Virou moda dizer que “não se pode falar mal de Lula”, como se qualquer crítica ao presidente fosse imediatamente censurada ou, quem sabe, prontamente abafada. Essa ideia já apareceu em artigos e falas de gente importante: políticos, artistas, intelectuais. Não raro, surgem comparações com a Venezuela de Chávez ou a Argentina de Cristina Kirchner, como se o conflito entre o governo e a imprensa nesses países ocorresse – ou, quiçá, estivesse na iminência de ocorrer – aqui no Brasil. Afinal, não somos todos aliados, não somos todos de esquerda?
Devo estar com problemas de percepção do mundo, pois, ao contrário, vejo Lula como a grande “Geni” do Brasil. Acordo com Alexandre Garcia e durmo com William Waack fazendo críticas ao governo e ao próprio presidente, terminando suas falas com um já manjado olhar irônico a expressar indignação e incredulidade com os rumos (terríveis!) tomados pelo país.
Sim, o problema deve ser meu. Não consigo enxergar, por mais que me esforce, essa impossibilidade de crítica ao presidente. Até ouço críticas que não devem existir. Por exemplo, ouvi Caetano chamar o presidente de analfabeto, cafona e grosseiro. Também li texto assinado por FHC acusando o presidente de aspirante a ditador “neoperonista”.
Ah, já não bastasse o jornalista do New York Times Larry Rother escrever artigo sugerindo que Lula seria alcoólatra (alguém aí tem um videozinho do Lula bêbado? É que eu nunca vi...), agora o jornalista César Benjamin, da Folha de S.Paulo, escreveu neste mesmo jornal relato em que cita frase dita por Lula em almoço, quando candidato à Presidência em 1994, acerca de tentativa frustrada de currar um rapaz no cárcere quando esteve preso, na época da ditadura. Benjamin só não foi tão claro sobre a circunstância em que a frase fora proferida, se em tom de brincadeira (de mau gosto, sem dúvida), e, tratando-se de uma brincadeira, o que seria fato e o que não seria. Só para arrematar, três provas de que a acusação insinuada por Benjamin é, no mínimo, exagerada: 1) Paulo de Tarso da Cunha Santos, publicitário que estava presente no tal almoço, afirmou ser a frase uma dentre tantas brincadeiras habituais de Lula durante a campanha; 2) José Maria de Almeida, José Cicote e Rubens Teodoro, presos com Lula no Dops, disseram não ter testemunhado situação similar à descrita no artigo; 3) Amigos de longa data do presidente, como Frei Betto, disseram jamais ter ouvido mencionado relato da boca de Lula, mas, é claro, César Benjamin e os demais presentes tiveram o privilégio de conhecer detalhes mais íntimos da vida de Luís Inácio, que resolveu abrir-se naquele instante.
Isso para ficarmos nas críticas mais recentes. Se retrocedermos no tempo, veremos que Lula já foi acusado de propor o aborto à namorada grávida (eleições de 1989), de, junto com o PT, auxiliar os sequestradores de Abílio Diniz, e de ser condescendente com esquemas de corrupção (mensalões e afins). Faltou o quê? Homicídio? Não! Também já se sugestionou que Lula estava envolvido na morte de Celso Daniel, ex-prefeito de Santo André, assassinado em 2002.
Em resumo, os adjetivos atribuídos diretamente ou com meias-voltas a Lula são os seguintes: corrupto, analfabeto, cafona, bêbado, autoritário, cúmplice de sequestro e homicídio, e, last but not least, estuprador (ou agente de tentativa de atentado violento ao puder, para melhor enquadramento criminal).
A pergunta que não quer calar: esse é o sujeito contra o qual não se pode falar? Certeza? Imagine se pudesse! Outra: este é o presidente do país em que a liberdade de expressão e, por conseguinte, a própria democracia correm risco? Sério ?! O que fazer? Chamar os militares para garanti-las?
29/11/2009
21/11/2009
Um Luxo
Para variar, Caetano Veloso causou polêmica. No caso, a polêmica originou-se de trecho da entrevista concedida a Sonia Racy, do Estadão. Questionado sobre Marina Silva, Caetano demonstrou sua pretensão em votar na ex-petista, argumentando, ipsis litteris: “Não posso deixar de votar nela. É por demais forte simbolicamente para eu não me abalar. Marina é Lula e é Obama ao mesmo tempo. Ela é meio preta, é uma cabocla, é inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro. Ela fala bem.”
Termos como analfabeto, cafona e grosseiro são, certamente, ofensivos. No mínimo, deselegantes. Ou, utilizando o vocabulário do próprio compositor, grosseiros. Contudo, vindos da boca de Caetano, escolado na arte da polêmica, e dependendo do contexto em que se deu, há que se matizar a crítica, ponderar as reações. Há que se interpretar o trecho na sua relação com o todo da entrevista. Assim, correndo o risco de parecer ingênuo e de contrariar meus amigos petistas, em especial os mais exaltados – e são muitos! – , entendi de uma forma, digamos, light as expressões utilizadas pelo compositor baiano, considerando em conjunto dois outros trechos da mesma entrevista.
O primeiro: Caetano afirma de modo positivo que Marina é, simbolicamente, ao mesmo tempo, Lula e Obama; logo, vê aspectos positivos em Lula. No caso, a analogia entre Marina e Lula deve consistir na origem simples e na ascensão social de ambos.
O segundo trecho a ser observado é o seguinte, em resposta a questionamento sobre tendências políticas na América Latina: “Tem uma recaída num negócio que é tradicional aqui, a figura do líder populista - uma linha demagógica liderada por Hugo Chávez. Mas o interessante é que Lula tem um papel bem diferente disso. Lula é um grande líder populista, mas é mais pragmático - mesmo com essa euforia em que entrou desde a posse até hoje. Ter tido Fernando Henrique e Lula em seguida é um luxo. Saíram melhor que a encomenda, ambos.”
Em resumo, considerando as menções positivas ao presidente, não dá para se depreender da entrevista em tela que Caetano teve a pretensão de escorraçar Lula ou algo que o valha, não obstante o uso dos termos analfabeto, cafona e grosseiro.
Sim, Caetano é contraditório. Sempre o foi; e nisto também está sua genialidade: fazer-se e refazer-se perpetuamente, mas, com isso, criar e recriar sua obra, suas músicas, seus pensamentos, sua imagem. Mais do que ofender, acredito que Caetano tenha tentado ressaltar a falta de uma fala mais sofisticada em Lula, corroborada pelas tantas citações simplistas, por vezes inapropriadas, além das metáforas futebolísticas proferidas em profusão por Lula. Discordo, no entanto, quando Caetano afirma que “Lula não sabe falar”, dando azo àqueles pedantes pseudo-intelectuais de botequim, cujo esporte favorito é reforçar a pecha de ignorante no presidente, postando-se, eles próprios, hipocritamente como “gente escolada”, posto que detentora de um canudo qualquer... às vezes, nem isso. Muito pelo contrário, Lula tem uma capacidade ímpar de comunicar-se com empresários, com acadêmicos, com parte da classe média, com líderes da comunidade internacional e, especialmente, com o povão. Lula trata corretamente assuntos complexos, dando, no mínimo, as linhas fundamentais de cada um. O que pode acontecer – e é o que acontece na maioria dos casos – é a discordância em relação ao que pensa e decide o presidente. Como diria o outro: aí são outros quinhentos. Quanto à capacidade de comunicação do presidente com o povo, aliás, parafraseando seu bordão, quiçá nunca tenha havido antes na história deste país um líder popular como Lula. Tome-se por comparação Serra e Dilma: quanto esforço para extrair um sorriso, um gesto simpático!
Gerada a celeuma, o próprio Caetano procurou se explicar. Disse, inclusive, que as pessoas reagiram à manchete tal qual foi armada, não considerando o conjunto da entrevista. O que não deve ter convencido muito sua mãe, dona Canô, de 102 anos, que reprovou a fala do filho, manifestando intenção de pedir desculpas ao presidente.
A mim, concluo disso tudo apenas o seguinte: ao se observar os rumos promissores tomados pelo Brasil nos últimos anos, talvez Caetano tenha mesmo razão quando diz ser um luxo termos FHC e Lula em sequência, não obstante o primeiro entender que corremos o risco de adentrarmos num tal de “autoritarismo popular”. Assim como é um luxo termos Caetano Veloso como um dos principais expoentes da música e da cultura brasileiras. E por que não: que luxo termos uma brasileira como dona Canô que, mesmo centenária, revela-se lúcida e capaz de opinar e repreender o filho famoso com a mesma força que lhe deixou como legado!
Termos como analfabeto, cafona e grosseiro são, certamente, ofensivos. No mínimo, deselegantes. Ou, utilizando o vocabulário do próprio compositor, grosseiros. Contudo, vindos da boca de Caetano, escolado na arte da polêmica, e dependendo do contexto em que se deu, há que se matizar a crítica, ponderar as reações. Há que se interpretar o trecho na sua relação com o todo da entrevista. Assim, correndo o risco de parecer ingênuo e de contrariar meus amigos petistas, em especial os mais exaltados – e são muitos! – , entendi de uma forma, digamos, light as expressões utilizadas pelo compositor baiano, considerando em conjunto dois outros trechos da mesma entrevista.
O primeiro: Caetano afirma de modo positivo que Marina é, simbolicamente, ao mesmo tempo, Lula e Obama; logo, vê aspectos positivos em Lula. No caso, a analogia entre Marina e Lula deve consistir na origem simples e na ascensão social de ambos.
O segundo trecho a ser observado é o seguinte, em resposta a questionamento sobre tendências políticas na América Latina: “Tem uma recaída num negócio que é tradicional aqui, a figura do líder populista - uma linha demagógica liderada por Hugo Chávez. Mas o interessante é que Lula tem um papel bem diferente disso. Lula é um grande líder populista, mas é mais pragmático - mesmo com essa euforia em que entrou desde a posse até hoje. Ter tido Fernando Henrique e Lula em seguida é um luxo. Saíram melhor que a encomenda, ambos.”
Em resumo, considerando as menções positivas ao presidente, não dá para se depreender da entrevista em tela que Caetano teve a pretensão de escorraçar Lula ou algo que o valha, não obstante o uso dos termos analfabeto, cafona e grosseiro.
Sim, Caetano é contraditório. Sempre o foi; e nisto também está sua genialidade: fazer-se e refazer-se perpetuamente, mas, com isso, criar e recriar sua obra, suas músicas, seus pensamentos, sua imagem. Mais do que ofender, acredito que Caetano tenha tentado ressaltar a falta de uma fala mais sofisticada em Lula, corroborada pelas tantas citações simplistas, por vezes inapropriadas, além das metáforas futebolísticas proferidas em profusão por Lula. Discordo, no entanto, quando Caetano afirma que “Lula não sabe falar”, dando azo àqueles pedantes pseudo-intelectuais de botequim, cujo esporte favorito é reforçar a pecha de ignorante no presidente, postando-se, eles próprios, hipocritamente como “gente escolada”, posto que detentora de um canudo qualquer... às vezes, nem isso. Muito pelo contrário, Lula tem uma capacidade ímpar de comunicar-se com empresários, com acadêmicos, com parte da classe média, com líderes da comunidade internacional e, especialmente, com o povão. Lula trata corretamente assuntos complexos, dando, no mínimo, as linhas fundamentais de cada um. O que pode acontecer – e é o que acontece na maioria dos casos – é a discordância em relação ao que pensa e decide o presidente. Como diria o outro: aí são outros quinhentos. Quanto à capacidade de comunicação do presidente com o povo, aliás, parafraseando seu bordão, quiçá nunca tenha havido antes na história deste país um líder popular como Lula. Tome-se por comparação Serra e Dilma: quanto esforço para extrair um sorriso, um gesto simpático!
Gerada a celeuma, o próprio Caetano procurou se explicar. Disse, inclusive, que as pessoas reagiram à manchete tal qual foi armada, não considerando o conjunto da entrevista. O que não deve ter convencido muito sua mãe, dona Canô, de 102 anos, que reprovou a fala do filho, manifestando intenção de pedir desculpas ao presidente.
