Virou moda dizer que “não se pode falar mal de Lula”, como se qualquer crítica ao presidente fosse imediatamente censurada ou, quem sabe, prontamente abafada. Essa ideia já apareceu em artigos e falas de gente importante: políticos, artistas, intelectuais. Não raro, surgem comparações com a Venezuela de Chávez ou a Argentina de Cristina Kirchner, como se o conflito entre o governo e a imprensa nesses países ocorresse – ou, quiçá, estivesse na iminência de ocorrer – aqui no Brasil. Afinal, não somos todos aliados, não somos todos de esquerda?
Devo estar com problemas de percepção do mundo, pois, ao contrário, vejo Lula como a grande “Geni” do Brasil. Acordo com Alexandre Garcia e durmo com William Waack fazendo críticas ao governo e ao próprio presidente, terminando suas falas com um já manjado olhar irônico a expressar indignação e incredulidade com os rumos (terríveis!) tomados pelo país.
Sim, o problema deve ser meu. Não consigo enxergar, por mais que me esforce, essa impossibilidade de crítica ao presidente. Até ouço críticas que não devem existir. Por exemplo, ouvi Caetano chamar o presidente de analfabeto, cafona e grosseiro. Também li texto assinado por FHC acusando o presidente de aspirante a ditador “neoperonista”.
Ah, já não bastasse o jornalista do New York Times Larry Rother escrever artigo sugerindo que Lula seria alcoólatra (alguém aí tem um videozinho do Lula bêbado? É que eu nunca vi...), agora o jornalista César Benjamin, da Folha de S.Paulo, escreveu neste mesmo jornal relato em que cita frase dita por Lula em almoço, quando candidato à Presidência em 1994, acerca de tentativa frustrada de currar um rapaz no cárcere quando esteve preso, na época da ditadura. Benjamin só não foi tão claro sobre a circunstância em que a frase fora proferida, se em tom de brincadeira (de mau gosto, sem dúvida), e, tratando-se de uma brincadeira, o que seria fato e o que não seria. Só para arrematar, três provas de que a acusação insinuada por Benjamin é, no mínimo, exagerada: 1) Paulo de Tarso da Cunha Santos, publicitário que estava presente no tal almoço, afirmou ser a frase uma dentre tantas brincadeiras habituais de Lula durante a campanha; 2) José Maria de Almeida, José Cicote e Rubens Teodoro, presos com Lula no Dops, disseram não ter testemunhado situação similar à descrita no artigo; 3) Amigos de longa data do presidente, como Frei Betto, disseram jamais ter ouvido mencionado relato da boca de Lula, mas, é claro, César Benjamin e os demais presentes tiveram o privilégio de conhecer detalhes mais íntimos da vida de Luís Inácio, que resolveu abrir-se naquele instante.
Isso para ficarmos nas críticas mais recentes. Se retrocedermos no tempo, veremos que Lula já foi acusado de propor o aborto à namorada grávida (eleições de 1989), de, junto com o PT, auxiliar os sequestradores de Abílio Diniz, e de ser condescendente com esquemas de corrupção (mensalões e afins). Faltou o quê? Homicídio? Não! Também já se sugestionou que Lula estava envolvido na morte de Celso Daniel, ex-prefeito de Santo André, assassinado em 2002.
Em resumo, os adjetivos atribuídos diretamente ou com meias-voltas a Lula são os seguintes: corrupto, analfabeto, cafona, bêbado, autoritário, cúmplice de sequestro e homicídio, e, last but not least, estuprador (ou agente de tentativa de atentado violento ao puder, para melhor enquadramento criminal).
A pergunta que não quer calar: esse é o sujeito contra o qual não se pode falar? Certeza? Imagine se pudesse! Outra: este é o presidente do país em que a liberdade de expressão e, por conseguinte, a própria democracia correm risco? Sério ?! O que fazer? Chamar os militares para garanti-las?
29/11/2009
21/11/2009
Um Luxo
Para variar, Caetano Veloso causou polêmica. No caso, a polêmica originou-se de trecho da entrevista concedida a Sonia Racy, do Estadão. Questionado sobre Marina Silva, Caetano demonstrou sua pretensão em votar na ex-petista, argumentando, ipsis litteris: “Não posso deixar de votar nela. É por demais forte simbolicamente para eu não me abalar. Marina é Lula e é Obama ao mesmo tempo. Ela é meio preta, é uma cabocla, é inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro. Ela fala bem.”
