dinheiro. Ano em que conquistamos a América e o mundo. O mesmo mundo que, ironicamente, acabaria em 2012, assim como deveria ter findado em 2000. Conclusão lógica: sempre que o mundo está para acabar, fica tão feliz com a vitória do Corinthians que continua a existir. Somente um todo-poderoso para adiar o apocalipse.
22/11/2012
Ser grande
No dia 2 de dezembro de 2007, assisti, sentado no chão e com o som da TV
desligado, à partida entre Grêmio e Corinthians que culminou no rebaixamento do
meu time para a segunda divisão do campeonato brasileiro. O sofrível desempenho
no certame tornara previsível o desfecho trágico. Isso não impediu, ao apito
final, o susto, a descrença, a acusação de culpados, a vergonha. Passados
alguns minutos, ambiente tomado pela tristeza e pelo som cruel de rojões e
buzinas, com os olhos marejados, abri a porta do quarto onde minha mulher,
solidária – apesar de são-paulina –, recolhera-se para que eu curtisse minha
dor em paz. Pronta para consolar-me, ela se surpreendeu com o improvável
sorriso na face do marido. Sabe-se lá por que, sem mais nem menos, fui tomado
pela certeza quase absoluta de que tal momento era uma etapa necessária para o
Timão tornar-se verdadeiramente forte.
Qual um profeta, liguei para meu cunhado, também corinthiano, ávido por
lhe dar a boa nova. Após algumas tentativas frustradas – por razões óbvias, ele
evitava o telefone –, consegui despejar-lhe a profecia:
“Cara, pode escrever: o Dualib já está fora, o
clube vai se reestruturar, o time vai se reorganizar, vamos ganhar a segundona,
o Paulistão, a Copa do Brasil e, esteja certo, mais cedo do que você imagina
faturamos a Libertadores!”
O rompante de otimismo não impediu a preocupação com as possíveis
consequências da queda em certos torcedores: meus sobrinhos. Frente à
primeiríssima grande decepção futebolística, o que pensariam e como reagiriam
Ana Laura, 9, Rodrigo, 5, e Pedro, 1? Como absorveriam as gozações na escola e,
pior, os questionamentos íntimos? E nós, adultos, como prosseguiríamos na
catequização clubística, na pregação de que pertencíamos à torcida mais fiel da
camisa mais gloriosa do esporte bretão? Como sustentar a idolatria mosqueteira,
enfim, diante de tamanha demonstração de incompetência ludopédica? Eles, que já
haviam entrado em campo com os jogadores, passariam a recusar as visitas
eventuais ao Pacaembu e ao Parque São Jorge? Sem enrolação, a pergunta fatal
era: continuariam corinthianos? Eis a mais angustiante das indagações, uma vez
que o distintivo do time do coração não é um mero desenho, pois, sim, um
verdadeiro brasão de família: tão importante que a muitos acompanha por toda a
vida, do enfeite na porta da maternidade até a bandeira sobre o caixão!
A solução foi aproveitar o momento para dar novas lições às crianças. As
lições da derrota, por assim dizer. Primeira, a lição da humildade: vencer e
perder fazem parte da vida; aprendemos com ambos. De mais a mais – aí a fala já
não era mais tão humilde –, o futebol perderia a graça se só nós vencêssemos...
Segunda, a lição do tempo e do trabalho: há fases de conquistas e fases de
perdas; é preciso paciência, esforço e inteligência para que superemos o
período ruim e voltemos às vacas gordas. Como diz o ditado, não há mal que
sempre dure nem bem que nunca acabe. Porém, mudanças não vêm por inércia (tenho
minhas dúvidas se as crianças entenderam essa coisa de inércia). Por fim, a
mais importante das lições: independentemente das derrotas, somos grandes e
jamais deixaremos de sê-lo. A superação será a maior prova da nossa grandeza.
Grandeza, aliás, que não está somente nos resultados, mas, acima de tudo, no
nosso orgulho em vestir a camisa em qualquer circunstância.
Esta última era a lição mais delicada. Mesmo com a retórica bem
construída, francamente, é impossível sustentar o discurso da grandeza quando
um escrete só faz apanhar. O próprio torcedor, peregrinando anos e anos pelos
estádios sem faturar uma tacinha sequer, passa a questionar se seu clube é – ou
ainda é – realmente grande. Angústia maior: sendo extremamente penoso torcer
para time pequeno, muitas vezes o filho abdica da paixão herdada do pai,
virando a casaca em prol de camisa mais vencedora. Sejamos sinceros: quantos
filhos de corinthianos, palmeirenses e santistas não se tornaram são-paulinos
após as Libertadores e Mundiais conquistados pelo tricolor?!
Toda essa ladainha, claro, foi inspirada na “recaída” do Palmeiras. Quem
sou eu para dar conselhos, especialmente a um arquirrival! Ademais, um
arquirrival para quem a segundona não é experiência inédita! Todavia, atrevo-me
a aconselhar o coirmão, pensando (quase disse “torcendo”) para que o Verdão não
apenas volte e permaneça na divisão principal, como também para que recupere a
condição de time vitorioso, temido pelos demais. Penso que os palmeirenses
devem pressionar sua diretoria a promover mudanças necessárias e definitivas,
começando por uma trégua política, passando por ações de marketing (a marca
Palmeiras, apesar de desgastada, tem muito valor), pela escolha de um plantel
competitivo e pela manutenção do treinador por longo tempo, de preferência, em
paz para trabalhar. A propósito, paz é algo há muito não visto no Parque
Antártica, vide o nervosismo de vários jogadores observado ao longo do
Brasileirão. Por outro lado, dois fatores já pesam a favor: a construção da
nova Arena e a participação na próxima Libertadores. Se não for muita afronta
ao orgulho próprio, recomendaria ainda usar o “case” de sucesso do maior rival
como referência.
Outro conselho, mais subjetivo: busquem e expressem a alma alviverde. Há
tempos não vejo torcedores do Palestra, no seu mais legítimo estilo
“brasileiro-italianado”, qual o paulistano da gema a encarar sem medo a labuta
diária, baterem no peito e dizer: “Aqui é Parmera, bé-lô!”
Termino manifestando especial solidariedade aos amigos palmeirenses ora
apreensivos com a reação de suas crianças e com o futuro da família palestrina.
A eles digo: aproveitem a queda para transmitir as tais lições aos pequenos.
Sobretudo a lição da grandeza, segundo a qual para ser grande é preciso, antes
de tudo, sentir-se grande. Aliás, não há ninguém que queira mais ser grande do
que os pequenos! Tais como o Lucas e a Renatinha, filhos do palmeirense
Fabrízio Hamanaka, o Gustavo, filho do palmeirense Fernando Cunha, ou o Théo,
filho do não menos palmeirense Glauber Piva. Para comprovar a sinceridade da
recomendação, assevero que farei o mesmo com meu filho Henrique, prestes a
chegar. Muito embora espere fazê-lo sem sair da Série A.