A mim, concluo disso tudo apenas o seguinte: ao se observar os rumos promissores tomados pelo Brasil nos últimos anos, talvez Caetano tenha mesmo razão quando diz ser um luxo termos FHC e Lula em sequência, não obstante o primeiro entender que corremos o risco de adentrarmos num tal de “autoritarismo popular”. Assim como é um luxo termos Caetano Veloso como um dos principais expoentes da música e da cultura brasileiras. E por que não: que luxo termos uma brasileira como dona Canô que, mesmo centenária, revela-se lúcida e capaz de opinar e repreender o filho famoso com a mesma força que lhe deixou como legado!
10/11/2009
Estupra, mas paga
Complemento às postagens abaixo:
Não é que o magnífico reitor da Oban, quer dizer, Taleban, ops, Uniban, senhor Heitor Pinto Filho, foi candidato a vice-governador, em 2002, na chapa de... Paulo Maluf! Sim, o autor da célebre frase "estupra, mas não mata".
E não é que a universidade, além de rever a punição à vítima, decidiu também não punir os culpados! Errou, depois consertou, agora errou de novo! Seria medo de possíveis perdas (robustas) com mensalidades? Calculem: 700 mensalidades! Punição tem limite (financeiro, inclusive)!
Lembrando as lições do doutor Paulo, alguém escreveu por aí um trocadilho que bem serve de slogan para o magnífico reitor: Estupra, mas paga!
Arremato: esse Pinto não dá uma dentro!
Não é que o magnífico reitor da Oban, quer dizer, Taleban, ops, Uniban, senhor Heitor Pinto Filho, foi candidato a vice-governador, em 2002, na chapa de... Paulo Maluf! Sim, o autor da célebre frase "estupra, mas não mata".
E não é que a universidade, além de rever a punição à vítima, decidiu também não punir os culpados! Errou, depois consertou, agora errou de novo! Seria medo de possíveis perdas (robustas) com mensalidades? Calculem: 700 mensalidades! Punição tem limite (financeiro, inclusive)!
Lembrando as lições do doutor Paulo, alguém escreveu por aí um trocadilho que bem serve de slogan para o magnífico reitor: Estupra, mas paga!
Arremato: esse Pinto não dá uma dentro!
Com que burca eu vou?
O caso de Geisy Arruda me fez lembrar o samba de Noel Rosa cujo refrão é:
Com que roupa eu vou?/ Pro samba que você me convidou
A lembrança de Noel, porém, é a única consequência boa deste lamentável episódio. Afinal, ao absurdo ocorrido em seu campus de São Bernardo, a Universidade Bandeirante (Uniban) conseguiu somar uma decisão estúpida e escandalosa. Já haviam dito que Uniban rima com Taleban, mas ainda não havia clareza quanto à similaridade de concepções entre ambos.
Geisy Arruda, a vítima, foi excluída da universidade, enquanto alguns dos criminosos – sim, injúria e difamação são crimes, conforme artigos 139 e 140 do Código Penal – que a perseguiram serão simplesmente suspensos. Se o forem! Essa é a sábia determinação dos aiatolás, quer dizer, dos dirigentes da Uniban. A propósito, alguém aí viu ou ouviu o magnífico reitor, senhor Heitor Pinto Filho, ou algum alto dirigente da instituição? Eu só vi um coitado de um advogado tentando justificar o injustificável, ninguém mais. Sei lá, talvez seja por vergonha, talvez porque nas regras do pudor da Uniban conste a proibição de o Pinto aparecer em público... Desculpe, não aguentei...
As alegações da Universidade para o desligamento de Geisy foram veiculadas em jornais como informe publicitário. Em suma: 1) a estudante usava “trajes inadequados, indicando postura incompatível com o ambiente da universidade, e, apesar de alertada, não modificou seu comportamento”; 2) ademais, a aluna optou por um percurso maior que o habitual rumo à sala de aula, “o que alimentou a curiosidade e o interesse de mais alunos e alunas”. A partir dessas pérolas, pergunto: A universidade mantém algum(a) estilista para definir e fiscalizar os “trajes adequados”, uma espécie de Glorinha Kalil entendida em véus, burcas e afins? Dependendo da roupa que se usa o aluno deve percorrer um trajeto ou outro? Do mesmo jeito que se cobra de Geisy compostura, não seria possível cobrar dos ditos alunos e alunos que segurem a onda da sua “curiosidade”?
A Constituição brasileira, em seu artigo 205, afirma que a educação visará ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. No que a Uniban contribui, levando-se em consideração o caso Geisy, para que seus alunos se tornem verdadeiros cidadãos? Tomara que no quesito “formação para o trabalho” a universidade seja mais competente.
Voltando ao samba de Noel Rosa, ao gosto da direção da Universidade Bandeirante, teria o refrão adaptado, como segue:
Com que burca eu vou/ Proteger o ambiente da Uniban
Êta sambinha ruim! Definitivamente, Noel não merece a paródia infame.
Três observações, em tempo:
Primeira: Acabo de saber que a Uniban reviu sua posição de desligar Geisy. Ou seja, a direção da Uniban, que no primeiro momento agiu de forma absurda, agora, pressionada, acuada e feito barata tonta, volta atrás. Ridículo, mas melhor assim. Aliás, à altura do senhor reitor: magnificamente ridículo!
Segunda: É hora de o MEC e as secretarias estaduais e municipais de educação preocuparem-se com a responsabilidade das instituições de ensino em formarem cidadãos, e não somente com o aspecto cognitivo. As instituições de ensino são espaços importantíssimos de socialização e, portanto, de formação e transmissão de valores. Duas sugestões: que conste da própria grade curricular a matéria “formação cidadã” e que haja um plano consistente de combate ao bullying em todas as instituições.
Terceira: É preocupante saber que muitos alunos da universidade, em vez de se contraporem aos agressores e à direção da Uniban, passam a hostilizar Geisy pela imagem negativa que a universidade angariou para si. Além disso, mais de 20% dos consultados em pesquisa do Jornal Hoje, da Rede Globo, culpam a aluna pelo ocorrido. Ou seja, a decisão por culpar a vítima e não os algozes – bastante comum em casos de estupro, diga-se de passagem – mostra-se arraigada na própria sociedade, não refletindo apenas a ignorância de quem decide. Neste sentido, o caso Geisy parece corroborar a interpretação daqueles que recusam apontar o nazismo como fruto exclusivo da cabeça e das atitudes de Hitler e seus comandados diretos, mas também como um fenômeno com raízes na própria sociedade alemã daquela época. Conclusões: 1) As batalhas contra racismo, homofobia, machismo e outras formas de discriminação estão longe de serem consideradas ganhas; e, 2) O preço da liberdade, realmente, é a eterna vigilância.
Com que roupa eu vou?/ Pro samba que você me convidou
A lembrança de Noel, porém, é a única consequência boa deste lamentável episódio. Afinal, ao absurdo ocorrido em seu campus de São Bernardo, a Universidade Bandeirante (Uniban) conseguiu somar uma decisão estúpida e escandalosa. Já haviam dito que Uniban rima com Taleban, mas ainda não havia clareza quanto à similaridade de concepções entre ambos.
Geisy Arruda, a vítima, foi excluída da universidade, enquanto alguns dos criminosos – sim, injúria e difamação são crimes, conforme artigos 139 e 140 do Código Penal – que a perseguiram serão simplesmente suspensos. Se o forem! Essa é a sábia determinação dos aiatolás, quer dizer, dos dirigentes da Uniban. A propósito, alguém aí viu ou ouviu o magnífico reitor, senhor Heitor Pinto Filho, ou algum alto dirigente da instituição? Eu só vi um coitado de um advogado tentando justificar o injustificável, ninguém mais. Sei lá, talvez seja por vergonha, talvez porque nas regras do pudor da Uniban conste a proibição de o Pinto aparecer em público... Desculpe, não aguentei...
As alegações da Universidade para o desligamento de Geisy foram veiculadas em jornais como informe publicitário. Em suma: 1) a estudante usava “trajes inadequados, indicando postura incompatível com o ambiente da universidade, e, apesar de alertada, não modificou seu comportamento”; 2) ademais, a aluna optou por um percurso maior que o habitual rumo à sala de aula, “o que alimentou a curiosidade e o interesse de mais alunos e alunas”. A partir dessas pérolas, pergunto: A universidade mantém algum(a) estilista para definir e fiscalizar os “trajes adequados”, uma espécie de Glorinha Kalil entendida em véus, burcas e afins? Dependendo da roupa que se usa o aluno deve percorrer um trajeto ou outro? Do mesmo jeito que se cobra de Geisy compostura, não seria possível cobrar dos ditos alunos e alunos que segurem a onda da sua “curiosidade”?
A Constituição brasileira, em seu artigo 205, afirma que a educação visará ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. No que a Uniban contribui, levando-se em consideração o caso Geisy, para que seus alunos se tornem verdadeiros cidadãos? Tomara que no quesito “formação para o trabalho” a universidade seja mais competente.
Voltando ao samba de Noel Rosa, ao gosto da direção da Universidade Bandeirante, teria o refrão adaptado, como segue:
Com que burca eu vou/ Proteger o ambiente da Uniban
Êta sambinha ruim! Definitivamente, Noel não merece a paródia infame.
Três observações, em tempo:
Primeira: Acabo de saber que a Uniban reviu sua posição de desligar Geisy. Ou seja, a direção da Uniban, que no primeiro momento agiu de forma absurda, agora, pressionada, acuada e feito barata tonta, volta atrás. Ridículo, mas melhor assim. Aliás, à altura do senhor reitor: magnificamente ridículo!
Segunda: É hora de o MEC e as secretarias estaduais e municipais de educação preocuparem-se com a responsabilidade das instituições de ensino em formarem cidadãos, e não somente com o aspecto cognitivo. As instituições de ensino são espaços importantíssimos de socialização e, portanto, de formação e transmissão de valores. Duas sugestões: que conste da própria grade curricular a matéria “formação cidadã” e que haja um plano consistente de combate ao bullying em todas as instituições.
Terceira: É preocupante saber que muitos alunos da universidade, em vez de se contraporem aos agressores e à direção da Uniban, passam a hostilizar Geisy pela imagem negativa que a universidade angariou para si. Além disso, mais de 20% dos consultados em pesquisa do Jornal Hoje, da Rede Globo, culpam a aluna pelo ocorrido. Ou seja, a decisão por culpar a vítima e não os algozes – bastante comum em casos de estupro, diga-se de passagem – mostra-se arraigada na própria sociedade, não refletindo apenas a ignorância de quem decide. Neste sentido, o caso Geisy parece corroborar a interpretação daqueles que recusam apontar o nazismo como fruto exclusivo da cabeça e das atitudes de Hitler e seus comandados diretos, mas também como um fenômeno com raízes na própria sociedade alemã daquela época. Conclusões: 1) As batalhas contra racismo, homofobia, machismo e outras formas de discriminação estão longe de serem consideradas ganhas; e, 2) O preço da liberdade, realmente, é a eterna vigilância.
02/11/2009
A Paixão de Geisy
Não era homem, mas mulher. Loira, olhos verdes, um metro e setenta de altura, sedutora: uma bela mulher. Seu nome era Geisy, também conhecida como Michele Vedras. Seu nome não estava inscrito em nenhum livro sagrado, mas em um blog. Não se tratava de um deus, um semideus, um filho dileto Dele, mas de uma simples pecadora, como todos nós. Ou de pior estirpe, ao menos para os vorazes moços que, em massa, a agrediram com xingamentos e ameaças de estupro, enquanto, solitários, a desejavam com a mesma voracidade. Ou para as raivosas moças, repentinamente pudicas, em colérica histeria contra aquela que atentava à moral e aos bons costumes, e lhes roubava a preciosa atenção dos moços. Não pensaram em seus próprios pecados antes de lhe atirarem pedras, de a bolinarem, de lançarem-lhe ofensas e cliques de celular para posterior humilhação pública via internet.
Apesar das diferenças, Geisy também era de origem humilde e teve, naquele instante, sua paixão. No seu calvário, teve como cruz um curto vestido vermelho. Fizeram as vezes de soldados romanos os seguranças da escola e os policiais militares que a escoltaram por fim. Reles cumpridores de ordens, não permitiram o avanço das hordas, mas pensaram consigo: com esses trajes provocantes, essa vadia estava pedindo, ah se estava!