Termos como analfabeto, cafona e grosseiro são, certamente, ofensivos. No mínimo, deselegantes. Ou, utilizando o vocabulário do próprio compositor, grosseiros. Contudo, vindos da boca de Caetano, escolado na arte da polêmica, e dependendo do contexto em que se deu, há que se matizar a crítica, ponderar as reações. Há que se interpretar o trecho na sua relação com o todo da entrevista. Assim, correndo o risco de parecer ingênuo e de contrariar meus amigos petistas, em especial os mais exaltados – e são muitos! – , entendi de uma forma, digamos, light as expressões utilizadas pelo compositor baiano, considerando em conjunto dois outros trechos da mesma entrevista.
O primeiro: Caetano afirma de modo positivo que Marina é, simbolicamente, ao mesmo tempo, Lula e Obama; logo, vê aspectos positivos em Lula. No caso, a analogia entre Marina e Lula deve consistir na origem simples e na ascensão social de ambos.
O segundo trecho a ser observado é o seguinte, em resposta a questionamento sobre tendências políticas na América Latina: “Tem uma recaída num negócio que é tradicional aqui, a figura do líder populista - uma linha demagógica liderada por Hugo Chávez. Mas o interessante é que Lula tem um papel bem diferente disso. Lula é um grande líder populista, mas é mais pragmático - mesmo com essa euforia em que entrou desde a posse até hoje. Ter tido Fernando Henrique e Lula em seguida é um luxo. Saíram melhor que a encomenda, ambos.”
Em resumo, considerando as menções positivas ao presidente, não dá para se depreender da entrevista em tela que Caetano teve a pretensão de escorraçar Lula ou algo que o valha, não obstante o uso dos termos analfabeto, cafona e grosseiro.
Sim, Caetano é contraditório. Sempre o foi; e nisto também está sua genialidade: fazer-se e refazer-se perpetuamente, mas, com isso, criar e recriar sua obra, suas músicas, seus pensamentos, sua imagem. Mais do que ofender, acredito que Caetano tenha tentado ressaltar a falta de uma fala mais sofisticada em Lula, corroborada pelas tantas citações simplistas, por vezes inapropriadas, além das metáforas futebolísticas proferidas em profusão por Lula. Discordo, no entanto, quando Caetano afirma que “Lula não sabe falar”, dando azo àqueles pedantes pseudo-intelectuais de botequim, cujo esporte favorito é reforçar a pecha de ignorante no presidente, postando-se, eles próprios, hipocritamente como “gente escolada”, posto que detentora de um canudo qualquer... às vezes, nem isso. Muito pelo contrário, Lula tem uma capacidade ímpar de comunicar-se com empresários, com acadêmicos, com parte da classe média, com líderes da comunidade internacional e, especialmente, com o povão. Lula trata corretamente assuntos complexos, dando, no mínimo, as linhas fundamentais de cada um. O que pode acontecer – e é o que acontece na maioria dos casos – é a discordância em relação ao que pensa e decide o presidente. Como diria o outro: aí são outros quinhentos. Quanto à capacidade de comunicação do presidente com o povo, aliás, parafraseando seu bordão, quiçá nunca tenha havido antes na história deste país um líder popular como Lula. Tome-se por comparação Serra e Dilma: quanto esforço para extrair um sorriso, um gesto simpático!
Gerada a celeuma, o próprio Caetano procurou se explicar. Disse, inclusive, que as pessoas reagiram à manchete tal qual foi armada, não considerando o conjunto da entrevista. O que não deve ter convencido muito sua mãe, dona Canô, de 102 anos, que reprovou a fala do filho, manifestando intenção de pedir desculpas ao presidente.