02/10/2012
40 anos
* Lendo o poema do meu amigo Glauber Piva, publicado no seu blog (www.glauberpiva.blogspot.com), prestes que estou a também me juntar à turma dos "enta", não tive como não vestir a carapuça. Fale por nós, Glauber, os quarentões:
* * *
Glauber Piva
A passagem do tempo
É força-bruta que esculpe finezas
Verga o rijo
Lambe o seco
Inibe frescores
Insistente
borda nas lacunas da vaidade
dores alimentadas com habilidade
e risos longevos, francos e vagabundos
Enamorado da saudade
O tempo velhaco dissimula o que sabe
Meio cheio ou quase nada
É um tanto medido pelo olhar
Muito longe ou quase perto
É sabedoria preguiçosa inventada ao caminhar
Placenta, ferramenta ou bala de pimenta
São regalos que temperam a vida aos quarenta
31/07/2012
A frase
Que importância tem se as bolsas caíram ou subiram? A discussão dos deputados, a decisão dos senadores, a determinação da presidenta: de que me valem? Qual foi mesmo a taxa selic? Tanto faz se o atacante do meu time está contundido e não jogará o clássico. Após ouvir aquela frase, como posso me preocupar com o pênalti perdido, o impedimento não marcado, a posição na tabela?
Não estou nem aí se curtiram meu comentário no face ou se escracharam meu blog. Quem liga para a semântica, as deficiências de estilo, a adequação sintática nas frases que escrevo? Diante daquela, todas as frases escritas ou faladas perderam o sentido.
Nem percebi se o café estava quente, se o pão estava queimado, se a moça do caixa acertou no troco. Dei de ombros para o congestionamento, para a poluição, para a previsão do tempo. Meu tempo, aliás, está congelado, pois o mundo parou: sou um mundo à parte. Retornando o movimento, o tempo será dividido em antes e depois da frase.
Às favas se o trabalho ficou acumulado e se estou com sobrepeso. Até rio se alguém aponta meus cabelos brancos e vou às gargalhadas quando notam minha careca. Amanhã, chego mais cedo ao batente, começo um regime, compro um chapéu panamá. Para tudo se dá um jeito. Menos para a frase. A frase é definitiva, maravilhosamente definitiva.
Quando der, passo na loja, visito a madrinha, combino o passeio, arrumo o escritório. Se eu lembrar, compro um bugue, gravo um cd, reconfiguro o windows. Lembro-me até de não esquecer o guarda-chuva. Quando der, ou melhor, quando passar o efeito da frase. Passará algum dia?
Tanto faz se há vida em Marte, água em Júpiter, brincos em Vênus ou anéis em Saturno. Estou me lixando se a Terra é azul e redonda ou roxa e quadrada. Não é a frase do Gagarin que me interessa, mas outra. Objetivos por conquistar, metas não atingidas: posso postergá-los. Quero mais que se exploda o que é comezinho, muito embora, ante a frase, tudo mais o seja.
Sim, há quem esteja triste porque o time perdeu, porque o aluguel subiu, porque o carro amassou, porque o marido tem outra. Há quem reproduza a mesmice rotineira e não esteja nem aí. Há quem reclame do chefe, conteste a cobrança, exija nota com cpf. Há quem vença uma doença grave, há quem escape da morte e há quem nada possa fazer. Há quem chore a morte do irmão, a perda do emprego, o fiasco nas vendas. Por estes, sinto-me até culpado: a felicidade, às vezes, é uma coisa impossível de se esconder.
Pensarei na qualidade de vida, na melhoria da educação, nos exemplos a dar, no dinheiro a poupar, nas cautelas necessárias. Por ora, só penso nessa bendita frase que me anestesiou e me deixou bobo. Frase seca, direta, singela e incontestável. Dita à queima-roupa: uma sentença, uma lei, a frase. Pronunciada por minha esposa, com olhar maroto, sem que eu pudesse esboçar reação:
“Você vai ser pai.”
Transcorrido um longo período de pensamentos soltos e sorriso aberto, encontro-me a questionar o sujeito da frase. Não é “você”: não há nada mais irrelevante do que a gramática neste momento. Também não sou eu, o “pai”. O sujeito existe, apesar de oculto. Tampouco sei se é menino ou menina. Ou se será parecido comigo, se gostará das mesmas coisas que eu. Apenas sei que já o amo, perdidamente e para sempre.
***
Obs: A frase foi dita em 21/07/2012.
01/07/2012
À tia Beatriz
Lembro-me de acordar bem cedo. A aula começava às sete ou sete e meia, se não me engano. As crianças chegavam acompanhadas pelos responsáveis; a maioria delas, de mãos dadas com as mães. Logo na entrada, como que a nos recepcionar, ficava o Guido com sua pipoca e seus doces. Uma legião de meninos de uniforme azul e meninas de uniforme rosa, munidos de lancheiras e outros apetrechos, marchava rumo às salas de aula. O prédio, o pátio, as quadras, tudo parece imenso na minha recordação infantil. Na verdade, o espaço ocupado pela Escola Estadual Stélio Machado Loureiro realmente é grande. Mas, acredito, não é maior do que o espaço afetivo ocupado nas vidas das tantas pessoas que passaram por ali. Na minha, inclusive.
Sempre digo que minha memória datada inicia-se aos sete anos
de idade. Consigo localizar no tempo acontecimentos ocorridos a partir do
longínquo 1979. Nem todos, obviamente. O que vem antes, todavia, ainda que me
lembre, não tenho condições de apontar dia, mês e ano. Uma das prováveis razões
para isso: 1979 é justamente o ano em que ingressei no pré-primário
(carinhosamente chamado de “prezinho”) do Stélio. Foi quando me desvencilhei um
pouquinho da proteção do pai e das barras da saia da mãe, da segurança do lar,
enfim, onde eu era um pequeno rei. Dessa forma, o “prezinho” foi para mim, como
para outros, a iniciação para a realidade dura da vida. A inédita e
incontestável prova de que não somos o centro do universo. De que há regras de
conduta a seguir ou, mais complexo, de que há um conjunto de valores
diferenciando certo e errado. Uma moral a nos limitar as ações, fundada
especialmente em um princípio: respeito aos demais.
Imagine o quão complicado, traumático mesmo, pode ser esse
momento para uma criança de sete anos! Nem mesmo para os pais é um momento totalmente
tranquilo. Claro que as primeiras noções de convivência já vêm da família, às
vezes reforçada por lições de catecismo religioso: onde os olhos dos pais não
alcançam, costumeiramente se usa o alerta de que “Deus castiga” ou, menos
drástico, de que “Deus fica triste” com determinadas diabruras. Mas é na escola
que aquelas noções começam a ser operadas na prática, nas relações com os coleguinhas
de classe. Daí, a imensa responsabilidade do primeiro professor: deve ser, ao
mesmo tempo, o educador que transmite o conhecimento das letras, dos cálculos, das
artes e tudo o mais, e uma espécie de substituto dos pais na orientação das
primeiras experiências com a independência, com a liberdade, com a
responsabilidade, em suma, com a vida em sociedade.