Qual o sujeito que deu água em vez de vinagre, houve o professor que resistiu à invasão da classe pela multidão ensandecida e vestiu a pobre com seu jaleco, cobrindo aquele corpo diabólico.
Geisy nunca foi conhecida pela capacidade de curar leprosos ou de proferir parábolas, mas de provocar os instintos com sua sensualidade. Um poder perigoso este, causador de implacável ira daqueles que não o têm e não aceitam que lhes falte.
Não feriram de morte seu corpo, mas sua alma. Levada ao extremo da humilhação, à crucificação de sua dignidade, pergunta-se: conseguirá Geisy renascer?
A direção da Universidade tomará providências em relação ao que aconteceu em seu campus ou simplesmente lavará as mãos?
E os algozes de Geisy, o que lhes ocorrerá? Serão punidos? Ou serão perdoados, pois não sabem o que fazem?
***
Geisy, uma estudante de turismo da Uniban, foi humilhada a caminho de sua classe de aula por conta de alegada indecência do vestido que trajava.
Para quem não acompanhou, há vários vídeos circulando pela internet (um deles em link abaixo). O caso é rico em reflexões: comportamentos adequados e inadequados, reações justificáveis e injustificáveis, direitos da mulher, distinção de gêneros quanto ao exercício da sexualidade, o papel da escola na formação social dos indivíduos, bullying em tempos de internet, comportamento de massas, danos morais, etc, etc, etc. Às reflexões, porém, deveria somar-se a indignação das mulheres e pelas mulheres. Não contra o suposto despudor de Geisy, mas, justamente, contra essa visão anacrônica e absurdamente reacionária. O episódio representa um retrocesso sob a ótica das conquistas femininas. E, quem sabe, a oportunidade dos que prezam tais conquistas manifestarem com veemência seu repúdio, exigindo punição exemplar, sem desculpas ou abrandamentos, daqueles que sob a covarde proteção das massas promoveram um verdadeiro linchamento moral.
www.folha.com.br/093026
Apesar das diferenças, Geisy também era de origem humilde e teve, naquele instante, sua paixão. No seu calvário, teve como cruz um curto vestido vermelho. Fizeram as vezes de soldados romanos os seguranças da escola e os policiais militares que a escoltaram por fim. Reles cumpridores de ordens, não permitiram o avanço das hordas, mas pensaram consigo: com esses trajes provocantes, essa vadia estava pedindo, ah se estava!
Qual o sujeito que deu água em vez de vinagre, houve o professor que resistiu à invasão da classe pela multidão ensandecida e vestiu a pobre com seu jaleco, cobrindo aquele corpo diabólico.
Geisy nunca foi conhecida pela capacidade de curar leprosos ou de proferir parábolas, mas de provocar os instintos com sua sensualidade. Um poder perigoso este, causador de implacável ira daqueles que não o têm e não aceitam que lhes falte.
Não feriram de morte seu corpo, mas sua alma. Levada ao extremo da humilhação, à crucificação de sua dignidade, pergunta-se: conseguirá Geisy renascer?
A direção da Universidade tomará providências em relação ao que aconteceu em seu campus ou simplesmente lavará as mãos?
E os algozes de Geisy, o que lhes ocorrerá? Serão punidos? Ou serão perdoados, pois não sabem o que fazem?
***
Geisy, uma estudante de turismo da Uniban, foi humilhada a caminho de sua classe de aula por conta de alegada indecência do vestido que trajava.
Para quem não acompanhou, há vários vídeos circulando pela internet (um deles em link abaixo). O caso é rico em reflexões: comportamentos adequados e inadequados, reações justificáveis e injustificáveis, direitos da mulher, distinção de gêneros quanto ao exercício da sexualidade, o papel da escola na formação social dos indivíduos, bullying em tempos de internet, comportamento de massas, danos morais, etc, etc, etc. Às reflexões, porém, deveria somar-se a indignação das mulheres e pelas mulheres. Não contra o suposto despudor de Geisy, mas, justamente, contra essa visão anacrônica e absurdamente reacionária. O episódio representa um retrocesso sob a ótica das conquistas femininas. E, quem sabe, a oportunidade dos que prezam tais conquistas manifestarem com veemência seu repúdio, exigindo punição exemplar, sem desculpas ou abrandamentos, daqueles que sob a covarde proteção das massas promoveram um verdadeiro linchamento moral.
www.folha.com.br/093026
21/10/2009
Petistas na TV
Como se zelassem exemplarmente pela moralidade pública, alguns senadores bateram às portas da laboriosa Comissão de Ética do Senado Federal, clamando por punição ao petista Eduardo Suplicy por conta de atrapalhada performance feita a pedido de Sabrina Sato, do programa Pânico na TV. Após vestir uma cueca vermelha sobre a calça, o Senador teria imitado o voo do Superman pelo salão do Senado Federal. Compreensiva, a Rede TV, a pedido do senador, deixou de exibir a cena.
Ressalto que a cueca foi colocada sobre a calça, tal qual o citado e outros super-heróis dos quadrinhos e desenhos animados. Aliás, se isso é tão indecente, como deixam que as crianças assistam a esses desenhos? O porquê da estranha indumentária dos heróis não me perguntem, mas confesso que quando criança eu vivia brincando vestido com cueca sobre a calça, toalha à guisa de capa e meias fazendo as vezes de luvas. Minha mãe devia amar...
Seriam os ofendidos parlamentares alguns dos mesmos que nada constataram de indecoroso na farra empreguista em prol dos parentes, nos atos secretos e em outras ocorrências quase onipresentes na mídia? Teriam ficado revoltados com o cartão vermelho extemporaneamente mostrado a Sarney?
Sinto-me deslocado diante dessas manifestações contrárias a Suplicy. Não vi nada, absolutamente nada que afrontasse à moralidade pública, nem mesmo à tal da moral e dos bons costumes, mais valorizada em tempos mais conservadores. Suplicy simplesmente respondeu à brincadeira proposta, ingenuamente talvez, pateticamente quem sabe. Na minha modesta opinião, atitude reprovável foi a do cartão vermelho, não pelo gesto em si, mas pelo momento em que se deu.
Só torço para que as reações críticas a Suplicy não alimentem argumentos para justificar a constante fuga de outro petista, o deputado José Genoíno, das câmeras de TV, especialmente as de outro programa humorístico, o CQC, da Band. Admirador que sou da história de lutas de Genoíno, fico um tanto incomodado com sua negação sistemática em falar com os repórteres do CQC. Mesmo ciente do intenso sofrimento por que, presumivelmente, o deputado passou quando era presidente do PT e explodiu o famoso caso do mensalão, não compreendo a atitude esguia.
Se a razão para o silêncio de Genoíno é a mágoa pelas críticas recebidas, está mais do que na hora de enfrentá-las. Afinal, a tensão midiática faz parte da vida política democrática (que o digam outros petistas como José Dirceu e Aloísio Mercadante, expostos ao extremo a pechas na mídia, respectivamente, de comandante do mensalão e de voltar atrás em decisão “irrevogável”) e não condiz com a já referida história de lutas do deputado. Se o motivo é não dar ibope ao programa, o resultado é justamente o contrário, ficando muito mais em evidência enquanto perdurar a brincadeira de gato e rato.
Caso aceite um conselho – em que pese deles estar cheio o inferno, como se sabe – , diria ao deputado Genoíno que não mais desvie das câmeras, respondendo às perguntas dos repórteres/humoristas por mais impertinentes, inoportunas ou injustas possam lhe parecer. Assim já o fizeram Paulo Betti, Hector Babenco e a também petista Marta Suplicy. E, acredito, não devem ter se arrependido.
Fale, deputado Genoíno. Responda às perguntas, entre na brincadeira com tranquilidade. Porém, se lhe oferecerem uma cueca vermelha, melhor não vestir.
Ressalto que a cueca foi colocada sobre a calça, tal qual o citado e outros super-heróis dos quadrinhos e desenhos animados. Aliás, se isso é tão indecente, como deixam que as crianças assistam a esses desenhos? O porquê da estranha indumentária dos heróis não me perguntem, mas confesso que quando criança eu vivia brincando vestido com cueca sobre a calça, toalha à guisa de capa e meias fazendo as vezes de luvas. Minha mãe devia amar...
Seriam os ofendidos parlamentares alguns dos mesmos que nada constataram de indecoroso na farra empreguista em prol dos parentes, nos atos secretos e em outras ocorrências quase onipresentes na mídia? Teriam ficado revoltados com o cartão vermelho extemporaneamente mostrado a Sarney?
Sinto-me deslocado diante dessas manifestações contrárias a Suplicy. Não vi nada, absolutamente nada que afrontasse à moralidade pública, nem mesmo à tal da moral e dos bons costumes, mais valorizada em tempos mais conservadores. Suplicy simplesmente respondeu à brincadeira proposta, ingenuamente talvez, pateticamente quem sabe. Na minha modesta opinião, atitude reprovável foi a do cartão vermelho, não pelo gesto em si, mas pelo momento em que se deu.
Só torço para que as reações críticas a Suplicy não alimentem argumentos para justificar a constante fuga de outro petista, o deputado José Genoíno, das câmeras de TV, especialmente as de outro programa humorístico, o CQC, da Band. Admirador que sou da história de lutas de Genoíno, fico um tanto incomodado com sua negação sistemática em falar com os repórteres do CQC. Mesmo ciente do intenso sofrimento por que, presumivelmente, o deputado passou quando era presidente do PT e explodiu o famoso caso do mensalão, não compreendo a atitude esguia.
Se a razão para o silêncio de Genoíno é a mágoa pelas críticas recebidas, está mais do que na hora de enfrentá-las. Afinal, a tensão midiática faz parte da vida política democrática (que o digam outros petistas como José Dirceu e Aloísio Mercadante, expostos ao extremo a pechas na mídia, respectivamente, de comandante do mensalão e de voltar atrás em decisão “irrevogável”) e não condiz com a já referida história de lutas do deputado. Se o motivo é não dar ibope ao programa, o resultado é justamente o contrário, ficando muito mais em evidência enquanto perdurar a brincadeira de gato e rato.
Caso aceite um conselho – em que pese deles estar cheio o inferno, como se sabe – , diria ao deputado Genoíno que não mais desvie das câmeras, respondendo às perguntas dos repórteres/humoristas por mais impertinentes, inoportunas ou injustas possam lhe parecer. Assim já o fizeram Paulo Betti, Hector Babenco e a também petista Marta Suplicy. E, acredito, não devem ter se arrependido.
Fale, deputado Genoíno. Responda às perguntas, entre na brincadeira com tranquilidade. Porém, se lhe oferecerem uma cueca vermelha, melhor não vestir.
Um Vitorioso

Rubens Barrichello, mais uma vez, não conseguiu vencer o GP Brasil de Fórmula 1. Ainda por cima, viu acabarem suas chances de sagrar-se o campeão de 2009. Para delírio dos humoristas, lutará para ser o... segundo! Aliás, Rubinho já foi vice-campeão mundial duas vezes, em 2002 e 2004. O piloto parece mesmo ser perseguido pela sina de vice, de eterno segundo. E, como no Brasil vice é sinônimo de nada, Rubinho pode ter renovada a pecha de fracassado.
Voltemos no tempo. No início do longínquo ano de 1985 – minha memória é boa para essas coisas – , Ayrton Senna concedeu uma histórica entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura. Comentava sua promissora primeira temporada na desconhecida escuderia Toleman e suas expectativas para correr na então poderosa Lotus naquele ano. Assim como Nelson Piquet surgira como um sucessor de Emerson Fittipaldi, consolidava-se a expectativa de que Senna viesse a ser o sucessor de Piquet, e algumas perguntas do programa foram nesse sentido. Bem, lá pelas tantas, surge o vídeo de um menininho de 13 anos, fazendo uma pergunta à revelação brasileira da Fórmula 1. Seu nome era Rubens Barrichello, também ele uma revelação, mas do kart.