A mim, concluo disso tudo apenas o seguinte: ao se observar os rumos promissores tomados pelo Brasil nos últimos anos, talvez Caetano tenha mesmo razão quando diz ser um luxo termos FHC e Lula em sequência, não obstante o primeiro entender que corremos o risco de adentrarmos num tal de “autoritarismo popular”. Assim como é um luxo termos Caetano Veloso como um dos principais expoentes da música e da cultura brasileiras. E por que não: que luxo termos uma brasileira como dona Canô que, mesmo centenária, revela-se lúcida e capaz de opinar e repreender o filho famoso com a mesma força que lhe deixou como legado!
Termos como analfabeto, cafona e grosseiro são, certamente, ofensivos. No mínimo, deselegantes. Ou, utilizando o vocabulário do próprio compositor, grosseiros. Contudo, vindos da boca de Caetano, escolado na arte da polêmica, e dependendo do contexto em que se deu, há que se matizar a crítica, ponderar as reações. Há que se interpretar o trecho na sua relação com o todo da entrevista. Assim, correndo o risco de parecer ingênuo e de contrariar meus amigos petistas, em especial os mais exaltados – e são muitos! – , entendi de uma forma, digamos, light as expressões utilizadas pelo compositor baiano, considerando em conjunto dois outros trechos da mesma entrevista.
O primeiro: Caetano afirma de modo positivo que Marina é, simbolicamente, ao mesmo tempo, Lula e Obama; logo, vê aspectos positivos em Lula. No caso, a analogia entre Marina e Lula deve consistir na origem simples e na ascensão social de ambos.
O segundo trecho a ser observado é o seguinte, em resposta a questionamento sobre tendências políticas na América Latina: “Tem uma recaída num negócio que é tradicional aqui, a figura do líder populista - uma linha demagógica liderada por Hugo Chávez. Mas o interessante é que Lula tem um papel bem diferente disso. Lula é um grande líder populista, mas é mais pragmático - mesmo com essa euforia em que entrou desde a posse até hoje. Ter tido Fernando Henrique e Lula em seguida é um luxo. Saíram melhor que a encomenda, ambos.”
Em resumo, considerando as menções positivas ao presidente, não dá para se depreender da entrevista em tela que Caetano teve a pretensão de escorraçar Lula ou algo que o valha, não obstante o uso dos termos analfabeto, cafona e grosseiro.
Sim, Caetano é contraditório. Sempre o foi; e nisto também está sua genialidade: fazer-se e refazer-se perpetuamente, mas, com isso, criar e recriar sua obra, suas músicas, seus pensamentos, sua imagem. Mais do que ofender, acredito que Caetano tenha tentado ressaltar a falta de uma fala mais sofisticada em Lula, corroborada pelas tantas citações simplistas, por vezes inapropriadas, além das metáforas futebolísticas proferidas em profusão por Lula. Discordo, no entanto, quando Caetano afirma que “Lula não sabe falar”, dando azo àqueles pedantes pseudo-intelectuais de botequim, cujo esporte favorito é reforçar a pecha de ignorante no presidente, postando-se, eles próprios, hipocritamente como “gente escolada”, posto que detentora de um canudo qualquer... às vezes, nem isso. Muito pelo contrário, Lula tem uma capacidade ímpar de comunicar-se com empresários, com acadêmicos, com parte da classe média, com líderes da comunidade internacional e, especialmente, com o povão. Lula trata corretamente assuntos complexos, dando, no mínimo, as linhas fundamentais de cada um. O que pode acontecer – e é o que acontece na maioria dos casos – é a discordância em relação ao que pensa e decide o presidente. Como diria o outro: aí são outros quinhentos. Quanto à capacidade de comunicação do presidente com o povo, aliás, parafraseando seu bordão, quiçá nunca tenha havido antes na história deste país um líder popular como Lula. Tome-se por comparação Serra e Dilma: quanto esforço para extrair um sorriso, um gesto simpático!
Gerada a celeuma, o próprio Caetano procurou se explicar. Disse, inclusive, que as pessoas reagiram à manchete tal qual foi armada, não considerando o conjunto da entrevista. O que não deve ter convencido muito sua mãe, dona Canô, de 102 anos, que reprovou a fala do filho, manifestando intenção de pedir desculpas ao presidente.