Tive muita sorte. Minha primeira professora tinha grande
habilidade (pode-se chamar também de sabedoria) em lidar com crianças. Sabia
que o decisivo passo era ganhar a confiança dos pequenos. Deixar claro sua
autoridade, mas nunca impô-la pelo medo ou por castigos, e sim, pela conquista
paulatina na base da doçura, do carinho. Dessa forma, detinha a atenção da
criançada nos momentos mais sérios e as deixava saborear os momentos de
descontração. Sem que percebêssemos, a tensão pela mudança abrupta tornara-se
sentimento de contentamento compartilhado em um ambiente de consolidação de amizades, de
aprendizado, de amadurecimento.
Minha primeira professora soube conduzir esse processo com mestria.
Com a mesma competência trabalhou com várias gerações, anteriores e posteriores
à minha. O mais interessante é que, passados tantos anos (décadas!), aquela
doçura e aquele carinho não se perdem em nossas memórias! Tenho certeza de que muitos dos seus
ex-alunos, chegando à condição de pais, torceram para que os filhos tivessem a
mesma sorte de encontrar uma professora como ela.
Sei que o tempo passa e as coisas mudam. Ainda não tenho
filhos. Contudo, torço para que, quando os tiver, eles tenham experiências ao
menos parecidas com as que tive e que me causam tanta saudade. Saudade, por
exemplo, dessa época do “prezinho”. Saudade de brincar de massinha, de fazer
desenhos com canetinha, de jogar futebol usando ki-chute, de comer o pão com
mortadela da cantina do Jairo. Saudade do Stélio, das brincadeiras, do
ambiente. Saudade dos tantos amigos: alguns dos quais, com mais ou menos
frequência, ainda vejo; outros, que se perderam no tempo e no espaço, mas nunca
do alcance da afeição. Saudade da tia Beatriz: das suas aulas, da sua doçura e
do seu carinho. Saudade: palavra mais do que apropriada neste instante.
27/06/2012
Sim, nós podemos!
É comum ouvir que ser corinthiano é ser sofredor, apaixonado, louco, coisas do tipo. O torcedor mosqueteiro, pelo menos o típico, é fanático, chato até. Há, entretanto, uma característica do corinthiano não tão comentada: ser corinthiano é também ser odiado. Com a mesma força com que sentimos nosso coração bater mais forte pelo Timão, notamos a bílis escorrer pela boca de são-paulinos, palmeirenses e santistas quando o escudo do alvinegro de Parque São Jorge lhes é apresentado.
Sei que hoje e na próxima quarta, dia 4/7, os corinthianos estaremos vidrados, torcendo pelo fim (enfim!) da nossa obsessão pela conquista da América. Ao mesmo tempo em que os arquirrivais estarão vidrados na “secação”, rezando para que não se perca para sempre a piada da Libertadores mosqueteira só no playstation.
A forma mais comum de se odiar os corinthianos – e, por tabela, o Corinthians – é o menosprezo. Visto do pedestal pelos rivais, somos taxados de favelados, analfabetos, pobres, desdentados, negros, ladrões (sem preconceito, claro!), enfim, de formas pejorativamente associadas ao homem do povo. Ser popular, “do povão”, contudo, é para nós motivo de orgulho, jamais de vergonha.
Outros “argumentos” nos são despejados nesse discurso elitista de quem come sardinha e arrota caviar. Eles, sim, têm casa, enquanto nós moramos na “Marginal sem número”. Eles, sim, têm glórias: campeões mil vezes, detentores das taças mais importantes, conquistadas por escretes mágicos, por academias, por gênios como Ademir, Raí e o maior de todos, o rei Pelé. Já nós, somos lembrados pelos times de “faz-me rir”, pelos tabus, jejuns, rebaixamentos e obsessões da vida. Para eles, de nada valem nossos Sócrates, Rivellinos e Marcelinhos, nossas democracias e invasões. Nossos gols são impedidos; nossos pênaltis, roubados; nosso Ronaldo é mais gordo. Até nosso Mundial, ao contrário dos deles, é fajuto.
Por mais fortes e obstinados que sejamos os corinthianos, é certo que tamanho menosprezo, somado aos sofrimentos de costume, levam a, no mínimo, um abalo na auto-estima. Diante desse quadro – todos contra o Corinthians! –, apesar de nos sentirmos realmente especiais, acabamos por vezes sucumbindo à cilada derrotista. Esquecendo das tantas taças e superações do passado – 1977, 1990, 2000, 2008, entre outras –, só nos vêm à mente as frustrações vividas: o gol do Vagner Love, a defesa do Marcos, os sofrimentos que não se tornaram vitórias na undécima hora, como, dizem, é do nosso gosto. Dessa forma, o corinthiano mais simples acaba por acreditar, embora com ressalvas, na máxima dos coirmãos travestidos de Caim: “Essa Libertadores não é mesmo para nós...”
Mas nada como uma vida centenária, nada como o jogo jogado por tanto tempo! Penso que, quando do rebaixamento, o Corinthians viveu seu “momento Scarlett O’Hara”: determinou a si mesmo que nunca mais passaria por tamanha mazela. De Mano Menezes a Tite – a fase gaúcha do Timão –, o time voltou à Série A, venceu Paulista, Copa do Brasil e Brasileirão. Como se não bastasse, está de malas prontas para a casa própria em Itaquera, sede da abertura da Copa do Mundo de 14. Coroando a nova era, reafirma-se altaneiro e chega à sua primeira final de Libertadores. E não se trata de uma Libertadores, mas DA Libertadores: passou pelo Vasco, vice-campeão brasileiro, pelo Santos, time de Neymar e atual campeão do torneio, culminando na final, até aqui invicto, para encarar o argentino Boca Juniors: bicho-papão da América, clube do semi-deus Maradona e onde joga o cracaço Riquelme. Épico, lendário, para dizer o mínimo!
Tite montou uma equipe aguerrida, muito bem entrosada, sabedora de suas funções e objetivos. A partir de um elenco apenas razoável, fez um conjunto invejável, duro de ser batido. Mas o grande mérito desse time não é técnico ou tático, e sim, psicológico: a partir de um time seguro, o torcedor trocou a obsessão de outrora por uma confiança que nem as pechas dos arquirrivais está sendo capaz de abalar.
Assim chegamos ao dia de hoje. Depois de tantas amarguras, a escalada ao topo do futebol fez com que nós, corinthianos, eternos sofredores, tenhamos a convicção plena de cravar: “Sim, nós podemos!”. Qual Obamas brasileiros, negros outrora relegados a posições menores, gente a quem não cabia sonhar, passamos a duvidar e a tornar nossos sonhos realidade.
Claro, respeitaremos o Boca e sua tradição, mas não nutriremos sentimento de medo. Caso nos venham com a história de seis taças levantadas, reforçada com a velha ladainha dos arquirrivais, responderemos com a simplicidade de um povo que sofre, mas supera os obstáculos, e com a potência de um povo em ascensão:
“(Her) Mano, aqui é Corinthians!”.
26/06/2012
A sociedade, as pessoas
Muitos partidos usam a sociedade, as pessoas, como pretexto para sua luta. Tomam delas esperanças e votos. Na primeira oportunidade, porém, fecham-se em um sistema hermético só inteligível entre os pares. Desligam-se daqueles “cidadãos” que, a princípio, seriam o fundamento de seu poder.