O tempo passou, Senna tornou-se tricampeão assim como Piquet, além de um verdadeiro mito da F1, condição reforçada com sua trágica morte. Ainda, quis o destino que tivesse consigo nas pistas, em 1993, aquele menino do kart que outrora lhe questionara no Roda Viva. Dessa forma, quase como uma passagem natural da história, formava-se a expectativa de que Barrichello seria um dia o brasileiro campeão a suceder Senna.
A expectativa ganhou proporções de apelo nacional, tão logo arrefecido o trauma pela morte de Senna no GP de San Marino, em Ímola, na Itália, em 1994. A propósito, dois dias antes, nos treinos para este GP, o próprio Rubinho sofrera um grave acidente, sendo visitado no hospital pelo próprio Ayrton.
A expectativa tornou-se cobrança escancarada após a ida de Rubinho à Ferrari no ano 2000. Finalmente, o piloto brasileiro dirigiria um carro competitivo. Todavia, os anos 2000 a 2004 seriam marcados como a “era Schumacher”, companheiro de equipe de Barrichello, até então bicampeão mundial. Vale dizer, os 5 títulos do alemão na Ferrari explicam-se em grande parte, além da sua incontestável genialidade, pela ausência de adversários à altura (o que não faltava na época de Piquet e Senna), pela hegemonia da Ferrari e pela indisfarçável predileção da equipe por Schumi, restando a Rubinho o papel de piloto auxiliar. Esta função, aliás, foi exercida ao extremo na famosa corrida da Áustria, em 2002, quando Barrichello deixou Schumacher passar a poucos metros da linha de chegada. Diga-se de passagem, até então víamos com bons olhos a figura do piloto auxiliar, especialmente pelas boas recordações de Ricardo Patrese e Gerard Berger, fiéis escudeiros de Piquet, na Brabham, e de Senna na Mc Laren. O problema é que agora o “escada”, e não o piloto principal, era o brasileiro...
Apesar dos pesares, em que pese o “pecado mortal” de não ter se tornado campeão e de dificilmente vir a sê-lo, Rubens Barrichello é um vitorioso, está inscrito na história da Fórmula 1 e, certamente, é um dos principais ícones do automobilismo brasileiro de todos os tempos. Cito alguns dos seus feitos: 1) É um dos 6 brasileiros vencedores de Grandes Prêmios, com 11 vitórias, ficando atrás somente dos 3 campeões mundiais: Fittipaldi, Piquet e Senna; 2) Foi duas vezes vice-campeão mundial, quando o campeão foi o hours concours Michael Schumacher; 3) No GP de Hockenheim em 2000 (na Alemanha, por ironia), marcado como a primeira vitória de um piloto brasileiro depois do GP da Austrália de 1993, vencido por Ayrton Senna, Barrichello largou na 18ª posição no Grid e chegou em primeiro, fazendo desta a segunda maior corrida de recuperação de um piloto vencedor do GP; 4) É o 4º piloto que mais pontuou na história da Fórmula 1; 5) Por fim, é o piloto de Fórmula 1 com o maior número de Grandes Prêmios disputados: 283 até o último GP Brasil.
Por essas e outras, pode-se considerar um tanto descabida a pecha de piloto lento e fracassado impingida a Rubens Barrichello, não obstante as inúmeras quebras (especialmente por problema hidráulico) e derrotas em sua longa carreira.
A mim parece que essa mácula propagada à exaustão nos programas humorísticos deve-se fundamentalmente ao fato de Rubinho não ter sido campeão, cumprindo a escrita traçada por Fittipaldi, Piquet e Senna. Ah, se o título tivesse vindo neste ano!
O fato é que não veio. E Barrichello deve ser lembrado não por seus feitos, mas por seus tropeços. E pelo fato de ter sido uma promessa fracassada. A propósito, afora os poucos anos de carreira, Felipe Massa também não passa, até este momento, de uma promessa. Brilhante e promissora promessa, saliente-se, que por muito pouco não se tornou campeão em 2008. Porém, efetivamente, até este instante, levando-se em conta apenas o título de campeão, é somente uma promessa.
Voltemos no tempo. No início do longínquo ano de 1985 – minha memória é boa para essas coisas – , Ayrton Senna concedeu uma histórica entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura. Comentava sua promissora primeira temporada na desconhecida escuderia Toleman e suas expectativas para correr na então poderosa Lotus naquele ano. Assim como Nelson Piquet surgira como um sucessor de Emerson Fittipaldi, consolidava-se a expectativa de que Senna viesse a ser o sucessor de Piquet, e algumas perguntas do programa foram nesse sentido. Bem, lá pelas tantas, surge o vídeo de um menininho de 13 anos, fazendo uma pergunta à revelação brasileira da Fórmula 1. Seu nome era Rubens Barrichello, também ele uma revelação, mas do kart.
O tempo passou, Senna tornou-se tricampeão assim como Piquet, além de um verdadeiro mito da F1, condição reforçada com sua trágica morte. Ainda, quis o destino que tivesse consigo nas pistas, em 1993, aquele menino do kart que outrora lhe questionara no Roda Viva. Dessa forma, quase como uma passagem natural da história, formava-se a expectativa de que Barrichello seria um dia o brasileiro campeão a suceder Senna.
A expectativa ganhou proporções de apelo nacional, tão logo arrefecido o trauma pela morte de Senna no GP de San Marino, em Ímola, na Itália, em 1994. A propósito, dois dias antes, nos treinos para este GP, o próprio Rubinho sofrera um grave acidente, sendo visitado no hospital pelo próprio Ayrton.
A expectativa tornou-se cobrança escancarada após a ida de Rubinho à Ferrari no ano 2000. Finalmente, o piloto brasileiro dirigiria um carro competitivo. Todavia, os anos 2000 a 2004 seriam marcados como a “era Schumacher”, companheiro de equipe de Barrichello, até então bicampeão mundial. Vale dizer, os 5 títulos do alemão na Ferrari explicam-se em grande parte, além da sua incontestável genialidade, pela ausência de adversários à altura (o que não faltava na época de Piquet e Senna), pela hegemonia da Ferrari e pela indisfarçável predileção da equipe por Schumi, restando a Rubinho o papel de piloto auxiliar. Esta função, aliás, foi exercida ao extremo na famosa corrida da Áustria, em 2002, quando Barrichello deixou Schumacher passar a poucos metros da linha de chegada. Diga-se de passagem, até então víamos com bons olhos a figura do piloto auxiliar, especialmente pelas boas recordações de Ricardo Patrese e Gerard Berger, fiéis escudeiros de Piquet, na Brabham, e de Senna na Mc Laren. O problema é que agora o “escada”, e não o piloto principal, era o brasileiro...
Apesar dos pesares, em que pese o “pecado mortal” de não ter se tornado campeão e de dificilmente vir a sê-lo, Rubens Barrichello é um vitorioso, está inscrito na história da Fórmula 1 e, certamente, é um dos principais ícones do automobilismo brasileiro de todos os tempos. Cito alguns dos seus feitos: 1) É um dos 6 brasileiros vencedores de Grandes Prêmios, com 11 vitórias, ficando atrás somente dos 3 campeões mundiais: Fittipaldi, Piquet e Senna; 2) Foi duas vezes vice-campeão mundial, quando o campeão foi o hours concours Michael Schumacher; 3) No GP de Hockenheim em 2000 (na Alemanha, por ironia), marcado como a primeira vitória de um piloto brasileiro depois do GP da Austrália de 1993, vencido por Ayrton Senna, Barrichello largou na 18ª posição no Grid e chegou em primeiro, fazendo desta a segunda maior corrida de recuperação de um piloto vencedor do GP; 4) É o 4º piloto que mais pontuou na história da Fórmula 1; 5) Por fim, é o piloto de Fórmula 1 com o maior número de Grandes Prêmios disputados: 283 até o último GP Brasil.
Por essas e outras, pode-se considerar um tanto descabida a pecha de piloto lento e fracassado impingida a Rubens Barrichello, não obstante as inúmeras quebras (especialmente por problema hidráulico) e derrotas em sua longa carreira.
A mim parece que essa mácula propagada à exaustão nos programas humorísticos deve-se fundamentalmente ao fato de Rubinho não ter sido campeão, cumprindo a escrita traçada por Fittipaldi, Piquet e Senna. Ah, se o título tivesse vindo neste ano!
O fato é que não veio. E Barrichello deve ser lembrado não por seus feitos, mas por seus tropeços. E pelo fato de ter sido uma promessa fracassada. A propósito, afora os poucos anos de carreira, Felipe Massa também não passa, até este momento, de uma promessa. Brilhante e promissora promessa, saliente-se, que por muito pouco não se tornou campeão em 2008. Porém, efetivamente, até este instante, levando-se em conta apenas o título de campeão, é somente uma promessa.

Em tempo: A Gaviões ostenta nos estádios uma bandeira gigante de Ayrton Senna, que se dizia "corinthiano, mas não fanático”. Seria legal, nem que fosse em um pequeno cartaz, em um jogo sem importância, ver a imagem de Rubinho erguida pela Fiel torcida. Se a falta de títulos é razão impeditiva para fazê-lo, de outro modo, o gesto seria justificado pelas vezes em que Barrichello mostrou-se em público, orgulhoso, vestindo o manto sagrado do Timão.
17/10/2009
Homofobia em campos brasileiros
Há pouco tempo foram noticiadas duas declarações bastante representativas da homofobia arraigada na sociedade brasileira, cujas reações, de tão banalizado esse preconceito, foram quase inaudíveis. A primeira foi dada pelo treinador do Goiás, Hélio dos Anjos, que disse em tom de sábia autoridade: "Não trabalho com homossexuais". Talvez sim. Talvez não. Quem sabe... E daí? A segunda declaração veio do governador peemedebista do Mato Grosso do Sul, André Puccinelli, referindo-se ao Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, mais ou menos assim: "O Ministro é um veado e se vier ao estado, eu o estuprarei em praça pública". Bem, pelo desejo manifestado, poderia-se até questionar suposta homofobia na frase, em si violenta, chula e, diria, "homoerótica"... Tanto que o próprio Minc ironizou, sugerindo ao governador que saísse do armário.
Em suma, a homofobia parece ser o atual bastião-mor das expressões preconceituosas e discriminatórias no Brasil. Não que mulheres, negros e tantos outros grupos ou condições tenham deixado de sofrer da praga discriminatória. Mas, hoje, pode-se vislumbrar a conquista de uma posição em que as reações ao machismo ou ao racismo explícitos, por exemplo, são geralmente imediatas e rigorosas. Tomando o futebol como exemplo, mulheres bandeirinhas ou árbitras tornou-se corriqueiro, e pobre daquele jogador que sugestionar racismo contra um outro jogador (Desábato e Antonio Carlos que o digam!). Porém, ai do torcedor que, ao contrário do coro da massa, protestar contra gritos de "bicha, bicha" dados a Richarlysson, do São Paulo, como fez a torcida do Flamengo no Maracanã, também há poucos dias. A propósito, leia o ótimo artigo de Leandro Fortes, intitulado "Os Novos Negros" e publicado em Carta Capital. O link está abaixo:
http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=5263
Em suma, a homofobia parece ser o atual bastião-mor das expressões preconceituosas e discriminatórias no Brasil. Não que mulheres, negros e tantos outros grupos ou condições tenham deixado de sofrer da praga discriminatória. Mas, hoje, pode-se vislumbrar a conquista de uma posição em que as reações ao machismo ou ao racismo explícitos, por exemplo, são geralmente imediatas e rigorosas. Tomando o futebol como exemplo, mulheres bandeirinhas ou árbitras tornou-se corriqueiro, e pobre daquele jogador que sugestionar racismo contra um outro jogador (Desábato e Antonio Carlos que o digam!). Porém, ai do torcedor que, ao contrário do coro da massa, protestar contra gritos de "bicha, bicha" dados a Richarlysson, do São Paulo, como fez a torcida do Flamengo no Maracanã, também há poucos dias. A propósito, leia o ótimo artigo de Leandro Fortes, intitulado "Os Novos Negros" e publicado em Carta Capital. O link está abaixo:
http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=5263
03/10/2009
Viva o Rio! Viva o Brasil!
Estou feliz. O Rio de Janeiro foi escolhido como sede das Olimpíadas de 2016.