A mim, concluo disso tudo apenas o seguinte: ao se observar os rumos promissores tomados pelo Brasil nos últimos anos, talvez Caetano tenha mesmo razão quando diz ser um luxo termos FHC e Lula em sequência, não obstante o primeiro entender que corremos o risco de adentrarmos num tal de “autoritarismo popular”. Assim como é um luxo termos Caetano Veloso como um dos principais expoentes da música e da cultura brasileiras. E por que não: que luxo termos uma brasileira como dona Canô que, mesmo centenária, revela-se lúcida e capaz de opinar e repreender o filho famoso com a mesma força que lhe deixou como legado!
10/11/2009
Estupra, mas paga
Complemento às postagens abaixo:
Não é que o magnífico reitor da Oban, quer dizer, Taleban, ops, Uniban, senhor Heitor Pinto Filho, foi candidato a vice-governador, em 2002, na chapa de... Paulo Maluf! Sim, o autor da célebre frase "estupra, mas não mata".
E não é que a universidade, além de rever a punição à vítima, decidiu também não punir os culpados! Errou, depois consertou, agora errou de novo! Seria medo de possíveis perdas (robustas) com mensalidades? Calculem: 700 mensalidades! Punição tem limite (financeiro, inclusive)!
Lembrando as lições do doutor Paulo, alguém escreveu por aí um trocadilho que bem serve de slogan para o magnífico reitor: Estupra, mas paga!
Arremato: esse Pinto não dá uma dentro!
Não é que o magnífico reitor da Oban, quer dizer, Taleban, ops, Uniban, senhor Heitor Pinto Filho, foi candidato a vice-governador, em 2002, na chapa de... Paulo Maluf! Sim, o autor da célebre frase "estupra, mas não mata".
E não é que a universidade, além de rever a punição à vítima, decidiu também não punir os culpados! Errou, depois consertou, agora errou de novo! Seria medo de possíveis perdas (robustas) com mensalidades? Calculem: 700 mensalidades! Punição tem limite (financeiro, inclusive)!
Lembrando as lições do doutor Paulo, alguém escreveu por aí um trocadilho que bem serve de slogan para o magnífico reitor: Estupra, mas paga!
Arremato: esse Pinto não dá uma dentro!
Com que burca eu vou?
O caso de Geisy Arruda me fez lembrar o samba de Noel Rosa cujo refrão é:
Com que roupa eu vou?/ Pro samba que você me convidou
A lembrança de Noel, porém, é a única consequência boa deste lamentável episódio. Afinal, ao absurdo ocorrido em seu campus de São Bernardo, a Universidade Bandeirante (Uniban) conseguiu somar uma decisão estúpida e escandalosa. Já haviam dito que Uniban rima com Taleban, mas ainda não havia clareza quanto à similaridade de concepções entre ambos.
Geisy Arruda, a vítima, foi excluída da universidade, enquanto alguns dos criminosos – sim, injúria e difamação são crimes, conforme artigos 139 e 140 do Código Penal – que a perseguiram serão simplesmente suspensos. Se o forem! Essa é a sábia determinação dos aiatolás, quer dizer, dos dirigentes da Uniban. A propósito, alguém aí viu ou ouviu o magnífico reitor, senhor Heitor Pinto Filho, ou algum alto dirigente da instituição? Eu só vi um coitado de um advogado tentando justificar o injustificável, ninguém mais. Sei lá, talvez seja por vergonha, talvez porque nas regras do pudor da Uniban conste a proibição de o Pinto aparecer em público... Desculpe, não aguentei...
As alegações da Universidade para o desligamento de Geisy foram veiculadas em jornais como informe publicitário. Em suma: 1) a estudante usava “trajes inadequados, indicando postura incompatível com o ambiente da universidade, e, apesar de alertada, não modificou seu comportamento”; 2) ademais, a aluna optou por um percurso maior que o habitual rumo à sala de aula, “o que alimentou a curiosidade e o interesse de mais alunos e alunas”. A partir dessas pérolas, pergunto: A universidade mantém algum(a) estilista para definir e fiscalizar os “trajes adequados”, uma espécie de Glorinha Kalil entendida em véus, burcas e afins? Dependendo da roupa que se usa o aluno deve percorrer um trajeto ou outro? Do mesmo jeito que se cobra de Geisy compostura, não seria possível cobrar dos ditos alunos e alunos que segurem a onda da sua “curiosidade”?