Muitos acadêmicos usam a sociedade, as pessoas, como pretexto para seus estudos. Tomam delas expectativas de serem compreendidas. Na primeira oportunidade, porém, fecham-se em conceitos herméticos só inteligíveis entre os pares. Desligam-se daquele “objeto” que, a princípio, seria o fundamento de suas teorias.
Muitos acadêmicos usam a sociedade, as pessoas, como pretexto para seus estudos. Tomam delas expectativas de serem compreendidas. Na primeira oportunidade, porém, fecham-se em conceitos herméticos só inteligíveis entre os pares. Desligam-se daquele “objeto” que, a princípio, seria o fundamento de suas teorias.
Muitos artistas usam a sociedade, as pessoas, como pretexto para sua arte. Tomam delas as imagens, os sons, as palavras. Na primeira oportunidade, porém, fecham-se em um circuito hermético só inteligível entre os pares. Desligam-se daquela “fonte de inspiração” que, a princípio, seria o fundamento de sua busca estética.
Muitos religiosos usam a sociedade, as pessoas, como pretexto para alcançar a salvação. Tomam delas os prazeres, as escolhas e os dízimos. Na primeira oportunidade, porém, fecham-se em claustros onde só convivem entre os pares. Desligam-se daqueles “pecadores” que, a princípio, seriam o fundamento de sua catequização.
Não é à toa que a sociedade, as pessoas, muitas vezes, em silêncio, respondem: fodam-se!
Em tempo: este texto não tem qualquer pretensão política, poética, espiritual ou científica.
12/06/2012
Pierucci, o professor
Antônio Flávio
Pierucci era opinião obrigatória nos principais jornais sempre que as
transformações religiosas no Brasil era o assunto tratado. Sociólogo respeitado,
de notória inteligência, autor de vários livros, Pierucci teve nas religiões e
no pensamento de Max Weber as principais inspirações de sua produção
intelectual.
Eu não conseguia
desassociar sua imagem da do grande sociólogo alemão. Logo que soube da morte
de Pierucci, num ato talvez instintivo, corri para minha biblioteca e apanhei o
exemplar de “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo” e a pasta com
textos de Weber. Era o material utilizado nas aulas de curso ministrado no
segundo semestre do longínquo ano de 1992: “Sociologia IV”, para a graduação em
Ciências Sociais, na USP.
Comecei a
folhear o material e encontrei uma prova. Quatro folhas manuscritas por mim, em
tinta azul, ao longo das quais se encaixavam anotações do professor, em
vermelho. Eis o estilo de Pierucci: não deixava comentários sem ponderações. Tinha
um semblante compenetrado, sempre sério, mas não carrancudo, nem tampouco propenso
a sorrisos fáceis. Inteligente, seu grande mérito para mim foi o de mostrar o
quão instigante era seu objeto de estudo. Além disso, o de trabalhar o aluno de
modo a mostrar suas falhas e necessidades de correção analítica, ao mesmo tempo
em que destacava seus acertos, quiçá uma estratégia de, pelo ego, incentivá-lo a
desenvolver o pensamento. Um bom exemplo disso é seu comentário final na
referida prova:
“João, há uma elaboração pessoal muito
interessante em toda a extensão desta longa prova. Mas você deve ter cuidado
para que neste movimento de se apropriar e elaborar em outros termos o
pensamento de um autor, a clareza não se perca, nem se perca também a precisão
dos conceitos produzidos pelo autor. Minha sensação é a de que você quase evita
usar os mesmos termos do autor. Por quê? Se fosse para melhorar o resultado
final, tudo bem, mas o efeito que você consegue não é este. O efeito é um “plus”
de imprecisão e obscuridade, de um monte de “não entendi” da minha parte, que,
modéstia à parte, entendo muito de Max Weber. Mas valeu, valeu, valeu. Há
momentos brilhantes em tua prova. Um abraço.”
Além do
intelectual renomado, lembro-me de Antônio Flávio Pierucci como um ótimo
professor. Com sua calma e seu jeito de conciliar críticas, reparos e
incentivos, demonstrava respeito por seus alunos e habilidade em
transmitir-lhes o interesse pela obra de Max Weber.
Valeu, valeu,
valeu, professor!
13/05/2012
O racismo nos olhos de quem acusa
Gostei do artigo de Nelson Motta, publicado no Estadão e no Globo (ver: http://www.qultural.blogspot.com.br/2012/05/macacos-gorilas-e-micos.html). Estão exagerando nessa "avaliação" (patrulha?) de racismo no clip de Alexandre Pires. Assisti ao clip (ver: http://www.youtube.com/watch?v=4vBRdK-M_-0) e concordo que o racismo está mais nos olhos de quem vê do que na coisa em si. Força bastante a barra a acusação. Sempre que houver um negro, qualquer alusão a macaco, banana ou sei mais o quê será sinal de racismo? Alexandre Pires, Neymar e Mr. Catra contribuiriam com o racismo? Aliás, a recusa da aproximação com o David Brazil no final do clip também não é sinal de homofobia? Que viadagem, ops, que exagero, não?!!! Quando o Renato Aragão chamava o Mussum de "grande pássaro", n'Os Trapalhões, a cena era considerada engraçada e levavam - inclusive o Mussum - na boa. Ah, se fosse hoje! Sei lá, não acho que é com esse tipo de patrulha, de achar pelo em ovo, de achar preconceito em tudo o que é coisa nos fará uma sociedade com menos discriminação. Ia dizer que a coisa está preta... melhor fingir que deu branco... Ahhh
01/03/2012
17/01/2012
Muito além da realidade
Começa mais um BBB. É o décimo-segundo. Ninguém aguenta mais! Ou, pelo menos, dizem que não aguentam. Ao topar com Bial e seus heróis há quem confesse sentir saudades do Berlusconi na TV. Como esse negócio dá tanta audiência? Se todos falam mal, se consideram de mau gosto, se fazem juras de não mencionar o bicho no facebook?
Logo de cara, o inusitado. Um rapaz jovem e bonito, exigência para participar do programa, e uma moça jovem e gostosa, condição idem, dormem na mesma cama sob o edredom: um clássico do BBB. Até aí, tudo normal. Ademais, ambos estavam bêbados. Também normal... a não ser para quem se preocupe com o consumo de álcool pelos filhos espectadores do show. O que não estava no script – se é que não estava, uma vez que nesse mundo televisivo até a realidade é manipulada – eram os movimentos dele enquanto ela permanecia inerte. Quem viu (o que viu?), dedurou: o rapaz aproveitou-se sexualmente da moça indefesa.
Pronto. Do repúdio generalizado ao programa até os trending topics é um pulinho. Qualquer mesa de boteco, sala de jantar ou de chats é sede de discussão do ocorrido. A Ministra cobra investigação severa. Pululam protestos na internet de mulheres indignadas, juntamente com manifestações machistas (“ela provocou, ela quis”). Juristas discutem a subsunção do fato ao tipo penal, se estupro de vulnerável é crime hediondo e se as imagens configuram prova suficiente do delito. E o comandante já não decreta que o amor é lindo.