Estou feliz pelo Rio e pelo Brasil.
Pelo Rio porque, apesar de ser paulista, não cultivo o bairrismo bobo em relação à cidade maravilhosa. Muito pelo contrário: penso que São Paulo e Rio complementam-se como o centro da nossa cultura, além de serem uma síntese brasileira, ancoradouro dos nordestinos, dos sulistas, dos nortistas, dos caipiras (como eu), além de povos de todos os cantos do mundo.
Fico feliz pelo Brasil porque corrobora a ótima fase do país no mundo. O Brasil parece ter “subido de divisão”, participando do cenário internacional – político, econômico e cultural – cada vez mais como protagonista, e não mais como coadjuvante, ou pior, como figurante.
Estou feliz pelo Rio e pelo Brasil.
Pelo Rio porque, apesar de ser paulista, não cultivo o bairrismo bobo em relação à cidade maravilhosa. Muito pelo contrário: penso que São Paulo e Rio complementam-se como o centro da nossa cultura, além de serem uma síntese brasileira, ancoradouro dos nordestinos, dos sulistas, dos nortistas, dos caipiras (como eu), além de povos de todos os cantos do mundo.
Fico feliz pelo Brasil porque corrobora a ótima fase do país no mundo. O Brasil parece ter “subido de divisão”, participando do cenário internacional – político, econômico e cultural – cada vez mais como protagonista, e não mais como coadjuvante, ou pior, como figurante.
12/09/2009
PITACOS DA SEMANA
Contratos e esportividade na F1
Rubens Barrichello criticou Nelsinho Piquet por ter premeditado acidente no GP de Cingapura de 2008. Do ponto de vista da esportividade, da ética do esporte, de valorizar a vitória do competidor por seus méritos, não por artifícios desleais, a crítica é mais que justa. Nelsinho, pelas notícias veiculadas na imprensa, teria alegado que sua atitude deveu-se a condição imposta pela equipe Renault para renovação de seu contrato. Aliás, o conflito entre bom comportamento desportivo e seguimento cego às determinações da equipe, inclusive ilegais ou antiéticas, para manutenção de contrato não parece novo na Fórmula 1. Além do caso de Nelsinho, lembro-me do GP da Áustria em 2002, quando Rubinho acionou o freio de sua Ferrari a poucos metros da linha de chegada para que o companheiro de equipe, Michael Schumacher, vencesse a prova. Também o fez a mando da equipe, também preocupado com a manutenção de seu contrato com a escuderia italiana. É claro que os episódios não são iguais, que jogos de equipe existem há muito tempo, que a atitude de Rubinho/Ferrari não chega à trapaça configurada no caso Nelsinho/Renault. Mas, com suas distinções de grau, entram na lista de eventos antiesportivos guindados pela força excessiva dos vínculos contratuais. Criticáveis, ambos, com a devida diferença de rigor.
Ainda, a lei antifumo e a liberdade individual
Ainda escuto críticas à lei antifumo baseadas na tese da afronta à liberdade individual do fumante. Os críticos não entenderam – ou não querem entender – que a restrição ao fumo em locais públicos fechados não objetiva restringir o fumante, mas, sim, proteger o não fumante ou o fumante passivo. Dessa forma, defendendo radicalmente a liberdade individual, é possível ser fervorosamente favorável à liberdade extrema de o sujeito suicidar-se, o que, aliás, faz o fumante. O que não se pode admitir é que, sob a bandeira da liberdade individual, o fumante, em vez de suicídio, cometa homicídio.
Medo das ditaduras
Um novo espectro ronda o Brasil – o espectro da ditadura. Pelo menos essa é uma denúncia muito em voga feita por pessoas temerosas por perderem sua liberdade em face de iminentes sinais de cerceamento arbitrário do Estado, dos governos, enfim, DELES!!! (deles???) à liberdade individual. Para ficar no exemplo acima, o Estado cerceia a liberdade individual de jogar fumaça de cigarro na cara do sujeito ao lado – este, também, um agente à paisana da tirania estatal. Outros exemplos: também não se pode mais sonegar tão facilmente os impostos (ainda bem que acabaram com a CPMF!) depois que inventaram a nota fiscal paulista; o indivíduo também viu seu sacrossanto direito de se embebedar e sair por aí atropelando os outros depois que promulgaram a lei seca; maracutaias não podem mais ser combinadas pelo telefone depois que a intrusiva Polícia Federal começou com a moda de escutas telefônicas em operações investigativas de nome esquisito. E, a reboque das mudanças constitucionais América do Sul afora, dando mais poder e direito de reeleições sucessivas – Venezuela, Colômbia e Equador que o digam – , é certo que o mesmo ocorrerá no Brasil: será aprovada a re-reeleição do presidente, o povão, tornado irracional pelo bolsa-família, re-reelegerá Lula. Este, então, imune às denúncias de corrupção (presidente-teflon), abastado de votos e altos índices de aprovação, por fim, invadirá os meios de comunicação críticos a sua gestão, assim como fizera Collor, Chavez e, recentemente, Cristina Kirchner. Eis o medo retomando sua primazia sobre a esperança.
A propósito da fobia às supostas ditaduras emergentes, são simplesmente maravilhosas as tiras do genial Laerte, publicadas na Folha de S.Paulo nos últimos dias. A sátira, aliás, é uma excelente resposta às críticas histéricas sobre pseudo-ditaduras e, até mesmo, revelações ridículas de certo ressurgimento nazista. Vale a pena uma espiada nos quadrinhos abaixo.


Rubens Barrichello criticou Nelsinho Piquet por ter premeditado acidente no GP de Cingapura de 2008. Do ponto de vista da esportividade, da ética do esporte, de valorizar a vitória do competidor por seus méritos, não por artifícios desleais, a crítica é mais que justa. Nelsinho, pelas notícias veiculadas na imprensa, teria alegado que sua atitude deveu-se a condição imposta pela equipe Renault para renovação de seu contrato. Aliás, o conflito entre bom comportamento desportivo e seguimento cego às determinações da equipe, inclusive ilegais ou antiéticas, para manutenção de contrato não parece novo na Fórmula 1. Além do caso de Nelsinho, lembro-me do GP da Áustria em 2002, quando Rubinho acionou o freio de sua Ferrari a poucos metros da linha de chegada para que o companheiro de equipe, Michael Schumacher, vencesse a prova. Também o fez a mando da equipe, também preocupado com a manutenção de seu contrato com a escuderia italiana. É claro que os episódios não são iguais, que jogos de equipe existem há muito tempo, que a atitude de Rubinho/Ferrari não chega à trapaça configurada no caso Nelsinho/Renault. Mas, com suas distinções de grau, entram na lista de eventos antiesportivos guindados pela força excessiva dos vínculos contratuais. Criticáveis, ambos, com a devida diferença de rigor.
Ainda, a lei antifumo e a liberdade individual
Ainda escuto críticas à lei antifumo baseadas na tese da afronta à liberdade individual do fumante. Os críticos não entenderam – ou não querem entender – que a restrição ao fumo em locais públicos fechados não objetiva restringir o fumante, mas, sim, proteger o não fumante ou o fumante passivo. Dessa forma, defendendo radicalmente a liberdade individual, é possível ser fervorosamente favorável à liberdade extrema de o sujeito suicidar-se, o que, aliás, faz o fumante. O que não se pode admitir é que, sob a bandeira da liberdade individual, o fumante, em vez de suicídio, cometa homicídio.
Medo das ditaduras
Um novo espectro ronda o Brasil – o espectro da ditadura. Pelo menos essa é uma denúncia muito em voga feita por pessoas temerosas por perderem sua liberdade em face de iminentes sinais de cerceamento arbitrário do Estado, dos governos, enfim, DELES!!! (deles???) à liberdade individual. Para ficar no exemplo acima, o Estado cerceia a liberdade individual de jogar fumaça de cigarro na cara do sujeito ao lado – este, também, um agente à paisana da tirania estatal. Outros exemplos: também não se pode mais sonegar tão facilmente os impostos (ainda bem que acabaram com a CPMF!) depois que inventaram a nota fiscal paulista; o indivíduo também viu seu sacrossanto direito de se embebedar e sair por aí atropelando os outros depois que promulgaram a lei seca; maracutaias não podem mais ser combinadas pelo telefone depois que a intrusiva Polícia Federal começou com a moda de escutas telefônicas em operações investigativas de nome esquisito. E, a reboque das mudanças constitucionais América do Sul afora, dando mais poder e direito de reeleições sucessivas – Venezuela, Colômbia e Equador que o digam – , é certo que o mesmo ocorrerá no Brasil: será aprovada a re-reeleição do presidente, o povão, tornado irracional pelo bolsa-família, re-reelegerá Lula. Este, então, imune às denúncias de corrupção (presidente-teflon), abastado de votos e altos índices de aprovação, por fim, invadirá os meios de comunicação críticos a sua gestão, assim como fizera Collor, Chavez e, recentemente, Cristina Kirchner. Eis o medo retomando sua primazia sobre a esperança.
A propósito da fobia às supostas ditaduras emergentes, são simplesmente maravilhosas as tiras do genial Laerte, publicadas na Folha de S.Paulo nos últimos dias. A sátira, aliás, é uma excelente resposta às críticas histéricas sobre pseudo-ditaduras e, até mesmo, revelações ridículas de certo ressurgimento nazista. Vale a pena uma espiada nos quadrinhos abaixo.


04/09/2009
ELUCUBRAÇÕES LUDOPÉDICAS
Futebol é Cultura
Não dá para falar de futebol sem, vez por outra, mencionar um dos maiores cronistas do esporte: Nelson Rodrigues. Neste instante ocorrem-me duas frases antológicas do mestre, tricolor doente (estivesse vivo, estaria mais doente do que nunca com a bolinha do seu Fluminense no Brasileirão): “qualquer pelada de ponta de esquina tem a complexidade de uma tragédia shakespeareana” e “o pior cego é o que só vê a bola”. Mas tem gente que a ainda reduz o futebol a mero instrumento de alienação das massas, “ópio do povo”. Achando-se reis em terra de cegos, não percebem a própria dificuldade de enxergar. Oh, auto-ilusão vanguardista!
As frases de Nelson vêm a calhar como epígrafes para um artigo sobre um fato inusitado, especialmente para nós, brasileiros, ocorrido há poucos dias em terras britânicas. O jogador "brasileiro", naturalizado croata, Eduardo da Silva, do Arsenal, cavou e converteu um pênalti em partida disputada contra o Celtic da Escócia. Ao constatarem a simulação do jogador, Eduardo foi alvo de apupos e vaias dos torcedores rivais e, pasmem, dos torcedores de seu próprio time. Após o jogo, a execração de Eduardo generalizou-se, ganhado repercussão na mídia. Em suma, Eduardo da Silva, que motivou comoção pública por uma longa e sofrida jornada de volta aos campos, após grave lesão, perdeu toda a simpatia angariada com tal luta por conta de uma atitude para nós, brasileiros, comum, banal e, para grande parte, desejável, se em benefício do seu time.
Outro caso interessante, também no Velho Continente, aconteceu no começo deste ano. Em partida pelo campeonato romeno, o árbitro assinalou pênalti no atacante do Rapid Bucareste, Costin Lazar, em partida contra o Otetul Galati. Para surpresa de todos, Lazar recusou-se a bater o pênalti, alegando não tê-lo sofrido. Diante da sinceridade supreendente do jogador, o árbitro, premiando o famoso fair play, fez prosseguir o jogo com bola ao chão. Detalhe: o Rapid, àquela altura, vencia o adversário por 3 x 0. Mas não é por isso que a atitude de Costin Lazar deixa de ser elogiável. E, realmente, mereceu aplausos na mídia mundo afora, e na Europa em especial.
Em contraste, também neste ano, agora em campos brasileiros, meu Corinthians enfrentou o Botafogo no Pacaembu. Nesta partida, o atacante botafoguense André Lima marcou um gol com a mão. O tento, escandalosamente irregular, foi validado pelo árbitro, para angústia da massa mosqueteira. (A propósito, não vêm ao caso os erros do juizão em prol do Corinthians). O fato é que, ao contrário das ocorrências européias, nenhuma vaia se ouviu contra André Lima, nem de uma torcida, nem de outra, ou mesmo críticas duras ao atacante foram registradas na imprensa esportiva. Toda a culpa recaiu nas costas da arbitragem, esta sim, massacrada pelos times, torcedores, repórteres, comentaristas.