A Constituição brasileira, em seu artigo 205, afirma que a educação visará ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. No que a Uniban contribui, levando-se em consideração o caso Geisy, para que seus alunos se tornem verdadeiros cidadãos? Tomara que no quesito “formação para o trabalho” a universidade seja mais competente.
Voltando ao samba de Noel Rosa, ao gosto da direção da Universidade Bandeirante, teria o refrão adaptado, como segue:
Com que burca eu vou/ Proteger o ambiente da Uniban
Êta sambinha ruim! Definitivamente, Noel não merece a paródia infame.
Três observações, em tempo:
Primeira: Acabo de saber que a Uniban reviu sua posição de desligar Geisy. Ou seja, a direção da Uniban, que no primeiro momento agiu de forma absurda, agora, pressionada, acuada e feito barata tonta, volta atrás. Ridículo, mas melhor assim. Aliás, à altura do senhor reitor: magnificamente ridículo!
Segunda: É hora de o MEC e as secretarias estaduais e municipais de educação preocuparem-se com a responsabilidade das instituições de ensino em formarem cidadãos, e não somente com o aspecto cognitivo. As instituições de ensino são espaços importantíssimos de socialização e, portanto, de formação e transmissão de valores. Duas sugestões: que conste da própria grade curricular a matéria “formação cidadã” e que haja um plano consistente de combate ao bullying em todas as instituições.
Terceira: É preocupante saber que muitos alunos da universidade, em vez de se contraporem aos agressores e à direção da Uniban, passam a hostilizar Geisy pela imagem negativa que a universidade angariou para si. Além disso, mais de 20% dos consultados em pesquisa do Jornal Hoje, da Rede Globo, culpam a aluna pelo ocorrido. Ou seja, a decisão por culpar a vítima e não os algozes – bastante comum em casos de estupro, diga-se de passagem – mostra-se arraigada na própria sociedade, não refletindo apenas a ignorância de quem decide. Neste sentido, o caso Geisy parece corroborar a interpretação daqueles que recusam apontar o nazismo como fruto exclusivo da cabeça e das atitudes de Hitler e seus comandados diretos, mas também como um fenômeno com raízes na própria sociedade alemã daquela época. Conclusões: 1) As batalhas contra racismo, homofobia, machismo e outras formas de discriminação estão longe de serem consideradas ganhas; e, 2) O preço da liberdade, realmente, é a eterna vigilância.
Com que roupa eu vou?/ Pro samba que você me convidou
A lembrança de Noel, porém, é a única consequência boa deste lamentável episódio. Afinal, ao absurdo ocorrido em seu campus de São Bernardo, a Universidade Bandeirante (Uniban) conseguiu somar uma decisão estúpida e escandalosa. Já haviam dito que Uniban rima com Taleban, mas ainda não havia clareza quanto à similaridade de concepções entre ambos.
Geisy Arruda, a vítima, foi excluída da universidade, enquanto alguns dos criminosos – sim, injúria e difamação são crimes, conforme artigos 139 e 140 do Código Penal – que a perseguiram serão simplesmente suspensos. Se o forem! Essa é a sábia determinação dos aiatolás, quer dizer, dos dirigentes da Uniban. A propósito, alguém aí viu ou ouviu o magnífico reitor, senhor Heitor Pinto Filho, ou algum alto dirigente da instituição? Eu só vi um coitado de um advogado tentando justificar o injustificável, ninguém mais. Sei lá, talvez seja por vergonha, talvez porque nas regras do pudor da Uniban conste a proibição de o Pinto aparecer em público... Desculpe, não aguentei...
As alegações da Universidade para o desligamento de Geisy foram veiculadas em jornais como informe publicitário. Em suma: 1) a estudante usava “trajes inadequados, indicando postura incompatível com o ambiente da universidade, e, apesar de alertada, não modificou seu comportamento”; 2) ademais, a aluna optou por um percurso maior que o habitual rumo à sala de aula, “o que alimentou a curiosidade e o interesse de mais alunos e alunas”. A partir dessas pérolas, pergunto: A universidade mantém algum(a) estilista para definir e fiscalizar os “trajes adequados”, uma espécie de Glorinha Kalil entendida em véus, burcas e afins? Dependendo da roupa que se usa o aluno deve percorrer um trajeto ou outro? Do mesmo jeito que se cobra de Geisy compostura, não seria possível cobrar dos ditos alunos e alunos que segurem a onda da sua “curiosidade”?