Enquanto a Polícia Civil indicia o rapaz por suspeita de estupro, a Globo o expulsa da casa mais famosa do Brasil sem direito a paredão. Enquanto o acusado é solto, a suposta vítima continua presa na nave-mãe, sem contar com habeas corpus e sabe-se lá se com direito a exame de corpo de delito. Apesar de confinada, possivelmente abusada e (por ora) mal paga, há quem preveja que os brasileiros e, sobretudo, as brasileiras, comovidos, farão justiça à moça, levando-a à vitória. Se deu bem! (sem trocadilho, no caso, pra lá de infame). Como diria Cristiane Torloni: isso é um jogo, baby!
De volta à vida real (?), ignorante que sou, pergunto: foi realizada uma perícia no órgão genital da participante em momento oportuno? Se realizada, não elucidaria se houve ou não o estupro? Essa mania de querer facilitar as coisas... No universo do reality show, porém, o que importa não é o fato, mas a repercussão. Boninho, o diretor, defendeu-se atacando: quem acusa o participante é porque é racista! Claro (...), só porque o rapaz é negro. Quem vai contestar o big boss?
Indiciado e expulso, independentemente do desfecho do inquérito e do possível processo penal, o novo membro da extensa legião de ex-BBBs pode se sentir condenado. Pena perpétua de execração pública combinada com, caso opte, auto-exílio para algum país no qual retome o anonimato. Exposto em tudo o que se conhece de meio de comunicação, como poderá o rapaz, caso seja inocentado – sim, existe a possibilidade de ser inocente, apesar de só nos lembrarmos disso tarde demais –, levar sua vida normalmente? Igualmente a moça, exposta em rede nacional e em horário nobre, como o fará? Enfim, saberão viver sob a mácula de estuprador e estuprada, tanto faz qual seja a... realidade?
Começo a elucubrar, vou longe. Aposto que, das duas, uma: ou a Globo usará todo seu peso na colocação de panos quentes, forçando ao esquecimento da estória, qual político pego com dinheiro na cueca, ou revelará que tudo não passou de uma “brincadeira séria”, um jogo de cena protagonizado por atores contratados (quá-quá-quá, vocês pensaram que era tudo verdade!). Teorias da conspiração à parte, de uma forma ou de outra, a Vênus Platinada nos cobrará gratidão por contribuir com a discussão de tão grave questão social. Em outra direção, pergunto-me se alguém é capaz de apostar que o desfecho da novela, ops, do reality será a emissora obrigada a pagar indenizações aos envolvidos, quiçá superiores ao prêmio de um milhão e meio. Ou se sofrerá algum tipo de punição, lembrando que seus préstimos à informação, cultura e educação dos brasileiros constituem serviços em concessão pública. Ainda: quem apostará no desgaste do BBB junto aos patrocinadores e aos telespectadores e, pelo contrário, quem apostará no aumento exponencial do ibope do programa mais xingado e um dos mais vistos do país? Vote, você decide!
Bem, na realidade (?), a última opinião (ao fim e ao cabo, vendida como “opinião pública”) deve ser a da Globo. A última versão, oficial, a que fica. Mais ou menos, assim construída: Ana Maria Braga discutirá o episódio com especialistas, o Globo Repórter deixará por um dia a temática ecológica para revelar como vivem as estupradas no Brasil, Willian Bonner dará notícia a respeito no JN, assim como Zeca Camargo no Fantástico, e Faustão perguntará ao povo na rua o que acha disso tudo. E tocamos a vida, sem deixarmos de, volta e meia, dar uma espiada nas coisas que vêm do Projac.
Para uma empresa cujo dono já foi “muito além do Cidadão Kane” (a propósito, quem viu o filme?), agora vai além da realidade. Que reality show, que nada. Esse troço é surreal!
***
Obs: “Muito Além do Cidadão Kane” (“Beyond Citizen Kane”) é um documentário televisivo britânico, dirigido por Simon Hartog, exibido em 1993 pelo Channel 4, emissora pública do Reino Unido. Sempre houve forte oposição da Globo à sua exibição no país. Eu, inclusive, só consegui assisti-lo há poucos dias, graças ao You Tube. Ou seja, o filme sofreu (por razões óbvias) uma espécie de censura velada no Brasil. Da mesma forma que o filme “Amor Estranho Amor”, do diretor Walter Hugo Khouri, um dos principais do cinema nacional, já que não pega bem observar Xuxa Meneguel, a rainha dos baixinhos, nua e com um menino na cama.
Por essas e outras, fico aliviado por ter a Globo como suporte da democracia. Ela que sempre denuncia quando a liberdade de expressão está sob ameaça. Seja na Argentina, cuja presidenta arvora-se em retirar o monopólio do papel-jornal das mãos do Clarín e do La Nación. Seja na Venezuela, cujo presidente tem a petulância de tirar a concessão da emissora que participou da tentativa de golpe de Estado contra si. Seja no Brasil, onde volta e meia alguém insiste em propor a regulamentação da mídia.
***
Em tempo: aproveito para esclarecer que não sou favorável à maior parte das atitudes dos Kirchner e de Chavez em relação à mídia em seus respectivos países. Só pondero que não apenas a ação autoritária do Estado, mas também o monopólio privado da mídia ameaçam a liberdade de expressão e a democracia. A Globo e outras grandes corporações da comunicação tendem a só apontar o dedo para frente, jamais para si próprias. Nesse sentido, sou, sim, favorável à regulamentação da mídia no Brasil.
09/12/2011
Onde fica Birigüi?
“Onde fica Birigüi?”. Eis a pergunta que um birigüiense habitante de São Paulo é obrigado a responder milhões de vezes. Respostas clássicas: “A 10 quilômetros de Araçatuba”, “uns 530 quilômetros da capital”, “no noroeste do estado”, “não muito distante da fronteira com o Mato Grosso do Sul”. Muitas vezes o interlocutor, posando de entendido, chuta (e erra): “Pelos lados de Ribeirão Preto, né”, “Fica em Minas, certo?”. O mais gostoso para um birigüiense, porém, é quando o sujeito diz: “Araçatuba? Também não conheço...”. Ao lado do desconsolo por saber-se ignorado do mapa, aflora um doce sabor de vingança ao notar que as cidades rivais são irmãs gêmeas na condição de desconhecidas de muitos paulistanos.
Mas, claro, há quem saiba das coisas. “Sim, Birigüi fica ao lado de Araçatuba, no noroeste do estado”, “Birigüi, a Cidade Pérola”, “capital nacional do calçado infantil”, “conheço: terra do Bandeirante, do biribol, do Paulinho McLaren, do Reynaldo Gianecchini”, “Êta, lugarzinho quente!”. E há também o sujeito que tem certeza do comentário e se assusta quando é corrigido: “Como assim, Marco Bianchi, Paulo Bonfá e Peterson Foca nunca viveram em Birigui?!”.