Resumo da ópera: na Inglaterra, o brasileiro do Arsenal foi punido com suspensão por dois jogos; no Brasil, o árbitro Arilson Bispo da Anunciação foi suspenso pela CBF por tempo indeterminado, não apenas pelo gol de mão, mas pelo conjunto da obra de lambanças. Perguntas que não querem calar: alguém por lá cogitou punir o árbitro por cair na malandragem de Eduardo? Ou, por aqui, alguém cogitou punir o jogador botafoguense por meter a mão na bola? Não, pelo menos que eu saiba. E se houve, foi um grito no deserto.
Vejam a diferença dos casos, reveladora de importantes contrastes culturais, no entendimento deste reles apreciador do esporte bretão. Se bobear, dá até tese de antropologia; teses de botequim, então, nem se fala! Enquanto na Europa o jogador é punido, aqui, pune-se a arbitragem; enquanto lá, os jogadores são cobrados por seu comportamento em campo, em gramados brasileiros, a cobrança toda recai sobre a autoridade que tem a competência para (e o dever de) punir, mas não tem o direito de ser “mané", de ser ludibriado pela “malandragem” do atleta. Aliás, em terras européias malandragens como as praticadas por Eduardo da Silva e André Lima são punidas; aqui são premiadas. O erro de Eduardo da Silva, talvez, não tenha sido sua atitude, mas onde ela se deu.
Lanço minha hipótese. Da ênfase dada ao comportamento, digamos, ético dos jogadores na Europa, à rigidez punitiva da arbitragem no Brasil, pode-se aventar o seguinte, para além dos estádios de futebol: Europeus dão fundamental importância às atitudes dos indivíduos pelo fato destes serem concebidos como verdadeiros cidadãos, na plenitude de seus direitos e também de suas obrigações e responsabilidades; No Brasil, como a cidadania já é sobrepujada pelo fato de valer o princípio do “aos amigos tudo, aos inimigos a lei”, driblar as regras passa a ser uma atitude socialmente aceita, até como legítima defesa de quem tem poucos recursos para se impor na sociedade. Os problemas sociais lá, em primeiro lugar, são procurados nos indivíduos que compõem a sociedade; aqui, no Estado, que tem o dever de punir, de corrigir e de conduzir a sociedade. Em analogia futebolística, o jogador representa o indivíduo, foco da perspectiva européia, enquanto o árbitro representa o poder estatal, enfatizada na ótica brasileira.
Em suma, os casos citados, quando opostos, revelam diferenças culturais interessantíssimas. Alem de revelarem o quão rico é esse esporte em que tais características culturais ficam tão à mostra. Também revelam o que Nelson Rodrigues já enxergava há muito tempo: que há muito mais nesse jogo chamado futebol do que supõe nossa vã filosofia.
Não dá para falar de futebol sem, vez por outra, mencionar um dos maiores cronistas do esporte: Nelson Rodrigues. Neste instante ocorrem-me duas frases antológicas do mestre, tricolor doente (estivesse vivo, estaria mais doente do que nunca com a bolinha do seu Fluminense no Brasileirão): “qualquer pelada de ponta de esquina tem a complexidade de uma tragédia shakespeareana” e “o pior cego é o que só vê a bola”. Mas tem gente que a ainda reduz o futebol a mero instrumento de alienação das massas, “ópio do povo”. Achando-se reis em terra de cegos, não percebem a própria dificuldade de enxergar. Oh, auto-ilusão vanguardista!
As frases de Nelson vêm a calhar como epígrafes para um artigo sobre um fato inusitado, especialmente para nós, brasileiros, ocorrido há poucos dias em terras britânicas. O jogador "brasileiro", naturalizado croata, Eduardo da Silva, do Arsenal, cavou e converteu um pênalti em partida disputada contra o Celtic da Escócia. Ao constatarem a simulação do jogador, Eduardo foi alvo de apupos e vaias dos torcedores rivais e, pasmem, dos torcedores de seu próprio time. Após o jogo, a execração de Eduardo generalizou-se, ganhado repercussão na mídia. Em suma, Eduardo da Silva, que motivou comoção pública por uma longa e sofrida jornada de volta aos campos, após grave lesão, perdeu toda a simpatia angariada com tal luta por conta de uma atitude para nós, brasileiros, comum, banal e, para grande parte, desejável, se em benefício do seu time.
Outro caso interessante, também no Velho Continente, aconteceu no começo deste ano. Em partida pelo campeonato romeno, o árbitro assinalou pênalti no atacante do Rapid Bucareste, Costin Lazar, em partida contra o Otetul Galati. Para surpresa de todos, Lazar recusou-se a bater o pênalti, alegando não tê-lo sofrido. Diante da sinceridade supreendente do jogador, o árbitro, premiando o famoso fair play, fez prosseguir o jogo com bola ao chão. Detalhe: o Rapid, àquela altura, vencia o adversário por 3 x 0. Mas não é por isso que a atitude de Costin Lazar deixa de ser elogiável. E, realmente, mereceu aplausos na mídia mundo afora, e na Europa em especial.
Em contraste, também neste ano, agora em campos brasileiros, meu Corinthians enfrentou o Botafogo no Pacaembu. Nesta partida, o atacante botafoguense André Lima marcou um gol com a mão. O tento, escandalosamente irregular, foi validado pelo árbitro, para angústia da massa mosqueteira. (A propósito, não vêm ao caso os erros do juizão em prol do Corinthians). O fato é que, ao contrário das ocorrências européias, nenhuma vaia se ouviu contra André Lima, nem de uma torcida, nem de outra, ou mesmo críticas duras ao atacante foram registradas na imprensa esportiva. Toda a culpa recaiu nas costas da arbitragem, esta sim, massacrada pelos times, torcedores, repórteres, comentaristas.
Resumo da ópera: na Inglaterra, o brasileiro do Arsenal foi punido com suspensão por dois jogos; no Brasil, o árbitro Arilson Bispo da Anunciação foi suspenso pela CBF por tempo indeterminado, não apenas pelo gol de mão, mas pelo conjunto da obra de lambanças. Perguntas que não querem calar: alguém por lá cogitou punir o árbitro por cair na malandragem de Eduardo? Ou, por aqui, alguém cogitou punir o jogador botafoguense por meter a mão na bola? Não, pelo menos que eu saiba. E se houve, foi um grito no deserto.
Vejam a diferença dos casos, reveladora de importantes contrastes culturais, no entendimento deste reles apreciador do esporte bretão. Se bobear, dá até tese de antropologia; teses de botequim, então, nem se fala! Enquanto na Europa o jogador é punido, aqui, pune-se a arbitragem; enquanto lá, os jogadores são cobrados por seu comportamento em campo, em gramados brasileiros, a cobrança toda recai sobre a autoridade que tem a competência para (e o dever de) punir, mas não tem o direito de ser “mané", de ser ludibriado pela “malandragem” do atleta. Aliás, em terras européias malandragens como as praticadas por Eduardo da Silva e André Lima são punidas; aqui são premiadas. O erro de Eduardo da Silva, talvez, não tenha sido sua atitude, mas onde ela se deu.
Lanço minha hipótese. Da ênfase dada ao comportamento, digamos, ético dos jogadores na Europa, à rigidez punitiva da arbitragem no Brasil, pode-se aventar o seguinte, para além dos estádios de futebol: Europeus dão fundamental importância às atitudes dos indivíduos pelo fato destes serem concebidos como verdadeiros cidadãos, na plenitude de seus direitos e também de suas obrigações e responsabilidades; No Brasil, como a cidadania já é sobrepujada pelo fato de valer o princípio do “aos amigos tudo, aos inimigos a lei”, driblar as regras passa a ser uma atitude socialmente aceita, até como legítima defesa de quem tem poucos recursos para se impor na sociedade. Os problemas sociais lá, em primeiro lugar, são procurados nos indivíduos que compõem a sociedade; aqui, no Estado, que tem o dever de punir, de corrigir e de conduzir a sociedade. Em analogia futebolística, o jogador representa o indivíduo, foco da perspectiva européia, enquanto o árbitro representa o poder estatal, enfatizada na ótica brasileira.
Em suma, os casos citados, quando opostos, revelam diferenças culturais interessantíssimas. Alem de revelarem o quão rico é esse esporte em que tais características culturais ficam tão à mostra. Também revelam o que Nelson Rodrigues já enxergava há muito tempo: que há muito mais nesse jogo chamado futebol do que supõe nossa vã filosofia.
Obs: sobre esses e outros casos envolvendo o fair play, vale a pena dar uma olhada na reportagem veiculada no Globo Esporte de 08/09/09:
http://video.globo.com/Videos/Player/Esportes/0,,GIM1120103-7824-EDUARDO+DA+SILVA+E+PUNIDO+POR+CAVAR+PENALTI,00.html
Amor ao futuro
Ainda alicerçado em recordações mosqueteiras, lembrei-me de três ex-jogadores do Timão: Marcos Sena, Deco e Liedson. Com exceção deste, os outros dois não tiveram passagem brilhante pelo Parque São Jorge.
O que me chama a atenção quanto aos três, porém, é o seguinte: alem de ex-corinthianos, são ex-brasileiros. Sim, ex-brasileiros, já que se naturalizaram espanhol, no caso de Sena, e portugueses, no caso de Deco e Liedson. Assim o fizeram, provavelmente, para jogarem nas seleções espanhola e portuguesa, uma vez que não teriam chances de jogar no excrete canarinho e, quem sabe, disputar uma Copa do Mundo. Deco, aliás, disputou a de 2006. Marcos Sena, titular da Fúria, ganhou a última Eurocopa. Liedson, por fim, supre uma deficiência de artilheiros na seleção de Portugal.
A onda de naturalizações, que, diga-se de passagem, não é nova (há jogadores brasileiros por tudo o que é seleção mundo afora há muito tempo) remete, além da arqui-propalada condição do Brasil como principal país gerador de jogadores, a duas críticas popularmente constatáveis.
A primeira refere-se ao fim do amor à camisa. É comum ouvir do barbeiro, do jornaleiro da esquina, do padeiro, dos torcedores, enfim, frases do tipo: “antigamente jogador tinha amor à camisa, ao clube; hoje, só pensam em dinheiro, em fama”. A conclusão inescapável é de que ser torcedor virou atitude de trouxa, diante da quase total ausência de compromisso do jogador com a camisa que veste. Esta crítica não se restringe aos brasileiros, tornando-se regra no futebol dito moderno. Hoje, jogador é profissional, faz contrato, lapida sua imagem pública, em que pesem os nada raros escândalos contendo ingredientes de sexo, drogas, brigas etc. E futebol tornou-se razão, relegando-se a paixão aos torcedores, confirmando sua condição de trouxas. Logo, jogador que fica beijando camisa de clube, jogador-torcedor, envolvimento passional com o jogo seriam reminiscências de tempos finados ou expressões escancaradas de cinismo.
A segunda crítica popular diz respeito à quase inexistência de amor à pátria pelos brasileiros. “Americano, sim, ama seu país; japonês, sim, até vira kamikaze pelo seu país; brasileiro, qual o quê, não dá a mínima para o Brasil”. O que diriam esses porta-vozes do senso comum no caso dos jogadores naturalizados? Veriam neles amor às novas pátrias que os acolheram? Ou mais uma forma de esperteza à brasileira? Provavelmente, a segunda opção.
Um caso ainda mais radical foi a de outro jogador “brasileiro”: Amauri, da Juventus de Turim. Chegou a ser cogitada sua convocação por Dunga, o que desagradou a mãe do jogador, que viu na convocação um mero artifício para impedir que o filhinho fosse, num futuro breve, convocado pela seleção italiana. Que absurdo, não: alguém compreender uma possível convocação para a seleção brasileira como uma ofensa!!! Contudo, o titubear de Amauri entre as seleções de Brasil e Itália acabou por desagradar a gregos e troianos, ou melhor, a brasileiros e italianos. O garrudo jogador da Azzurra e do Milan, Gatuso, chegou a afirmar não ser Amauri necessário à Itália. E não é mesmo. Muito menos ao Brasil.