A Constituição brasileira, em seu artigo 205, afirma que a educação visará ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. No que a Uniban contribui, levando-se em consideração o caso Geisy, para que seus alunos se tornem verdadeiros cidadãos? Tomara que no quesito “formação para o trabalho” a universidade seja mais competente.
Voltando ao samba de Noel Rosa, ao gosto da direção da Universidade Bandeirante, teria o refrão adaptado, como segue:
Com que burca eu vou/ Proteger o ambiente da Uniban
Êta sambinha ruim! Definitivamente, Noel não merece a paródia infame.
Três observações, em tempo:
Primeira: Acabo de saber que a Uniban reviu sua posição de desligar Geisy. Ou seja, a direção da Uniban, que no primeiro momento agiu de forma absurda, agora, pressionada, acuada e feito barata tonta, volta atrás. Ridículo, mas melhor assim. Aliás, à altura do senhor reitor: magnificamente ridículo!
Segunda: É hora de o MEC e as secretarias estaduais e municipais de educação preocuparem-se com a responsabilidade das instituições de ensino em formarem cidadãos, e não somente com o aspecto cognitivo. As instituições de ensino são espaços importantíssimos de socialização e, portanto, de formação e transmissão de valores. Duas sugestões: que conste da própria grade curricular a matéria “formação cidadã” e que haja um plano consistente de combate ao bullying em todas as instituições.
Terceira: É preocupante saber que muitos alunos da universidade, em vez de se contraporem aos agressores e à direção da Uniban, passam a hostilizar Geisy pela imagem negativa que a universidade angariou para si. Além disso, mais de 20% dos consultados em pesquisa do Jornal Hoje, da Rede Globo, culpam a aluna pelo ocorrido. Ou seja, a decisão por culpar a vítima e não os algozes – bastante comum em casos de estupro, diga-se de passagem – mostra-se arraigada na própria sociedade, não refletindo apenas a ignorância de quem decide. Neste sentido, o caso Geisy parece corroborar a interpretação daqueles que recusam apontar o nazismo como fruto exclusivo da cabeça e das atitudes de Hitler e seus comandados diretos, mas também como um fenômeno com raízes na própria sociedade alemã daquela época. Conclusões: 1) As batalhas contra racismo, homofobia, machismo e outras formas de discriminação estão longe de serem consideradas ganhas; e, 2) O preço da liberdade, realmente, é a eterna vigilância.
02/11/2009
A Paixão de Geisy
Não era homem, mas mulher. Loira, olhos verdes, um metro e setenta de altura, sedutora: uma bela mulher. Seu nome era Geisy, também conhecida como Michele Vedras. Seu nome não estava inscrito em nenhum livro sagrado, mas em um blog. Não se tratava de um deus, um semideus, um filho dileto Dele, mas de uma simples pecadora, como todos nós. Ou de pior estirpe, ao menos para os vorazes moços que, em massa, a agrediram com xingamentos e ameaças de estupro, enquanto, solitários, a desejavam com a mesma voracidade. Ou para as raivosas moças, repentinamente pudicas, em colérica histeria contra aquela que atentava à moral e aos bons costumes, e lhes roubava a preciosa atenção dos moços. Não pensaram em seus próprios pecados antes de lhe atirarem pedras, de a bolinarem, de lançarem-lhe ofensas e cliques de celular para posterior humilhação pública via internet.
Apesar das diferenças, Geisy também era de origem humilde e teve, naquele instante, sua paixão. No seu calvário, teve como cruz um curto vestido vermelho. Fizeram as vezes de soldados romanos os seguranças da escola e os policiais militares que a escoltaram por fim. Reles cumpridores de ordens, não permitiram o avanço das hordas, mas pensaram consigo: com esses trajes provocantes, essa vadia estava pedindo, ah se estava!
Qual o sujeito que deu água em vez de vinagre, houve o professor que resistiu à invasão da classe pela multidão ensandecida e vestiu a pobre com seu jaleco, cobrindo aquele corpo diabólico.