A pergunta subseqüente, via de regra, é: “O que significa Birigüi?”. Resposta didática: “Quando os fundadores chegaram, a terra era infestada por um mosquito chamado birigüizinho”. Segue-se uma risadinha marota do perguntador, correspondida por um sorrisinho envergonhado do nativo: “Pois é, minha cidade tem nome de mosquito”.
Tenho a impressão de que Birigüi resume bem o Brasil: os povos que vieram para cá (japoneses, espanhóis, italianos, libaneses, alemães); a passagem da agricultura para a indústria, cada vez mais moderna e pujante; a desigualdade social; a política impregnada pelo clientelismo, reveladora da lógica do coronelismo, enxada e voto, tão bem demonstrada por Vitor Nunes Leal; a tentativa de tantos conterrâneos de fazer a vida fora do país (Estados Unidos, Portugal, Japão, Itália, Inglaterra) e o movimento de retorno. Até Nicolau da Silva Nunes, o fundador, me vem à cabeça como um Pedro Álvares Cabral a chegar de trem e se deparar com índios, no caso, caingangues. Sua gente é uma expressão perfeita do caipira, um dos povos que compõem o grande povo brasileiro, conforme Darcy Ribeiro.
Ontem foi comemorado o centenário da minha querida terra natal. Para escrever sobre ela, ocorreu-me de pronto a frase de Tolstoi – “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia” – e tentei vislumbrar o que há de universal na “minha” cidade. Reli um texto que escrevi por ocasião do 456º aniversário de São Paulo (http://blogdojfq.blogspot.com/2010/01/non-ducor-duco.html) e me chamou a atenção o seguinte trecho: “São Paulo me ajudou a amadurecer. (...) Amadurecimento significa virar dono do próprio nariz e do próprio destino, desenraizar-se sem renegar ou amaldiçoar as raízes”. No texto, lembrei da oscilação entre amor e ódio que senti pela capital paulista. Agora, lembro do mesmo sentimento em relação à “terrinha”. Quando não agüentava mais viver em Sampa, concebia Birigüi como a Pasárgada de Manuel Bandeira e me sentia o próprio Gonçalves Dias declamando “Canção do Exílio”. “Saudades da Minha Terra”, música caipira de Goiá e Belmont, ganhou status de hino pessoal. De volta a Birigui, no entanto, as coisas não foram exatamente como eu idealizava. Aos poucos, tudo passou a me incomodar – o pensamento conservador predominante, a visão de paraíso fundada num certo hedonismo machista e xucro (muié e cerveja, muié e cerveja, eis o mantra do único prazer existente), a cultura de ostentação de riqueza, a religiosidade exacerbada, e, até mesmo, a quase onipresença da música sertaneja. Só que muito do que os olhos veem não se deve à paisagem, mas sim aos próprios olhos. Por algum mecanismo psicológico que Freud deve explicar, eu, que valorizava tudo em Birigüi na mesma intensidade e proporção que demonizava em São Paulo, inverti os pratos da balança. Passei a ter saudade da saudade que sentia. O regresso à metrópole virou uma obsessão e a vida na “terrinha”, um tormento. É certo que o contato com a família e com os amigos era prazeroso, só que vinha com um gostinho de fracasso, pela dependência dos recursos dos pais.
De volta a São Paulo, acho que, enfim, desvendei a chave da minha eterna insatisfação. Concebendo a terra natal e a de adoção como antagônicas, passei a aceitar como natural a contradição de, ao mesmo tempo, desejar o que tanto uma como a outra me ofertam de bom, assim como a de negar o que em ambas me desagrada. O mais engraçado – e aprazível – é que, quando quero me ver livre do caos metropolitano, é a simplicidade interiorana que se apresenta como alternativa; e, quando me vejo entediado da mesmice birigüiense, corro para a agitação paulistana. Criei duas raízes.
O psicólogo Contardo Calligaris, analisando a modernidade, escreveu que “a família originária, da qual pertencemos, com certeza é o grupo contra o qual afirmamos nossa independência” e que essa afirmação confronta a “aventura arriscada da liberdade” com o “conforto opressivo das tradições”. Na verdade, queremos os dois: a liberdade e o conforto. Eis o conflito familiar primordial: ter presente o amor dos pais e a distância necessária para andarmos sozinhos. Quem sabe, a família não seja, por excelência, o habitat da relação de amor e ódio. Assim, pacificando esse conflito, creio ter construído dois lares: um, cosmopolita; o outro, provinciano. E me tornei, como diz Tom Zé, bilíngüe: falo a língua da metrópole e a língua do interior.
Retomando Tolstoi, talvez o escritor russo quisesse dizer que pintar a própria aldeia significa pintar as raízes, os mais íntimos elementos constitutivos de cada um de nós. Algo que todos os seres humanos têm, universal e independentemente de onde tenham nascido e de onde vivam. Disso concluo: quando me perguntarem onde fica Birigüi, darei alguma daquelas respostas clássicas. No entanto, intimamente, pensarei: em certo sentido, fica dentro de mim.
***
Ontem, dia 8 de dezembro de 2011, não foi apenas a centenária Birigui que aniversariou. Também a Avenida Paulista (junto com o Parque do Ibirapuera, o lugar que mais gosto em Sampa) fez 120 anos. Ainda, minha sogra completou anos ontem. Neste caso, deixo de revelar a idade.
***
Em homenagem a Birigüi, peço licença à reforma ortográfica para preservar o trema em todo o texto. Além da diferença do som (prefiro ser birigüiense a biriguiense), gosto de imaginar os pontos sobre o U e o I como se fossem três mosquitinhos. Três birigüizinhos.
05/12/2011
Meu ídolo
Quando vejo um garoto de sete anos com brilho nos olhos ao se deparar com o craque Neymar, sou capaz de entendê-lo perfeitamente. Com sete anos eu também tinha um ídolo que entortava os adversários, muito embora não fosse tão rápido.
Os meninos de sete anos da época de Leônidas deviam se orgulhar da jogada que ele criara e operava como ninguém: a bicicleta. Não me lembro de nenhuma bicicleta dada por meu ídolo. Assim como não me lembro de ninguém usar o calcanhar com tamanha habilidade e visão de jogo como ele.
Compreendo os guris de Minas que aos sete anos idolatravam o atleticano Reinaldo e o cruzeirense Tostão. Como aquele, meu ídolo marcava gols e comemorava com o braço esticado para cima e o punho cerrado. Como este, também era doutor e vestia a oito.
Vi crianças de sete anos idolatrando Ronaldo e venerando Romário. Logo surgiram as comparações. Quem era melhor? Quando eu tinha sete anos, meu ídolo era comparado a Zico. Acho até que este era melhor, mas o bom é que estavam juntos na seleção de Telê, a melhor de todas para mim. E, como meu ídolo, Zico também sabia alegrar o povão, brilhando em um clube de massas. Multidões que se entristeceram quando o Galinho saiu do Flamengo, assim como eu e outros tantos milhões lamentamos a despedida do nosso ídolo rumo a campos italianos. Logo a Itália, quanta injustiça!