No entanto, a questão não é onde jogará Amauri, mas sim, caspita, Amauri, afinal de contas, é brasileiro ou italiano? Assim como Eduardo da Silva, Marcos Sena, Deco e Liedson são brasileiros, croatas, espanhóis, portugueses ou o quê?
Ser brasileiro ou de qualquer outra nacionalidade passou, aos brasileiros, digamos, natos, uma mera formalidade para um fim último supostamente mais importante: o futuro. Concretizar uma carreira de sucesso é mais importante para o indivíduo do que pertencer ou dizer-se pertencente a este ou àquele grupo, país, nação, cultura. Da mesma forma que se tornou normal a alguém casar-se “só no papel” para obter uma cidadania estrangeira e, com isso, a perspectiva de um futuro melhor.
Parafraseando propaganda divulgada há certo tempo, “brasileiro não desiste nunca”. Sim, e isto é louvável. O paradoxo é: não desiste nunca, mesmo que para realizar seu sonho, deixe de ser brasileiro.
Amor ao futuro
Ainda alicerçado em recordações mosqueteiras, lembrei-me de três ex-jogadores do Timão: Marcos Sena, Deco e Liedson. Com exceção deste, os outros dois não tiveram passagem brilhante pelo Parque São Jorge.
O que me chama a atenção quanto aos três, porém, é o seguinte: alem de ex-corinthianos, são ex-brasileiros. Sim, ex-brasileiros, já que se naturalizaram espanhol, no caso de Sena, e portugueses, no caso de Deco e Liedson. Assim o fizeram, provavelmente, para jogarem nas seleções espanhola e portuguesa, uma vez que não teriam chances de jogar no excrete canarinho e, quem sabe, disputar uma Copa do Mundo. Deco, aliás, disputou a de 2006. Marcos Sena, titular da Fúria, ganhou a última Eurocopa. Liedson, por fim, supre uma deficiência de artilheiros na seleção de Portugal.
A onda de naturalizações, que, diga-se de passagem, não é nova (há jogadores brasileiros por tudo o que é seleção mundo afora há muito tempo) remete, além da arqui-propalada condição do Brasil como principal país gerador de jogadores, a duas críticas popularmente constatáveis.
A primeira refere-se ao fim do amor à camisa. É comum ouvir do barbeiro, do jornaleiro da esquina, do padeiro, dos torcedores, enfim, frases do tipo: “antigamente jogador tinha amor à camisa, ao clube; hoje, só pensam em dinheiro, em fama”. A conclusão inescapável é de que ser torcedor virou atitude de trouxa, diante da quase total ausência de compromisso do jogador com a camisa que veste. Esta crítica não se restringe aos brasileiros, tornando-se regra no futebol dito moderno. Hoje, jogador é profissional, faz contrato, lapida sua imagem pública, em que pesem os nada raros escândalos contendo ingredientes de sexo, drogas, brigas etc. E futebol tornou-se razão, relegando-se a paixão aos torcedores, confirmando sua condição de trouxas. Logo, jogador que fica beijando camisa de clube, jogador-torcedor, envolvimento passional com o jogo seriam reminiscências de tempos finados ou expressões escancaradas de cinismo.
A segunda crítica popular diz respeito à quase inexistência de amor à pátria pelos brasileiros. “Americano, sim, ama seu país; japonês, sim, até vira kamikaze pelo seu país; brasileiro, qual o quê, não dá a mínima para o Brasil”. O que diriam esses porta-vozes do senso comum no caso dos jogadores naturalizados? Veriam neles amor às novas pátrias que os acolheram? Ou mais uma forma de esperteza à brasileira? Provavelmente, a segunda opção.
Um caso ainda mais radical foi a de outro jogador “brasileiro”: Amauri, da Juventus de Turim. Chegou a ser cogitada sua convocação por Dunga, o que desagradou a mãe do jogador, que viu na convocação um mero artifício para impedir que o filhinho fosse, num futuro breve, convocado pela seleção italiana. Que absurdo, não: alguém compreender uma possível convocação para a seleção brasileira como uma ofensa!!! Contudo, o titubear de Amauri entre as seleções de Brasil e Itália acabou por desagradar a gregos e troianos, ou melhor, a brasileiros e italianos. O garrudo jogador da Azzurra e do Milan, Gatuso, chegou a afirmar não ser Amauri necessário à Itália. E não é mesmo. Muito menos ao Brasil.
No entanto, a questão não é onde jogará Amauri, mas sim, caspita, Amauri, afinal de contas, é brasileiro ou italiano? Assim como Eduardo da Silva, Marcos Sena, Deco e Liedson são brasileiros, croatas, espanhóis, portugueses ou o quê?
Ser brasileiro ou de qualquer outra nacionalidade passou, aos brasileiros, digamos, natos, uma mera formalidade para um fim último supostamente mais importante: o futuro. Concretizar uma carreira de sucesso é mais importante para o indivíduo do que pertencer ou dizer-se pertencente a este ou àquele grupo, país, nação, cultura. Da mesma forma que se tornou normal a alguém casar-se “só no papel” para obter uma cidadania estrangeira e, com isso, a perspectiva de um futuro melhor.
Parafraseando propaganda divulgada há certo tempo, “brasileiro não desiste nunca”. Sim, e isto é louvável. O paradoxo é: não desiste nunca, mesmo que para realizar seu sonho, deixe de ser brasileiro.
22/08/2009
PITACOS DA SEMANA
Em Defesa da Lei Antifumo
Depois de São Paulo, outros Estados estão promulgando suas leis proibitivas ao fumo em locais fechados. A aprovação dos paulistas é maciça, inclusive entre os próprios fumantes: 71% destes aprovam a nova lei, segundo pesquisa do Datafolha.
Desprovida de quantidade, a minoria descontente aposta na estridência de seu descontentamento. Além da torcida para a lei “não pegar”, há os argumentos. Primeiro: a lei é inconstitucional. Opinião, aliás, da Advocacia Geral da União, em parecer emitido junto ao STF. Inconstitucional porque a competência para legislar sobre a matéria seria da União, não de Estados e Municípios. Segundo argumento: a lei fere a liberdade individual, por suposto, a do indivíduo fumante. Neste sentido, li, estupefato, artigo de um colunista de prestigioso jornal, defendendo não haver comprovação científica de relação causal entre fumo passivo e câncer. O que motivou o autor a comparar os defensores da lei a nazistas e, por conseguinte, os pobres fumantes a judeus no holocausto. Quanto exagero! Um terceiro argumento diz respeito ao incômodo: se a fumaça do cigarro incomoda os não fumantes, então, seriam necessárias outras proibições, como, por exemplo, a crianças chatas que ficam pulando e gritando entre as mesas de um restaurante.
Quanto ao primeiro argumento, confesso não conhecer os fundamentos jurídicos pró e contra a constitucionalidade/inconstitucionalidade da lei para formar um juízo a respeito. Quanto aos outros dois, digo o seguinte. Não nego minhas dúvidas em relação às verdades emanadas pelas autoridades científicas (se a verdade é relativa, também o é a verdade científica), mas continuo acreditando na quase totalidade dos cientistas que apontam os malefícios do tabagismo à saúde, inclusive o passivo, como também creio que Neil Armstrong pisou na lua em 1969, em que pesem as “evidências em contrário”. Sobre as crianças, quando for comprovado que suas brincadeiras causam câncer a quem está perto, serei favorável a lei que as confinem a creches especializadas, enquanto os adultos saboreiam seus deliciosos pratos em um requintado restaurante.
Depois de São Paulo, outros Estados estão promulgando suas leis proibitivas ao fumo em locais fechados. A aprovação dos paulistas é maciça, inclusive entre os próprios fumantes: 71% destes aprovam a nova lei, segundo pesquisa do Datafolha.
Desprovida de quantidade, a minoria descontente aposta na estridência de seu descontentamento. Além da torcida para a lei “não pegar”, há os argumentos. Primeiro: a lei é inconstitucional. Opinião, aliás, da Advocacia Geral da União, em parecer emitido junto ao STF. Inconstitucional porque a competência para legislar sobre a matéria seria da União, não de Estados e Municípios. Segundo argumento: a lei fere a liberdade individual, por suposto, a do indivíduo fumante. Neste sentido, li, estupefato, artigo de um colunista de prestigioso jornal, defendendo não haver comprovação científica de relação causal entre fumo passivo e câncer. O que motivou o autor a comparar os defensores da lei a nazistas e, por conseguinte, os pobres fumantes a judeus no holocausto. Quanto exagero! Um terceiro argumento diz respeito ao incômodo: se a fumaça do cigarro incomoda os não fumantes, então, seriam necessárias outras proibições, como, por exemplo, a crianças chatas que ficam pulando e gritando entre as mesas de um restaurante.
Quanto ao primeiro argumento, confesso não conhecer os fundamentos jurídicos pró e contra a constitucionalidade/inconstitucionalidade da lei para formar um juízo a respeito. Quanto aos outros dois, digo o seguinte. Não nego minhas dúvidas em relação às verdades emanadas pelas autoridades científicas (se a verdade é relativa, também o é a verdade científica), mas continuo acreditando na quase totalidade dos cientistas que apontam os malefícios do tabagismo à saúde, inclusive o passivo, como também creio que Neil Armstrong pisou na lua em 1969, em que pesem as “evidências em contrário”. Sobre as crianças, quando for comprovado que suas brincadeiras causam câncer a quem está perto, serei favorável a lei que as confinem a creches especializadas, enquanto os adultos saboreiam seus deliciosos pratos em um requintado restaurante.
http://www.al.sp.gov.br/repositorio/legislacao/lei/2009/lei%20n.13.541,%20de%2007.05.2009.htm>
A Lei Seca não pegou. Ou melhor, “deixou de pegar”
Por falar em leis, a lei seca, aquela que pune com mais severidade quem for pego dirigindo após ingestão de bebida alcoólica, depois de um começo promissor, parece que “deixou de pegar”. Uma pena. E uma lição: não basta a promulgação da lei; é preciso que se lhe faça cumprir. Sempre.
Lei Seca<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2008/Lei/L11705.htm>O Estado e as leis restritivas de conduta
Tanto a lei antifumo como a lei seca, em vez de intervenção arbitrária do Estado à liberdade dos indivíduos (como somos liberais, não!), são absolutamente legítimas por constituírem proteção de parcela desprotegida da sociedade; no caso, os não fumantes e aqueles transeuntes e motoristas que podem ser vitimados por um veículo conduzido por pessoa sem condições momentâneas para isso. Afinal, não é papel do Estado, como expressão jurídico-política da sociedade, produzir e executar normas necessárias à convivência pacífica dos indivíduos? Em outras palavras, se a liberdade de uns limita-se à liberdade dos outros, quem o garante na prática, legitimamente, senão o Estado? No entanto, para fazê-lo, não basta promulgar as leis; é preciso fiscalizar e obrigar sua execução diuturnamente, e não apenas em um primeiro momento. Os bafômetros já não são suficientes para o cumprimento da lei seca. O que acontecerá com a lei antifumo? Mas, neste caso, a perspectiva é um tanto mais otimista, pois há um componente a mais: a fiscalização dos não fumantes.
A crise do Senado e a tradição política brasileira
A crise no Senado evidencia, para além dos atos secretos envolvendo Sarney, eternos males da política brasileira. O trio patrimonialismo/fisiologismo/clientelismo, apesar da defesa muito em voga entre cientistas políticos de que não mais norteiam o sistema político, ou melhor, a relação Executivo/Legislativo – se é que o fizeram alguma vez –, parece, sim, sólido e determinante. E, como isto é um blog e não uma tese ou paper escrito para revista acadêmica, e portanto, como não falo na qualidade de cientista social, mas de assumido especulador (é tão bom sair das amarras da ciência !), como não tenho que provar estatisticamente ou fundamentar teoricamente minhas assertivas, a mim soa claro que o trio supracitado é essencial para explicar a política brasileira em geral, e a crise do Senado em particular. Afinal, se todos faziam uso indevido das cotas de passagens aéreas, se há claras evidências de que Sarney e outros presidentes do Senado são responsáveis por atos secretos e nomeações irregulares, se até os tucanos Artur Virgílio e Sérgio Guerra foram pegos com a boca na botija, um ao pagar salários a funcionário ausente, outro a custear viagem da filha ao exterior com dinheiro público, logo concluo: há utilização de recursos públicos como se privados fossem (patrimonialismo); há distribuição de benesses a apadrinhados, cujo sentido final certamente é a perpetuação no poder via reeleições sucessivas (clientelismo); e, last but not least, há concessões de um lado para compensações futuras de outro, vulgo “toma lá, dá cá” (fisiologismo).