Geisy nunca foi conhecida pela capacidade de curar leprosos ou de proferir parábolas, mas de provocar os instintos com sua sensualidade. Um poder perigoso este, causador de implacável ira daqueles que não o têm e não aceitam que lhes falte.
Não feriram de morte seu corpo, mas sua alma. Levada ao extremo da humilhação, à crucificação de sua dignidade, pergunta-se: conseguirá Geisy renascer?
A direção da Universidade tomará providências em relação ao que aconteceu em seu campus ou simplesmente lavará as mãos?
E os algozes de Geisy, o que lhes ocorrerá? Serão punidos? Ou serão perdoados, pois não sabem o que fazem?
***
Geisy, uma estudante de turismo da Uniban, foi humilhada a caminho de sua classe de aula por conta de alegada indecência do vestido que trajava.
Para quem não acompanhou, há vários vídeos circulando pela internet (um deles em link abaixo). O caso é rico em reflexões: comportamentos adequados e inadequados, reações justificáveis e injustificáveis, direitos da mulher, distinção de gêneros quanto ao exercício da sexualidade, o papel da escola na formação social dos indivíduos, bullying em tempos de internet, comportamento de massas, danos morais, etc, etc, etc. Às reflexões, porém, deveria somar-se a indignação das mulheres e pelas mulheres. Não contra o suposto despudor de Geisy, mas, justamente, contra essa visão anacrônica e absurdamente reacionária. O episódio representa um retrocesso sob a ótica das conquistas femininas. E, quem sabe, a oportunidade dos que prezam tais conquistas manifestarem com veemência seu repúdio, exigindo punição exemplar, sem desculpas ou abrandamentos, daqueles que sob a covarde proteção das massas promoveram um verdadeiro linchamento moral.
www.folha.com.br/093026
Apesar das diferenças, Geisy também era de origem humilde e teve, naquele instante, sua paixão. No seu calvário, teve como cruz um curto vestido vermelho. Fizeram as vezes de soldados romanos os seguranças da escola e os policiais militares que a escoltaram por fim. Reles cumpridores de ordens, não permitiram o avanço das hordas, mas pensaram consigo: com esses trajes provocantes, essa vadia estava pedindo, ah se estava!
Qual o sujeito que deu água em vez de vinagre, houve o professor que resistiu à invasão da classe pela multidão ensandecida e vestiu a pobre com seu jaleco, cobrindo aquele corpo diabólico.
Geisy nunca foi conhecida pela capacidade de curar leprosos ou de proferir parábolas, mas de provocar os instintos com sua sensualidade. Um poder perigoso este, causador de implacável ira daqueles que não o têm e não aceitam que lhes falte.
Não feriram de morte seu corpo, mas sua alma. Levada ao extremo da humilhação, à crucificação de sua dignidade, pergunta-se: conseguirá Geisy renascer?
A direção da Universidade tomará providências em relação ao que aconteceu em seu campus ou simplesmente lavará as mãos?
E os algozes de Geisy, o que lhes ocorrerá? Serão punidos? Ou serão perdoados, pois não sabem o que fazem?
***
Geisy, uma estudante de turismo da Uniban, foi humilhada a caminho de sua classe de aula por conta de alegada indecência do vestido que trajava.
Para quem não acompanhou, há vários vídeos circulando pela internet (um deles em link abaixo). O caso é rico em reflexões: comportamentos adequados e inadequados, reações justificáveis e injustificáveis, direitos da mulher, distinção de gêneros quanto ao exercício da sexualidade, o papel da escola na formação social dos indivíduos, bullying em tempos de internet, comportamento de massas, danos morais, etc, etc, etc. Às reflexões, porém, deveria somar-se a indignação das mulheres e pelas mulheres. Não contra o suposto despudor de Geisy, mas, justamente, contra essa visão anacrônica e absurdamente reacionária. O episódio representa um retrocesso sob a ótica das conquistas femininas. E, quem sabe, a oportunidade dos que prezam tais conquistas manifestarem com veemência seu repúdio, exigindo punição exemplar, sem desculpas ou abrandamentos, daqueles que sob a covarde proteção das massas promoveram um verdadeiro linchamento moral.
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