A propósito, consigo até enxergar os pequenos holandeses de 74 e os garotos húngaros de 54, inconformados por não verem Cruyff e Puskas campeões do mundo. Desde criança, não admito que meu ídolo, capitão do mágico escrete de 82, tenha deixado de levantar o caneco.
Nos anos 90, seu irmão Raí foi idolatrado por pequenos são-paulinos. Também começara em Ribeirão, também jogava de modo elegante. Tinha um físico bem mais atlético, é verdade. E – coisa de família? – também se revelou um cidadão genuíno, participativo, politizado a ponto de apresentar suas demandas, de expor suas opiniões, de buscar um Brasil melhor. Muito embora tivesse o perfil de bom-moço, e não o de intelectual boêmio, como o do meu ídolo. Ainda que não tivesse ajudado a construir uma inusitada democracia em tempos de ditadura.
Meu ídolo tinha nome de filósofo e fama de inteligente, ao contrário do ingênuo e folclórico Garrincha. Mas, como Mané, era PhD da bola. Penso que os meninos com sete anos em 62 jamais aceitariam que a bebida, e não os zagueiros, seria capaz de derrubar seu ídolo. Eu, pelo menos, não consigo aceitar.
Dizem que Pelé não torcia para o Santos aos sete anos. Meu ídolo, sim. Justamente por causa de Pelé. Mas também virou a casaca ao se ver representante eterno de uma torcida, a do Corinthians, o meu time... o nosso time! Imagino meu ídolo aos sete anos, absorto com a maestria do melhor de todos os jogadores, sua competência em ditar o ritmo e a lógica da partida. Volto aos meus sete anos, quando ficava embasbacado ao notar que meu ídolo, a seu modo, também era capaz de majestosas proezas, ainda que não se lhe outorgassem a coroa de um rei. Ontem foi um dia, ao mesmo tempo, feliz e triste. Ontem, nosso time foi campeão e meu ídolo morreu. Lembrei-me da primeira vez que comemorei um título do nosso time. Meu ídolo jogou, foi o principal responsável pela conquista. E eu tinha sete anos.
Bandeira que ganhei do meu tio Nino quando o Corinthians foi campeão paulista de 1979
22/11/2011
Ao Reynaldo Gianecchini
Não me considero imaturo, apesar de ser bastante autocrítico a respeito. Anteontem, contudo, me senti uma criança de colo. Também não me considero um materialista empedernido; prezo o lado espiritual do ser humano. Só que, anteontem, senti o quão incapaz sou de fugir das preocupações comezinhas do dia-a-dia em prol de uma visão mais ampla do que seja realmente essencial. Apesar disso, como me senti bem anteontem!
Tudo por causa da entrevista concedida por Reynaldo Gianecchini a Patrícia Poeta, no “Fantástico” (http://www.youtube.com/watch?v=JUdKifGVCvg). Esperava assistir a uma entrevista, mas assisti a uma aula. Uma aula sobre vida, dada por alguém que se deparou na carne com a questão da morte. O engraçado é que o Reynaldo, filho de professores, parece ter descoberto o cerne do ofício dos pais: adquirir sabedoria com as experiências e, ao mesmo tempo, capacidade de transmitir aos outros tudo o que aprendeu. Dito de outra maneira: aprender ao mesmo tempo em que se ensina. Ao final, pensei: que baita homenagem, quiçá inconsciente, ao “seu” Patão e à dona Heloísa.
Para quem está acostumado tão somente com a imagem do galã, da celebridade e do ator, certamente está admirado com a pessoa. Sempre admirei o Reynaldo por duas características: a inteligência e a maturidade. Certa vez, Marília Gabriela – na época, sua esposa – disse que Giane era um “jovem senhor”. Cá comigo, que estudei por alguns anos com um menino quieto, sempre compenetrado nas aulas, a quem os mais íntimos chamavam de Juninho, tenho a impressão de que o Reynaldo é velho desde que nasceu. Velho no bom sentido: experiente, sabedor das coisas, calejado para enfrentar os desafios que surgem, às vezes, sem qualquer aviso. Mas, sinceramente, passei a admirá-lo muito mais desde que foi noticiada sua doença. Anteontem foi o ápice.
Reynaldo, que sempre me pareceu consideravelmente incólume às vaidades naturais geradas pelos aplausos e histerias de fãs, assim como à cólera não menos natural em relação às críticas, algumas implacáveis, agora se mostra uma fortaleza diante do mais agudo sofrimento. Calma, não pretendo canonizá-lo: trata-se de um ser humano, demasiado humano. No entanto, como disse na entrevista, ao se referir aos últimos momentos do pai, descobriu que o ser humano carrega consigo uma substância divina, que evolui na medida em que desenvolve sua espiritualidade. Quem sabe, essa não seja a maior de todas as descobertas que um ser humano pode fazer de si próprio, de suas potencialidades.
Fiquei emocionado em vários momentos da entrevista. Por exemplo, quando se referiu ao quanto aprende com as crianças em tratamento contra o câncer. Talvez o próprio Reynaldo tenha pensado: “não posso me mostrar fraco diante dessas crianças” e, ao mesmo tempo, “como posso ser fraco se essas crianças se revelam tão fortes?”. Por um instante me veio a lembrança de quando meu primo Rafael Arjonas vinha a São Paulo para sessões de quimeoterapia e ficava hospedado em meu apartamento; nessa época, eu, que constantemente me lamentava do trabalho, da cidade, de tudo, senti uma vergonha estrondosa quando me deparei com aquele rapaz, todo sorridente e confiante. Senti-me péssimo ao notar o quão fraco eu estava sendo.
Reynaldo parece estar aprendendo – e transmitiu isso na linda entrevista – o mais profundo significado da vida. E o faz, creio, de duas formas. Primeira: ao lidar com a morte, compreende que o mais razoável é enaltecer a vida. A propósito, reflito às vezes: se a morte é inescapável (uma verdade absoluta, uma experiência que todos viverão, sem trocadilho, independentemente de idade ou de crenças e descrenças religiosas), para que perder tempo com lamúrias em vez de simplesmente viver da melhor maneira possível o tempo que temos? Tempo, inclusive, que desconhecemos, que pode ser mais ou menos breve (por mais que vivamos, sempre acharemos a vida breve), não importa o quão saudáveis estejamos. Isto vale tanto para quem concebe a morte como o fim, como para quem a vê como passagem para uma outra fase de vida. Claro, tudo isso é mera reflexão. Não é nada fácil colocar tais pensamentos em prática, transformar as convicções ideais em sentimentos íntimos consolidados. O Reynaldo, como dito, parece estar passando bem por esse aprendizado.
Também parece estar aprendendo sobre a vida ao lidar com o amor. Não é preciso muito esforço para notar o quão querido o Reynaldo é. As inúmeras palavras de apoio que recebe – escritas, faladas... gesticuladas –, as manifestações de carinho da família, dos amigos e dos fãs, as preces rogando sua cura, tudo isso é prova de amor. Mas o diferencial do Reynaldo, pelo que notei da entrevista, é que ele está sabendo receber e compartilhar esse amor; fazer desse sentimento uma substância que lhe auxilia não apenas no tratamento contra o câncer, mas como alimento para desenvolver sua espiritualidade, para viver plenamente como pessoa, como espírito. Isso é visível na descrição do momento da despedida do pai, pedindo e concedendo perdão, ou quando se compromete a cuidar da família, ou quando participa da festa dos que estão hospitalizados quando há alguma superação, ou, mesmo, quando se emociona ao observar tanto carinho direcionado a ele.