A Culpa é da Imprensa!
Lá pelos anos 1980, Jô Soares tinha um programa na Rede Globo chamado “Viva o Gordo”. Nele, havia um personagem cujo bordão era “a culpa é do governo”. De unha encravada a meleca de cachorro na calçada, tudo era “culpa do governo”. Chegados os anos 2000, o personagem do Jô bem podia dar as caras, mas com outro bordão: “a culpa é da imprensa”.
Juliana Paes sente-se deprimida com a pecha de “casta”, trocadilho usado por José Simão, colunista da Folha, brincando com o duplo sentido de moça pudica e da peculiar estratificação da sociedade indiana. A depressão de Juliana, porém, não se deve ao seu trabalho e à forma como se expõe publicamente, mas ao que saiu na imprensa.
Edir Macedo é denunciado pelo Ministério Público por conta de indícios envolvendo desvio de dinheiro da Igreja Universal do Reino de Deus – imune à tributação, nos termos da Constituição Federal – para a Rede Record, uma empresa que objetiva lucro e é tributável. O fato, no entender do bispo, não se deve aos indícios, e sim... à imprensa ! No caso, à Rede Globo, supostamente temerosa com a concorrência exercida pela Rede Record.
Hugo Chavez, presidente da Venezuela, jamais seria passível de críticas em sua democracia bolivariana não fosse a maldita imprensa. É claro, e ao imperialismo ianque. Assim, determina aos meios de comunicação o mesmo que lhe ordenara o rei de Espanha: que se calem!
Se Sarney é acusado de responsabilidade pelos atos secretos e por nomeações e benesses indevidas, concedidas por ser presidente do Senado, surge o presidente Lula a denunciar o denuncismo da mídia, com o perdão da redundância. O próprio Sarney também acusa a imprensa, além dos políticos que não se conformam com seu apoio ao Planalto. E, como se não bastasse, o Judiciário proíbe publicações do jornal O Estado de São Paulo, envolvendo o filho de Sarney. É claro, pois a culpa é da imprensa!
Fico aflito ao ouvir que “a opinião pública” acha isso ou acha aquilo, “a opinião pública” cobra isso ou cobra aquilo. Como se se confundissem opiniões veiculadas pela imprensa e pensamento da sociedade ou do povo sob a expressão generalizadora “opinião pública”. Ao contrário do tal deputado gaúcho, não me lixo para a “opinião pública”, mas é bom que se defina bem o que isso venha a ser. No caso do mensalão, por exemplo, enquanto se propalava aos quatro ventos que a opinião pública exigia a responsabilização de Lula (em bom “juridiquês” constitucional: impeachment), o presidente nadava, e ainda nada, em estratosférica popularidade. Opinião pública, aqui, é igual a opinião da sociedade?
Não penso tampouco que a imprensa seja inocente, pautada a todo momento na crueza dos fatos ou isenta de interesses próprios. Os mensalões de uns recebem destaque imensamente maior que os mensalões de outros. Idem aos atos secretos de parlamentares destes ou daqueles partidos. A poderosa Rede Globo que o diga. Para citar alguns exemplos: enquanto milhares de pessoas começavam a ir às ruas para exigir o voto direto para presidente, a Globo noticiava o fato como se fosse uma pequena manifestação de meia dúzia de gatos pingados reivindicando algum benefício qualquer; em 1989, o exemplo clássico da cobertura enviesada do último debate entre Lula e Collor no Jornal Nacional; para não ficar só na política, quando houve o primeiro torneio mundial de clubes da Fifa, em 2000, em que a Rede Bandeirantes comprou a transmissão exclusiva dos jogos, o Globo Esporte dava notinhas rápidas, se tanto, como se fosse um campeonatinho de várzea. Esta, corintiano não esquece! E hoje, tempos idos, a mesma Globo expõe em alto e bom som, e imagens em HD, o quão importante foram as Diretas Já, a força dos cara-pintadas gritando “Fora Collor” e que o Corinthians é um dos times brasileiros campeões do mundo.
Ponderações feitas, a questão é que essa estória de todas as acusações, escândalos e difamações serem “culpa da imprensa” está virando, na melhor das hipóteses, falta de criatividade de quem não assume minimamente os próprios atos. Ou, simplesmente, de quem só quer aparecer se estiver bem na foto.
A Lei Seca não pegou. Ou melhor, “deixou de pegar”
Por falar em leis, a lei seca, aquela que pune com mais severidade quem for pego dirigindo após ingestão de bebida alcoólica, depois de um começo promissor, parece que “deixou de pegar”. Uma pena. E uma lição: não basta a promulgação da lei; é preciso que se lhe faça cumprir. Sempre.
Lei Seca<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2008/Lei/L11705.htm>O Estado e as leis restritivas de conduta
Tanto a lei antifumo como a lei seca, em vez de intervenção arbitrária do Estado à liberdade dos indivíduos (como somos liberais, não!), são absolutamente legítimas por constituírem proteção de parcela desprotegida da sociedade; no caso, os não fumantes e aqueles transeuntes e motoristas que podem ser vitimados por um veículo conduzido por pessoa sem condições momentâneas para isso. Afinal, não é papel do Estado, como expressão jurídico-política da sociedade, produzir e executar normas necessárias à convivência pacífica dos indivíduos? Em outras palavras, se a liberdade de uns limita-se à liberdade dos outros, quem o garante na prática, legitimamente, senão o Estado? No entanto, para fazê-lo, não basta promulgar as leis; é preciso fiscalizar e obrigar sua execução diuturnamente, e não apenas em um primeiro momento. Os bafômetros já não são suficientes para o cumprimento da lei seca. O que acontecerá com a lei antifumo? Mas, neste caso, a perspectiva é um tanto mais otimista, pois há um componente a mais: a fiscalização dos não fumantes.
A crise do Senado e a tradição política brasileira
A crise no Senado evidencia, para além dos atos secretos envolvendo Sarney, eternos males da política brasileira. O trio patrimonialismo/fisiologismo/clientelismo, apesar da defesa muito em voga entre cientistas políticos de que não mais norteiam o sistema político, ou melhor, a relação Executivo/Legislativo – se é que o fizeram alguma vez –, parece, sim, sólido e determinante. E, como isto é um blog e não uma tese ou paper escrito para revista acadêmica, e portanto, como não falo na qualidade de cientista social, mas de assumido especulador (é tão bom sair das amarras da ciência !), como não tenho que provar estatisticamente ou fundamentar teoricamente minhas assertivas, a mim soa claro que o trio supracitado é essencial para explicar a política brasileira em geral, e a crise do Senado em particular. Afinal, se todos faziam uso indevido das cotas de passagens aéreas, se há claras evidências de que Sarney e outros presidentes do Senado são responsáveis por atos secretos e nomeações irregulares, se até os tucanos Artur Virgílio e Sérgio Guerra foram pegos com a boca na botija, um ao pagar salários a funcionário ausente, outro a custear viagem da filha ao exterior com dinheiro público, logo concluo: há utilização de recursos públicos como se privados fossem (patrimonialismo); há distribuição de benesses a apadrinhados, cujo sentido final certamente é a perpetuação no poder via reeleições sucessivas (clientelismo); e, last but not least, há concessões de um lado para compensações futuras de outro, vulgo “toma lá, dá cá” (fisiologismo).
A Culpa é da Imprensa!
Lá pelos anos 1980, Jô Soares tinha um programa na Rede Globo chamado “Viva o Gordo”. Nele, havia um personagem cujo bordão era “a culpa é do governo”. De unha encravada a meleca de cachorro na calçada, tudo era “culpa do governo”. Chegados os anos 2000, o personagem do Jô bem podia dar as caras, mas com outro bordão: “a culpa é da imprensa”.
Juliana Paes sente-se deprimida com a pecha de “casta”, trocadilho usado por José Simão, colunista da Folha, brincando com o duplo sentido de moça pudica e da peculiar estratificação da sociedade indiana. A depressão de Juliana, porém, não se deve ao seu trabalho e à forma como se expõe publicamente, mas ao que saiu na imprensa.
Edir Macedo é denunciado pelo Ministério Público por conta de indícios envolvendo desvio de dinheiro da Igreja Universal do Reino de Deus – imune à tributação, nos termos da Constituição Federal – para a Rede Record, uma empresa que objetiva lucro e é tributável. O fato, no entender do bispo, não se deve aos indícios, e sim... à imprensa ! No caso, à Rede Globo, supostamente temerosa com a concorrência exercida pela Rede Record.
Hugo Chavez, presidente da Venezuela, jamais seria passível de críticas em sua democracia bolivariana não fosse a maldita imprensa. É claro, e ao imperialismo ianque. Assim, determina aos meios de comunicação o mesmo que lhe ordenara o rei de Espanha: que se calem!
Se Sarney é acusado de responsabilidade pelos atos secretos e por nomeações e benesses indevidas, concedidas por ser presidente do Senado, surge o presidente Lula a denunciar o denuncismo da mídia, com o perdão da redundância. O próprio Sarney também acusa a imprensa, além dos políticos que não se conformam com seu apoio ao Planalto. E, como se não bastasse, o Judiciário proíbe publicações do jornal O Estado de São Paulo, envolvendo o filho de Sarney. É claro, pois a culpa é da imprensa!
Fico aflito ao ouvir que “a opinião pública” acha isso ou acha aquilo, “a opinião pública” cobra isso ou cobra aquilo. Como se se confundissem opiniões veiculadas pela imprensa e pensamento da sociedade ou do povo sob a expressão generalizadora “opinião pública”. Ao contrário do tal deputado gaúcho, não me lixo para a “opinião pública”, mas é bom que se defina bem o que isso venha a ser. No caso do mensalão, por exemplo, enquanto se propalava aos quatro ventos que a opinião pública exigia a responsabilização de Lula (em bom “juridiquês” constitucional: impeachment), o presidente nadava, e ainda nada, em estratosférica popularidade. Opinião pública, aqui, é igual a opinião da sociedade?
Não penso tampouco que a imprensa seja inocente, pautada a todo momento na crueza dos fatos ou isenta de interesses próprios. Os mensalões de uns recebem destaque imensamente maior que os mensalões de outros. Idem aos atos secretos de parlamentares destes ou daqueles partidos. A poderosa Rede Globo que o diga. Para citar alguns exemplos: enquanto milhares de pessoas começavam a ir às ruas para exigir o voto direto para presidente, a Globo noticiava o fato como se fosse uma pequena manifestação de meia dúzia de gatos pingados reivindicando algum benefício qualquer; em 1989, o exemplo clássico da cobertura enviesada do último debate entre Lula e Collor no Jornal Nacional; para não ficar só na política, quando houve o primeiro torneio mundial de clubes da Fifa, em 2000, em que a Rede Bandeirantes comprou a transmissão exclusiva dos jogos, o Globo Esporte dava notinhas rápidas, se tanto, como se fosse um campeonatinho de várzea. Esta, corintiano não esquece! E hoje, tempos idos, a mesma Globo expõe em alto e bom som, e imagens em HD, o quão importante foram as Diretas Já, a força dos cara-pintadas gritando “Fora Collor” e que o Corinthians é um dos times brasileiros campeões do mundo.
Ponderações feitas, a questão é que essa estória de todas as acusações, escândalos e difamações serem “culpa da imprensa” está virando, na melhor das hipóteses, falta de criatividade de quem não assume minimamente os próprios atos. Ou, simplesmente, de quem só quer aparecer se estiver bem na foto.
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