Enfim, que belíssima entrevista, Rey! Desejo a você, do fundo do coração, toda a força e toda a paz do mundo. Quer dizer, se é que você já não as tem.
***
Em tempo: Concebo a existência individual como a representação de uma peça. Ou seja, ainda que acreditemos ser a pessoa que vemos no espelho, na verdade, representamos um personagem. Dessa forma, não sou o João, mas represento alguém que penso ser eu, cujo nome é João. Não sou, mas estou o João. Um dia, deixarei esse “papel” e farei outro. Assim como acredito já ter feito inúmeros outros papéis anteriormente. Eis a vida: o espírito é o ator, o verdadeiro ator, que, ao longo de uma vida infinita, representa muitos papéis. Com o passar do tempo, nos tornamos atores cada vez melhores.
Falando nisso, a mim parece que o Reynaldo está cada vez melhor na arte de atuar. Em todos os sentidos. Capaz de uma cena antológica como a da novela Esperança, em que, contracenando com Raul Cortez, pai e filho conversam, completamente bêbados. E capaz de, na “vida real”, enfrentar com serenidade impressionante um momento tão difícil.
07/11/2011
Identidade
Nome, RG, CPF, estado civil, endereço. Para que melhor se identifique a pessoa, há que se perguntar sobre o tipo sanguíneo, o estilo de música preferido, o time do coração, a ideologia política, as preferências gastronômicas. A identidade, contudo, ainda carece de precisão caso não sejam considerados os aspectos físicos: altura, cor da pele, sexo, peso, características (ou ausência) dos cabelos, etc. Detalhes são importantes. Tanto que a própria pessoa vai descobrindo esses detalhes aos poucos e, também aos poucos, descobre-se a si mesma.
Vários são os elementos que compõem a identidade de alguém. Identidade construída e estruturada perante os olhos dos outros e perante si mesmo; às vezes, uma não bate com a outra. Do conjunto desses elementos fundamenta-se o juízo que fazem de você e que o próprio cidadão, à frente do espelho ou nos mais íntimos momentos de auto-percepção, faz de si: ser considerado ou achar-se bonito ou feio, baixo ou alto, inteligente ou burro, simpático ou antipático, “do bem” ou “do mal”. O rol, claro, é meramente exemplificativo.
Eis o ponto da minha angústia atual. Desde a mais tenra idade, olho-me no espelho e vejo um sujeito não muito bonito (usemos um eufemismo para que não me aborreça ainda mais do que já estou), com cujas feições e mudanças do tempo aprendi a conviver. A barriga que aumenta, as rugas que surgem, os cabelos que embranquecem e raleiam. Não obstante a dura transformação dos anos, lá estou com todos os elementos constitutivos, mutatis mutandis. Quer dizer, desde há poucos dias, todos menos um: a pinta do lado direito do rosto.
Por 39 primaveras (na verdade, 40, já que nasci nessa estação), ela sempre esteve ali. No começo, era um minúsculo pontinho na bochecha gorda de uma criança. Motivo de carinhos, cuti-cuti e bilú-bilú. Era o menino da pinta, exposta com orgulho, como um aprazível adorno presenteado pela natureza.
Na adolescência, a pinta cresceu, mas continuava a ter o conceito em alta. Era o charme, a marca registrada, fator de distinção (sempre é bom ser especial, diferente dos demais, mormente nessa faixa etária). Se o sucesso com as garotas não era lá essas coisas, devia-se ao todo prejudicado da lataria, jamais à presença da pinta. Para ser sincero, gosto de acreditar que a pinta até auxiliou em determinadas conquistas.
Com a maturidade a pinta parece também ter desenvolvido certa aura de sobriedade. Dava um toque a mais no ar intelectual, uspiano, legado pelo rosto comumente sério em que residia. Nesse habitat, por assim dizer, combinava perfeitamente com os óculos e a barba rala e por fazer.
Mais tarde, foi usada em brincadeiras infantis. Como a sobrinha também tivera a sorte de nascer com uma pintinha, só que na testa, eu, tiozão, fingia que a retirava e colava na minha bochecha direita. Minha pobre sobrinha devia pensar, assustada: será que minha pinta, além de ser descolada da minha testa, ainda virou um carrapato na cara do titio? Devia ficar em pânico com a possibilidade de que eu a devolvesse tão avariada.
Pois é, a idade avançou e aquele ponto, antes singelo, pequeno, o charme, a marca registrada, tornara-se um monstrengo com feição de carrapato. Quer dizer, nem tanto. Mas o fato é que a pinta foi crescendo e se tornado disforme. Reconheço: assim como o todo do corpo em que estava inserida, a pobre pinta enfeiara com o tempo implacável.
Para piorar, começaram a pulular recomendações médicas para que fosse sumária e impiedosamente extirpada sob o argumento de que, no futuro, poderia se transformar em um tumor maligno. Quanto mais o tempo passava, quanto mais trombava com médicos – e não importava a especialidade do doutor ou da doutora –, mais aumentava a pressão. “Região de atrito, exposição ao sol, sei não; isso vai acabar virando um cancerzinho...”. Engraçado este termo: um substantivo amedrontador suavizado pelo diminutivo.
Sei que as recomendações médicas visavam tão-somente a preservação da minha saúde. Mas não deixavam de ser conselhos frios, que desconsideravam o que representava aquela pinta para minha identidade. “É preciso extirpá-la”, dito assim, de modo asséptico, insensível, absolutamente racional, tudo parecia limitar-se ao óbvio da prudência, medida cautelar necessária. Mas, como bem sei, a coisa era mais complexa.
Eis que chegou o dia em que se deu o inevitável. Tomado de coragem, parti resoluto ao consultório do doutor e, qual um súbito enlouquecido que vai ao barbeiro e manda passar máquina zero na cabeça, asseverei: “Pode tirar!”. E assim se fez. Protegido por anestesia local, sem qualquer dor física, mas apenas o nó na garganta por me desfazer de um pedaço tão querido, passei todo o tempo do “procedimento” conversando amenidades com o doutor para esquecer que a decisão não tinha volta. Jamais veria minha pinta novamente. Pior que isso foi vê-la num vidrinho com formol, descolada da face em que fincara raízes por quase quatro décadas. E injustamente denominada de "lesão".
Adeus, companheira. Sei que não sou mais a mesma pessoa. Continuo a me chamar João, portar o mesmo RG (acrescido de um dígito), perpetuando a baixa estatura e cultivando paixão corinthiana... mas deixei de ter você. Por isso, deixo cá minha homenagem. Obrigado por sua parcela de responsabilidade em fazer de mim quem sou. Ou melhor, quem fui. Afinal, doravante, ninguém saberá quem sou caso se refiram a um sujeito com uma pinta no lado direito do rosto.
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